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ED 080

Os filisteus só sobraram no livro do inimigo

Ascalon e Ecrom, costa sul de Canaã: entre 1175 e 604 antes de Cristo, cinco cidades filisteias enriquecem sem deixar versão própria.

Os filisteus só sobraram no livro do inimigo

Jarro de cerveja filisteu com bico coador

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A LINHA DO TEMPO

Por volta de 1175 antes de Cristo, os filisteus se instalam na costa sul de Canaã → no século 7, Ecrom vira o maior parque de azeite do mundo antigo → em 604, a Babilônia arrasa Ascalon → no fim do século 17, o nome do povo vira xingamento na Alemanha.

Por seiscentos anos, cinco cidades filisteias na costa de Canaã venderam azeite, cerveja e cerâmica para meio Mediterrâneo oriental.

Do que elas escreveram sobre si mesmas sobraram cinco linhas em pedra.

No verão de 2013, a poucos metros da muralha de Ascalon, na costa sul de Israel, uma equipe abriu uma cova rasa e encontrou um esqueleto deitado de costas, com um frasco de perfume encostado na altura do rosto.

Não era túmulo de família escavado na rocha, do jeito que os cananeus da região faziam. Era uma cova oval, individual, aberta na areia do lado de fora do perímetro da cidade.

Ao lado dela havia outra, e outra. Quando a escavação fechou, mais de duzentos corpos tinham saído do mesmo campo, enterrados ao longo de três séculos.

Era a primeira necrópole filisteia já localizada. Depois de mais de cem anos de arqueologia na costa do Levante, ninguém tinha encontrado o lugar onde esse povo enterrava os próprios mortos.

Quem cavou ali não estava atrás de ouro. Cova rasa, corpo esticado, um frasco de óleo perfumado, um brinco de bronze, de vez em quando uma ponta de flecha. O ritual é simples e é constante, repetido por gerações no mesmo terreno.

A demora do achado diz alguma coisa sobre o tamanho do buraco. Os filisteus ocuparam cinco cidades ricas dessa faixa de litoral por cerca de seiscentos anos, e ainda assim quase tudo o que se repete sobre eles veio de terceiros.

As fontes que atravessaram o tempo pertencem a quem estava do outro lado: o império que os enfrentou no mar, a potência que os cobrava em tributo e, acima de tudo, o reino vizinho que disputava a mesma terra e escreveu a única narrativa com cena, nome e personagem.

Nessa narrativa o filisteu é o gigante que cai de pedrada, o povo que rapa o cabelo do herói, o dono do ídolo que tomba sozinho dentro do próprio templo. Nunca o oleiro, o marinheiro ou o dono da prensa de azeite.

Três mil anos depois, o desfecho está no dicionário. Filisteu é o verbete de quem tem gosto grosseiro e trata arte como perda de tempo.

Antes do adjetivo houve seis séculos de porto, forno, tear e prensa. É o que a terra de Ascalon e de Ecrom devolveu, peça por peça, nas últimas quatro décadas.

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I  O Estrato

Cinco cidades, cerveja coada e azeite em escala

O primeiro registro escrito desse povo não é filisteu. Está gravado numa parede egípcia, em Medinet Habu, onde Ramsés III mandou esculpir a campanha do oitavo ano do reinado dele, por volta de 1177 antes de Cristo.

O relevo mostra uma batalha naval contra uma coalizão vinda do mar, e a legenda nomeia os grupos. Um deles é chamado Peleset, e é dele que sai a palavra filisteu.

Uma geração depois, o grupo aparece instalado na planície costeira ao sul de Canaã, organizado em cinco cidades: Gaza, Ascalon, Asdode, Ecrom e Gate.

A cultura material que surge com eles não é da região. A cerâmica copia o repertório micênico do Egeu, e a análise da argila mostra produção local, o que descarta importação e indica gente de fora fabricando na própria costa.

Junto com a cerâmica vêm a lareira no meio do cômodo, o peso de tear cilíndrico sem furo e um cardápio novo, com muito mais porco do que a vizinhança comia.

Em 2019, um estudo de DNA antigo publicado na Science Advances fechou a questão da origem. Quatro bebês enterrados sob o piso de casas de Ascalon no século 12 antes de Cristo carregam ancestralidade do sul da Europa, ausente na mesma cidade na Idade do Bronze.

Dois séculos depois, essa assinatura já não aparece nos ossos da cidade: os recém-chegados casaram com a vizinhança sem largar o estilo de casa.

A mesa deles tem marca registrada. O jarro de cerveja filisteu traz um bico com coador embutido, feito para segurar a casca de cevada que boia na bebida fermentada dentro de casa.

O dinheiro grosso aparece em Ecrom, no século 7 antes de Cristo, já como cidade vassala da Assíria. As escavações mapearam 115 instalações de prensa de azeite dentro do perímetro urbano, e a estimativa é de cerca de duzentas no total.

Com essa capacidade, Ecrom chegava perto de mil toneladas de azeite por ano, o maior parque de produção de azeite conhecido no mundo antigo. Ao lado das prensas apareceram pesos de tear, sinal de que a mesma cidade fiava tecido em escala.

Ascalon era o porto do conjunto. Das camadas da Idade do Ferro saíram ânfora de vinho, cerâmica de Chipre e do Egito, marfim trabalhado e peso de balança, o inventário de uma cidade que vivia de rota marítima.

Sobre eles mesmos, nada disso fala. O texto mais longo que uma cidade filisteia deixou a respeito de si foi encontrado em 1996, em Ecrom, ainda na posição original dentro de um templo.

São cinco linhas em pedra: o santuário construído por Ikausu, filho de Padi, senhor de Ecrom, dedicado à deusa Ptgyh, com pedido de bênção para ele, para os dias dele e para a terra dele.

Padi e Ikausu não são nomes soltos. Os dois aparecem nos anais assírios como reis de Ecrom, o que prende a pedra à cronologia do século 7 com uma precisão rara na arqueologia do Levante. Cinco linhas: é toda a autobiografia que sobrou de seiscentos anos de civilização filisteia.

O fim tem data e tem testemunha. Em 604 antes de Cristo, Nabucodonosor arrasa Ascalon, e a Crônica Babilônica registra a campanha em tabuleta de argila, com o mês e o resultado.

A escavação achou a camada correspondente: prédio queimado, jarro de estoque estourado no lugar onde caiu, telhado desabado sobre o piso. A elite foi deportada, e a partir dali os filisteus somem do registro como povo com nome próprio.

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II  O Padrão

Sem versão própria, o retrato ficou com o rival

Nenhum dos arquivos que falam dos filisteus foi escrito por um filisteu, e nenhum deles tinha motivo para ser justo.

O egípcio os desenha como inimigo vencido, porque parede de templo era propaganda de faraó. O assírio os anota como pagador de tributo, porque a lista existia para cobrar.

O terceiro é o do reino vizinho, que disputava a mesma faixa de terra, e é o único que conta uma história de verdade, com diálogo, traição e desfecho.

A Bíblia hebraica cita os filisteus perto de trezentas vezes. É lá que estão Golias, Sansão e Dalila, o templo de Dagon e a arca capturada em campo de batalha.

Em nenhuma dessas cenas o filisteu aparece fora do papel de adversário. O epíteto padrão que acompanha o nome é incircunciso, usado como carimbo de gente de fora.

O mecanismo por trás do desequilíbrio não tem nada de místico. Texto com personagem forte é copiado, e texto copiado atravessa o tempo.

A narrativa do vizinho entrou em cânone religioso, passou por escola de escribas e foi recopiada por gerações em pergaminho novo. O que os filisteus registraram, se registraram, era material perecível guardado na umidade do litoral, sem ninguém interessado em recopiar.

O efeito continuou rendendo muito depois da última cidade cair. No fim do século 17, em Jena, na Alemanha, uma briga entre estudantes e moradores terminou em sermão que citava o grito do episódio de Sansão, os filisteus estão sobre ti.

A partir dali, Philister virou o apelido que o universitário dava a quem não era da universidade e não lia. No século 19 o termo cruzou para o inglês, e Matthew Arnold fixou o sentido que os dicionários guardam até hoje.

"Filisteu deve ter significado, na cabeça de quem inventou o apelido, um adversário forte, teimoso e sem luz do povo escolhido, dos filhos da luz."
Matthew Arnold, ensaio sobre Heinrich Heine, 1865.

O saldo é desproporcional de doer. O povo que abastecia de azeite meio Levante entrou no vocabulário culto como sinônimo de quem não entende de arte.

O nome teve sorte melhor que o dono. Heródoto já chama a faixa de costa de Palestina, Roma oficializa Syria Palaestina em 135 depois de Cristo, e o rótulo segue no mapa, colado a uma terra que o povo original não ocupava mais.

Repare no desenho do prejuízo. Os filisteus perderam o território em 604 antes de Cristo e continuaram perdendo reputação por mais vinte e seis séculos, sem nenhuma chance de resposta.

A derrota militar tem data no calendário. A derrota de arquivo não tem, porque ela se renova toda vez que alguém abre a única versão disponível.

O Espelho: olhe quem está com a caneta nas situações em que você é avaliado, ata de reunião, relatório de entrega, resumo de projeto para o cliente.

Se a única versão registrada é a de quem disputa espaço com você, o seu resultado já está sendo contado por outra pessoa. Escreva hoje a sua, com data e número, num lugar que outra pessoa ache sem depender de você.

A arqueologia devolveu a cerâmica, a cerveja e as prensas de Ecrom. O verbete continua no dicionário, e nenhuma escavação tira ele de lá.

 
 

III  O Arquivo

Onde checar a cerâmica, o DNA e a pedra

Sobre Ascalon e a necrópole aberta em 2013, ver os relatórios da Leon Levy Expedition, dirigida por Lawrence Stager desde 1985 e depois por Daniel Master, publicados na série Ashkelon.

Sobre a origem no Egeu, ver Michal Feldman e colegas, Ancient DNA sheds light on the genetic origins of early Iron Age Philistines, na Science Advances de 2019.

Sobre a indústria de azeite, ver as escavações de Trude Dothan e Seymour Gitin em Tel Miqne, o sítio de Ecrom, entre 1981 e 1996, com o mapeamento das instalações de prensa.

Sobre a inscrição real, ver Seymour Gitin, Trude Dothan e Joseph Naveh, A Royal Dedicatory Inscription from Ekron, no Israel Exploration Journal de 1997, que publicou as cinco linhas e a leitura dos nomes.

Sobre o fim de 604 antes de Cristo, ver a Crônica Babilônica na tabuleta do Museu Britânico e a camada de destruição registrada na escavação de Ascalon.

De todo o mundo filisteu, o objeto que mais fala não é a espada nem o ídolo. É o jarro de cerveja com bico coador, feito por quem se incomodava com casca de cevada no dente e nunca teve como contar a própria versão.

 
 
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O que o estudo de DNA antigo de 2019, publicado na Science Advances, encontrou nos ossos de quatro bebês enterrados sob o piso de casas em Ascalon, do século 12 antes de Cristo?

AAncestralidade cananeia, igual à da Idade do Bronze anterior
BAncestralidade do sul da Europa, ausente na cidade durante a Idade do Bronze
CAncestralidade egípcia, ligada aos faraós que dominavam a costa
DAncestralidade assíria, ligada ao império que cobrava tributo de Ecrom

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