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Os mexicas escavaram Tula 300 anos depois do incêndio

No México central, a capital tolteca ardeu por volta de 1150, e o império mexica guardou os restos dela como certidão de família

Guerreiros de basalto no alto da Pirâmide B de Tula

Tula, Hidalgo, os atlantes da Pirâmide B

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A LINHA DO TEMPO

Século X, Tula vira capital tolteca → por volta de 1150, a cidade arde → 1325, fundação de Tenochtitlan → século XV, mexicas escavam Tula → 1940, Jorge Acosta acha os guerreiros na vala

A cerca de 2.000 metros de altitude, 65 quilômetros ao norte da Cidade do México, quatro homens de basalto estão de pé no alto de uma pirâmide de cinco degraus, em Tula, no estado de Hidalgo. Dali se vê o vale do rio Tula, a cidade moderna e as chaminés de uma refinaria no horizonte.

Cada figura mede perto de 4,6 metros e foi montada em quatro blocos encaixados, como tambores de uma coluna. Os guerreiros carregam um lançador de dardos numa das mãos, um feixe de dardos na outra, um peitoral de borboleta estilizada e um cocar de penas.

Nas costas de cada um, um disco preso ao cinto traz uma face solar esculpida. Os pés calçam sandálias amarradas no tornozelo, e os olhos e a boca tinham incrustações de concha e obsidiana, hoje perdidas.

Os arqueólogos chamam essas peças de atlantes (colunas esculpidas como homens, que sustentam um teto). Elas seguravam a cobertura do templo no topo da Pirâmide B, a construção mais alta do centro cerimonial que os toltecas ergueram entre os séculos X e XII.

Por volta de 1150, Tula ardeu. O fogo consumiu o salão de colunas ao lado da pirâmide, que os escavadores batizaram de Palácio Queimado, e a população foi embora. A cidade nunca voltou a ser capital.

Três séculos depois, os mexicas, o povo que fundou Tenochtitlan numa ilha do lago de Texcoco, mandavam gente cavar aquelas ruínas. Abriam túneis nas pirâmides, arrancavam relevos e levavam peças de pedra e cerâmica para a própria cidade.

Parte delas acabou enterrada sob o Templo Mayor, o santuário duplo no coração de Tenochtitlan, ao lado das oferendas dos próprios mexicas. Para eles, um objeto tolteca debaixo do templo valia como certidão de família.

Os guerreiros que hoje olham o vale passaram séculos longe do céu. O Estrato começa na face norte da pirâmide, onde eles foram achados em pedaços.

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I  O Estrato

A vala na face norte

O arqueólogo mexicano Jorge Ruffier Acosta, do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), começou a escavar Tula em 1940. Na face norte da Pirâmide B, ele encontrou uma vala larga cortada no corpo da construção e cheia de entulho.

Dentro dela estavam os blocos dos atlantes, partidos e misturados a pilares quadrados com relevos e às colunas de serpente emplumada que ladeavam a porta do templo. Ninguém tinha visto aquelas figuras inteiras desde o século XII.

Acosta remontou as peças e as recolocou no alto da pirâmide nos anos seguintes, sobre a plataforma onde o templo de madeira e palha tinha queimado. Um dos quatro guerreiros que o visitante vê hoje é réplica.

Quem abriu a vala não se sabe com certeza. O entulho não trazia peça datável que separasse um saque tolteca tardio de um saque mexica, mas Acosta registrou cerâmica asteca espalhada sobre as ruínas do centro cerimonial, sinal de gente do século XV circulando por ali.

Os túneis de saque vistos em outras construções de Tula reforçam a pista. Eles atravessam aterros e pisos com a técnica dos mineiros mexicas, e alguns terminam bem no ponto onde ficava uma escultura arrancada.

Os sinais do incêndio

O fogo deixou marca no Palácio Queimado: vigas carbonizadas, paredes avermelhadas pelo calor e pisos cobertos de cinza. Os bancos baixos do salão traziam frisos de guerreiros em procissão, pintados de vermelho, azul e amarelo.

Ao lado da pirâmide corria o coatepantli (muro de serpentes, em náuatle), uma parede com relevos de serpentes engolindo esqueletos humanos. Um trecho dele segue de pé, com a pintura quase apagada.

O motivo do incêndio segue em aberto, porque nenhuma camada de terra guardou a resposta. Seca prolongada, chegada de grupos chichimecas (os povos nômades do norte, na fala dos mexicas) e briga entre facções da própria cidade aparecem nas explicações, e nenhuma venceu as outras.

Os guerreiros sobreviveram ao fogo em pedaços, enterrados na pirâmide que sustentavam.

A cidade abaixo das ruínas

O arqueólogo americano Richard Diehl, da Universidade do Missouri, escavou as casas de Tula nos anos 1970. No livro Tula: The Toltec Capital of Ancient Mexico (Tula, a capital tolteca do México antigo), de 1983, ele calculou entre 30 mil e 60 mil moradores no auge da cidade.

As casas eram conjuntos de cômodos em volta de pátios, com um altar no centro. Ali moravam oleiros, talhadores de obsidiana (o vidro vulcânico usado em lâminas) e lavradores que plantavam milho nas encostas do vale.

Essa cidade de gente comum se esvaziou junto com o centro cerimonial. Depois de 1150 sobrou um povoado pequeno, e as pirâmides ficaram cobertas de terra e mato até a chegada dos mexicas.

 

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II  O Padrão

O avô dos mexicas

Os mexicas chegaram ao vale do México no século XIII como migrantes pobres, vindos de Aztlán, uma terra do norte que ninguém localizou no mapa. Por volta de 1325, fundaram Tenochtitlan numa ilha pantanosa do lago de Texcoco.

Para negociar com os vizinhos, faltava sangue nobre. Em 1376, escolheram como primeiro tlatoani (governante, em náuatle) Acamapichtli, ligado pela mãe à casa real de Culhuacan, cidade que se dizia herdeira direta de Tula.

A palavra tolteca virou elogio. Em náuatle, toltecatl (artesão de mão fina) designava o ourives, o pintor de livros e o plumário, e toltecayotl (a arte tolteca) significava refinamento.

Os governantes mexicas se apresentavam como continuadores dessa arte. Os cronistas indígenas do século XVI repetiam que os toltecas tinham inventado a escrita pintada, a medicina das ervas e o trabalho em pena, e quem descendia deles herdava o direito de mandar.

O relato de Sahagún

O frade franciscano Bernardino de Sahagún recolheu em náuatle a memória dos mexicas e reuniu o material no Códice Florentino, terminado por volta de 1577. No livro X, os informantes descrevem os toltecas como sábios, ricos e inventores do calendário.

O mesmo texto registra as escavações. Segundo os informantes de Sahagún, em Tula se achavam vasilhas, pedras verdes e restos das casas dos antigos, e quem cavava o chão tirava dali os tesouros guardados.

A lenda contava que o governante-sacerdote Ce Acatl Topiltzin Quetzalcoatl abandonou Tula, enganado pelo deus Tezcatlipoca, e partiu rumo ao leste. Os mexicas tratavam a cidade como a casa de um antepassado que tinha ido embora.

Para os mexicas, Tula provava que o império deles tinha avô.

De Tula à Babilônia

O gesto aparece em outros impérios que precisavam de passado. No século VI antes de Cristo, Nabonido, último rei da Babilônia, mandou cavar templos antigos da Mesopotâmia atrás das pedras de fundação de reis remotos, como Naram-Sin de Acad.

Ele restaurou os templos e registrou cada achado em cilindros de argila, hoje no Museu Britânico. Historiadores costumam chamá-lo de primeiro arqueólogo conhecido.

Em Tenochtitlan, a lógica se repetia: o governante novo enterrava o passado de outro povo debaixo do próprio templo, e dali em diante falava em nome dele.

III  O Arquivo

As peças sob o Templo Mayor

Em 1978, operários da companhia de luz acharam, numa esquina do centro da Cidade do México, o disco de pedra de Coyolxauhqui, a deusa lunar desmembrada. O achado abriu o Projeto Templo Mayor, dirigido pelo arqueólogo mexicano Eduardo Matos Moctezuma.

As escavações revelaram dezenas de caixas de oferenda enterradas nas sucessivas ampliações do templo. Entre as peças apareceram objetos mais velhos que o próprio santuário: máscaras de Teotihuacan, cidade abandonada séculos antes de Tula, e esculturas e vasilhas no estilo tolteca.

No alto do templo de Tláloc, o deus da chuva, os escavadores acharam um chac mool (estátua de homem reclinado com um prato sobre o ventre), modelo que os toltecas espalharam pelo centro do México.

A peça tem cores preservadas: o corpo azul e vermelho, o prato pronto para receber oferendas. Os mexicas a esculpiram em pedra própria, seguindo o modelo tolteca ponto por ponto.

A Casa das Águias

O arqueólogo Leonardo López Luján, que sucedeu Matos na direção do projeto, estudou o recinto ao norte do templo chamado Casa das Águias. No livro La Casa de las Águilas (A Casa das Águias), de 2006, ele mostrou que os bancos do salão copiam os do Palácio Queimado de Tula.

Os bancos mexicas trazem procissões de guerreiros esculpidas e pintadas sobre a pedra, com a composição dos frisos toltecas, feitas no século XV. A obra imitava uma ruína de três séculos.

López Luján descreve o gesto como arcaísmo (a cópia deliberada de um estilo antigo para reclamar a autoridade dele). Os mexicas enterravam peças de Tula e também reproduziam a arquitetura dela no centro do império.

Debaixo do Templo Mayor, a linhagem mexica ficou guardada em pedra tolteca.

O que sobrou no lugar

O Templo Mayor foi demolido pelos espanhóis depois de 1521, e as oferendas ficaram sob a cidade colonial até 1978. Desde 1987, um museu ao lado das ruínas expõe as peças achadas, as toltecas entre elas.

Tula virou zona arqueológica aberta à visita. O Palácio Queimado conserva os bancos com frisos, e o coatepantli ainda corre ao lado da pirâmide.

No alto da Pirâmide B, os guerreiros de basalto seguem olhando o vale do rio Tula a 2.000 metros, remontados sobre a vala onde passaram séculos em pedaços, e só três deles viram o fogo de 1150.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Onde está hoje o guerreiro original trocado por uma réplica no alto da Pirâmide B?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano o arqueólogo Jorge Acosta começou a escavar Tula e encontrou os blocos partidos dos atlantes numa vala na face norte da Pirâmide B?

A1983
B1325
C1940
D1150

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