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Zhongshan gravou em bronze a planta do próprio cemitério
Em Pingshan, no norte da China, uma placa incrustada de ouro e prata guardava o projeto em escala do cemitério de um rei, com as medidas ao lado de cada traço.
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A placa de bronze do rei Cuo, achada em Pingshan
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A LINHA DO TEMPO
c. 507 a.C., os anais registram os xianyu em conflito com Jin → c. 414 a.C., o duque Wu instala o Estado de Zhongshan → 406 a.C., o general Yue Yang, de Wei, ocupa o território → c. 380 a.C., o rei Huan restaura o reino e fixa a capital em Lingshou → 323 a.C., Zhongshan adota o título de rei junto com quatro Estados vizinhos → 314 a.C., tropas de Zhongshan avançam sobre Yan em desordem interna → c. 308 a.C., o rei Cuo é sepultado em Pingshan com a placa de bronze do cemitério → 296 a.C., o rei Wuling de Zhao encerra Zhongshan → 1974, a escavação abre as câmaras laterais intactas.
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No terraço de Pingshan, no sopé das montanhas Taihang, uma placa de bronze de mais de trinta quilos saiu de uma câmara lacrada.
Nela, em ouro e prata, o desenho do cemitério que o rei mandou construir.
A 230 quilômetros a sudoeste de Pequim, o rio Hutuo escapa do desfiladeiro das montanhas Taihang e desemboca numa planície de solo escuro. Do terraço onde hoje fica o distrito de Pingshan, na província de Hebei, quem olhasse para leste no século IV antes da nossa era veria campo aberto até o horizonte, e para oeste a serra que fecha a passagem para o planalto. Entre as duas paisagens funcionava um Estado que os anais da época tratavam como corpo estranho no mapa chinês.
Em novembro de 1974, uma equipe do instituto provincial de patrimônio de Hebei começou a escavar dois montes de terra batida nesse terraço. Camponeses reviravam o campo havia anos e vinham à tona tijolos e fragmentos de bronze grandes demais para sepultura comum. Sob o monte maior estava a câmara funerária de um rei chamado Cuo.
Ladrões antigos tinham entrado na câmara central e levado a maior parte do metal. As duas câmaras laterais, construídas separadas e cobertas por outro nível de terra, continuaram lacradas por mais de dois mil anos. Delas saíram lâmpadas de bronze em forma de árvore com quinze braços, animais alados com o corpo coberto de prata embutida, vasos rituais com inscrições longas e, no meio do lote, uma placa retangular de bronze de cerca de 94 por 48 centímetros e mais de trinta quilos.
A superfície da placa não trazia ornamento. Trazia linhas. Retângulos concêntricos, corredores, muros duplos, cinco construções alinhadas lado a lado, tudo desenhado em fita de ouro e de prata embutida no metal, com a medida escrita ao lado de cada traço, em unidades da própria corte. É a planta do cemitério real de Zhongshan, desenhada antes da obra existir, e o projeto arquitetônico em escala mais antigo já achado na China.
Um detalhe muda a natureza da peça. Junto ao desenho vai gravada uma ordem do rei, que manda executar a obra conforme o traçado, prevê punição para quem desviar e informa que foram feitas duas cópias: uma guardada no arquivo do palácio, outra enterrada com ele.
Vale reconstruir de onde vinha esse reino que os vizinhos chamavam de bárbaro, entender o que a placa manda fazer e por que ela desce para dentro da terra, e ver onde checar cada afirmação.
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I O Estrato
Um Estado de pastores no meio dos reinos de muralha
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Zhongshan não descende da linhagem Zhou. A origem apontada pelas crônicas está nos xianyu, um dos grupos que os textos chineses reúnem sob o rótulo de Di branca, população do norte que aparece nos anais primeiro como adversária militar de Jin, no fim do século VI antes da nossa era, e depois como poder territorial instalado na mesma faixa de planície.
O nome vem de uma montanha dentro da cidade murada, e é assim que os registros chamam o Estado a partir do século V. Por volta de 414 antes da nossa era, um governante que os textos chamam de duque Wu organiza o território como Estado à maneira dos vizinhos, com corte, aparato ritual e exército permanente.
A independência dura pouco. Em 406, o general Yue Yang, a serviço do Estado de Wei, ocupa o território depois de uma campanha de três anos, e Zhongshan some das crônicas por cerca de duas décadas. Por volta de 380, o rei Huan reconquista o país e fixa a capital em Lingshou, exatamente na área de Pingshan onde o túmulo apareceu.
A cidade escavada tem muralha de terra socada, oficinas de bronze e de cerâmica, fundições e um traçado interno que segue o padrão dos Estados centrais. A cultura material mistura repertório Zhou com objetos de perfil estepário, e a aristocracia local se enterra com carros, cavalos e conjuntos rituais completos.
Um povo que os textos dos vizinhos descrevem como estrangeiro produz, na mesma geração, alguns dos bronzes tecnicamente mais complexos de toda a China antiga, com incrustação de ouro e prata que nenhuma oficina de Estado central igualava.
Em 323 antes da nossa era, Zhongshan adota o título de rei em acordo com quatro Estados vizinhos, gesto que equipara o soberano local aos grandes da planície. O rei Cuo governa nas décadas seguintes, e o momento alto do reinado vem em 314, quando o Estado de Yan mergulha numa crise sucessória e Zhongshan avança sobre o território do norte junto com tropas de Qi, tomando cidades e voltando com despojo.
A campanha está documentada pelo próprio vencedor. Três vasos rituais do túmulo carregam inscrições que somam mais de mil caracteres, e o maior deles, um caldeirão de bronze com pés de ferro, traz 469 caracteres, a inscrição em bronze mais longa conhecida do período dos Reinos Combatentes. O texto narra a expedição contra Yan, elogia o chanceler Sima Zhou e adverte os herdeiros sobre o risco de imitar a desordem do vizinho derrotado.
O aviso não segurou o desfecho. Em 307, o rei Wuling de Zhao reforma o exército adotando calça, cavalaria e arco montado no modelo das populações do norte, e em 296 encerra o Estado de Zhongshan, absorvendo a planície inteira. O reino que os anais chamavam de bárbaro cai diante de um vizinho que venceu ao copiar táticas do norte.
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