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O primeiro registro escrito desse povo não é filisteu. Está gravado numa parede egípcia, em Medinet Habu, onde Ramsés III mandou esculpir a campanha do oitavo ano do reinado dele, por volta de 1177 antes de Cristo.
O relevo mostra uma batalha naval contra uma coalizão vinda do mar, e a legenda nomeia os grupos. Um deles é chamado Peleset, e é dele que sai a palavra filisteu.
Uma geração depois, o grupo aparece instalado na planície costeira ao sul de Canaã, organizado em cinco cidades: Gaza, Ascalon, Asdode, Ecrom e Gate.
A cultura material que surge com eles não é da região. A cerâmica copia o repertório micênico do Egeu, e a análise da argila mostra produção local, o que descarta importação e indica gente de fora fabricando na própria costa.
Junto com a cerâmica vêm a lareira no meio do cômodo, o peso de tear cilíndrico sem furo e um cardápio novo, com muito mais porco do que a vizinhança comia.
Em 2019, um estudo de DNA antigo publicado na Science Advances fechou a questão da origem. Quatro bebês enterrados sob o piso de casas de Ascalon no século 12 antes de Cristo carregam ancestralidade do sul da Europa, ausente na mesma cidade na Idade do Bronze.
Dois séculos depois, essa assinatura já não aparece nos ossos da cidade: os recém-chegados casaram com a vizinhança sem largar o estilo de casa.
A mesa deles tem marca registrada. O jarro de cerveja filisteu traz um bico com coador embutido, feito para segurar a casca de cevada que boia na bebida fermentada dentro de casa.
O dinheiro grosso aparece em Ecrom, no século 7 antes de Cristo, já como cidade vassala da Assíria. As escavações mapearam 115 instalações de prensa de azeite dentro do perímetro urbano, e a estimativa é de cerca de duzentas no total.
Com essa capacidade, Ecrom chegava perto de mil toneladas de azeite por ano, o maior parque de produção de azeite conhecido no mundo antigo. Ao lado das prensas apareceram pesos de tear, sinal de que a mesma cidade fiava tecido em escala.
Ascalon era o porto do conjunto. Das camadas da Idade do Ferro saíram ânfora de vinho, cerâmica de Chipre e do Egito, marfim trabalhado e peso de balança, o inventário de uma cidade que vivia de rota marítima.
Sobre eles mesmos, nada disso fala. O texto mais longo que uma cidade filisteia deixou a respeito de si foi encontrado em 1996, em Ecrom, ainda na posição original dentro de um templo.
São cinco linhas em pedra: o santuário construído por Ikausu, filho de Padi, senhor de Ecrom, dedicado à deusa Ptgyh, com pedido de bênção para ele, para os dias dele e para a terra dele.
Padi e Ikausu não são nomes soltos. Os dois aparecem nos anais assírios como reis de Ecrom, o que prende a pedra à cronologia do século 7 com uma precisão rara na arqueologia do Levante. Cinco linhas: é toda a autobiografia que sobrou de seiscentos anos de civilização filisteia.
O fim tem data e tem testemunha. Em 604 antes de Cristo, Nabucodonosor arrasa Ascalon, e a Crônica Babilônica registra a campanha em tabuleta de argila, com o mês e o resultado.
A escavação achou a camada correspondente: prédio queimado, jarro de estoque estourado no lugar onde caiu, telhado desabado sobre o piso. A elite foi deportada, e a partir dali os filisteus somem do registro como povo com nome próprio.
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