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ED 118

Os heftalitas dobraram a Pérsia e só deixaram moedas recarimbadas

Mandaram na Báctria, na Sogdiana e em Gandara por quase um século, e chegaram até nós pela prata de outro império e pela pena de quem os detestava.

Os heftalitas dobraram a Pérsia e só deixaram moedas recarimbadas

Dracma sassânida recarimbado na planície de Balkh

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A LINHA DO TEMPO

por volta de 350 d.C., grupos vindos da Ásia Central interior começam a pressionar as fronteiras orientais do império sassânida → cerca de 450, os heftalitas aparecem nomeados em fontes persas, armênias e chinesas como poder estabelecido na Báctria → 474 a 476, o xá Peroz I é derrotado e capturado, e paga resgate em prata para ser libertado → 484, Peroz I cai em batalha contra os heftalitas perto de Balkh e o império sassânida passa a pagar tributo anual → 498, o príncipe sassânida Cavades I, exilado entre os heftalitas, retoma o trono de Ctesifonte com tropas emprestadas por eles → cerca de 500 a 530, os reis Toramana e Mihirakula estendem o domínio dessa esfera huna sobre Gandara e o noroeste da Índia → 518 a 522, o enviado chinês Song Yun visita a corte heftalita e registra o que viu → cerca de 557 a 561, a aliança entre o xá Cosroes I e o cã göktürk Istämi desmonta o poder heftalita e reparte as terras no rio Oxo → 1967, Robert Göbl publica o corpus numismático que organiza as moedas recarimbadas desses reis.

Na planície de Balkh, um dracma de prata persa circulava com um carimbo batido sobre o rosto do xá.

Era a assinatura de quem cobrava tributo do maior império do Oriente Próximo.

A 36 graus de latitude norte, por volta de 360 metros de altitude, a planície de Balkh se abre plana e seca ao pé do Hindu Kush, cujas cristas passam de 4.500 metros e ficam brancas boa parte do ano. Quem estivesse ali no século V via três faixas empilhadas no horizonte: a terra irrigada pelos canais do rio Balkh, verde em tabuleiros retos, o cascalho pardo onde a irrigação parava, e a serra gelada fechando o sul. A rota que ligava a China ao Mediterrâneo passava por essa planície, e quem cobrava pedágio nela ficava rico sem plantar nada.

Nos mercados dessa planície corria uma moeda de prata estranha. Era um dracma sassânida, cunhado nas casas da moeda de um império que ficava a mais de mil quilômetros dali, com o busto do xá persa de um lado e o altar do fogo do outro. Sobre o rosto do xá, porém, havia um carimbo aplicado depois: um pequeno punção com um monograma em letras gregas cursivas adaptadas para escrever a língua báctria, o idioma iraniano oriental da região.

O carimbo era a assinatura de quem mandava. A prata vinha de Ctesifonte, capital do império sassânida, às margens do rio Tigre, e chegava à planície como tributo. O carimbo era batido em cima por um poder que não tinha casa da moeda própria, não produzia literatura, não erguia inscrição monumental em rocha, e mesmo assim comandava a Báctria, a Sogdiana e Gandara.

Esse poder tem um nome nas fontes gregas, persas, armênias e chinesas: heftalitas. Os bizantinos os chamaram de hunos brancos. Entre cerca de 460 e 560 eles decidiram quem sentava no trono da Pérsia, cobraram pagamento anual do maior império do Oriente Próximo e tomaram um pedaço do noroeste da Índia. Depois sumiram do mapa político em poucos anos.

Vale reconstruir de onde essa gente veio, como vivia, o que aconteceu na planície em 484 e por que quase tudo que sabemos sobre eles foi escrito por vizinhos que os detestavam.

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I  O Estrato

Quem eram os hunos brancos de Balkh

Os heftalitas entram na história por volta de 450, já formados e já poderosos, e a pergunta mais básica sobre eles continua parcialmente aberta: de onde vieram. A hipótese mais aceita hoje, defendida pelo historiador francês Étienne de la Vaissière em trabalhos publicados a partir de 2003, é que se trata de um grupo originário do interior da Ásia Central, provavelmente da região das montanhas de Altai, que migrou para o sul entre 350 e 450 e assumiu o comando de uma população já instalada na Báctria.

O nome que usamos vem do grego heftalitai, forma que os autores bizantinos derivaram do título ou do nome dinástico que corria na região, registrado em báctrio como ebodalo. As crônicas chinesas os chamam de yeda ou hua; as armênias, de hepthal; as persas tardias, de hayatila. Nenhuma dessas palavras é o nome que eles davam a si mesmos, porque nenhum texto escrito por um heftalita sobre a própria origem chegou até nós.

A língua administrativa que usaram era o báctrio, idioma iraniano oriental escrito com um alfabeto grego adaptado, herdado do reino greco-báctrio fundado por veteranos de Alexandre séculos antes. Os documentos em pergaminho e couro achados no norte do Afeganistão, publicados a partir de 1997 pelo filólogo britânico Nicholas Sims-Williams, trazem contratos de venda, doações e recibos datados pela era local durante o período de domínio heftalita, com nomes de funcionários e valores em dracmas.

Um poder que escreve contrato de compra e venda na língua do lugar, sem impor a própria, não está de passagem: está cobrando renda de uma economia que decidiu preservar.

A vida material combinava duas camadas. A elite dominante vinha de uma tradição de pastoreio a cavalo, com arco composto, tenda de feltro e deslocamento sazonal entre pastagem de verão na altitude e pastagem de inverno na planície. Em volta dela havia cidades muradas de tijolo cru, oásis irrigados por canais, mosteiros budistas com relicários e uma rede de mercadores sogdianos que levava seda, vidro e escravos de um lado a outro do continente. Os heftalitas não substituíram essa economia. Sentaram em cima dela e passaram a cobrar.

O enviado chinês Song Yun, que atravessou a região entre 518 e 522 a mando da corte dos Wei do Norte e teve o relato preservado no Luoyang qielan ji, compilado por Yang Xuanzhi em 547, descreve uma corte que não morava em cidade. O rei recebia em tenda grande de feltro, a rainha usava um toucado alto com longas plumas, não havia registro escrito de leis, e os súditos das terras vizinhas mandavam presentes em prata e seda. Song Yun também anota que o rei não era budista e que tratava com dureza os mosteiros, observação que combina com relatos indianos sobre destruição de templos em Gandara.

Um detalhe físico aparece na arqueologia: crânios com deformação artificial alongada, obtidos por atadura na infância, em sepulturas da Ásia Central do período. A prática marcava pertencimento de grupo e reaparece nas moedas, nos bustos de cabeça comprida com diadema.

 

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II  O Padrão

O tributo que Ctesifonte pagou por duas gerações

O império sassânida, que governava a Pérsia desde 224, tratava a fronteira oriental como zona de pilhagem periódica. Peroz I, xá entre 459 e 484, resolveu encerrar a questão pela força e montou três campanhas. A primeira terminou em negociação. A segunda, entre 474 e 476, terminou com o próprio xá cercado, capturado e obrigado a pagar resgate em prata, deixando o filho como refém na corte inimiga até quitar a dívida.

A terceira, em 484, terminou pior. Segundo o historiador armênio Lazar de Parpi, que escreveu sua História da Armênia por volta de 500, os heftalitas cavaram uma vala larga diante da própria linha, cobriram com esteiras e terra e recuaram para atrair a cavalaria pesada persa. A carga sassânida caiu na vala. Peroz I tombou no campo com boa parte da nobreza e do exército. O corpo do xá nunca foi recuperado.

O preço da derrota foi um pagamento anual de Ctesifonte à corte heftalita, mantido por décadas, e a perda de controle sobre as províncias orientais. A submissão foi além do dinheiro. Em 496 o xá Cavades I foi deposto pela própria nobreza e fugiu para a corte heftalita, onde já vivera como refém; voltou em 498 com um exército emprestado e retomou o trono. Por alguns anos, quem decidia o nome do soberano persa morava na Báctria.

Cobrar renda de um império organizado rende mais do que administrar um: os heftalitas transformaram a derrota persa numa receita fixa, sem precisar governar a Mesopotâmia nem alimentar suas cidades.

No flanco sudeste, reis ligados à mesma esfera huna avançaram sobre Gandara, o vale do Peshawar, região de mosteiros e escolas budistas riquíssimas. Toramana e o filho Mihirakula, cujos nomes aparecem em moedas e em inscrições indianas do início do século VI, desmontaram o que restava do poder gupta no noroeste e ficaram na memória indiana como destruidores de mosteiros. O peregrino chinês Xuanzang, passando pela região por volta de 630, ainda anotou ruínas de templos atribuídas a Mihirakula.

“"Os heftalitas são de estirpe huna e levam o nome de hunos, mas não convivem nem fazem fronteira com os hunos que conhecemos. Vivem em terra fértil, têm um único rei, governam-se por leis e tratam com justiça uns aos outros e os vizinhos."”
Procópio de Cesareia, História das Guerras, livro I, capítulo 3, por volta de 550.

O fim veio de uma aliança entre dois inimigos do povo do meio. Cosroes I, filho de Cavades e xá a partir de 531, parou de pagar o tributo e procurou o cã Istämi, comandante da ala ocidental do recém-formado império göktürk, que vinha descendo das estepes do norte. Entre cerca de 557 e 561, prensados pelos turcos no norte e pelos persas no sul, os heftalitas perderam as batalhas decisivas na região de Bucara e o domínio se partiu. Cosroes ficou com a margem sul do rio Oxo, os turcos com a margem norte.

Não houve extermínio. Principados heftalitas menores seguiram como vassalos por mais de um século, e alguns ainda aparecem em registros árabes do século VIII. O que acabou em poucos anos foi a máquina de cobrança que sustentava tudo.

O Espelho: quem vive de taxar o fluxo alheio fica poderoso rápido e frágil na mesma medida, porque o poder inteiro depende de duas condições externas, a riqueza de quem paga e a ausência de um rival capaz de propor sociedade a esse pagador. Os heftalitas controlaram a rota mais lucrativa do continente por um século sem nunca construir base produtiva própria nem arquivo próprio. Quando persas e turcos se acertaram, sobrou o carimbo na prata dos outros. Vale conferir de vez em quando quanto da sua posição depende de um intermediário que duas partes poderiam cortar num acordo direto.

III  O Arquivo

Onde checar os heftalitas, o tributo e os carimbos

Para as fontes antigas, ver Procópio de Cesareia, História das Guerras, livro I, escrito por volta de 550, que traz a descrição bizantina dos hunos brancos e a campanha de Peroz; Lazar de Parpi, História da Armênia, de cerca de 500, com o relato da vala de 484; e o Luoyang qielan ji, de Yang Xuanzhi, compilado em 547, que preserva o diário da embaixada de Song Yun à corte heftalita.

Para a leitura moderna, ver Robert Göbl, Dokumente zur Geschichte der iranischen Hunnen in Baktrien und Indien, de 1967, corpus que organizou as emissões e os carimbos dessas dinastias, e os artigos de Étienne de la Vaissière sobre a origem centro-asiática do grupo, publicados a partir de 2003. Os contratos em língua báctria estão nas edições de Nicholas Sims-Williams, Bactrian Documents from Northern Afghanistan, publicadas a partir de 1997.

Vale um aviso de método. Quase tudo que se lê sobre os heftalitas foi escrito por inimigos ou por visitantes de passagem, em quatro tradições que discordam entre si até na grafia do nome. A cronologia interna dos reis depende em boa parte de numismática, e a atribuição de várias séries de moedas continua em debate entre especialistas.

Vale outro aviso sobre a identidade. Chamá-los de hunos é herança do vocabulário bizantino, não constatação de parentesco com os hunos de Átila. A relação entre os dois grupos segue sem resposta fechada, e pesquisadores discutem se a origem é turca, iraniana oriental ou uma mistura formada na migração.

O dracma de prata com o punção báctrio batido sobre o rosto do xá está catalogado em bandejas de gabinete numismático em Viena, Londres e Berlim, moeda persa carimbada por um poder que ninguém sabe nomear direito, cunhada a mil quilômetros da planície de Balkh onde valia.

 
 
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Quiz da edição

Em 484, o que aconteceu com o xá sassânida Peroz I na batalha perto de Balkh contra os heftalitas?

AFoi capturado vivo e pago resgate em prata para libertá-lo
BVenceu a batalha e anexou a Báctria ao império sassânida
CCaiu em batalha, e o império sassânida passou a pagar tributo anual aos heftalitas
DAssinou tratado de paz e cedeu Gandara sem combate

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