|
O centro de gravidade de Java se deslocou no século X. Em 929, o soberano Mpu Sindok transferiu a corte da planície de Kedu para o vale do rio Brantas, no leste da ilha, e as inscrições de reis javaneses a partir dessa data passam a ser emitidas de lá. O centro do poder mudou de bacia hidrográfica, e não voltou.
As explicações para a mudança se dividem. O geólogo holandês R.W. van Bemmelen, em obra publicada em 1949, propôs que uma grande erupção do Merapi arrasou a planície e forçou a saída. Historiadores posteriores apontam razões menos dramáticas e mais persistentes: o Brantas dá acesso direto ao mar e ao comércio de especiarias com a China, enquanto Kedu fica no interior, e o poder segue a rota de troca.
O efeito sobre a colina é o mesmo nos dois cenários. Um monumento daquele porte não se sustenta sozinho. Ele depende de arrozais doados que pagam a manutenção, de monges residentes, de peregrinos que chegam em calendário fixo, de gente que corta a vegetação nas juntas e desentope os drenos da encosta. Tudo isso é rotina financiada pela corte. Quando a corte muda de endereço, a rotina não migra junto.
A pedra vulcânica encaixada dura séculos sem manutenção; a instituição que precisa daquela pedra dura o tempo do orçamento que a alimenta.
> "Borobudur não foi destruído nem profanado. Foi simplesmente abandonado quando o centro de poder e de população de Java se transferiu para o leste."
> John Miksic, Borobudur: Golden Tales of the Buddhas, 1990
O que veio depois foi acúmulo. As erupções do Merapi, recorrentes ao longo dos séculos seguintes, depositaram cinza sobre a planície inteira. A vegetação tropical avançou pelas galerias e as raízes abriram as juntas secas. Nos séculos seguintes o islã se espalhou pela ilha, e a colina deixou de ter função de culto para quem morava em volta, embora tradições javanesas mais tardias continuassem tratando o lugar como perigoso e carregado.
O reencontro veio pela administração colonial. Em 1814, durante o interregno britânico em Java, o tenente-governador Thomas Stamford Raffles ouviu falar de uma montanha de pedra esculpida no interior e enviou o engenheiro holandês H.C. Cornelius com uma turma de duzentos homens. Foram semanas derrubando mato e removendo terra até os terraços superiores aparecerem. Raffles publicou a notícia do achado em The History of Java, em 1817.
Vale marcar o que o abandono não foi. Não houve saque religioso, não houve demolição por rival, não houve queda de população na região. Os relevos que faltam hoje foram levados no século XIX e no XX, muito depois, por colecionadores e por autoridades coloniais. O dano maior daqueles novecentos anos veio da água que entrou nas juntas, empurrou os blocos e desalinhou paredes inteiras.
O Espelho: obra construída para durar séculos costuma ser financiada por um orçamento que dura anos, e a diferença entre os dois prazos é o que decide o estado dela. Quando a decisão que sustenta a manutenção é tomada longe do objeto, a deterioração não aparece no dia da decisão, aparece uma geração depois, quando já não há a quem cobrar.
|