|
O império sassânida, que governava a Pérsia desde 224, tratava a fronteira oriental como zona de pilhagem periódica. Peroz I, xá entre 459 e 484, resolveu encerrar a questão pela força e montou três campanhas. A primeira terminou em negociação. A segunda, entre 474 e 476, terminou com o próprio xá cercado, capturado e obrigado a pagar resgate em prata, deixando o filho como refém na corte inimiga até quitar a dívida.
A terceira, em 484, terminou pior. Segundo o historiador armênio Lazar de Parpi, que escreveu sua História da Armênia por volta de 500, os heftalitas cavaram uma vala larga diante da própria linha, cobriram com esteiras e terra e recuaram para atrair a cavalaria pesada persa. A carga sassânida caiu na vala. Peroz I tombou no campo com boa parte da nobreza e do exército. O corpo do xá nunca foi recuperado.
O preço da derrota foi um pagamento anual de Ctesifonte à corte heftalita, mantido por décadas, e a perda de controle sobre as províncias orientais. A submissão foi além do dinheiro. Em 496 o xá Cavades I foi deposto pela própria nobreza e fugiu para a corte heftalita, onde já vivera como refém; voltou em 498 com um exército emprestado e retomou o trono. Por alguns anos, quem decidia o nome do soberano persa morava na Báctria.
Cobrar renda de um império organizado rende mais do que administrar um: os heftalitas transformaram a derrota persa numa receita fixa, sem precisar governar a Mesopotâmia nem alimentar suas cidades.
No flanco sudeste, reis ligados à mesma esfera huna avançaram sobre Gandara, o vale do Peshawar, região de mosteiros e escolas budistas riquíssimas. Toramana e o filho Mihirakula, cujos nomes aparecem em moedas e em inscrições indianas do início do século VI, desmontaram o que restava do poder gupta no noroeste e ficaram na memória indiana como destruidores de mosteiros. O peregrino chinês Xuanzang, passando pela região por volta de 630, ainda anotou ruínas de templos atribuídas a Mihirakula.
“"Os heftalitas são de estirpe huna e levam o nome de hunos, mas não convivem nem fazem fronteira com os hunos que conhecemos. Vivem em terra fértil, têm um único rei, governam-se por leis e tratam com justiça uns aos outros e os vizinhos."” Procópio de Cesareia, História das Guerras, livro I, capítulo 3, por volta de 550.
O fim veio de uma aliança entre dois inimigos do povo do meio. Cosroes I, filho de Cavades e xá a partir de 531, parou de pagar o tributo e procurou o cã Istämi, comandante da ala ocidental do recém-formado império göktürk, que vinha descendo das estepes do norte. Entre cerca de 557 e 561, prensados pelos turcos no norte e pelos persas no sul, os heftalitas perderam as batalhas decisivas na região de Bucara e o domínio se partiu. Cosroes ficou com a margem sul do rio Oxo, os turcos com a margem norte.
Não houve extermínio. Principados heftalitas menores seguiram como vassalos por mais de um século, e alguns ainda aparecem em registros árabes do século VIII. O que acabou em poucos anos foi a máquina de cobrança que sustentava tudo.
O Espelho: quem vive de taxar o fluxo alheio fica poderoso rápido e frágil na mesma medida, porque o poder inteiro depende de duas condições externas, a riqueza de quem paga e a ausência de um rival capaz de propor sociedade a esse pagador. Os heftalitas controlaram a rota mais lucrativa do continente por um século sem nunca construir base produtiva própria nem arquivo próprio. Quando persas e turcos se acertaram, sobrou o carimbo na prata dos outros. Vale conferir de vez em quando quanto da sua posição depende de um intermediário que duas partes poderiam cortar num acordo direto.
|
|
Para as fontes antigas, ver Procópio de Cesareia, História das Guerras, livro I, escrito por volta de 550, que traz a descrição bizantina dos hunos brancos e a campanha de Peroz; Lazar de Parpi, História da Armênia, de cerca de 500, com o relato da vala de 484; e o Luoyang qielan ji, de Yang Xuanzhi, compilado em 547, que preserva o diário da embaixada de Song Yun à corte heftalita.
Para a leitura moderna, ver Robert Göbl, Dokumente zur Geschichte der iranischen Hunnen in Baktrien und Indien, de 1967, corpus que organizou as emissões e os carimbos dessas dinastias, e os artigos de Étienne de la Vaissière sobre a origem centro-asiática do grupo, publicados a partir de 2003. Os contratos em língua báctria estão nas edições de Nicholas Sims-Williams, Bactrian Documents from Northern Afghanistan, publicadas a partir de 1997.
Vale um aviso de método. Quase tudo que se lê sobre os heftalitas foi escrito por inimigos ou por visitantes de passagem, em quatro tradições que discordam entre si até na grafia do nome. A cronologia interna dos reis depende em boa parte de numismática, e a atribuição de várias séries de moedas continua em debate entre especialistas.
Vale outro aviso sobre a identidade. Chamá-los de hunos é herança do vocabulário bizantino, não constatação de parentesco com os hunos de Átila. A relação entre os dois grupos segue sem resposta fechada, e pesquisadores discutem se a origem é turca, iraniana oriental ou uma mistura formada na migração.
O dracma de prata com o punção báctrio batido sobre o rosto do xá está catalogado em bandejas de gabinete numismático em Viena, Londres e Berlim, moeda persa carimbada por um poder que ninguém sabe nomear direito, cunhada a mil quilômetros da planície de Balkh onde valia.
|