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ED 131
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Sijilmasa, a cidade do ouro que as caravanas largaram

No sul do Marrocos, a porta norte da rota do ouro cunhou dinares por 6 séculos e ficou vazia quando as caravanas mudaram de caminho

Muros de terra de Sijilmasa entre tamareiras no oásis do Tafilalt

Ruínas de Sijilmasa, Tafilalt, Marrocos

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A LINHA DO TEMPO

757, berberes Miknasa fundam Sijilmasa no oásis do Tafilalt → século IX, a dinastia midrárida governa a cidade e o comércio com o Gana cresce → década de 950, Ibn Hawqal registra a dívida de 42 mil dinares de um mercador local → 1055, os almorávidas tomam a cidade → 1068, al-Bakri descreve a rota até Awdaghust → fevereiro de 1352, Ibn Battuta parte de Sijilmasa para o Mali → fim do século XIV, guerras e novas rotas esvaziam a cidade → 1988, começam as escavações marroquino-americanas nas ruínas

No sul do Marrocos, uma cidade de oásis transformou por seis séculos o ouro do Saara em moeda.

Ela não caiu numa batalha. Ficou vazia quando as caravanas escolheram outra estrada.

A cerca de 750 metros de altitude, na borda do oásis do Tafilalt, no sul do Marrocos, quem sai de Rissani a pé chega em poucos minutos a uma fileira de muros de terra batida. Dali se vê o vale do rio Ziz, uma faixa verde de tamareiras e, depois dela, o começo do Saara.

Os muros são o que resta de Sijilmasa, cidade fundada em 757 por berberes da tribo Miknasa. Durante seis séculos, ela foi a última cidade antes da areia para quem descia rumo ao sul, e a primeira depois da areia para quem subia carregando ouro.

O ouro vinha de longe. Saía das minas da África Ocidental, nas cabeceiras dos rios Senegal e Níger, passava pelos reinos do Gana e, mais tarde, do Mali, e atravessava o deserto no lombo de camelos. Em Sijilmasa virava moeda: a cidade cunhava dinares (moedas de ouro do mundo islâmico) que circulavam do Magreb ao Egito.

Os geógrafos árabes que passaram por lá descreveram mercados cheios, casas de vários andares e hortas regadas por canais puxados do Ziz. Um deles anotou uma dívida entre dois comerciantes que dá a medida da riqueza da cidade, e o valor dela aparece mais adiante nesta edição.

No fim do século XIV, Sijilmasa estava vazia. Nenhum exército estrangeiro a arrasou e nenhum terremoto a derrubou. O que faltou foi a caravana: as rotas do ouro mudaram de lugar, as guerras entre dinastias marroquinas fecharam o caminho, e uma cidade que existia para receber quem chegava do sul deixou de receber gente.

Os moradores saíram aos poucos. Parte deles se espalhou pelos ksour (aldeias fortificadas de barro) do próprio oásis. Rissani, a cidade que hoje ocupa a vizinhança das ruínas, cresceu depois, a partir desses povoados.

Para entender por que uma cidade tão rica sumiu sem batalha final, é preciso primeiro desenhar no mapa a estrada que a sustentava e marcar o ano em que ela deixou de passar pela porta.

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I  O Estrato

Dois meses de areia até Walata

Os fundadores de Sijilmasa eram berberes Miknasa ligados aos sufritas, uma corrente dissidente do islã que recusava a autoridade dos califas de Bagdá. Da família que governou a cidade nos dois primeiros séculos, os Banu Midrar, veio o nome de dinastia midrárida.

A escolha do lugar tinha lógica de mapa. O Tafilalt é o último oásis grande antes do deserto, com água do Ziz e tâmaras para abastecer caravanas. Ao sul dele, a rota seguia quase em linha reta até as minas de sal de Taghaza, no meio do Saara, e dali até as cidades de mercado na borda do Sahel (a faixa semiárida ao sul do deserto).

O comércio andava nos dois sentidos. Do norte desciam sal, tecidos, cobre e cavalos. Do sul subiam ouro, marfim e pessoas escravizadas. No tempo do Gana, o mercado final da rota era Awdaghust, que o geógrafo andaluz al-Bakri descreveu em 1068. No tempo do Mali, o ponto de chegada passou a ser Walata.

Em 1055, os almorávidas, um movimento religioso e militar berbere nascido no próprio Saara, tomaram Sijilmasa. Foi o primeiro passo de um império que chegaria à Península Ibérica, e a cidade virou a casa da moeda que transformava o ouro do sul em dinares almorávidas.

O último viajante famoso

O relato mais detalhado da travessia saiu de um marroquino de Tânger, Ibn Battuta. Em fevereiro de 1352, ele partiu de Sijilmasa com uma caravana rumo ao Mali. Na cidade, ficou hospedado com um jurista, Abu Muhammad al-Bushri, cujo irmão ele tinha conhecido anos antes na China.

Ibn Battuta comprou camelos em Sijilmasa e os alimentou por quatro meses antes da partida. Depois de 25 dias de marcha, a caravana chegou a Taghaza, onde o sal era cortado em blocos e levado para o sul.

"É uma aldeia sem nada de bom. As casas e a mesquita são de blocos de sal, cobertas com peles de camelo." (Ibn Battuta, Rihla, 1355)

De Taghaza, a caravana ainda levou semanas até Walata, onde chegou em abril, dois meses depois de deixar o Tafilalt. Esse é o desenho da rota no mapa: Sijilmasa, Taghaza, Walata e, dali, a corte do Mali junto ao Níger.

Em 1352, a porta norte do ouro ainda funcionava; meio século depois, já não havia quem a abrisse.

A data do fim é aproximada. As escavações indicam que a vida urbana acabou nas últimas décadas do século XIV. O ano de 1393 aparece em parte da literatura como marco do abandono, mas nenhuma crônica da época confirma esse ano com certeza.

 

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II  O Padrão

Uma cidade com uma porta só

A dívida anunciada na abertura foi registrada pelo geógrafo Ibn Hawqal, que visitou a região na década de 950. Ele viu um documento em que um comerciante sediado em Awdaghust, do outro lado do deserto, reconhecia dever 42 mil dinares a outro, de Sijilmasa. Ibn Hawqal escreveu que nunca tinha visto nada parecido no Oriente.

A riqueza, porém, não nascia no Tafilalt. O oásis produzia tâmaras e trigo, suficientes para alimentar a cidade, mas o ouro que pagava as muralhas, a mesquita e a casa da moeda chegava pela estrada. Sijilmasa era um pedágio com muros em volta.

Quando a estrada começou a falhar, a cidade não tinha outro produto para oferecer. No século XIV, os merínidas, que governavam o Marrocos a partir de Fez, brigavam com os zaianidas de Tlemcen e com rivais internos. O Tafilalt virou prêmio de disputa, trocou de dono várias vezes, e caravana nenhuma quer atravessar dois meses de areia para chegar a uma guerra.

Ao mesmo tempo, o comércio do Sahel se deslocou para leste. Tombuctu e Gao cresceram sob o Mali e, depois, sob os songais, e os mercadores passaram a preferir rotas que subiam para Tlemcen, Túnis e o Cairo. O ouro continuou atravessando o deserto; só deixou de passar pelo Tafilalt.

O que o oásis fez depois

A região sobreviveu. As tamareiras continuaram, os ksour continuaram, e o Tafilalt voltou à história por outro caminho: no século XVII, uma família de xarifes (descendentes do profeta Maomé) estabelecida no oásis tomou o poder no Marrocos e fundou a dinastia alauita, que reina no país até hoje.

O fundador da linhagem, Moulay Ali Cherif, está enterrado num mausoléu nos arredores de Rissani. A terra que perdeu a cidade do ouro deu ao Marrocos a sua família real, sem precisar de caravana nenhuma.

O historiador Leão, o Africano (Hassan al-Wazzan), passou pelo Tafilalt no começo do século XVI e encontrou Sijilmasa em ruínas. Ele ouviu dos moradores que a cidade tinha caído depois de uma revolta contra o próprio governante, com as muralhas derrubadas pelos habitantes. A versão serve como tradição local; as escavações não conseguiram confirmar nem descartar a revolta.

O Espelho: quem vive de uma única rota vive do humor de quem controla a rota. Sijilmasa tinha o melhor ponto do mapa e nenhum plano B; o oásis em volta, que nunca dependeu só do ouro, atravessou os séculos.

III  O Arquivo

Onde ler e onde ver Sijilmasa

Para a dívida de 42 mil dinares e a descrição da cidade no século X, a fonte é Ibn Hawqal, Surat al-Ard (A Imagem da Terra), concluída em torno de 977. Para a rota até Awdaghust, al-Bakri, Kitab al-Masalik wa-l-Mamalik (Livro das Rotas e dos Reinos), de 1068.

Os dois textos, com trechos de outros autores árabes sobre a África Ocidental, estão reunidos em inglês no Corpus of Early Arabic Sources for West African History, organizado por Nehemia Levtzion e J. F. P. Hopkins (Cambridge University Press, 1981).

A viagem de 1352 está na Rihla (Viagem) de Ibn Battuta, ditada ao secretário Ibn Juzayy em 1355. A tradução inglesa de H. A. R. Gibb e C. F. Beckingham, The Travels of Ibn Battuta, saiu pela Hakluyt Society em quatro volumes, o último em 1994.

Para a arqueologia, a referência é Ronald Messier e James Miller, The Last Civilized Place: Sijilmasa and Its Saharan Destiny (University of Texas Press, 2015). O livro reúne as escavações do projeto marroquino-americano iniciado em 1988 e discute por que a data exata do abandono segue incerta.

O relato de Leão, o Africano, está na Descrizione dell'Africa (Descrição da África), publicada em Veneza por Giovanni Battista Ramusio em 1550.

Vale um aviso sobre a data de nascimento da cidade. O ano de 757 vem de al-Bakri, que registra a fundação no ano 140 do calendário islâmico; esse ano corresponde a 757 e ao começo de 758, e parte dos autores prefere escrever 757 ou 758. Nenhuma inscrição da fundação foi encontrada nas escavações, e a data segue apoiada só no texto.

Para ver o sítio, o caminho é Rissani, a uns 20 quilômetros de Erfoud. As ruínas não têm museu nem cerca contínua; os muros aparecem entre palmeiras e campos, e o mausoléu de Moulay Ali Cherif fica a poucos minutos de carro.

No Tafilalt, a 750 metros, os muros de terra continuam de pé na beira do Ziz. Quem caminha entre eles pisa no chão de uma casa da moeda que cunhou dinares por seis séculos e fechou quando a última caravana do ouro escolheu outra estrada.

 
 
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Segundo o geógrafo Ibn Hawqal, de quantos dinares era a dívida que um comerciante de Sijilmasa reconhecia dever a um mercador de Awdaghust, registrada na década de 950?

A8 mil dinares
B100 mil dinares
C42 mil dinares
D12 mil dinares

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