|
Os fundadores de Sijilmasa eram berberes Miknasa ligados aos sufritas, uma corrente dissidente do islã que recusava a autoridade dos califas de Bagdá. Da família que governou a cidade nos dois primeiros séculos, os Banu Midrar, veio o nome de dinastia midrárida.
A escolha do lugar tinha lógica de mapa. O Tafilalt é o último oásis grande antes do deserto, com água do Ziz e tâmaras para abastecer caravanas. Ao sul dele, a rota seguia quase em linha reta até as minas de sal de Taghaza, no meio do Saara, e dali até as cidades de mercado na borda do Sahel (a faixa semiárida ao sul do deserto).
O comércio andava nos dois sentidos. Do norte desciam sal, tecidos, cobre e cavalos. Do sul subiam ouro, marfim e pessoas escravizadas. No tempo do Gana, o mercado final da rota era Awdaghust, que o geógrafo andaluz al-Bakri descreveu em 1068. No tempo do Mali, o ponto de chegada passou a ser Walata.
Em 1055, os almorávidas, um movimento religioso e militar berbere nascido no próprio Saara, tomaram Sijilmasa. Foi o primeiro passo de um império que chegaria à Península Ibérica, e a cidade virou a casa da moeda que transformava o ouro do sul em dinares almorávidas.
O último viajante famoso
O relato mais detalhado da travessia saiu de um marroquino de Tânger, Ibn Battuta. Em fevereiro de 1352, ele partiu de Sijilmasa com uma caravana rumo ao Mali. Na cidade, ficou hospedado com um jurista, Abu Muhammad al-Bushri, cujo irmão ele tinha conhecido anos antes na China.
Ibn Battuta comprou camelos em Sijilmasa e os alimentou por quatro meses antes da partida. Depois de 25 dias de marcha, a caravana chegou a Taghaza, onde o sal era cortado em blocos e levado para o sul.
"É uma aldeia sem nada de bom. As casas e a mesquita são de blocos de sal, cobertas com peles de camelo." (Ibn Battuta, Rihla, 1355)
De Taghaza, a caravana ainda levou semanas até Walata, onde chegou em abril, dois meses depois de deixar o Tafilalt. Esse é o desenho da rota no mapa: Sijilmasa, Taghaza, Walata e, dali, a corte do Mali junto ao Níger.
Em 1352, a porta norte do ouro ainda funcionava; meio século depois, já não havia quem a abrisse.
A data do fim é aproximada. As escavações indicam que a vida urbana acabou nas últimas décadas do século XIV. O ano de 1393 aparece em parte da literatura como marco do abandono, mas nenhuma crônica da época confirma esse ano com certeza.
|