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ED 082

Vijayanagara vendia diamante a peso na rua

Vijayanagara, sul da Índia: em 1565, meio milhão de pessoas deixam a cidade mais rica do subcontinente depois de uma única derrota em campo aberto.

Vijayanagara vendia diamante a peso na rua

Pedra bruta e balança na capital do Tungabhadra

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A LINHA DO TEMPO

Em 1336, Harihara e Bukka fundam a capital no Tungabhadra → por volta de 1500, a cidade chega perto de meio milhão de habitantes → em 23 de janeiro de 1565, o exército perde em Talikota → em poucos meses, a capital é saqueada e nunca mais reocupada.

Em 1520, um português subiu um morro para ver de uma vez a cidade inteira e não conseguiu: Vijayanagara não cabia num olhar.

Quarenta e cinco anos depois, não morava mais ninguém lá dentro.

A rua começa na porta leste de um templo de granito e segue reta por quase um quilômetro, ladeada por dois andares de galeria de pedra. Hoje ela atravessa um campo de bananeira e capim seco, no norte do estado de Karnataka, na Índia.

No começo do século 16, essa rua era o balcão mais caro do mundo. Nas galerias sentavam os negociantes de pedra preciosa, e o que ficava exposto ali, à vista de quem passasse, era diamante, rubi, esmeralda e pérola.

Um português chamado Domingo Paes chegou à cidade por volta de 1520, com uma comitiva de negociantes de cavalo, e anotou o mercado numa lista seca: rubi, diamante, esmeralda, pérola e aljôfar vendidos como quem vende cereal, ao lado de pano e de gado.

Não era espanto de um estrangeiro sozinho. Um embaixador persa que passou pela mesma cidade oitenta anos antes registrou a cena com o mesmo tipo de palavra, e os dois relatos foram escritos sem que um soubesse do outro.

A conta fecha. O sul da Índia era, naquele momento, praticamente a única fonte de diamante do mundo conhecido, e as pedras saíam das cascalheiras do rio Krishna, a poucos dias de estrada dali.

A cidade que abastecia esse mercado tinha entre 250 mil e 500 mil habitantes, o que a colocava entre as maiores do planeta na época. Ela funcionava num vale de granito, sem chuva confiável, a mais de trezentos quilômetros do mar.

O que segurava meio milhão de pessoas de pé era água conduzida à mão: canal tirado do rio a montante, tanque escavado na rocha e aqueduto de laje entrando pelo centro do palácio.

Em 23 de janeiro de 1565, o exército da cidade perdeu uma batalha em campo aberto, a mais de cem quilômetros de casa. A capital não foi atacada naquele dia e mesmo assim ficou vazia em poucos meses.

Nenhuma cidade voltou a ocupar o lugar. O que sobrou é um campo de ruína com um vilarejo dentro, e a pedra ainda mostra como o dinheiro chegava ali e por onde a água entrava.

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I  O Estrato

Sete muralhas, canal de pedra e cavalo importado

A capital nasce em 1336, na margem sul do rio Tungabhadra, num ponto onde o granito aflora em blocos do tamanho de uma casa. Dois irmãos, Harihara e Bukka, fundam ali a sede do império que leva o nome da cidade: Vijayanagara, a cidade da vitória.

A escolha do terreno é militar antes de ser bonita. Os morros de pedra fecham o vale de três lados, o rio fecha o quarto, e a passagem se controla com muro curto encaixado entre um bloco e outro.

Abdur Razzaq, embaixador do soberano timúrida de Herat, chega em 1443 e conta sete linhas de muralha concêntricas, com lavoura e comércio ocupando o espaço entre uma e outra.

O levantamento arqueológico moderno confirma a ordem de grandeza. A área metropolitana mapeada passa de quatrocentos quilômetros quadrados, com muro, portão, estrada, templo e bairro registrados um a um.

Em terreno assim, a conta que decide tudo é a da água. A monção do interior do Decã é curta e irregular, e nada cresce em cima de granito.

A engenharia responde com três obras caras e simples: canal tirado do rio a montante, que corre por gravidade dezenas de quilômetros; tanque escavado para segurar a chuva; e aqueduto de laje que leva água limpa até os banhos e os pátios do centro real.

O canal Hiriya, aberto no século 15 para irrigar o vale ao sul da cidade, ainda leva água para a lavoura na mesma faixa de terra, cinco séculos depois da obra. Meio milhão de pessoas moravam onde a chuva não bastava, e a diferença era feita por canal cavado à mão.

A renda entrava por três torneiras. A primeira era a lavoura irrigada: arroz, cana, algodão e coqueiro nas terras que o canal alcançava, com imposto cobrado sobre a colheita.

A segunda era o templo. Os grandes santuários recebiam doação de terra, emprestavam dinheiro, guardavam joia e moviam gente, grão e obra, e a coroa participava do movimento.

A terceira era o pedágio do comércio de longa distância. A cidade ficava entre as minas de pedra do Krishna, os portos do Malabar e as rotas que subiam para o norte, e cobrava taxa em cada portão.

Krishnadevaraya, que reina de 1509 a 1529, é o nome do auge. Ele amplia o território até a costa leste, manda erguer os templos de Vitthala e de Krishna e escreve um tratado de governo em télugo, o Amuktamalyada.

No tratado há um conselho que explica a política externa da casa: o rei deve melhorar os portos, facilitar a entrada de cavalo e de elefante e não deixar mercador estrangeiro sair descontente.

O cavalo é o detalhe caro. O Decã não cria cavalo de guerra que preste, e a cavalaria vinha importada da Arábia e da Pérsia pelos portos da costa oeste, paga em ouro e em pedra bruta.

Quem tinha diamante comprava cavalo, e quem tinha cavalo segurava o território de onde saía o diamante. A capital era o ponto onde as duas pontas se encontravam.

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II  O Padrão

Uma derrota em campo aberto esvaziou o vale

Em janeiro de 1565, o exército de Vijayanagara marcha para o norte, na direção do rio Krishna, para enfrentar uma coalizão de quatro sultanatos do Decã: Ahmadnagar, Bijapur, Golconda e Bidar.

Os quatro tinham passado décadas em atrito entre si, e o atrito era a peça central da política de Rama Raya, o homem que mandava na capital em nome de um rei figurativo.

Ele alugava tropa para um lado, virava para o outro na temporada seguinte e não deixava nenhum vizinho crescer sozinho. A engrenagem funcionou por quase trinta anos.

A conta virou quando os quatro fizeram as pazes por casamento e por acordo, e decidiram marchar juntos uma única vez.

A batalha acontece em 23 de janeiro de 1565, perto das aldeias de Rakkasagi e Tangadagi, e ficou conhecida pelo nome de Talikota, a cidade maior da região.

Ferishta, cronista que escreve na corte de Bijapur poucas décadas depois, descreve uma virada rápida: a artilharia da coalizão abre o centro da linha, dois comandantes do próprio exército de Vijayanagara passam para o outro lado e Rama Raya, muito velho e carregado em liteira, é capturado em campo.

Ele é executado ali mesmo, e a cabeça sobe numa lança à vista das duas linhas. O exército se desfaz em algumas horas.

A capital fica a mais de cem quilômetros dali, intacta, com muralha, guarnição e tesouro dentro. Ela não foi atacada naquele dia e não caiu por assalto.

O que acontece é outro movimento. Tirumala, irmão de Rama Raya, entra na cidade, carrega o tesouro em elefante e sai para o sul, rumo a Penukonda, e a corte inteira vai atrás.

Quando os exércitos da coalizão chegam, dias depois, encontram uma capital sem governo e sem defesa organizada. O saque se estende por meses, e o que não dá para carregar é quebrado ou queimado.

"Nunca, talvez, na história do mundo, tamanha devastação foi causada, e causada tão de repente, sobre uma cidade tão esplêndida."
Robert Sewell, A Forgotten Empire (Vijayanagar), 1900.

A cidade já tinha sobrevivido a derrota, a fome e a disputa de sucessão antes. A diferença de 1565 não está no tamanho da perda em campo, está no que a capital era.

Vijayanagara não ficava numa foz de rio, num cruzamento natural de estradas nem num porto. Ela existia porque a corte decidiu morar naquele vale de granito, e todo o resto foi construído em volta da decisão.

Tirado o pagador, a conta não fecha em lugar nenhum. O canal precisa de manutenção, o mercado de pedra precisa de comprador, a guarnição precisa de soldo, e o vale sozinho não alimenta meio milhão de pessoas.

O império não termina em 1565. Ele segue por mais um século, de Penukonda, depois de Chandragiri e de Vellore, cada vez menor. A capital, essa sim, terminou naquele ano: o endereço mais rico do sul da Índia virou pasto e roça por quatro séculos e meio.

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Cada item da lista é uma capital construída em granito. Saia de campo por trinta dias e confira quanto do vale continua irrigado quando ninguém está pagando a manutenção.

 
 

III  O Arquivo

Onde checar o mercado, o canal e a batalha

Sobre a cidade vista por quem esteve nela, ver Robert Sewell, A Forgotten Empire (Vijayanagar), de 1900, que traduz e publica as crônicas dos portugueses Domingo Paes e Fernão Nunes.

Sobre o relato persa de 1443, ver a narrativa da embaixada de Abdur Razzaq, escrita no Matla us-Sadain e traduzida em India in the Fifteenth Century, de Richard Major, 1857.

Sobre a estrutura do império e a economia, ver Burton Stein, Vijayanagara, no volume da New Cambridge History of India de 1989.

Sobre os canais, os tanques e a lavoura irrigada, ver Kathleen Morrison, Fields of Victory: Vijayanagara and the Course of Intensification, de 1995, dentro do Vijayanagara Metropolitan Survey.

Sobre o desenho urbano e o que restou de pé, ver George Michell e John Fritz, City of Victory: Vijayanagara, de 1991, e o registro da Unesco, que inscreveu o conjunto de Hampi em 1986.

Sobre Talikota, ver a Tarikh-i-Ferishta, escrita por volta de 1610 na corte de Bijapur e traduzida por John Briggs em 1829, lendo o texto pelo que ele é: a versão do lado vencedor.

De tudo o que ficou em Hampi, o objeto que mais fala não é o templo nem a estátua do touro. É a calha de pedra do aqueduto, ainda alinhada e ainda com caimento certo, levando água para um centro de governo que não existe mais.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, o que aconteceu com a capital de Vijayanagara logo depois da derrota do exército em Talikota, em 23 de janeiro de 1565?

AFoi atacada e incendiada no mesmo dia da batalha
BNão foi atacada naquele dia, mas ficou vazia em poucos meses
CResistiu a um cerco de dez anos antes de cair
DFoi reocupada por um novo governante meses depois

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