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A guerra começou por causa de sal. Em 1589, al-Mansur mandou uma carta ao áskia Ishaq II exigindo a renda das minas de Taghaza, que ficavam no caminho entre os dois reinos. Ishaq II recusou.
Segundo al-Sa'di, a resposta do áskia veio com uma lança e um par de ferraduras de ferro, como desafio. A crônica foi escrita mais de sessenta anos depois, e o detalhe pode ser lenda de corte, mas a recusa é certa: no ano seguinte, a expedição saiu de Marrakech.
Judar Paxá chegou ao Níger em fevereiro de 1591. O Songai não ocupou os poços do deserto nem atacou a coluna cansada na travessia. Esperou o inimigo perto de casa, num terreno aberto, bom para a carga de cavalaria.
O estampido e a fuga
Em Tondibi, os bois foram lançados e voltaram. A cavalaria songai avançou sobre uma linha que disparava em descargas, e os cavalos, sem treino para o tiro, também se assustaram com o barulho.
Al-Sa'di registra que um grupo da retaguarda songai se recusou a fugir. Os homens sentaram sobre os escudos e lutaram ali até cair, enquanto o resto do exército atravessava o rio.
Ishaq II escapou e ofereceu a Judar um tributo em ouro e escravos em troca da retirada. Judar mandou a proposta a Marrakech. Al-Mansur recusou, trocou o comandante pelo paxá Mahmud ibn Zarqun e ordenou a ocupação.
No mesmo ano, Ishaq II foi deposto pelos próprios chefes e terminou a vida exilado no Gurma, a sudoeste. Parentes dele, sob o áskia Nuh, resistiram na região do Dendi, ao sul, até 1599. Depois disso, o império que cobrava de meia África Ocidental tinha virado um conjunto de chefias rivais.
O mesmo erro no Egito
O caso tem um parente conhecido. Os mamelucos, a casta de cavaleiros que governava o Egito, perderam para os otomanos em Marj Dabiq, em 1516, e no Cairo, em 1517, diante de tropas com armas de fogo. O historiador israelense David Ayalon mostrou em Gunpowder and Firearms in the Mamluk Kingdom (1956) que a elite mameluca conhecia a arma e a desprezava, porque ela tirava do cavaleiro o lugar de honra.
O Espelho: dois impérios, separados por um deserto e por 75 anos, viram a arma nova chegar e escolheram proteger o modo antigo de lutar. Os dois caíram para quem fez a escolha oposta.
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A principal fonte da batalha é o Tarikh al-Sudan, de Abd al-Rahman al-Sa'di, terminado em Tombuctu perto de 1655. A tradução para o inglês, com notas, está em Timbuktu and the Songhay Empire, de John Hunwick (Brill, 1999). Uma segunda crônica da cidade, o Tarikh al-Fattash, cobre o mesmo período.
Sobre o que veio depois da derrota, al-Sa'di escreveu uma frase que os historiadores repetem desde então:
"A segurança deu lugar ao medo, a riqueza à pobreza, e a angústia, as desgraças e a violência tomaram o lugar da tranquilidade." Abd al-Rahman al-Sa'di, Tarikh al-Sudan, c. 1655 (tradução livre da versão de John Hunwick, 1999) |
Os vencedores também perderam o que vieram buscar. As minas de ouro ficavam mais ao sul, fora do alcance marroquino, e o fluxo que chegava a Marrakech caiu poucos anos depois da conquista.
O que ficou no rio
Em 1594, o erudito Ahmad Baba, de Tombuctu, foi levado preso para Marrakech com outros sábios da cidade. Voltou só depois da morte de al-Mansur, em 1603, e escreveu no exílio parte da obra que o tornou o jurista mais conhecido da região.
O próprio Ahmad Baba contou, em texto citado por seus biógrafos, que perdeu na prisão a biblioteca da família, com 1.600 volumes, e que ela era a menor entre as dos seus parentes. Manuscritos de Tombuctu se espalharam a partir dali, e parte deles só voltou a ser catalogada no século XX.
Os soldados que ficaram se casaram nas cidades do rio. Seus descendentes, chamados arma (de al-rumat, os atiradores, em árabe), governaram Tombuctu e Gao como uma casta própria até o século XVIII, cada vez mais longe de Marrakech.
Vale um aviso sobre os números. As contagens de al-Sa'di para o exército songai e o rebanho de bois foram escritas décadas depois e podem estar infladas. Nenhum documento marroquino da campanha registra o total do lado inimigo, e a proporção exata entre os dois exércitos não é conhecida. O resultado da batalha e a presença dos arcabuzes estão confirmados nas duas pontas.
Fica a pergunta para você: qual é a pólvora que os seus vizinhos já usam e você ainda trata como novidade?
Em Tondibi, a 50 quilômetros de Gao, a planície de areia e capim continua na margem do Níger. Nenhum marco indica o lugar onde os 1.000 bois deram meia-volta, e a vila só aparece nos livros por causa de uma manhã de março de 1591.
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