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ED 113

Os Sailendra ergueram Borobudur e a corte foi embora

Por volta de 800, quase dois milhões de blocos subiram uma colina de Java; um século depois a capital mudou de rio e a obra ficou para trás.

Os Sailendra ergueram Borobudur e a corte foi embora

Estupas perfuradas no terraço alto de Borobudur

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A LINHA DO TEMPO

778, a inscrição de Kalasan registra um rei Sailendra e um templo budista → c. 780, começam as fundações na colina de Kedu → 824, a inscrição de Karangtengah cita a consagração de um santuário budista no reinado de Samaratungga → c. 830, os terraços altos e as estupas perfuradas são concluídos → c. 856, Balaputra deixa Java e aparece depois em Sumatra → 929, Mpu Sindok transfere a corte para o vale do rio Brantas, no leste de Java → 1006 e depois, erupções do Merapi cobrem a planície → 1814, Raffles manda Cornelius limpar a colina → 1975 a 1982, a Unesco desmonta e remonta os terraços.

Numa colina da planície de Kedu, no centro de Java, quase dois milhões de blocos de pedra vulcânica foram encaixados sem argamassa.

Um século depois de pronta, a corte que bancava a obra mudou de rio e a cinza do Merapi fechou por cima.

A 265 metros de altitude, no meio da planície de Kedu, no centro da ilha de Java, uma colina baixa se levanta num anel de quatro vulcões: Merapi e Merbabu a leste, Sumbing e Sundoro a oeste. O Merapi, o mais ativo de todos, fica a menos de trinta quilômetros dali e é visível da colina em dia limpo. Quem sobe até o alto vê a planície inteira de arroz, os rios que descem da encosta e a fumaça no cone.

Sobre essa colina existe uma construção de pedra vulcânica que ocupa cerca de 123 metros de lado na base. Não é um templo oco com sala interna e imagem no fundo. É uma montanha artificial de terraços encaixados, nove níveis sobrepostos, seis quadrados e três circulares, com um corredor que sobe em espiral pelas galerias. As paredes desses corredores trazem mais de 2.600 painéis de relevo esculpidos. Nos nichos e nas estupas perfuradas do alto foram instaladas 504 imagens de Buda sentado.

O material é andesito, rocha vulcânica cortada em blocos e assentada sem argamassa, encaixe contra encaixe, no volume que se aproxima de dois milhões de peças. Cada bloco foi extraído dos leitos de rio da vizinhança, arrastado morro acima e ajustado à mão. A obra ocupou o centro de Java por volta de 780 a 830, no período em que a dinastia Sailendra patrocinava santuários budistas na planície.

E há o dado que muda a leitura. Um século depois de a última estupa ser fechada, a corte que bancava tudo aquilo se mudou para o leste da ilha, para o vale de outro rio, a centenas de quilômetros dali. A pedra ficou onde estava. As cinzas do Merapi foram cobrindo os terraços, a vegetação fechou por cima, e a colina virou um monte qualquer no meio do arrozal até 1814, quando um administrador britânico mandou uma turma limpar o mato.

Vale reconstruir quem eram os Sailendra e o que uma obra dessas exigia da ilha.

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I  O Estrato

Quem encomendou a montanha de pedra

Os Sailendra não deixaram crônica dinástica, palácio escavado nem lista completa de reis. O que existe deles são inscrições em pedra e em cobre, algumas em sânscrito e outras em javanês antigo, espalhadas pelo centro de Java e por sítios do sudeste asiático. O próprio nome traduz algo como senhor da montanha, e aparece em documentos do fim do século VIII.

A inscrição de Kalasan, datada de 778, registra a construção de um santuário dedicado à divindade budista Tara por ordem de um soberano da casa, com terras entregues à comunidade monástica. A de Karangtengah, de 824, menciona a consagração de um santuário budista no reinado de Samaratungga e a doação de arrozais para a manutenção do culto. A epigrafia javanesa trabalhada por J.G. de Casparis, da Universidade de Leiden, em estudos publicados a partir de 1950, é a base de quase toda a reconstrução dessa linhagem.

Duas tradições religiosas convivem na mesma planície e no mesmo par de gerações. A poucos quilômetros da colina de Kedu está Prambanan, complexo xivaíta monumental erguido pela casa Sanjaya na mesma janela de tempo. Casamentos ligaram as duas casas: Pramodhawardhani, filha de Samaratungga, casou com Rakai Pikatan, da linhagem xivaíta, e o desfecho dessa aliança tira os Sailendra do primeiro plano em Java.

Uma obra de dois milhões de blocos assentados sem argamassa não é feita por um rei devoto, é feita por um Estado capaz de mobilizar trabalho de corveia por décadas seguidas e de garantir arroz para quem trabalha.

A conta é de logística agrária. A planície de Kedu tem solo vulcânico e chuvas de monção, o que permite duas colheitas de arroz irrigado por ano. Esse excedente sustenta as aldeias que fornecem braços na entressafra, os canteiros de cantaria, os monges e os artesãos que esculpem os relevos. Sem essa base, o canteiro para.

A obra também não nasceu pronta no papel. A escavação mostra que o projeto foi alterado durante a construção: houve mudança de forma nos terraços superiores e reforço na base, provavelmente por instabilidade da massa de pedra sobre a colina. O nível mais baixo dos relevos, chamado de base escondida, ficou soterrado por um encamisamento de contenção e só foi documentado em fotografia depois que uma parte do revestimento foi removida no início do século XX.

O programa iconográfico é uma biblioteca. Os relevos das galerias narram em sequência textos budistas conhecidos, entre eles a vida do Buda no Lalitavistara e a peregrinação de Sudhana no Gandavyuha. Quem percorre o corredor na ordem correta lê a doutrina inteira com os pés, e chega no alto onde as figuras já não têm parede nem narrativa, só as estupas de pedra vazada.

 

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II  O Padrão

A capital muda de rio e a pedra fica

O centro de gravidade de Java se deslocou no século X. Em 929, o soberano Mpu Sindok transferiu a corte da planície de Kedu para o vale do rio Brantas, no leste da ilha, e as inscrições de reis javaneses a partir dessa data passam a ser emitidas de lá. O centro do poder mudou de bacia hidrográfica, e não voltou.

As explicações para a mudança se dividem. O geólogo holandês R.W. van Bemmelen, em obra publicada em 1949, propôs que uma grande erupção do Merapi arrasou a planície e forçou a saída. Historiadores posteriores apontam razões menos dramáticas e mais persistentes: o Brantas dá acesso direto ao mar e ao comércio de especiarias com a China, enquanto Kedu fica no interior, e o poder segue a rota de troca.

O efeito sobre a colina é o mesmo nos dois cenários. Um monumento daquele porte não se sustenta sozinho. Ele depende de arrozais doados que pagam a manutenção, de monges residentes, de peregrinos que chegam em calendário fixo, de gente que corta a vegetação nas juntas e desentope os drenos da encosta. Tudo isso é rotina financiada pela corte. Quando a corte muda de endereço, a rotina não migra junto.

A pedra vulcânica encaixada dura séculos sem manutenção; a instituição que precisa daquela pedra dura o tempo do orçamento que a alimenta.

> "Borobudur não foi destruído nem profanado. Foi simplesmente abandonado quando o centro de poder e de população de Java se transferiu para o leste."

> John Miksic, Borobudur: Golden Tales of the Buddhas, 1990

O que veio depois foi acúmulo. As erupções do Merapi, recorrentes ao longo dos séculos seguintes, depositaram cinza sobre a planície inteira. A vegetação tropical avançou pelas galerias e as raízes abriram as juntas secas. Nos séculos seguintes o islã se espalhou pela ilha, e a colina deixou de ter função de culto para quem morava em volta, embora tradições javanesas mais tardias continuassem tratando o lugar como perigoso e carregado.

O reencontro veio pela administração colonial. Em 1814, durante o interregno britânico em Java, o tenente-governador Thomas Stamford Raffles ouviu falar de uma montanha de pedra esculpida no interior e enviou o engenheiro holandês H.C. Cornelius com uma turma de duzentos homens. Foram semanas derrubando mato e removendo terra até os terraços superiores aparecerem. Raffles publicou a notícia do achado em The History of Java, em 1817.

Vale marcar o que o abandono não foi. Não houve saque religioso, não houve demolição por rival, não houve queda de população na região. Os relevos que faltam hoje foram levados no século XIX e no XX, muito depois, por colecionadores e por autoridades coloniais. O dano maior daqueles novecentos anos veio da água que entrou nas juntas, empurrou os blocos e desalinhou paredes inteiras.

O Espelho: obra construída para durar séculos costuma ser financiada por um orçamento que dura anos, e a diferença entre os dois prazos é o que decide o estado dela. Quando a decisão que sustenta a manutenção é tomada longe do objeto, a deterioração não aparece no dia da decisão, aparece uma geração depois, quando já não há a quem cobrar.

III  O Arquivo

Onde checar Borobudur, Kedu e a mudança para o leste

Para a leitura do monumento, do programa de relevos e da história do abandono e do redescobrimento, ver John Miksic, Borobudur: Golden Tales of the Buddhas, com fotografia de Marcello Tranchini, publicado originalmente em 1990 e reeditado depois pela Tuttle.

Para a epigrafia dos Sailendra e a reconstrução da linhagem, ver os volumes de J.G. de Casparis, Prasasti Indonesia, publicados em 1950 e 1956, que trazem a leitura e a tradução das inscrições de Kalasan, Karangtengah e demais documentos do período.

Para a história geral da ilha no período clássico e a mudança do centro de poder para o vale do Brantas, ver Merle Calvin Ricklefs, A History of Modern Indonesia since c. 1200, publicado pela Palgrave Macmillan, cujos capítulos iniciais tratam do fundo javanês antigo.

Para a engenharia da restauração, ver a documentação técnica da Unesco sobre o projeto executado entre 1975 e 1982, quando os terraços quadrados foram desmontados bloco a bloco, receberam camadas de drenagem e impermeabilização e foram remontados na posição original.

Vale um aviso de método. A cronologia de construção não vem de uma inscrição de fundação, que nunca apareceu, e sim do cruzamento entre estilo escultórico, epigrafia da região e datas de reinado, o que deixa margem de algumas décadas em cada extremo.

Vale outro aviso sobre a narrativa da erupção. A tese de que um evento vulcânico único expulsou a corte de Kedu continua sem confirmação estratigráfica que a amarre ao ano da mudança, e a alternativa comercial explica o mesmo deslocamento sem precisar de catástrofe.

As estupas perfuradas do terraço alto continuam ali, a 265 metros de altitude, com o Merapi visível ao fundo, e a cinza que as escondeu por novecentos anos saiu do mesmo cone que fertilizou o arroz com que a obra foi paga.

 
 

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De acordo com a inscrição de Kalasan, em que ano um soberano Sailendra ordenou a construção do santuário budista dedicado à divindade Tara?

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