Sponsored by

Civilizações Perdidas   Civilizações Perdidas
ED 108

Os reis de Himyar apagaram os antigos deuses da pedra em 380

Um reino do planalto do Iêmen trocou o panteão por um deus único nas inscrições, e acabou em 525 com uma frota vinda da outra margem.

Os reis de Himyar apagaram os antigos deuses da pedra em 380

Zafar, capital de Himyar, no planalto do Iêmen

▼

A LINHA DO TEMPO

c. 275, Himyar submete Saba e Hadramaute e concentra o poder em Zafar → c. 380, as inscrições reais param de nomear Almaqah e 'Athtar e passam a gravar Rahmanan → século V, inscrições em sabeu com fórmulas judaicas e a palavra Israel aparecem no planalto → 522, o rei Yusuf As'ar Yath'ar move campanha contra a comunidade cristã de Najran → 525, uma frota aksumita cruza o mar Vermelho e derruba o reino → c. 530, Abraha governa Himyar como vice-rei → 570, o poder sassânida substitui o aksumita no Iêmen.

A 2.800 metros, no planalto do Iêmen, a colina de basalto de Zafar guarda os alicerces de uma cidade murada.

Por volta de 380, os reis que governavam dali apagaram o panteão das inscrições oficiais.

A 2.800 metros de altitude, no planalto que separa a costa do mar Vermelho do deserto interior do Iêmen, uma colina de basalto escuro chamada Zafar sustenta os alicerces de uma cidade murada. Do alto dali se veem terraços agrícolas cortados na encosta, cisternas cavadas na rocha e o traçado das estradas que desciam mil e poucos metros até as terras quentes e os portos.

O ar rarefeito importa para entender o lugar. Naquela altitude chove no verão, o cereal cresce e a malária das planícies não chega. Quem controlava o planalto tinha comida própria, clima frio, muralha em pedra vulcânica e uma vantagem militar sobre qualquer exército que tivesse de subir a encosta carregado.

Foi dali que os reis de Himyar governaram o sul da Arábia por dois séculos e meio. E foi ali que, por volta de 380 da nossa era, aconteceu a mudança que torna esse reino estranho no mapa da Antiguidade tardia.

As inscrições reais em pedra do sul da Arábia seguiam uma fórmula estável havia mais de mil anos. O texto nomeava o rei, a obra feita, e agradecia aos deuses do panteão: Almaqah, 'Athtar, dhat-Himyam, dhat-Ba'dan, cada um com seu templo e sua clientela. A partir do último quarto do século IV, o painel de nomes some das pedras oficiais. No lugar dele passa a aparecer uma expressão só, Rahmanan, o Misericordioso, às vezes acompanhada da fórmula senhor do céu e da terra.

A troca não é literária. Ela acontece na epigrafia real, na dedicatória de obra pública, na inscrição de barragem, no texto que um governante manda talhar para durar. O epigrafista francês Christian Julien Robin, do CNRS, e a pesquisadora polonesa Iwona Gajda, que reuniu o corpus dessas inscrições em livro de 2009, situam o corte por volta de 380 e mostram que ele foi rápido, oficial e sem retorno.

Cinco gerações depois da mudança de vocabulário, uma frota atravessou o mar Vermelho vinda da costa africana e encerrou o reino em 525.

Vale reconstruir o que Himyar era enquanto funcionava, entender o mecanismo que transforma uma escolha religiosa de Estado em pretexto de invasão estrangeira, e ver onde checar cada afirmação.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Estrato

Zafar, o planalto e o reino que virou as costas ao deserto

Himyar aparece nas fontes clássicas ainda no século I, como um dos povos do canto sudoeste da Arábia, ao lado de Saba, Ma'in, Qataban e Hadramaute. O Périplo do Mar Eritreu, manual grego de navegação escrito por volta do ano 60, já registra a região e os portos por onde passavam incenso, mirra e mercadoria indiana.

O salto acontece por volta de 275, quando os reis himiaritas submetem Saba e depois Hadramaute e concentram tudo num título único: rei de Saba, dhu-Raydan, Hadramaute e Yamanat. Raydan é o nome do palácio fortificado de Zafar, e a menção do palácio dentro do título real diz onde ficava o centro de gravidade do poder.

A capital anterior da região, Marib, ficava na borda do deserto e vivia da grande barragem e da rota de caravanas que subia pelo interior da península até a Síria. Zafar fica no alto, longe do deserto e perto da encosta que desce para o mar. A mudança de capital é uma mudança de modelo econômico inteira.

Himyar apostou no planalto agrícola e no comércio marítimo, e deixou a rota das caravanas do incenso, que já vinha perdendo tráfego para a navegação de monção entre o Egito, o Índico e a Índia, seguir seu declínio sem tentar segurá-la.

A cidade que a arqueologia mostra combina com essa aposta. A equipe do arqueólogo Paul Yule, da Universidade de Heidelberg, que trabalhou em Zafar entre 1998 e 2010, mapeou um perímetro murado com mais de quatro quilômetros de circuito, cisternas escavadas na rocha e blocos com relevo em calcário importado de fora do planalto.

A agricultura de terraço sustentava a população. Encosta íngreme cortada em degraus retém água de chuva de monção e solo, e permite cereal onde a inclinação natural não permitiria nada. Cada terraço exige muro de arrimo, manutenção anual e mão de obra coordenada, o que significa autoridade capaz de organizar trabalho coletivo por gerações.

O reino também tinha alcance para fora do planalto. Inscrições himiaritas registram campanhas na Arábia central e uma presença política bem além do Iêmen atual. O estreito de Bab el-Mandeb tem menos de trinta quilômetros de largura, e o reino de Aksum, na atual Etiópia, era vizinho de travessia curta.

Essa vizinhança tem registro antigo de atrito. Aksum já havia intervindo no sul da Arábia no século III, e reis aksumitas usaram títulos que reivindicavam domínio sobre território arábico. Himyar controlava a margem asiática de um estreito por onde passava o comércio entre o Mediterrâneo e o Índico, e nenhuma potência da região tratava aquela margem como assunto alheio.

O contexto maior pesava também. Roma, depois Bizâncio, queria rota segura para a Índia sem depender do território sassânida. A Pérsia sassânida queria o contrário. Aksum era cristão desde meados do século IV e alinhado a Constantinopla. Himyar ficava exatamente no ponto onde as três pressões se encontravam.

 

Quem banca a edição de hoje

How 2M+ Professionals Stay Ahead on AI

AI is moving fast and most people are falling behind. 

The Rundown AI keeps you ahead of the curve. 

It's a free AI newsletter that keeps you up-to-date on the latest AI news, and teaches you how to apply it in just 5 minutes a day.

Plus, complete the quiz after signing up and they’ll recommend the best AI tools, guides, and courses — tailored to your needs.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

II  O Padrão

Quando um Estado troca o panteão por um nome só

A mudança de 380 tem uma característica que a separa de conversão popular: ela aparece primeiro no texto oficial. O rei manda gravar, o funcionário grava, e o vocabulário novo desce do topo. Os templos dos deuses antigos param de receber dedicatória nova, e a epigrafia privada acompanha a mudança ao longo das décadas seguintes.

O conteúdo dessas inscrições monoteístas é reservado. Rahmanan aparece sem genealogia divina, sem consorte, sem imagem. Algumas fórmulas pedem bênção para o rei e para seu povo, outras invocam o senhor do céu e da terra em pedidos de chuva ou de vitória. A escolha do vocabulário evita marcar filiação a qualquer comunidade religiosa nomeada.

Parte do corpus, porém, é explícita. Inscrições do planalto trazem fórmulas em hebraico ao lado do sabeu, mencionam o povo de Israel, citam a palavra shalom e nomeiam sinagoga. Iwona Gajda e Christian Julien Robin leem esse conjunto como evidência de que a elite himiarita adotou o judaísmo, com graus variados de explicitação conforme o momento político.

A inscrição conhecida como Bayt al-Ashwal, encontrada reaproveitada na parede de uma casa em Zafar, registra a construção de uma residência por um homem chamado Yehuda Yakkuf e termina com uma fórmula de bênção sobre o povo de Israel, escrita em hebraico depois do texto em sabeu.

O mecanismo que interessa aqui vale para muito além do século IV. Quando um Estado define sua identidade por uma escolha religiosa, ele ganha coesão interna e ganha inimigos externos na mesma assinatura. A escolha que unifica súditos também informa a potência vizinha de que lado aquele território está.

Himyar ficou entre um império cristão a oeste, separado dele por trinta quilômetros de água, e um império zoroastrista a nordeste. A opção da corte por uma terceira via religiosa fez sentido enquanto a corte era forte. Quando ela deixou de ser, a mesma opção virou justificativa pronta.

A crise chegou em 522. O rei Yusuf As'ar Yath'ar, conhecido na tradição posterior como Dhu Nuwas, moveu campanha militar contra a cidade de Najran, no norte do reino, onde havia comunidade cristã organizada e ligada a Bizâncio e a Aksum. As próprias inscrições do rei registram a operação, o número de prisioneiros e a destruição da igreja local.

A reação foi imediata. Fontes siríacas circularam em Constantinopla relatando o que acontecera em Najran, e em 525 uma frota aksumita comandada pelo rei Kaleb cruzou o mar Vermelho com apoio logístico bizantino, derrotou Yusuf e instalou governo cliente em Himyar. Por volta de 530, um general chamado Abraha assumiu o controle e governou o Iêmen por décadas. Em 570, o poder sassânida substituiu o aksumita, e nenhuma dinastia himiarita voltou ao planalto.

O Espelho: repare em quanto da identidade declarada da sua operação, a posição pública, o lado escolhido, o manifesto, funciona como coesão interna e como endereço para quem quiser mirar. Declaração e alvo são o mesmo texto lido por públicos diferentes.

A pedra que um governo talha para durar mil anos também informa, a quem chegar de barco, exatamente o que aquele governo defende.

III  O Arquivo

Onde checar Himyar, Zafar e as inscrições do planalto

Para o corpus das inscrições monoteístas e a datação do corte por volta de 380, ver Iwona Gajda, Le royaume de Ḥimyar à l'époque monothéiste, publicado pela Académie des Inscriptions et Belles-Lettres em 2009, que reúne os textos, as leituras e a discussão sobre a filiação religiosa da corte.

Para a leitura histórica de conjunto, ver os estudos de Christian Julien Robin, do CNRS, entre eles o volume Arabia and Ethiopia, capítulo do Oxford Handbook of Late Antiquity de 2012, e seus artigos sobre o judaísmo himiarita e sobre a cronologia dos reis.

Para o sítio da capital, ver Paul Yule, Late Antique Arabia: Ẓafār, Capital of Ḥimyar, publicado pela Reichert Verlag em 2013, com os resultados das campanhas de escavação, o mapeamento da muralha e o catálogo dos blocos esculpidos.

Vale um aviso sobre as fontes do episódio de Najran. Boa parte do relato vem de textos cristãos siríacos, entre eles o Livro dos Himiaritas e a carta atribuída a Simeão de Beth Arsham, escritos por autores comprometidos com um dos lados, e o número de vítimas que eles apresentam não pode ser tratado como contagem verificada.

Vale outro aviso sobre o próprio termo judaísmo himiarita. A epigrafia real usa vocabulário deliberadamente neutro, e o grau de adesão da corte à prática judaica organizada segue em discussão entre especialistas, com leituras que vão da conversão plena a um monoteísmo de Estado apenas próximo dela.

A inscrição de Bayt al-Ashwal continua em Zafar, a 2.800 metros, encaixada na parede de uma casa construída séculos depois, com o texto sabeu de um homem chamado Yehuda Yakkuf e a bênção em hebraico gravada logo abaixo.

 
 

Ebook + app · Civilizações Perdidas

Capa do ebook O Cofre de Roma
O app no celular

o ebook, dentro do app

O Cofre de Roma, no ebook e no app.

Roma caiu e algumas famílias saíram mais ricas. Veja o que elas fizeram com o patrimônio. No app, marcado, anotado e seu pra sempre.

Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Segundo a edição, em que ano uma frota vinda da margem africana do mar Vermelho atravessou o estreito e derrubou o reino de Himyar?

A380, ano em que as inscrições reais pararam de nomear os deuses antigos
B522, ano da campanha do rei Yusuf As'ar Yath'ar contra Najran
C525, ano da invasão da frota aksumita
D570, ano em que o poder sassânida substituiu o aksumita no Iêmen

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🗿🗿🗿🗿🗿  ótima 🗿🗿🗿🗿  boa 🗿🗿🗿  ok 🗿🗿  ruim 🗿  péssima
 
Escolha a próxima edição

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A pauta vencedora vira uma próxima edição.

Voto aberto até 08/09, 15h30

A Os calusa da Flórida →
B O reino de Zhongshan →
C A Cólquida do velo de ouro →
D A cultura Lapita →

100% escolheram O reino judaico de Himyar na ed 105

 
 
Recomendação de Newsletter
Batalha do Dia

Batalha do Dia

Uma batalha por dia, com a decisão que definiu a vitória e o que mudou depois da guerra, em dois minutos. No seu email todo dia às 20:20.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Chame mais um explorador pra escavação

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
EDIÇÃO
Colecionador
 
DO MÊS
🥇
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook O Cofre de Roma
ebook O Cofre de Roma

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
Amanhã nesta news

ED 110 · amanhã às 20:20

O reino de Zhongshan

Em 1974, a tumba do rei Cuo em Pingshan devolveu uma placa de bronze com a planta do cemitério real…

 

O passado fala. Sic transit gloria mundi.

CIVILIZAÇÕES PERDIDAS

Toda civilização já foi o futuro. Até deixar de ser

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos