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Os quilmes resistiram 130 anos na fortaleza de pedra

No vale Calchaquí, um povo de montanha segurou os espanhóis por gerações e acabou levado a pé até Buenos Aires

Ruínas em terraços do pucará de Quilmes no vale Calchaquí

Pucará de Quilmes, vale Calchaquí, Tucumán

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A LINHA DO TEMPO

1560, primeira revolta dos vales → 1657, Bohórquez se diz inca em Pomán → 1658, começa a terceira guerra → 1665, cerco ao pucará → 1666, os quilmes chegam a pé ao rio da Prata

A cerca de 2.000 metros de altitude, na encosta oeste do vale Calchaquí, no noroeste da Argentina, um morro de pedra parda sobe do chão seco. Do alto dele se via o vale inteiro: os cardones (cactos em coluna, altos como um poste), o leito largo do rio Santa María e, a leste, a serra do Aconquija com neve no topo.

Na encosta, os quilmes ergueram muros de pedra seca (pedra encaixada sem argamassa) e centenas de casas em terraços, uma acima da outra, até os postos de vigia no cume. Os povos andinos chamavam esse tipo de fortaleza de pucará, palavra quíchua para fortaleza no alto do morro.

Os quilmes pertenciam ao grupo que os espanhóis chamaram de diaguitas ou calchaquíes: agricultores de milho e criadores de lhamas que falavam o kakán, a língua nativa dos vales. Plantavam no fundo do vale e subiam para o pucará quando vinha guerra.

A guerra chegou com os espanhóis, que entraram nos vales em meados do século XVI atrás de prata e de braços para o trabalho. Os vales se levantaram em 1560, de novo em 1630 e uma terceira vez em 1658. Cada revolta foi esmagada, e cada vez os espanhóis voltavam para suas cidades sem controlar o vale.

O pucará de Quilmes segurou por último. Durante mais de cento e trinta anos, os quilmes desceram para plantar e subiram para resistir, e nenhuma expedição conseguiu fixar moradores espanhóis entre eles.

Em 1665, o governador de Tucumán, Alonso de Mercado y Villacorta, fechou o vale em volta do morro, queimou o milho e esperou a fome. Os quilmes se renderam. A Coroa decidiu tirar o povo inteiro da montanha: as famílias foram postas em fila e caminharam por mais de mil quilômetros, até a margem do rio da Prata, onde chegaram em 1666.

O cerco final teve um prólogo improvável. O Estrato volta ao homem que acendeu a última guerra: um andaluz que dizia descender dos incas.

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I  O Estrato

O inca nascido na Andaluzia

Pedro Bohórquez nasceu na Andaluzia, no sul da Espanha, no começo do século XVII, e chegou moço ao Peru atrás de fortuna. Passou anos em expedições pela selva e em prisões coloniais, e aprendeu o quíchua, a língua do antigo Império Inca.

Em 1656, entrou nos vales calchaquíes e se apresentou aos chefes como descendente dos incas, herdeiro do sangue de Atahualpa, o imperador inca executado pelos espanhóis em 1533. Os caciques (chefes das aldeias) o aceitaram e passaram a tratá-lo como soberano.

O acordo de Pomán

Em 1657, Mercado y Villacorta recebeu Bohórquez na aldeia de Pomán, com festa e cerimônia. O andaluz prometeu entregar à Coroa as minas de ouro escondidas dos incas e levar os índios dos vales à fé católica. Em troca, ganhou do governador o título de tenente nos vales.

O acordo durou poucos meses. O vice-rei do Peru, em Lima, desconfiou da manobra e mandou prender o falso inca. Bohórquez, cercado de guerreiros armados, escolheu o lado deles, e em 1658 começou a terceira guerra calchaquí.

Os quilmes lutaram a última guerra sob um rei inca nascido na Espanha.

A rendição do falso inca

Bohórquez se entregou em 1659, com promessa de perdão, e foi levado a Lima. Passou oito anos preso e, em 1667, foi executado na cidade, acusado de tramar outra revolta de dentro da cadeia.

A prisão não apagou o efeito do teatro. Durante dois anos, aldeias que nunca tinham agido juntas seguiram um mesmo comandante, e a guerra que ele acendeu sobreviveu à saída dele dos vales.

Os vales seguiram em guerra sem ele. Os quilmes, no pucará, viraram o último núcleo armado, e as expedições espanholas dos anos seguintes voltaram sem tomar o morro.

O cerco de 1665

Mercado y Villacorta montou a campanha final em 1665, com soldados espanhóis e guerreiros de outros povos dos vales que já tinham feito as pazes com a Coroa. Em vez de subir a encosta, fechou o vale: queimou as plantações, tomou as fontes de água e prendeu quem descia para buscar comida.

O jesuíta Hernando de Torreblanca, missionário nos vales durante a guerra, registrou essas campanhas e o papel de Bohórquez na Relación histórica de Calchaquí (Relato histórico de Calchaquí), escrita em 1696. A rendição dos quilmes veio pelo cerco, sem assalto final à muralha de pedra.

 

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II  O Padrão

Tirar o povo da terra

Os espanhóis tinham nome para a pena aplicada aos quilmes: desnaturalización, a palavra castelhana para arrancar um povo da terra onde nasceu. A lógica cabia numa linha: um povo de montanha sem a montanha deixa de ser ameaça.

O padrão aparece em impérios de épocas e continentes distantes. Quem não consegue tomar a fortaleza remove os moradores, e o lugar se esvazia sem precisar de batalha.

A marcha

Os quilmes foram divididos. Parte das famílias ficou espalhada em fazendas de Tucumán e Catamarca, entregue a encomenderos (colonos espanhóis com direito ao trabalho dos índios). O grupo maior seguiu em fila para o sudeste, atravessou os pampas e chegou à costa do rio da Prata.

A caminhada levou meses. Os escritos do governador Mercado registram cerca de 200 famílias levadas a Buenos Aires, e as perdas da marcha seguem sem número confiável.

Perto de Buenos Aires, a Coroa criou para eles a Redução da Exaltação da Santa Cruz dos Quilmes. Redução era o nome do povoado de índios posto sob controle de padres e funcionários do rei, com terra para plantar e obrigação de trabalho.

O vale ficou sem os quilmes, e os quilmes ficaram sem montanha, a mil quilômetros dela.

O mesmo gesto em outros impérios

No século VIII antes de Cristo, o rei assírio Tiglate-Pileser III fez da deportação a política central do império: povos rebeldes eram trocados de lugar com outros, para quebrar o laço entre gente e terra. As tribos do norte de Israel, levadas pelos assírios em 722 antes de Cristo, somem das fontes depois disso.

Os próprios incas, cujo sangue Bohórquez dizia carregar, faziam o mesmo. Chamavam de mitmaq (colonos transplantados) as comunidades inteiras que o império movia de uma província para outra, para vigiar povos recém-conquistados ou espalhar os rebeldes pelo território.

No vale Calchaquí, os espanhóis aplicaram uma ferramenta que os incas já tinham usado nos Andes. Mudou o dono do império; a pena seguiu igual.

O espelho

O método tinha uma vantagem prática sobre o assalto: não custava soldados. Bastava tempo, escolta e uma estrada longa o bastante para que ninguém achasse o caminho de volta.

Uma posição forte demais para ser tomada costuma terminar assim: o adversário desiste de vencê-la e passa a esvaziá-la. Em Quilmes, os muros nunca caíram. Caiu o vínculo entre o morro e quem o defendia, e sem gente o pucará virou ruína em poucas gerações.

III  O Arquivo

Uma cidade com o nome dos vencidos

A redução dos quilmes perto de Buenos Aires encolheu ao longo do século XVIII. Doenças, fugas e casamentos com recém-chegados diluíram a comunidade, e a terra comum foi sendo ocupada por colonos.

Em 1812, depois da Revolução de Maio, o governo de Buenos Aires extinguiu a redução e transformou o povoado em vila comum. O nome ficou: a cidade de Quilmes é hoje um dos municípios da Grande Buenos Aires.

A cerveja

Em 1888, o imigrante alemão Otto Bemberg abriu uma cervejaria na cidade e a batizou com o nome do lugar. A Cerveza Quilmes virou uma das marcas mais conhecidas da Argentina, e o nome de um povo deportado passou a circular em rótulos pelo país inteiro.

O morro reconstruído

O pucará ficou abandonado por três séculos. Em 1977, o governo da província de Tucumán mandou reconstruir parte dos muros, sob direção do arqueólogo Norberto Pelissero, e abriu o sítio à visita.

Em 1992, a província cedeu a exploração turística ao empresário Héctor Cruz, que construiu um hotel e um museu junto às ruínas. A Comunidade Índia Quilmes, formada por descendentes que ficaram nos vales, contestou a concessão e, em 2007, ocupou a entrada do sítio. Desde então, a comunidade controla a visita ao pucará.

A ocupação dividiu a própria comunidade e a província, e o caso correu anos nos tribunais de Tucumán. O hotel fechou, e o museu ficou sob guarda dos descendentes.

O que não se sabe

Não se sabe quantos quilmes viviam no pucará antes do cerco, nem quantos sobreviveram à marcha: os documentos coloniais citam famílias e lotes de índios, sem uma contagem confiável do total. O kakán sumiu sem gramática nem dicionário; restam nomes de lugares e algumas palavras soltas.

As fontes para conferir são a Relación histórica de Calchaquí, de Hernando de Torreblanca, e o livro De quimeras, rebeliones y utopías, da historiadora argentina Ana María Lorandi, publicado em 1997 sobre Bohórquez e a última guerra dos vales.

A quase 2.000 metros, os muros de pedra seca seguem de pé na encosta oeste do vale Calchaquí, refeitos em parte em 1977. Do cume ainda se vê o rio Santa María e o Aconquija; a mil quilômetros dali, uma cidade e um rótulo de cerveja carregam o nome de quem desceu o morro em fila.

 
 
Quiz da edição

Como o governador Alonso de Mercado y Villacorta conseguiu, em 1665, forçar a rendição dos quilmes no pucará?

AAtacou a muralha de pedra em assalto direto após semanas de bombardeio
BNegociou diretamente com Pedro Bohórquez para abrir os portões
CCercou o vale, queimou as plantações de milho e tomou as fontes de água até vir a fome
DUsou guerreiros aliados para escalar os muros em ataque noturno

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