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Teyuna, a cidade de 169 terraços no alto da serra

Na Serra Nevada de Santa Marta, os taironas ligaram cerca de 200 povoados por pedra, e kogi e wiwa seguem lá

Terraços de pedra de Teyuna na Serra Nevada

Teyuna, Serra Nevada de Santa Marta

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A LINHA DO TEMPO

c. 650, primeiros terraços em Teyuna → c. 1000, a rede tairona passa de 200 povoados → 1525, espanhóis fundam Santa Marta na costa → 1950, Reichel-Dolmatoff publica Los Kogi → 2018, a Colômbia reconhece a Línea Negra

A 1.200 metros de altitude, na encosta norte da Serra Nevada de Santa Marta, na Colômbia, um espigão de mata fechada guarda Teyuna. Dali, em dia limpo, se vê o vale do rio Buritaca descendo para o mar do Caribe, a cerca de 40 quilômetros em linha reta.

A serra é a montanha costeira mais alta do mundo. Sai da praia e chega a cerca de 5.700 metros nos picos Cristóbal Colón e Simón Bolívar, cobertos de neve, a menos de 50 quilômetros do mar. Numa só subida cabem praia, floresta úmida, mata de nuvem, páramo e geleira.

Teyuna fica no meio dessa escada. Para chegar até ela se sobe uma escadaria de cerca de 1.200 degraus de pedra, desde a margem do Buritaca até o primeiro terraço.

Lá em cima, os taironas ergueram 169 terraços: plataformas de pedra arrumadas em círculo e em meia-lua, encaixadas no espigão e ligadas por escadas, canais e caminhos calçados. Sobre cada plataforma havia casas redondas de madeira e palha. A madeira apodreceu. A pedra ficou.

A cidade começou a ser erguida por volta do ano 650, mais de sete séculos antes de Machu Picchu. Não era capital isolada. Era um nó numa rede de cerca de 200 povoados espalhados pela serra, todos ligados por caminhos de pedra que subiam do litoral até as terras altas.

Por esses caminhos passavam peixe e sal da costa, milho e mandioca das encostas, algodão e folha de coca das terras mais frias. Um povoado plantava o que o outro não conseguia.

Os taironas deixaram de ocupar a cidade, mas os herdeiros deles nunca saíram da serra. Os kogi e os wiwa vivem hoje nas mesmas encostas, com aldeias de casas redondas e terraços de pedra. Os sacerdotes kogi, os mamos, sobem até Teyuna para cerimônias.

Uma cidade de pedra no meio da mata pede outra pergunta antes da história dela: como se constrói num espigão onde chove quatro metros por ano? O Estrato começa embaixo dos terraços.

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I  O Estrato

A pedra embaixo da casa

Na encosta norte da Serra Nevada chove muito. Em Teyuna, a média passa de quatro metros de chuva por ano, quase toda concentrada entre abril e novembro. Terra solta, numa encosta assim, desce com a primeira tempestade.

Os taironas resolveram o problema antes de levantar qualquer casa. Cada terraço é uma caixa de pedra: um muro de arrimo feito de pedras de rio encaixadas sem argamassa, cheio por dentro de terra e cascalho compactados.

O muro segura a terra. O cascalho deixa a água passar. A plataforma fica seca em cima e drena por baixo.

As pedras vinham do próprio Buritaca e dos córregos vizinhos. Eram arredondadas pela correnteza, e os construtores escolhiam cada uma pelo formato, para travar na pedra de baixo. Sem cimento, o peso do muro inteiro trabalha a favor da estabilidade: quanto mais terra atrás, mais firme o encaixe.

O sistema dos terraços

Os 169 terraços de Teyuna não ficam soltos. Formam um conjunto escalonado ao longo do espigão, do mais largo, no eixo central, aos menores, nas pontas das cristas laterais.

Entre um terraço e outro correm canais de pedra. A água da chuva desce da plataforma de cima, entra no canal, passa pela escada e sai na encosta longe das fundações. Os construtores calcularam a queda de cada canal para a água correr sem cavar a terra.

Em Teyuna, a chuva tinha caminho próprio, separado do caminho das pessoas.

Casa redonda, base redonda

As plataformas residenciais são circulares. Tinham entre oito e quinze metros de diâmetro e uma borda de pedra lavrada, e cada uma recebia uma casa redonda de madeira, com teto cônico de palha.

Os arqueólogos do Instituto Colombiano de Antropologia e História (ICANH), responsável pelo sítio, mapearam os terraços nos anos 1970 e 1980. Concluíram que a cidade abrigou entre 1.500 e 2.000 pessoas no auge, entre os séculos XI e XVI.

As plataformas maiores, no eixo do espigão, ficavam vazias de casa. Eram praças para reuniões e cerimônias, com degraus de pedra em volta para quem assistia.

Depois de séculos sob a mata, a maior parte dos muros continuava no lugar quando os arqueólogos chegaram. Raízes tinham deslocado algumas pedras, mas os canais ainda levavam a água para fora das plataformas, e a limpeza da vegetação bastou para devolver o desenho da cidade.

O terraço não era só chão de casa. Era a peça básica de toda a cidade, repetida 169 vezes com o mesmo princípio: muro, cascalho, canal, escada.

 

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II  O Padrão

Duzentos povoados e uma rede de pedra

Teyuna era uma das maiores cidades taironas, mas não a única. Os levantamentos arqueológicos na Serra Nevada contam entre 200 e 250 povoados com terraços de pedra, do nível do mar até cerca de 2.000 metros.

Na costa, onde hoje fica o Parque Nacional Tayrona, está Chairama, também chamada de Pueblito. Nas encostas médias, ficam Teyuna e dezenas de povoados menores. Nas partes altas, aldeias pequenas cuidavam das roças de clima frio.

Os caminhos calçados

O que unia os povoados era o caminho. Os taironas calçaram trilhas com lajes de pedra, abriram escadarias nas encostas íngremes e assentaram pontes de pedra sobre os córregos. Parte dessas trilhas ainda é usada.

A trilha não seguia o vale. Subia pelas cristas, onde o terreno é mais firme e a chuva escorre para os lados. Um caminhante saía da praia e chegava ao páramo sem atravessar o fundo dos rios na cheia.

A rede de caminhos fazia de 200 povoados uma economia só.

A troca vertical

A serra empilha climas. Em poucas horas de caminhada, a temperatura cai de 30 graus no litoral para perto de 10 graus nas terras altas.

Os taironas aproveitaram a escada. Da costa subiam peixe seco, sal e conchas. Das encostas médias vinham milho, mandioca, feijão e frutas. Das terras altas desciam algodão, batata e folha de coca. Os ourives trabalhavam a tumbaga, uma liga de ouro e cobre, em peças com figuras de morcego, jaguar e ave.

Nenhum povoado precisava produzir tudo. A rede distribuía o trabalho pela altitude, e a pedra do caminho garantia a entrega mesmo na estação das chuvas, quando trilha de terra vira lama.

O padrão

O padrão tairona volta em toda montanha habitada por muito tempo: quem vive numa escada de climas precisa de caminho estável entre os degraus. O povoado isolado passa fome na seca. O povoado ligado troca o excedente por aquilo que falta.

Daí a quantidade de pedra que os taironas gastaram tanta pedra no chão. Cada laje assentada encurtava a viagem entre o sal e o milho, e cada escada mantinha a rota aberta na estação das chuvas.

III  O Arquivo

Os herdeiros na mesma serra

Os espanhóis fundaram Santa Marta na costa em 1525. Nas décadas seguintes, os povoados taironas das partes baixas se esvaziaram, e as famílias recuaram para o alto da serra.

Ali vivem hoje quatro povos: os kogi, os wiwa, os arhuaco e os kankuamo. Somam dezenas de milhares de pessoas e falam línguas da família chibcha, a mesma dos taironas.

Os kogi e os wiwa

Os kogi chamam a si mesmos de kággaba e chamam os povos de fora de irmãos menores. As aldeias deles repetem o desenho tairona: casas redondas de madeira e palha, terraços de pedra, trilhas calçadas entre as roças.

Os wiwa vivem nas encostas sul e leste e seguem calendário próprio de plantio e cerimônia. Kogi e wiwa mantêm os mamos, sacerdotes formados desde a infância, que decidem onde abrir roça, quando colher e quais lugares sagrados visitar.

Os mamos tratam Teyuna como lugar vivo, não como ruína.

A Línea Negra

Os quatro povos dividem uma fronteira sagrada chamada Línea Negra, uma linha imaginária ligando pontos da base da serra. Em 2018, o governo colombiano reconheceu a linha por decreto e passou a exigir consulta aos povos antes de obras dentro dela.

Em Teyuna, a visita de turistas segue regras combinadas com os povos da serra. O sítio fecha todo ano em setembro para limpeza ritual e descanso da trilha.

O que não se sabe

Não se sabe o nome original de todos os povoados nem como a rede era governada. Os taironas não deixaram escrita, e os relatos espanhóis falam pouco das terras altas. A data exata do abandono de Teyuna também falta: a arqueologia aponta o século XVI.

Também não se sabe quantos quilômetros a rede de caminhos somava no auge. Boa parte segue coberta pela mata, e novos trechos aparecem quando a vegetação é aberta para roça ou para pesquisa.

Falta ainda a ligação exata entre os taironas e cada um dos quatro povos atuais. A língua, a casa redonda e o terraço apontam a herança; a genealogia de cada aldeia fica com a memória oral dos mamos.

As fontes

Para conferir: Los Kogi, do antropólogo Gerardo Reichel-Dolmatoff, publicado em dois volumes em 1950 e 1951, o primeiro estudo longo sobre o povo kogi. Para a voz dos mamos, The Heart of the World, do jornalista Alan Ereira, livro de 1990.

A 1.200 metros, na encosta norte da serra, os 169 terraços seguem drenando a chuva pelos mesmos canais de pedra. Do primeiro deles ainda se vê o Buritaca descendo para o Caribe, e na trilha calçada abaixo sobem os mamos kogi.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o texto, quantos terraços de pedra os taironas ergueram em Teyuna?

A120 terraços
B169 terraços
C200 terraços
D250 terraços

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