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Reino do Bósforo, o celeiro de Atenas na Crimeia

No estreito de Kerch, reis gregos venderam trigo a Atenas e pagaram aos nômades da estepe por quase nove séculos

Acrópole de Panticapeu no monte Mitrídates, sobre o estreito de Kerch

Monte Mitrídates, em Kerch, na Crimeia

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A LINHA DO TEMPO

c. 600 a.C., Mileto funda Panticapeu → 438 a.C., começam os Espartócidas → 355 a.C., Demóstenes cita o trigo → c. 108 a.C., o reino passa a Mitrídates → c. 370 d.C., os hunos cruzam o estreito

A 45 graus de latitude norte, o estreito de Kerch separa a Crimeia da península de Taman por pouco mais de quatro quilômetros de água rasa. Do alto do monte Mitrídates, sobre a cidade de Kerch, se via a boca do mar de Azov, os barcos de pesca e, em dia limpo, a costa da Ásia.

Ali ficava Panticapeu, capital do Reino do Bósforo. Os gregos chamavam o canal de Bósforo Cimério (a passagem dos cimérios, povo nômade que vivera na região antes deles), para diferenciá-lo do Bósforo de Bizâncio.

O reino nunca teve exército grande nem frota temida. Tinha o tchernozem (terra preta, em russo), solo escuro e fundo das planícies ao norte do mar Negro, e uma fila de portos que embarcavam o grão das planícies para o mar Egeu.

Atenas tinha gente demais para o pouco trigo da Ática, a região rochosa em volta da cidade. A cidade comprava fora a maior parte do pão que comia. Os navios que saíam do estreito carregados de grão chegavam ao Pireu, o porto ateniense, depois de atravessar o mar Negro e os Dardanelos.

No inverno, o estreito congelava. O geógrafo grego Estrabão conta, na Geografia, escrita no começo do século I, que um general chamado Neoptólemo venceu os bárbaros numa batalha de cavalaria sobre o gelo e, no verão seguinte, numa batalha naval no mesmo ponto.

Por quase nove séculos, de cerca de 480 antes de Cristo até a chegada dos hunos, por volta de 370 depois de Cristo, os reis de Panticapeu negociaram com dois vizinhos ao mesmo tempo: os gregos do sul, que compravam o trigo, e os nômades citas e sármatas do norte, que dominavam as estepes de onde ele vinha.

Um reino pequeno, espremido entre cidades gregas e cavaleiros da estepe, pede explicação. O Estrato começa nos colonos de Mileto, que chegaram à beira do estreito sem rei e sem trigo próprio.

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I  O Estrato

Os colonos de Mileto no estreito

Por volta de 600 antes de Cristo, colonos gregos de Mileto, cidade da costa da atual Turquia, fundaram Panticapeu numa encosta voltada para a água. Em poucas décadas surgiram vizinhas: Teodósia, Ninfeu e Mirmécio na Crimeia, Fanagória e Hermonassa na península de Taman.

Eram cidades independentes, cada uma com seu conselho e sua moeda. Por volta de 480 antes de Cristo, juntaram-se sob uma família de Panticapeu, os Arqueanáctidas, num governo comum. O historiador Diodoro da Sícilia, na Biblioteca Histórica, do século I antes de Cristo, registra que eles governaram por 42 anos.

Os Espartócidas

Em 438 antes de Cristo, um homem chamado Espártoco assumiu o poder. O nome não é grego: os historiadores leem nele uma origem trácia, povo dos Bálcãs. A dinastia dele, a dos Espartócidas, governou o estreito por cerca de três séculos.

Os reis usavam dois títulos. Para os gregos das cidades, eram arcontes (magistrados, no vocabulário de Atenas); para os povos do interior, como sindos e meotas, eram reis. A mesma pessoa mudava de cargo conforme quem lia a inscrição.

O Bósforo foi uma república para os gregos e um trono para a estepe, sob a mesma coroa.

Leucão e o porto de Teodósia

Leucão I reinou de 389 a 349 antes de Cristo. Tomou Teodósia, porto de águas fundas no sul da Crimeia, depois de uma guerra contra Heracleia Pôntica, cidade grega que apoiava os rebeldes. Com ela, o reino passou a controlar a saída do grão da Crimeia inteira.

Atenas recebeu de Leucão a ateleia (isenção do imposto de exportação) e o direito de carregar os navios antes dos outros compradores. Em troca, a assembleia ateniense deu cidadania honorária a ele e aos filhos.

Demóstenes defendeu essas honras em Contra Leptines, discurso de 355 antes de Cristo: “Vocês sabem, decerto, que de todos os povos somos nós os que mais usam trigo importado.”

No mesmo discurso, ele calcula em 400 mil medimnos (o medimno era uma medida de grão de uns 52 litros) o trigo que chegava do Bósforo a cada ano, perto de metade de todo o grão que a cidade importava.

Leptines, o adversário no processo, queria abolir as isenções honorárias concedidas por Atenas. Demóstenes argumentou que cortar a de Leucão daria ao rei motivo para cobrar imposto sobre o trigo ateniense. As fontes antigas não registram com segurança o resultado do julgamento.

 

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II  O Padrão

O ouro dos citas e o trigo dos gregos

O grão não nascia todo dentro do reino. Uma parte vinha dos campos de sindos e meotas, povos agricultores da margem asiática; outra, das estepes controladas pelos citas, cavaleiros nômades que recebiam presentes e tributo dos reis de Panticapeu.

O pagamento aparece nos túmulos. Em 1830, operários que tiravam pedra perto de Kerch abriram o kurgan de Kul-Oba (túmulo coberto por um monte de terra), do século IV antes de Cristo. Dentro estava um chefe cita enterrado com armas, a mulher e os cavalos.

Ao lado do corpo havia um vaso de eletro (liga natural de ouro e prata) com cenas de guerreiros citas tratando um dente e enfaixando uma perna. O traço é de ourives grego. O vaso hoje está no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

O preço da estepe

Nos séculos III e II antes de Cristo, os sármatas, outro povo de cavaleiros vindo do leste, empurraram os citas para dentro da Crimeia. Os citas, apertados, passaram a cobrar mais caro pela paz e a atacar as fazendas do reino.

O último Espartócida, Perisades V, sem herdeiro e sem dinheiro, entregou o reino por volta de 108 antes de Cristo a Mitrídates VI, rei do Ponto, na costa sul do mar Negro. Um cita da corte, Saumaco, liderou uma revolta, e Perisades não sobreviveu a ela.

Diofanto, general de Mitrídates, esmagou o levante e mandou Saumaco preso ao Ponto. O relato chegou até nós num decreto de pedra da cidade de Quersoneso, que homenageou o general.

Quem vendia o trigo dependia de quem mandava no campo.

O cliente de Roma

Mitrídates perdeu a guerra contra Roma e se refugiou em Panticapeu. Em 63 antes de Cristo, o filho dele, Fárnaces, chefiou uma revolta, e a vida do velho rei terminou na acrópole do monte que hoje leva o nome dele.

Fárnaces II ficou com o Bósforo como aliado de Roma. Tentou recuperar o Ponto e perdeu para Júlio César em Zela, em 47 antes de Cristo, a batalha do “Veni, vidi, vici” (vim, vi, venci).

Os reis seguintes formaram a dinastia dos Tibérios Júlios. Por três séculos cunharam moedas com o próprio rosto numa face e o do imperador romano na outra.

O espelho

O padrão do Bósforo aparece em todo entreposto entre quem produz e quem compra: o intermediário prospera enquanto paga ao dono da terra e agrada ao dono do mercado. Quando um dos dois cobra além da margem, o entreposto vende a coroa.

III  O Arquivo

Das moedas de Rescúporis ao Hermitage

No século III depois de Cristo, os godos, povo germânico que descera para o mar Negro, usaram navios do Bósforo para saquear a costa da Ásia Menor. O historiador grego Zósimo, na História Nova, escrita por volta de 500, conta que os reis do estreito cederam os barcos.

As moedas param com Rescúporis VI, por volta de 341. Pouco depois, por volta de 370, os hunos atravessaram o estreito, provavelmente pelo gelo, e Panticapeu entrou em declínio. A cidade seguiu habitada sob bizantinos e cázaros, mas o reino acabou.

Nove séculos de trigo terminaram sem uma linha de crônica sobre o último rei.

O que se vê hoje

A acrópole de Panticapeu ocupa o topo do monte Mitrídates, com colunas de um templo e fundações de casas. O Museu Púchkin, de Moscou, mantém uma expedição arqueológica no Bósforo desde 1945.

Perto da cidade, o Kurgan Real, do século IV antes de Cristo, guarda uma câmara funerária de pedra com abóbada em degraus, aberta por um corredor longo. Os saqueadores chegaram antes dos arqueólogos, que em 1837 encontraram a câmara vazia.

Fanagória, a capital da margem asiática, tem um terço das ruínas debaixo d'água, porque o nível do mar Negro subiu desde a Antiguidade. Mergulhadores tiram dali ânforas e restos de cais.

O ouro da Crimeia viajou para Amsterdã em 2014, para uma exposição no Museu Allard Pierson. Naquele ano a Rússia anexou a península, e museus da Crimeia e a Ucrânia disputaram as peças na Justiça holandesa. Em 2023, a Suprema Corte dos Países Baixos mandou entregar o acervo à Ucrânia.

O que não se sabe

Não se sabe quantas pessoas viviam no reino, nem quanto trigo ele exportava fora do ano que Demóstenes cita. Os 400 mil medimnos são o número de um orador num processo, sem conferência possível, e o arquivo dos reis se perdeu.

Também não se sabe como terminou a última dinastia. As moedas acabam, as crônicas se calam, e os arqueólogos datam o fim pelas camadas de incêndio e abandono das cidades.

As fontes

Para conferir: Contra Leptines, de Demóstenes, de 355 antes de Cristo, e o livro VII da Geografia, de Estrabão, do começo do século I.

Para o conjunto, o historiador russo Mikhail Rostovtzeff reuniu arqueologia e textos em Iranians and Greeks in South Russia (Iranianos e gregos no sul da Rússia), publicado em 1922.

A 45 graus norte, o estreito de Kerch segue com seus quatro quilômetros de água rasa entre a Crimeia e Taman. Do monte Mitrídates se veem as colunas da acrópole e, sobre o canal onde Neoptólemo lutou no gelo, a ponte da Crimeia, aberta em 2018, por onde hoje passam trens de carga.

 
 
Quiz da edição

No discurso Contra Leptines, de 355 antes de Cristo, quantos medimnos de trigo por ano Demóstenes atribuiu à importação vinda do Reino do Bósforo?

A100 mil medimnos
B400 mil medimnos
C1 milhão de medimnos
D250 mil medimnos

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