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ED 102

Os templos que os cham ergueram sem uma junta visível

Torres de tijolo levantadas no vale de Mỹ Sơn com as peças coladas umas nas outras, e nenhum restaurador moderno conseguiu refazer a liga.

Os templos que os cham ergueram sem uma junta visível

Torre de tijolo cham no vale de Mỹ Sơn

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A LINHA DO TEMPO

192, a fundação de Lâm Ấp na costa de Quảng Nam → século IV, o rei Bhadravarman ergue o primeiro santuário de Mỹ Sơn → 1177, uma frota cham sobe o rio e saqueia Angkor → 1471, Lê Thánh Tông toma Vijaya e reduz Champa a um principado no sul → 1832, Minh Mạng absorve o resíduo de Panduranga e o nome Champa sai do mapa.

No vale de Mỹ Sơn, no Vietnã central, torres de tijolo de mil anos ficam de pé sem junta visível entre as peças.

A técnica sumiu junto com a corte que a encomendava, e nunca foi escrita.

No vale de Mỹ Sơn, a uns quarenta quilômetros da costa de Quảng Nam, no centro do atual Vietnã, um conjunto de torres de tijolo vermelho fica encaixado numa bacia estreita cercada de morros cobertos de mato. Quem chega de manhã encontra a névoa parada entre as paredes e um som constante de água correndo no riacho que dá a volta no sítio.

De perto, a parede das torres tem um comportamento estranho. Não se enxerga a linha de argamassa entre um tijolo e o seguinte. As peças aparecem coladas umas nas outras, com um encosto tão fechado que a superfície parece talhada num bloco único e depois riscada em quadrículas. Em alguns painéis, a decoração em relevo foi esculpida depois da parede pronta, atravessando vários tijolos sem que o corte revele onde termina um e começa o outro.

Quem construiu essas torres foram os cham, um povo de língua austronésia que se instalou na faixa costeira entre as montanhas e o mar do Sul da China e ali montou uma federação de principados portuários que os textos chineses e vietnamitas chamam de Champa. A federação sustentou a costa por perto de mil anos, mandou embaixadas para a China, cobrou pedágio das rotas de especiaria e enviou uma frota rio acima para saquear Angkor.

O fim político veio em 1471. Lê Thánh Tông, imperador do Đại Việt, desceu com uma força grande sobre a capital de Vijaya, na atual província de Bình Định, tomou a cidadela em poucos dias e levou dezenas de milhares de prisioneiros para o norte. O território cham foi reduzido a um principado espremido no sul, e o que restava dele foi absorvido em definitivo pela administração imperial em 1832.

Quando o reino saiu do mapa, a técnica de assentamento saiu junto. Os arquitetos franceses que abriram Mỹ Sơn no início do século XX tentaram refazer trechos caídos com argamassa de cal e cimento, e as emendas modernas envelheceram pior que a alvenaria de mil e quinhentos anos ao lado delas.

Vale montar quem eram os cham e como uma costa estreita virou uma potência marítima duradoura, o que exatamente a técnica do tijolo revela sobre o funcionamento interno desse reino e por que ela sumiu, e onde checar a discussão de quem estuda o assunto hoje.

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I  O Estrato

A costa estreita que virou potência de porto

A primeira entidade política do litoral aparece nas fontes chinesas com o nome Lâm Ấp, fundada em 192 por um chefe local que aproveitou o enfraquecimento do controle Han sobre a comandância do extremo sul. Daí em diante o registro é contínuo por séculos: embaixadas, tributos, escaramuças de fronteira e nomes de reis anotados em Nanquim e depois em Hanói.

Os cham falavam uma língua austronésia, aparentada com o malaio e com as línguas do arquipélago indonésio, o que os separa dos vizinhos de língua austro-asiática do delta do rio Vermelho. Chegaram à costa por mar, não por terra, e essa origem explica boa parte do que vem depois.

A geografia impôs a forma do reino. A faixa entre a cordilheira Annamita e o mar é estreita, cortada por esporões de montanha que descem quase até a praia e separam as planícies em compartimentos. Nenhuma dessas planícies sustenta um exército agrícola grande como o do delta do rio Vermelho, ao norte.

O que cada compartimento tinha era um rio curto, um porto natural na foz e um corredor para o interior. Os cham montaram o reino em cima disso: Indrapura e Amaravati no norte, em Quảng Nam, Vijaya no centro, Kauthara e Panduranga no sul, cada uma com seu templo dinástico, sua nobreza e seu porto.

A riqueza vinha do que o interior produzia e o mar consumia. Madeira de agar, canela, marfim, cera e ouro desciam das montanhas pelas mãos dos povos do planalto, e eram trocadas nos portos cham por cerâmica chinesa, vidro e tecido. Some a isso a posição na rota entre o estreito de Malaca e Cantão, onde toda embarcação precisava de água doce e abrigo de monção.

Um levantamento das cerâmicas recolhidas nos sítios costeiros mostra material chinês, do Oriente Médio e do arquipélago indonésio na mesma camada, o que coloca portos cham dentro do circuito comercial que ligava o golfo Pérsico ao sul da China séculos antes de qualquer navegação europeia na região.

A cultura veio pelo mesmo caminho das mercadorias. A partir do século IV o sânscrito aparece nas inscrições, os reis adotam títulos indianos e o culto de Shiva se instala como religião de estado, com o santuário de Bhadresvara em Mỹ Sơn funcionando como centro dinástico por quase um milênio.

A política externa foi agressiva e razoavelmente bem-sucedida por muito tempo. Champa brigou com o Đại Việt ao norte e com o império Khmer a oeste, ganhou e perdeu campanhas, e em 1177 uma frota cham subiu o rio até o lago Tonlé Sap e saqueou Angkor, episódio que os relevos do Bayon registram em pedra.

O declínio foi progressivo e depois abrupto. O Đại Việt cresceu em população e organização fiscal, empurrou a fronteira para o sul província por província, e em 1471 tomou Vijaya. Sem a capital central e sem a nobreza que sustentava os templos, a federação perdeu o eixo e o resto foi questão de tempo.

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II  O Padrão

O tijolo que grudou e o reino que nunca virou um só

A parede cham é feita de tijolo de barro cozido, de textura porosa e cor que vai do salmão ao vermelho escuro. As fiadas são regulares, os blocos têm dimensões próximas entre si, e o assentamento é tão apertado que a maioria dos visitantes precisa encostar a mão para se convencer de que existem peças separadas ali.

A discussão técnica gira em torno do que segura uma peça na outra. Três hipóteses circulam nos estudos. A primeira sustenta que os tijolos foram assentados ainda meio cozidos e a torre inteira queimada depois, fundindo as faces. A segunda propõe uma pasta feita do mesmo barro dos tijolos, aplicada em camada finíssima. A terceira, hoje a mais aceita, aponta uma liga vegetal, resina da árvore dầu rái, comum na região, misturada ao barro.

Análises de laboratório em amostras de Mỹ Sơn identificaram uma camada de ligante de menos de um milímetro entre as faces, com composição mineral quase idêntica à do próprio tijolo, o que explica por que a junta some a olho nu: o material que cola a parede é o mesmo material da parede.

Nenhuma das hipóteses foi confirmada a ponto de permitir reprodução confiável. Equipes italianas, indianas e vietnamitas trabalham em Mỹ Sơn desde os anos 1980 testando fórmulas, e o resultado prático é que as intervenções de restauro continuam distinguíveis a três metros de distância.

O detalhe que mais interessa é que a técnica nunca foi escrita. Não existe tratado cham de arquitetura, não existe manual de oficina, não existe inscrição que descreva a mistura. O conhecimento morava inteiro em oficinas hereditárias ligadas aos templos dinásticos, transmitido de mestre para aprendiz na obra.

Aqui a técnica e a política se encontram. Champa não era um estado centralizado com uma capital que mandava nas outras. Era o que os historiadores chamam de mandala: um arranjo de centros de poder que reconheciam um rei mais forte enquanto ele fosse forte, e voltavam a agir por conta quando ele fraquejava.

Esse arranjo tem uma vantagem real. Quando um inimigo tomava uma planície, as outras continuavam funcionando, e por isso Champa absorveu derrotas pesadas ao longo de séculos sem sair do mapa. A costa aguentou invasão chinesa, campanha khmer e várias descidas do Đại Việt.

A desvantagem apareceu no encontro com um adversário que tinha centralizado de verdade. O Đại Việt do século XV tinha cadastro de terras, exército recrutado por província e burocracia treinada em exame. Contra uma máquina assim, a federação não conseguiu somar as próprias planícies num esforço único.

Quando Vijaya caiu, a rede de patrocínio caiu junto. Sem corte que encomendasse templo, a oficina que sabia a mistura perdeu a encomenda, depois o aprendiz, depois a razão de existir. A parede continuou de pé, e a instrução para levantar outra igual sumiu em uma ou duas gerações.

O Espelho: repare em quanto do que a sua operação faz bem depende de gente que aprendeu fazendo e nunca escreveu o passo. Ajuste de máquina, sequência de fechamento, o jeito de contornar aquele fornecedor específico.

Escolha hoje um procedimento que só existe na cabeça de duas pessoas e peça a elas que escrevam a versão feia dele, com fotos do celular. Técnica sem registro dura exatamente o tempo de quem a executa.

 
 

III  O Arquivo

Onde checar Champa e as torres de Mỹ Sơn

Para uma síntese moderna de história, sociedade e arte cham, ver Trần Kỳ Phương e Bruce Lockhart, The Cham of Vietnam: History, Society and Art, NUS Press, 2011, que reúne arqueologia recente e revisa a leitura antiga do reino como estado unitário.

Para o corpus documental de base, a referência continua sendo Georges Maspero, Le Royaume de Champa, Éditions G. Van Oest, 1928, montado sobre as crônicas chinesas e vietnamitas, útil pela cronologia e datado na interpretação.

Para o sítio em si, ver o dossiê de inscrição de Mỹ Sơn na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, de 1999, que documenta o estado de conservação dos grupos de torres e os danos de bombardeio dos anos 1960.

Vale um aviso sobre a técnica do tijolo. As análises publicadas divergem quanto ao ligante, as amostras vêm de poucos grupos do sítio, e a apresentação da resina de dầu rái como resposta fechada vai além do que os dados sustentam.

Vale outro aviso sobre a cronologia dinástica. Boa parte dela vem de fontes externas, chinesas e vietnamitas, escritas por adversários, e os nomes de reis das inscrições em sânscrito nem sempre casam com os nomes das crônicas.

 
 
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