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Os 7 nobres de Oyo podiam rejeitar o próprio rei

No império iorubá de Oyo, o conselho Oyo Mesi vigiava o alafin, e a capital Oyo Ile ficou vazia por volta de 1835

Muralhas de terra de Oyo Ile na savana da Nigéria

Oyo Ile, Nigéria, por volta de 1835

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A LINHA DO TEMPO

Século XVII, Oyo Ile manda nas savanas iorubás → 1754 a 1774, o bashorun Gaha domina o conselho → 1774, Abiodun derruba Gaha → por volta de 1817, Afonja rompe com o alafin em Ilorin → por volta de 1835, Oyo Ile é abandonada

A uns 9 graus ao norte da linha do equador, no oeste da Nigéria, a savana do Parque Nacional de Old Oyo mistura capim alto e morros de granito. Uns 130 quilômetros ao norte da cidade atual de Oyo, correm ali montes baixos de terra socada, que somem e reaparecem entre as árvores.

Os montes são o que restou das muralhas de Oyo Ile, capital de um império iorubá que, no século XVIII, mandava em terras do rio Níger até perto do litoral do golfo do Benim. Dali saíam colunas de cavaleiros que cobravam tributo de reinos vizinhos, entre eles o Daomé.

Quem governava da capital era o alafin, título do rei de Oyo, tratado pelos súditos como companheiro dos deuses. Ele vivia recolhido no palácio, aparecia em público poucas vezes por ano e falava com o povo por meio de mensageiros.

O poder dele tinha um freio. Sete chefes de linhagens da cidade formavam o Oyo Mesi, o conselho de Estado, e eram eles que escolhiam o novo alafin entre os candidatos da família real.

O mesmo conselho podia desfazer a escolha. Quando os sete concluíam que o rei tinha perdido o favor dos deuses e da cidade, mandavam ao palácio um sinal combinado. O costume não deixava saída: o alafin rejeitado tinha de tirar a própria vida.

Esse arranjo durou gerações e deu a Oyo uma corte estável, temida pelos vizinhos. Os reis mudavam, a muralha seguia de pé, e as caravanas de sal, tecido e noz-de-cola cruzavam a capital rumo ao norte e ao litoral.

A capital caiu por outro caminho. Por volta de 1835, depois de anos de ataques da cavalaria vinda de Ilorin, uma cidade do próprio império que tinha se rebelado, os moradores abandonaram Oyo Ile e foram refazer a vida mais ao sul.

O Estrato entra no palácio e mostra como o freio ao rei foi montado, peça por peça.

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I  O Estrato

O conselho dos sete

A resposta de ontem

Que deusa abre a lista de deuses da laje de Rabatak?

Nana, deusa de origem mesopotâmica venerada na Báctria. Na leitura de Nicholas Sims-Williams e Joe Cribb, publicada em 1996, Kanishka diz ter recebido o reino de Nana e manda pôr no santuário de Kasig as imagens dela, de Umma, Aurmuzd, Sroshard, Narasa e Mihir.

À frente do Oyo Mesi ficava o bashorun (chefe do conselho, uma espécie de primeiro-ministro). Cada um dos sete membros comandava uma ala da cidade e uma parte das tropas, e nenhum deles pertencia à família real.

O cargo passava dentro das próprias linhagens. O alafin não nomeava os conselheiros e não podia removê-los, o que dava ao conselho uma base de poder independente do palácio.

Samuel Johnson, pastor iorubá que escreveu The History of the Yorubas (A história dos iorubás), concluído em 1897 e publicado em 1921, descreve uma cerimônia anual chamada Orun, conduzida pelo bashorun. Nela, uma consulta ao oráculo verificava se o rei ainda tinha a aprovação do além.

Se a resposta fosse negativa, o conselho tinha base para agir. A decisão chegava ao palácio por um objeto simbólico, e a mensagem que o acompanhava dizia ao rei que o povo, a terra e os deuses estavam cansados dele.

Johnson registra que o alafin não tinha a quem recorrer. A lei de Oyo proibia o rei rejeitado de fugir ou de resistir, e a regra valia mesmo para quem tinha guarda pessoal no palácio.

O herdeiro preso ao pai

O freio tinha uma segunda peça. O aremo (príncipe herdeiro, em geral o filho mais velho do alafin) governava ao lado do pai e tinha poder quase igual ao dele.

Pela regra antiga, o aremo não podia sobreviver ao rei: quando o alafin deixava o trono pela morte, o filho tinha de partir junto. A norma tirava do herdeiro qualquer vantagem em tramar contra o pai para herdar mais cedo.

Atiba, alafin que reinou depois da queda da capital, aboliu o costume e deixou o próprio filho, Adelu, assumir o trono depois dele.

O rei escolhido pelos sete governava sabendo que os mesmos sete podiam mandá-lo sair de cena.

O contrapeso do contrapeso

O conselho também tinha quem o vigiasse. A sociedade Ogboni (assembleia de anciãos ligada ao culto da terra) reunia chefes livres da cidade, julgava crimes de sangue e tinha um representante do alafin entre os membros.

O historiador britânico Robin Law, em The Oyo Empire c.1600-c.1836 (O Império Oyo, de 1600 a 1836), de 1977, descreve a Ogboni como a mediadora entre o rei e o Oyo Mesi, capaz de pender para um lado ou para o outro nas crises.

Fora da capital, o alafin contava com os ilari, servidores do palácio com metade da cabeça raspada. Eles levavam as ordens do rei às províncias, vigiavam os governadores e cobravam o tributo das cidades submetidas.

 

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II  O Padrão

Gaha e os reis descartados

O arranjo funcionava enquanto rei e conselho se equilibravam. No século XVIII, a balança pendeu para um lado só, e quem a desequilibrou foi Gaha, bashorun de Oyo entre 1754 e 1774, segundo a cronologia de Robin Law.

Gaha usou o direito de rejeição como arma pessoal. Segundo Johnson, ele forçou pelo menos três alafins seguidos, Labisi, Awonbioju e Agboluaje, a tirar a própria vida, e cada novo rei subia ao trono como peça escolhida por ele.

Os filhos e parentes do bashorun se espalharam pelas cidades do império como cobradores. Tomavam bens, impunham taxas próprias e não prestavam contas a ninguém, porque o único homem com autoridade para puni-los era o rei que Gaha controlava.

Por duas décadas, a capital viveu com um rei de fachada e um conselheiro com poder de vida sobre ele. O Oyo Mesi, desenhado para frear o abuso do trono, passou a ser o lugar de onde o abuso saía.

A resposta de Abiodun

O rei seguinte, Abiodun, também chegou ao trono com a bênção de Gaha e ficou anos sem enfrentá-lo. Ele esperava aliados.

Em 1774, Abiodun se juntou a Oyabi, o are-ona-kakanfo (comandante do exército das províncias), e aos chefes da Ogboni. As tropas de fora entraram na capital, Gaha foi preso e queimado em praça pública, e os parentes dele foram caçados nas cidades onde cobravam.

Abiodun reinou até 1789. O período dele ficou na memória iorubá como uma era de paz e de comércio, com Oyo vendendo tecidos e cativos aos europeus pelo porto de Porto-Novo, na costa do atual Benim.

O instrumento criado para frear o rei virou, nas mãos de um só homem, a máquina de escolher e descartar reis.

O comandante longe da corte

A vitória de Abiodun mostrou outra peça do sistema. Para proteger o palácio de golpes, a corte mantinha o are-ona-kakanfo morando fora da capital, numa cidade de província, e exigia dele vitória em toda batalha.

A distância protegia o rei de um golpe vindo de dentro, mas deu ao comandante uma base própria, com tropas que obedeciam a ele antes de obedecer ao palácio.

Roma conheceu desenho parecido. A Guarda Pretoriana, tropa criada para proteger o imperador, depôs e entronizou imperadores entre os séculos I e III, e em 193 chegou a leiloar o trono ao senador Dídio Juliano.

Nos dois casos, a força posta para guardar o soberano descobriu que podia escolhê-lo. Em Oyo, a descoberta veio de um comandante de província, numa cidade chamada Ilorin.

III  O Arquivo

A cavalaria de Ilorin

Por volta de 1817, Afonja, are-ona-kakanfo nomeado pelo alafin Aole, rompeu com o rei e declarou Ilorin livre da autoridade de Oyo. Ele comandava a cidade desde antes da nomeação e tinha ali a própria gente.

Para engrossar o exército, Afonja chamou um pregador muçulmano fulani, Salih, conhecido como Alimi, e acolheu escravizados hauçás que fugiam dos senhores em Oyo. Os recém-chegados formaram a tropa mais aguerrida da cidade.

A aliança escapou das mãos de Afonja. Por volta de 1824, os combatentes ligados a Alimi se voltaram contra ele e o mataram, e Ilorin passou ao controle da família do pregador.

Abdulsalami, filho de Alimi, virou o primeiro emir (governante muçulmano) de Ilorin. A cidade se ligou ao Califado de Sokoto, o Estado nascido da jihad (guerra santa) liderada por Usman dan Fodio no norte da atual Nigéria.

O cavalo como arma

A força de Oyo vinha da cavalaria. Os cavalos chegavam do norte, comprados de mercadores hauçás, porque a mosca tsé-tsé das matas do sul transmitia doença aos animais e impedia a criação em escala.

Com Ilorin do lado inimigo, a rota dos cavalos passou a correr para o outro exército. Os cavaleiros do emirado atacavam as cidades do norte do império, queimavam as roças e levavam gente como cativos.

Famílias inteiras desceram para o sul, rumo à floresta, onde o cavalo rendia pouco e o ataque perdia força. As cidades da savana em volta da capital foram se esvaziando uma a uma.

Em 1826, o explorador escocês Hugh Clapperton chegou a Oyo Ile, que ele chamava de Katunga, e registrou no diário uma capital ainda grande, cercada por um território em guerra.

A capital caiu pela rota dos cavalos, e a rota passava por Ilorin.

O abandono

O alafin Oluewu tentou virar o jogo. Ele se aliou aos baribas (povo do Borgu, reino ao norte de Oyo) e marchou contra Ilorin por volta de 1835, na campanha que a tradição chama de guerra de Eleduwe.

O exército de Oyo perdeu, e Oluewu não voltou do campo de batalha. Sem rei e sem tropa, os moradores deixaram Oyo Ile para trás.

Atiba, príncipe da família real, refez a corte em Ago d'Oyo, bem mais ao sul, e a cidade nova herdou o título de Oyo. Ele também reorganizou o reino em volta de chefes militares de Ibadan e Ijaye, que passaram a defender o que restava do território.

Uns 130 quilômetros ao norte da Oyo de hoje, os montes de terra de Oyo Ile seguem no capim do Parque Nacional de Old Oyo, e o terreno do palácio onde o conselho mandava o seu sinal virou chão de escavação.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que objeto o Oyo Mesi mandava ao alafin para avisar que ele tinha sido rejeitado?

★ RARO

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