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ED 119

Os taínos sumiram do censo e ficaram no dicionário

Uma contagem de 1514 em Hispaniola listou o que restava do povo que nos deixou furacão, canoa, cacique e tabaco.

Os taínos sumiram do censo e ficaram no dicionário

Canoa taína escavada em tronco, Hispaniola

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A LINHA DO TEMPO

por volta de 600 d.C., grupos de língua aruaque vindos do delta do Orinoco consolidam a ocupação das Grandes Antilhas → cerca de 1200, formam-se os cacicados com praças cerimoniais de pedra e campos de batey → dezembro de 1492, Cristóvão Colombo encalha a nau Santa María na costa norte de Hispaniola e deixa o forte La Navidad → 1494 a 1498, o frei Ramón Pané convive com os taínos e escreve a primeira etnografia europeia sobre um povo americano → 1503, a rainha Isabel autoriza a encomienda, repartição de indígenas entre colonos → dezembro de 1511, o dominicano Antonio de Montesinos denuncia o regime em sermão em Santo Domingo → 1512, as Leis de Burgos tentam regular o trabalho indígena → 1514, o repartimiento conduzido por Rodrigo de Alburquerque cadastra cerca de 26 mil taínos na ilha → 1519 a 1533, o cacique Enriquillo sustenta uma revolta na serra do Bahoruco e negocia paz com a Coroa → 1535, Gonzalo Fernández de Oviedo publica a Historia general y natural de las Indias, com o vocabulário da ilha

Na costa norte de Hispaniola, o vento girava algumas vezes por ano e derrubava as aldeias de madeira e palma.

O povo que o batizou de hurakán cabia, em 1514, numa lista de cerca de 26 mil nomes.

A 19 graus de latitude norte, no arco das Grandes Antilhas, a ilha de Hispaniola sobe do mar em cordilheiras que passam de 3.000 metros, com o pico Duarte a 3.098. Quem se aproximava de barco pela costa norte via três faixas empilhadas: a linha branca da arrebentação sobre o recife, o verde fechado do vale do Cibao e, ao fundo, a serra azul da Cordilheira Central. Nessa planície corriam rios com ouro de aluvião, e nas praias havia aldeias de casas redondas de madeira e palma.

Entre agosto e outubro, algumas vezes por ano, o horizonte dessa mesma costa escurecia e o vento girava. Derrubava as casas, arrancava a plantação e revirava o mar sobre o recife. O povo da ilha chamava o fenômeno de hurakán, palavra que os cronistas espanhóis anotaram cedo e que Gonzalo Fernández de Oviedo registrou na Historia general y natural de las Indias, publicada em 1535. Do espanhol huracán ela passou ao português como furacão.

A mesma língua deixou canoa, do taíno kanoa, o barco escavado em tronco único que Cristóvão Colombo descreveu no diário da primeira viagem. Deixou cacique, o chefe de um território. Deixou tabaco, maracá, rede de dormir, barbecue e goiaba. São palavras que o brasileiro usa sem pensar na origem, e todas vêm de um vocabulário aruaque falado num arquipélago a 4.000 quilômetros de Salvador.

Em 1514, pouco mais de vinte anos depois do primeiro desembarque, a Coroa espanhola mandou fazer uma contagem geral dos indígenas de Hispaniola para redistribuí-los entre os colonos. A operação, conduzida pelo funcionário real Rodrigo de Alburquerque, listou por nome, aldeia e encomendeiro cerca de 26 mil pessoas na ilha inteira.

Vale reconstruir quem eram os taínos antes de 1492, como viviam e o que produziam, o que a contagem de 1514 media de fato e por que um vocabulário sobreviveu ao cadastro que o gerou.

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I  O Estrato

A ilha antes da vela branca no horizonte

Os taínos, povo de língua aruaque aparentado aos grupos do baixo Orinoco, ocupavam as Grandes Antilhas havia perto de novecentos anos quando as caravelas apareceram. A arqueologia do Caribe acompanha a chegada de cerâmica e de plantas cultivadas da América do Sul para as ilhas a partir do primeiro milênio, numa série de saltos de arquipélago que terminou em Cuba e em Hispaniola.

A base alimentar era a mandioca amarga, plantada em conucos, montes de terra fofa erguidos com bastão de cavar que seguravam a umidade na estação seca. A raiz é tóxica crua. Eles ralavam, prensavam num tubo trançado de fibra para escorrer o veneno e assavam a massa em disco de barro, obtendo o casabe, pão seco que durava meses sem mofar. Pescavam com rede, armadilha de cerco e uma técnica que impressionou os espanhóis, o peixe-rêmora preso por uma linha e solto para grudar na tartaruga marinha.

A sociedade tinha camadas nítidas. No topo ficava o cacique, chefe hereditário de um território, sucedido pela linha da irmã. Abaixo dele vinham os nitaínos, a camada de nobres e chefes de aldeia, e os behiques, especialistas rituais que curavam e consultavam os cemís, ídolos de pedra, madeira ou algodão que representavam ancestrais e forças naturais. A maioria da população trabalhava a terra e o mar.

A ilha inteira estava repartida em cinco cacicados grandes, Marién, Maguá, Maguana, Xaraguá e Higüey, cada um com praça central de pedra, campo de jogo de bola e rede própria de aldeias tributárias.

O jogo de bola tinha nome, batey, e era coisa séria: praça retangular delimitada por lajes gravadas, bola de borracha vegetal batida com quadril e joelho, disputa entre aldeias, aposta de bens. A memória coletiva circulava em areítos, cantos narrativos coletivos acompanhados de tambor e maracá, que guardavam genealogia de caciques e feitos antigos.

Quem registrou o que essa gente pensava foi um frade catalão da ordem de São Jerônimo, Ramón Pané, mandado por Colombo em 1494 para conviver com os taínos e aprender a língua. O relato que escreveu entre 1494 e 1498, a Relación acerca de las antigüedades de los indios, traz os mitos de origem da ilha, o culto aos cemís e o ritual da cohoba, pó alucinógeno aspirado por tubo duplo antes das decisões importantes. É a primeira etnografia europeia sobre um povo americano, e chegou até nós apenas numa tradução italiana de 1571, porque o original espanhol se perdeu.

A população da ilha em 1492 continua em disputa aberta entre especialistas: as estimativas publicadas variam de algumas centenas de milhares a vários milhões, conforme o método, e nenhuma delas tem base documental firme. Quem escreve sobre o tema sem citar o autor da conta está inventando precisão.

 

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II  O Padrão

O que a contagem de 1514 realmente mediu

Cristóvão Colombo encalhou a nau Santa María na costa norte de Hispaniola em dezembro de 1492, aproveitou a madeira para erguer o forte La Navidad e voltou à Espanha deixando trinta e nove homens. Ao retornar no ano seguinte, achou o forte queimado e todos mortos. A segunda viagem já trouxe mil e duzentos colonos, cavalos, cães de guerra e a exigência de ouro.

O sistema que se montou ali funcionava por tributo e por trabalho. Cada adulto de território submetido devia entregar uma cota de ouro em pó ou de algodão em prazo fixo. A partir de 1503, com autorização da rainha Isabel de Castela, a repartição virou institucional: grupos de indígenas eram entregues a um colono, que recebia a obrigação formal de convertê-los à fé católica e o direito prático de empregá-los nas minas de aluvião e nas roças.

O trabalho na mina tirava gente do conuco na estação de plantio. Sem plantio não havia casabe, e a fome entrou junto com a varíola, o sarampo e a gripe, para os quais não existia defesa imunológica nas Antilhas. Aldeias inteiras se desfizeram. Grupos fugiram para a serra, outros foram levados às ilhas vizinhas como mão de obra de reposição.

A denúncia veio de dentro da própria Igreja. No quarto domingo do Advento de 1511, o dominicano Antonio de Montesinos pregou em Santo Domingo diante das autoridades da colônia e perguntou com que direito mantinham aquela gente em servidão cruel. O sermão foi relatado por Bartolomé de las Casas na Historia de las Indias, escrita a partir de 1527. A reação da Coroa foram as Leis de Burgos de 1512, que regulavam jornada, alimentação e descanso sem encerrar o regime.

Cadastrar um povo para distribuí-lo é a forma mais fria de admitir que ele virou insumo: a lista de 1514 tem nome, aldeia e proprietário em cada linha.

Foi nesse quadro que Rodrigo de Alburquerque recebeu a missão de recontar e redistribuir. O levantamento de 1514 percorreu as vilas espanholas da ilha e registrou os indígenas encomendados por vila, por encomendeiro e por cacique de origem, somando por volta de 26 mil pessoas. O documento sobreviveu e foi publicado pelo historiador dominicano Emilio Rodríguez Demorizi em 1971, sob o título Los dominicos y las encomiendas de indios de la isla Española.

A cifra pede cuidado. Ela conta quem estava dentro do sistema de encomienda, não a população total da ilha: fugidos, refugiados na serra e grupos fora do alcance dos oficiais ficaram de fora, e parte dos cadastrados havia sido trazida de outras ilhas. Serve como piso documentado, jamais como número final.

“Vi aqui crueldades tão grandes, que nunca os vivos nem os mortos viram nem pensaram ver semelhantes."”
Bartolomé de las Casas, Brevísima relación de la destrucción de las Indias, 1552.

Resistência houve, e uma delas deu certo. Entre 1519 e 1533, o cacique Enriquillo, criado em convento espanhol e alfabetizado, sustentou uma revolta na serra do Bahoruco por catorze anos e obrigou a Coroa a negociar. O acordo de 1533 garantiu liberdade e terra aos que estavam com ele.

O Espelho: um sistema que mede pessoas pela função que cumprem nele enxerga apenas quem já está capturado, e confunde o próprio alcance com o tamanho do mundo. A lista de 1514 era precisa dentro da própria lógica e cega para tudo que corria fora dela, inclusive para a serra do Bahoruco, que continuaria dando trabalho por mais catorze anos. Vale perguntar, de vez em quando, quantas linhas o seu painel de controle deixa de fora por não saber nomear.

III  O Arquivo

Onde checar os taínos, a lista e as palavras

Para as fontes do período, ver Ramón Pané, Relación acerca de las antigüedades de los indios, escrita entre 1494 e 1498 e preservada em tradução italiana de 1571, que traz mitos, cemís e o ritual da cohoba; Bartolomé de las Casas, Historia de las Indias, redigida a partir de 1527, e a Brevísima relación de la destrucción de las Indias, de 1552; e Gonzalo Fernández de Oviedo, Historia general y natural de las Indias, de 1535, que descreve o casabe, a canoa escavada e o vento giratório.

Para a documentação administrativa, o levantamento de 1514 está editado em Emilio Rodríguez Demorizi, Los dominicos y las encomiendas de indios de la isla Española, de 1971, e a legislação do período aparece nas Leis de Burgos de 1512, reproduzidas nas coletâneas de legislação indiana.

Para a arqueologia e a língua, ver Irving Rouse, The Tainos: Rise and Decline of the People Who Greeted Columbus, publicado pela Yale University Press em 1992, que organiza a sequência cerâmica do Caribe e a rota aruaque desde o Orinoco. As etimologias de furacão, canoa, cacique, tabaco e maracá estão registradas nos dicionários etimológicos de português e espanhol, com a marca de origem taína ou aruaque antilhana.

Vale um aviso de método sobre a demografia. Não existe consenso sobre a população de Hispaniola em 1492, e as reconstruções publicadas desde o século XX chegam a resultados distantes entre si porque partem de premissas distintas sobre densidade agrícola e sobre a confiabilidade dos cronistas. Qualquer texto que apresente um número redondo como fato consolidado está escondendo o debate.

Vale outro aviso sobre o desaparecimento. Os taínos deixaram de existir como sociedade autônoma e como categoria administrativa no século XVI, e não como linhagem biológica: estudos de DNA em populações atuais do Caribe encontram ascendência indígena antilhana persistente, e comunidades em Porto Rico e na República Dominicana reivindicam a identidade taína hoje.

Entre agosto e outubro, o vento continua girando sobre a mesma costa norte de Hispaniola onde a Santa María encalhou, e o boletim que o brasileiro assiste no litoral de casa chama o fenômeno pelo nome que aquele povo deu antes de virar linha de cadastro: furacão.

 
 
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Em 1514, a contagem conduzida por Rodrigo de Alburquerque em Hispaniola registrou por nome, aldeia e encomendeiro quantos taínos na ilha inteira?

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