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Xanthos queimou a própria cidade 2 vezes em 500 anos

Na Lícia, uma cidade cercada por Bruto repetiu o gesto que Heródoto registrou diante do general persa Harpago

Cidade lícia em chamas sobre o vale do rio Xanthos

Xanthos, Lícia, 42 antes de Cristo

▼

A LINHA DO TEMPO

c. 546 a.C., Ciro vence a Lídia → c. 540 a.C., Harpago chega ao vale e Xanthos arde → c. 430 a.C., Heródoto registra o caso → 44 a.C., César é apunhalado em Roma → 42 a.C., Bruto cerca Xanthos e a cidade arde de novo

A cerca de 12 quilômetros do Mediterrâneo, no sudoeste da atual Turquia, um morro de calcário se ergue sobre a margem esquerda do rio Xanthos. Do alto dele se via o vale inteiro: a planície verde que desce até o porto de Patara, os pomares e, ao fundo, a serra do Tauro fechando o norte.

No morro ficava Xanthos, a maior cidade da Lícia, uma região de montanha com língua e escrita próprias. Os túmulos dos nobres subiam em pilares de pedra de vários metros, para que os mortos ficassem acima dos vivos. Na língua lícia, a cidade se chamava Arñna; os gregos a batizaram com o nome do rio.

No inverno de 42 antes de Cristo, um exército romano acampou na planície. Vinha sob Marco Júnio Bruto, um dos senadores que tinham apunhalado Júlio César em Roma dois anos antes. Bruto juntava soldados e dinheiro nas províncias do leste para enfrentar os herdeiros de César, e a Lícia tinha recusado pagar.

Os xântios derrubaram as casas fora da muralha, para não dar abrigo ao inimigo, e cavaram um fosso largo diante dos portões. Durante semanas, os romanos encheram o fosso, levantaram torres de cerco e bateram nos muros.

Quando os legionários enfim entraram, a cidade já pegava fogo, e o fogo tinha sido aceso de dentro. Os moradores carregavam tochas para as próprias casas e se lançavam nas chamas. Bruto mandou os soldados apagar o incêndio e ofereceu recompensa por cada xântio salvo.

O general tinha um motivo para não entender a cena: os xântios não improvisavam. Repetiam um gesto que os avós dos avós deles já tinham feito na mesma colina, diante de um general persa chamado Harpago.

O Estrato volta ao primeiro incêndio, quinhentos anos antes de Bruto, e ao homem que o contou.

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I  O Estrato

Duas chegadas pelo mesmo vale

Por volta de 546 antes de Cristo, Ciro, o Grande, rei dos persas, derrotou Creso, rei da Lídia, e tomou a capital Sardes. Toda a costa oeste da Anatólia (a península da atual Turquia) ficou sem dono, e Ciro mandou um general recolher as cidades.

O general era Harpago, um nobre medo (do povo vizinho e aliado dos persas) que tinha ajudado Ciro a tomar o trono. Ele dobrou as cidades gregas da Jônia, depois a Cária, e desceu para o sul até o vale do Xanthos.

O relato de Heródoto

Quem conta o que aconteceu ali é Heródoto, o historiador grego nascido em Halicarnasso, a uns 200 quilômetros da Lícia, no livro I das Histórias, escrito por volta de 430 antes de Cristo.

Segundo ele, os xântios saíram para a planície e enfrentaram o exército de Harpago, poucos contra muitos. Empurrados de volta para a cidade, fizeram uma escolha: “reuniram na acrópole as mulheres, os filhos, os bens e os escravos, e puseram fogo em toda a acrópole”. A acrópole era a parte alta e murada da cidade.

Depois, os homens voltaram ao campo e lutaram até não sobrar nenhum. Heródoto acrescenta um detalhe que responde de onde veio a Xanthos do tempo dele: os moradores da sua época descendiam de forasteiros, exceto oitenta famílias que estavam fora da cidade no dia do cerco e escaparam.

A Xanthos que Bruto cercou foi refundada por oitenta famílias que estavam longe no dia do primeiro fogo.

O cerco de Bruto

Cinco séculos depois, a Lícia era uma liga de cidades aliada de Roma. Em 42 antes de Cristo, Bruto pediu dinheiro e tropas, e as cidades lícias se negaram.

Apiano de Alexandria, nas Guerras Civis, escritas no século II depois de Cristo, descreve o assalto: os romanos encheram o fosso, atacaram com aríetes (troncos de ponta reforçada para bater em portões) e entraram por uma porta forçada no fim da tarde.

Os xântios recuaram para o centro, e a luta seguiu pela noite. Quando o vento espalhou as chamas das torres de cerco, os moradores atiçaram o incêndio em vez de combater o fogo.

Plutarco, nas Vidas Paralelas, escritas por volta de 100 depois de Cristo, conta que Bruto cavalgou em volta da muralha, chorando, e pediu aos soldados que salvassem quem pudessem. Ao fim, segundo o mesmo Plutarco, os romanos salvaram cerca de 150 pessoas, quase todas contra a vontade delas.

 

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II  O Padrão

A memória como roteiro

Plutarco viu a ligação entre os dois incêndios e a escreveu na Vida de Bruto: “Os xântios, depois de muitos séculos, como quem cumpre um destino, renovaram a ousadia dos antepassados, que na guerra contra os persas também queimaram a cidade”.

O padrão do caso é a memória funcionando como roteiro. Uma cidade cercada não decide do zero: escolhe entre as saídas que a própria história já ensaiou. Em Xanthos, a história mais famosa sobre a cidade era o fogo de Harpago, lido em Heródoto por todo grego instruído.

Uma história que a cidade contava

Os xântios de 42 antes de Cristo descendiam dos forasteiros e das oitenta famílias. Ainda assim, adotaram o fogo de 540 como origem. Depois de Alexandre, o Grande, a Lícia passou a falar e estudar grego, e gerações de xântios aprenderam o relato de Heródoto como capítulo da própria cidade.

A lealdade ao gesto tinha prova à vista. Os túmulos em pilar da acrópole, como o chamado Túmulo das Harpias, do século V antes de Cristo, lembravam diariamente os nobres antigos da cidade. Os vivos passavam todo dia sob os antepassados.

Quem cresce ouvindo uma história de resistência herda junto o desfecho dela.

O mesmo gesto em outras muralhas

Xanthos não foi caso único. Em 200 antes de Cristo, a cidade de Abidos, no estreito de Dardanelos, foi cercada por Filipe V da Macedônia. O historiador grego Políbio registrou, no livro XVI das Histórias, que os moradores juraram destruir a cidade e as famílias caso a muralha caísse, e cumpriram.

Em 133 antes de Cristo, Numância, cidade dos celtiberos (povo do centro da Península Ibérica), resistiu oito meses a Cipião Emiliano. Apiano conta que muitos moradores incendiaram as casas antes da rendição.

Nos três casos, a cidade escolheu apagar a si mesma para não virar troféu do vencedor. Em Xanthos, o gesto ganhou um peso a mais: havia um precedente escrito, assinado pelo historiador mais lido do mundo grego.

O espelho

Instituição que repete a própria lenda de fundação em toda crise toma decisões antes de examinar o caso presente. A história de origem protege a identidade e, na mesma medida, encurta o cardápio de saídas. Na Lícia, o roteiro cobrou duas vezes o preço inteiro: em 540 e em 42, a colina ficou vazia.

III  O Arquivo

As pedras levadas a Londres

Bruto não ficou com Xanthos. Seguiu para Patara, o porto do vale, que se rendeu sem luta, e cobrou da Lícia o tributo que queria. Meses depois, em outubro de 42 antes de Cristo, perdeu para Marco Antônio e Otaviano a batalha de Filipos, na Macedônia, e tirou a própria vida.

Xanthos se reergueu sob Roma. Ganhou teatro, arco e ruas com colunas, e seguiu habitada até a época bizantina, quando o vale foi pouco a pouco abandonado.

O viajante inglês

Em 1838, o arqueólogo amador inglês Charles Fellows achou as ruínas no morro sobre o rio. Entre 1842 e 1844, navios britânicos levaram a Londres dezenas de caixas de mármore da cidade, entre elas a fachada do Monumento das Nereidas, um túmulo em forma de templo do século IV antes de Cristo.

O monumento está montado no Museu Britânico, numa sala própria. Os relevos mostram soldados atacando uma cidade murada, a cena que Xanthos viveu duas vezes.

Fellows publicou os desenhos das ruínas em livros de viagem lidos em toda a Inglaterra. A retirada dos mármores teve licença do sultão otomano, dono do território na época, e as peças nunca voltaram ao vale.

A pedra de três línguas

No morro ficou o Pilar Inscrito, com o texto mais longo da língua lícia conhecido, ainda sem leitura completa. Em 1973, escavadores franceses acharam no santuário vizinho do Letoon uma estela de 337 antes de Cristo com o mesmo decreto em grego, lício e aramaico (a língua da administração persa).

A estela trilíngue virou a principal chave para ler o lício, como a Pedra de Roseta fez com os hieróglifos egípcios. Em 1988, a UNESCO inscreveu Xanthos e o Letoon na lista do patrimônio mundial.

O que não se sabe

Os arqueólogos não acharam, até hoje, um vestígio que se possa atribuir com segurança ao incêndio de Bruto. A cidade romana foi construída por cima, e os entulhos do fogo de 42 se misturam aos de outras reformas. Também não se sabe quantos xântios havia na cidade em 42: Plutarco e Apiano dão só os sobreviventes, nunca o total. O incêndio persa também segue conhecido sobretudo pelo texto de Heródoto.

As fontes para conferir são as Histórias de Heródoto, livro I, a Vida de Bruto, de Plutarco, e o livro IV das Guerras Civis, de Apiano.

A 12 quilômetros do mar, o morro calcário continua sobre o rio Xanthos, perto da aldeia de Kınık. Dos pilares de pedra que os xântios viram arder duas vezes, alguns seguem de pé, e o mais alto deles guarda uma língua que só a pedra do Letoon começou a traduzir.

 
 
Quiz da edição

Segundo Plutarco, quantas pessoas os soldados de Bruto conseguiram salvar do incêndio de Xanthos em 42 antes de Cristo, quase todas contra a própria vontade?

ACerca de 80
BCerca de 150
CCerca de 300
DNenhuma, todos morreram nas chamas

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