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Tondibi, onde o Songai perdeu para 4.000 homens com pólvora

O maior império da África Ocidental conhecia as armas de fogo dos vizinhos e entrou na batalha de 1591 com lança, arco e cavalo

Bois em fuga diante de arcabuzeiros marroquinos em Tondibi, 1591

Tondibi, margem do Níger, março de 1591

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A LINHA DO TEMPO

1464, Sonni Ali começa a expansão do Songai a partir de Gao → 1493, o áskia Muhammad I toma o trono e leva o império ao auge → 1578, Ahmad al-Mansur vence os portugueses em Alcácer-Quibir e assume o Marrocos → década de 1570, o vizinho Bornu já usa mosqueteiros turcos → 1589, al-Mansur exige a renda das minas de sal de Taghaza e o áskia Ishaq II recusa → outubro de 1590, Judar Paxá parte de Marrakech com cerca de 4.000 homens → 13 de março de 1591, batalha de Tondibi → 1591, Ishaq II é deposto e o Songai se parte → 1594, o erudito Ahmad Baba é levado preso de Tombuctu a Marrakech → 1599, cai a última resistência songai no Dendi

O Songai tinha o maior exército da África Ocidental e conhecia as armas de fogo dos vizinhos.

Em 1591, perdeu o império numa manhã, diante de 4.000 homens que tinham cruzado o Saara.

Tondibi fica na margem esquerda do rio Níger, a uns 50 quilômetros ao norte de Gao, no atual Mali. Dali se vê uma planície baixa de areia e capim seco, o rio largo a leste e, na manhã de 13 de março de 1591, se viam dois exércitos frente a frente.

De um lado estava o áskia (título dos reis do Songai) Ishaq II, senhor do maior império que a África Ocidental tinha conhecido. O Songai ia do Senegal, perto do Atlântico, até o centro do atual Níger, e cobrava passagem das rotas de ouro e sal que cruzavam o Saara.

A crônica Tarikh al-Sudan, escrita em Tombuctu pelo erudito Abd al-Rahman al-Sa'di em meados do século XVII, conta 12.500 cavaleiros e 30.000 soldados a pé no lado songai. Levavam lanças, arcos, flechas envenenadas e couraças de couro acolchoado.

Do outro lado havia cerca de 4.000 homens. Tinham saído de Marrakech, no Marrocos, em outubro de 1590, a mando do sultão Ahmad al-Mansur, e atravessado mais de 2.000 quilômetros de deserto em quatro meses, perdendo gente e camelos para a sede pelo caminho.

O comandante era Judar Paxá (paxá, título de governador militar), nascido na Espanha e levado ainda menino para a corte marroquina. A maior parte dos seus soldados carregava arcabuz (arma de fogo de cano longo, disparada por uma mecha acesa).

O plano do Songai começou pelo gado. Segundo al-Sa'di, os comandantes lançaram à frente um rebanho de mais de 1.000 bois, para que os animais rompessem a linha marroquina e a cavalaria entrasse pela brecha.

Os arcabuzeiros dispararam. Com o estampido e a fumaça, os bois deram meia-volta e correram contra as fileiras do próprio Songai. Em poucas horas, o maior exército da região estava em fuga.

Uma força dez vezes menor venceu porque tinha uma arma que o Songai conhecia de nome e de vista, e tinha deixado de lado. A história dessa escolha começa na corte de Gao, décadas antes da batalha.

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I  O Estrato

O império que mandava pelo cavalo

O Império Songai cresceu a partir de Gao na segunda metade do século XV. Sonni Ali, que reinou de 1464 a 1492, tomou Tombuctu e Djenné, as duas grandes cidades de comércio do rio Níger. Depois dele, o áskia Muhammad I levou o império ao auge a partir de 1493.

A riqueza vinha do trânsito. Caravanas traziam sal das minas de Taghaza, no meio do Saara, e levavam ouro das minas do sul. Quem controlava o rio e os mercados cobrava sobre as duas mercadorias.

O poder militar era montado. A elite songai lutava a cavalo, com lança e cota de malha, e os melhores animais vinham do norte da África, comprados pelas mesmas caravanas. Um nobre se media pelo cavalo que tinha e pela carga que liderava.

O vizinho que já atirava

A pólvora não era novidade na região. A leste, o reino de Bornu, às margens do lago Chade, já usava mosqueteiros turcos na década de 1570, sob o rei Idris Alooma. O fato está registrado pelo cronista da corte, Ahmad ibn Furtu, na crônica das campanhas do rei escrita naqueles anos.

O próprio Marrocos tinha mostrado a arma em público. Em 4 de agosto de 1578, na batalha de Alcácer-Quibir, o exército marroquino destruiu o de dom Sebastião, rei de Portugal, com arcabuzes e canhões. Ahmad al-Mansur subiu ao trono naquela tarde, e o resgate dos nobres portugueses capturados encheu o tesouro que depois pagou a expedição ao Níger.

Os mercadores de Tombuctu e Gao viajavam a Marrakech e ao Cairo. A notícia de uma vitória daquele tamanho correu pelas rotas do deserto, e as armas de fogo eram vistas nas cidades do norte da África havia décadas.

O Songai sabia que a pólvora existia, sabia que os vizinhos a usavam e manteve o exército montado como sempre tinha sido.

O que nenhuma crônica conta é o motivo. Al-Sa'di não registra conselho de guerra discutindo armas de fogo, nem pedido de compra recusado. Os historiadores apontam três pesos prováveis: a arma e a pólvora vinham pelas rotas que o Marrocos controlava, o prestígio da nobreza estava preso ao cavalo e as vitórias de um século davam razão ao método antigo. Qual pesou mais, não se sabe, porque a corte de Gao não deixou documento sobre o tema.

 

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II  O Padrão

Os bois que voltaram contra a linha

A guerra começou por causa de sal. Em 1589, al-Mansur mandou uma carta ao áskia Ishaq II exigindo a renda das minas de Taghaza, que ficavam no caminho entre os dois reinos. Ishaq II recusou.

Segundo al-Sa'di, a resposta do áskia veio com uma lança e um par de ferraduras de ferro, como desafio. A crônica foi escrita mais de sessenta anos depois, e o detalhe pode ser lenda de corte, mas a recusa é certa: no ano seguinte, a expedição saiu de Marrakech.

Judar Paxá chegou ao Níger em fevereiro de 1591. O Songai não ocupou os poços do deserto nem atacou a coluna cansada na travessia. Esperou o inimigo perto de casa, num terreno aberto, bom para a carga de cavalaria.

O estampido e a fuga

Em Tondibi, os bois foram lançados e voltaram. A cavalaria songai avançou sobre uma linha que disparava em descargas, e os cavalos, sem treino para o tiro, também se assustaram com o barulho.

Al-Sa'di registra que um grupo da retaguarda songai se recusou a fugir. Os homens sentaram sobre os escudos e lutaram ali até cair, enquanto o resto do exército atravessava o rio.

Ishaq II escapou e ofereceu a Judar um tributo em ouro e escravos em troca da retirada. Judar mandou a proposta a Marrakech. Al-Mansur recusou, trocou o comandante pelo paxá Mahmud ibn Zarqun e ordenou a ocupação.

No mesmo ano, Ishaq II foi deposto pelos próprios chefes e terminou a vida exilado no Gurma, a sudoeste. Parentes dele, sob o áskia Nuh, resistiram na região do Dendi, ao sul, até 1599. Depois disso, o império que cobrava de meia África Ocidental tinha virado um conjunto de chefias rivais.

O mesmo erro no Egito

O caso tem um parente conhecido. Os mamelucos, a casta de cavaleiros que governava o Egito, perderam para os otomanos em Marj Dabiq, em 1516, e no Cairo, em 1517, diante de tropas com armas de fogo. O historiador israelense David Ayalon mostrou em Gunpowder and Firearms in the Mamluk Kingdom (1956) que a elite mameluca conhecia a arma e a desprezava, porque ela tirava do cavaleiro o lugar de honra.

O Espelho: dois impérios, separados por um deserto e por 75 anos, viram a arma nova chegar e escolheram proteger o modo antigo de lutar. Os dois caíram para quem fez a escolha oposta.

III  O Arquivo

Tombuctu depois da pólvora

A principal fonte da batalha é o Tarikh al-Sudan, de Abd al-Rahman al-Sa'di, terminado em Tombuctu perto de 1655. A tradução para o inglês, com notas, está em Timbuktu and the Songhay Empire, de John Hunwick (Brill, 1999). Uma segunda crônica da cidade, o Tarikh al-Fattash, cobre o mesmo período.

Sobre o que veio depois da derrota, al-Sa'di escreveu uma frase que os historiadores repetem desde então:

"A segurança deu lugar ao medo, a riqueza à pobreza, e a angústia, as desgraças e a violência tomaram o lugar da tranquilidade."

Abd al-Rahman al-Sa'di, Tarikh al-Sudan, c. 1655 (tradução livre da versão de John Hunwick, 1999)

Os vencedores também perderam o que vieram buscar. As minas de ouro ficavam mais ao sul, fora do alcance marroquino, e o fluxo que chegava a Marrakech caiu poucos anos depois da conquista.

O que ficou no rio

Em 1594, o erudito Ahmad Baba, de Tombuctu, foi levado preso para Marrakech com outros sábios da cidade. Voltou só depois da morte de al-Mansur, em 1603, e escreveu no exílio parte da obra que o tornou o jurista mais conhecido da região.

O próprio Ahmad Baba contou, em texto citado por seus biógrafos, que perdeu na prisão a biblioteca da família, com 1.600 volumes, e que ela era a menor entre as dos seus parentes. Manuscritos de Tombuctu se espalharam a partir dali, e parte deles só voltou a ser catalogada no século XX.

Os soldados que ficaram se casaram nas cidades do rio. Seus descendentes, chamados arma (de al-rumat, os atiradores, em árabe), governaram Tombuctu e Gao como uma casta própria até o século XVIII, cada vez mais longe de Marrakech.

Vale um aviso sobre os números. As contagens de al-Sa'di para o exército songai e o rebanho de bois foram escritas décadas depois e podem estar infladas. Nenhum documento marroquino da campanha registra o total do lado inimigo, e a proporção exata entre os dois exércitos não é conhecida. O resultado da batalha e a presença dos arcabuzes estão confirmados nas duas pontas.

Fica a pergunta para você: qual é a pólvora que os seus vizinhos já usam e você ainda trata como novidade?

Em Tondibi, a 50 quilômetros de Gao, a planície de areia e capim continua na margem do Níger. Nenhum marco indica o lugar onde os 1.000 bois deram meia-volta, e a vila só aparece nos livros por causa de uma manhã de março de 1591.

 
 
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Quiz da edição

Qual foi o plano do exército songai para enfrentar os marroquinos em Tondibi, em 1591?

AAtacar a coluna marroquina cansada durante a travessia do deserto
BOferecer tributo em ouro e escravos antes de qualquer combate
CLançar à frente mais de 1.000 bois para romper a linha marroquina e abrir caminho para a cavalaria
DOcupar os poços do deserto para cortar a água da coluna marroquina

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