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Os nomes que os romanos riscaram num porão do Magdalensberg

Na Caríntia, por volta de 15 a.C., o reino celta que vendia aço a Roma entrou no império sem guerra

Cidade romana de comércio na encosta do Magdalensberg, por volta de 15 a.C.

Encosta do Magdalensberg, Caríntia, século I a.C.

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A LINHA DO TEMPO

113 a.C., os cimbros vencem o cônsul Carbão perto de Noreia → 58 a.C., César derrota Ariovisto, cunhado do rei Vócio → 49 a.C., Vócio manda 300 cavaleiros a César → século I a.C., mercadores de Aquileia fundam a cidade do Magdalensberg → por volta de 15 a.C., Nórico passa ao domínio de Augusto → por volta de 45 d.C., Cláudio cria a província e funda Virúnio → 1502, achado o Jovem do Magdalensberg → 1948, começam as escavações

O Magdalensberg sobe a 1.059 metros acima do mar, no sul da Áustria, na região da Caríntia. Do cume se enxerga a planície do Zollfeld, os Alpes ao sul e, em dia limpo, as serras de onde saía o minério de ferro mais disputado do mundo romano. No cume, os celtas do lugar já tinham um povoado fortificado antes da chegada dos italianos.

Na encosta sul, um pouco abaixo do topo, existiu uma cidade de comércio fundada no século I antes de Cristo por mercadores vindos de Aquileia, o porto romano no norte do Adriático. Não havia quartel nem acampamento de legião. Havia armazéns, oficinas, banhos e porões.

Nas paredes de alguns desses porões, os comerciantes deixaram riscos feitos com ponta de metal: nomes de pessoas, nomes de cidades, cifras em numeral romano e palavras para mercadorias. São anotações de balcão, escritas por quem fechava negócio e precisava lembrar quanto devia a quem.

O que eles compravam era o ferrum Noricum (ferro do Nórico), um metal que saía das fornalhas da região já próximo do aço, duro o bastante para virar espada, ferramenta e prego de navio. O Nórico era um reino celta, governado por reis próprios, que negociava com Roma havia gerações.

Por volta de 15 antes de Cristo, o reino passou ao domínio do imperador Augusto. Nenhuma fonte antiga registra batalha, cerco ou triunfo celebrado em Roma por essa anexação. As legiões que tomaram os Alpes naquele mesmo ano marcharam por perto e seguiram para o norte.

Os vizinhos do Nórico não tiveram a mesma sorte. Récios e vindélicos, povos dos Alpes centrais, foram vencidos em campanha e entraram nas listas de povos submetidos que Augusto mandou gravar em pedra.

Para entender como um reino inteiro troca de dono sem guerra, é preciso começar pelo metal e pelos reis que o vendiam.

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I  O Estrato

O reino que vendia o aço

O reino de Nórico ocupava boa parte do que hoje são a Caríntia e a Estíria, na Áustria, com pedaços da Eslovênia e da Baviera. Os romanos chamavam de Norici a confederação de tribos celtas da região, e de Noreia a capital, citada por autores antigos e nunca localizada com certeza pelos arqueólogos.

Noreia entra nos textos por uma derrota romana. Em 113 antes de Cristo, os cimbros, povo germânico em migração, invadiram o território, e o cônsul Cneu Papírio Carbão marchou para proteger os nóricos, que Roma tratava como hospites (hóspedes, aliados de amizade formal). O exército romano perdeu perto de Noreia.

O minério das montanhas

A riqueza vinha do subsolo. As jazidas de Hüttenberg, na Caríntia, têm minério de ferro com manganês, e o manganês ajuda o metal a sair da fornalha com parte do carbono que o transforma em aço. Os ferreiros nóricos não precisavam conhecer a química: bastavam o minério certo e o forno certo.

Na Estíria, o Erzberg (montanha do minério) é explorado até hoje. Para os romanos, o ferro do Nórico virou marca de qualidade, lembrada por poetas como se lembra um vinho de origem.

O poeta Ovídio usou o metal como medida de dureza:

“Mais duro que o ferro que o fogo nórico refina.”

Ovídio, Metamorfoses, livro XIV, por volta de 8 d.C.

O verso fala de uma moça de coração duro, e não de metalurgia. Mas o poeta escolheu o ferro do Nórico porque o leitor romano sabia do que se tratava.

O rei Vócio

Os reis de Nórico negociavam com Roma de igual para igual. Júlio César registra, nos comentários sobre a guerra civil, que em 49 antes de Cristo o rei de Nórico lhe mandou 300 cavaleiros para a campanha na Hispânia.

Nos comentários sobre a Gália, César dá o nome desse rei, Vócio, e conta que uma irmã dele foi casada com Ariovisto, chefe germânico que o próprio César derrotou em 58 antes de Cristo. O reino tinha laços dos dois lados dos Alpes e sabia escolher aliado.

Nórico não tinha legiões para vencer Roma, mas tinha o metal de que as legiões precisavam.

Os mercadores de Aquileia subiram as montanhas atrás desse metal. A cidade do Magdalensberg nasceu como entreposto (posto de compra e estoque), instalado dentro do reino com licença dos reis locais, décadas antes de qualquer governador romano pisar ali.

Ali o ferro era pesado, contado e embarcado em lombo de mula rumo ao sul. Os comerciantes viviam em casas com pintura de parede no estilo da Itália, comiam azeite e vinho trazidos do Adriático e escreviam em latim, enquanto os nóricos em volta falavam a língua celta.

 

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II  O Padrão

O testamento de Pérgamo

Roma cresceu quase sempre pela espada, mas houve casos em que o território chegou por papel. O mais famoso fica na costa da atual Turquia: Pérgamo, reino grego cuja biblioteca rivalizava com a de Alexandria.

Em 133 antes de Cristo, o rei Átalo III deixou em testamento o reino ao povo romano. Átalo não tinha filho, e Pérgamo já vivia havia décadas como aliado de Roma, com tratados, embaixadas e comércio constante.

A herança não saiu limpa. Aristônico, que se dizia meio-irmão do rei, levantou parte do reino contra Roma, e a guerra durou até 129 antes de Cristo. Só então a região virou a província da Ásia.

Três passos de uma anexação sem batalha

Os dois reinos seguiram uma sequência parecida, que se repete em outras fronteiras do império:

1. Primeiro vem o negócio: mercadores estrangeiros se instalam com licença do rei e o reino passa a depender do comprador.

2. Depois vem a aliança: o rei manda tropas, filhos ou irmãs para o lado do vizinho maior e ganha título de amigo.

3. Por último vem a administração: um funcionário de fora passa a cobrar imposto, e o rei some dos documentos sem que ninguém registre a data.

Em Pérgamo, o terceiro passo veio por testamento e provocou revolta. Em Nórico, veio aos poucos e não deixou guerra nos registros.

O Espelho: Pérgamo e Nórico chegaram a Roma pela amizade, e só o barulho da passagem separou um do outro.

Augusto preparava naquele período a campanha contra récios e vindélicos, conduzida em 15 antes de Cristo pelos enteados Druso e Tibério. O Nórico ficou no caminho, mas não entrou na conta dos vencidos.

O troféu que Augusto ergueu em La Turbie, nos morros sobre Mônaco, por volta de 6 antes de Cristo, lista dezenas de povos alpinos submetidos. Os nóricos não estão entre eles.

O reino que virou província

Depois de 15 antes de Cristo, o território ainda aparece como regnum (reino) em inscrições, com um procurador (administrador nomeado pelo imperador) no lugar do rei. Só sob o imperador Cláudio, por volta de 45 depois de Cristo, virou província com capital nova.

A capital foi Virúnio, construída na planície do Zollfeld, logo abaixo do Magdalensberg. A cidade da encosta foi abandonada na mesma época, e os moradores desceram o morro.

Os nóricos ganharam cidadania aos poucos e passaram a servir nas tropas auxiliares romanas. O ferro continuou saindo das mesmas minas, agora com imposto pago ao império.

III  O Arquivo

O porão que guardou as contas

Por séculos, a encosta guardou o passado sem que ninguém soubesse. Em 1502, um camponês que lavrava a terra achou uma estátua de bronze em tamanho natural de um rapaz, conhecida desde então como o Jovem do Magdalensberg.

A peça saiu da Caríntia ainda no século XVI e o original se perdeu. O Museu de História da Arte de Viena guarda uma cópia em bronze feita naquela época, e é por ela que se conhece a figura.

As escavações

As escavações sistemáticas começaram em 1948, conduzidas pelo Museu Estadual da Caríntia, e seguem em temporadas. Foi nelas que apareceram os porões de paredes riscadas.

Os riscos foram feitos com ponta de metal no reboco, em latim, por gente que sabia escrever o bastante para a contabilidade. Há nomes de comerciantes, cidades como Aquileia e cifras em numeral romano ao lado de mercadorias de ferro, como anéis e machados, a forma em que o metal viajava para ser trabalhado depois.

O epigrafista austríaco Rudolf Egger, que estudou as inscrições da cidade nas décadas de 1950 e 1960, leu ali o livro-caixa de uma praça de comércio: compras, vendas e destinos do ferro nórico rumo à Itália.

Os porões também guardaram moldes de fundição, restos de forjas e lingotes. A cidade não só comprava o ferro, como trabalhava parte dele antes de mandar para o sul.

O que não se sabe

Noreia, a capital dos reis, continua sem localização aceita, porque nenhum sítio escavado trouxe inscrição que a identifique. Vários lugares da Caríntia e da Estíria disputam a honra, sem prova.

Também não se sabe quem foi o último rei de Nórico nem em que ano exato ele deixou de governar. As fontes romanas não registram o fim da dinastia, e nenhuma moeda ou pedra que identifique esse rei apareceu. A data de 15 antes de Cristo é aproximada, tirada da campanha alpina de Augusto e das primeiras inscrições de funcionários romanos na região.

Fica a pergunta para você: quanto do que você entrega hoje a um cliente ou a uma empresa já decide a quem você vai pertencer daqui a dez anos?

Os porões continuam na encosta do Magdalensberg, a pouco mais de 1.000 metros de altitude, dentro do parque arqueológico aberto ao público. Nas paredes, os nomes riscados com ferro ainda registram quem comprava o metal que fez um reino trocar de dono sem uma batalha.

 
 
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