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Os 12 meses que Al-Biruni salvou da Corásmia

Em 712, Qutayba perseguiu os letrados da Corásmia; três séculos depois, um sábio da terra copiou o calendário que restou

Muralhas de tijolo cru de Kath junto ao Amu Darya, na Corásmia

Kath, Corásmia, às margens do Amu Darya

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A LINHA DO TEMPO

Cerca de 520 a.C., a Corásmia aparece na inscrição de Behistun → 305, começa a dinastia Afrígida → 712, Qutayba toma a Corásmia → 973, Al-Biruni nasce na Corásmia → cerca de 1000, Al-Biruni escreve os Vestígios → 1221, os mongóis arrasam Urgench

A 41 graus de latitude norte e uns 90 metros acima do mar, na margem direita do Amu Darya, ficava Kath, a capital da Corásmia. Dali se via o rio largo e barrento descer rumo ao mar de Aral, e dos dois lados a areia dos desertos de Kizilkum e Karakum encostar nos canais que regavam os campos.

Hoje o lugar pertence ao Uzbequistão, na república autônoma do Caracalpaquistão, e a cidade que cresceu ali se chama Beruniy. O nome homenageia um menino nascido na região em 973, Abu Rayhan al-Biruni, que virou um dos maiores sábios do mundo islâmico: astrônomo, geógrafo, matemático e historiador.

Al-Biruni cresceu ouvindo corásmio. A língua da Corásmia (a região do baixo Amu Darya, ao sul do mar de Aral) era parente do persa e do sogdiano, tinha escrita própria, calendário próprio e uma linhagem de astrônomos e escribas que contavam a história do reino desde muito antes da chegada do islã.

Quando ele quis escrever essa história, perto do ano 1000, descobriu que quase nada dela tinha sobrado em papel.

No livro Vestígios dos Séculos Passados, Al-Biruni explicou o vazio com um nome e uma data. Em 712, Qutayba ibn Muslim, general árabe a serviço do califado omíada (a dinastia que governava o império islâmico a partir de Damasco), tomou a Corásmia, mandou matar os letrados e espalhou os que sobraram.

Os livros foram destruídos, os escribas sumiram, e a memória do reino passou a depender de quem lembrava de cabeça. Quase três séculos depois, Al-Biruni recolheu os pedaços. Um deles ele copiou com cuidado: os nomes dos 12 meses do ano corásmio, com a explicação da origem de cada nome.

Essa lista virou um dos raros registros diretos de uma língua que deixou de ser falada entre os séculos XIII e XIV. Quase tudo o mais que se sabe do corásmio vem de moedas, de documentos curtos achados por arqueólogos e de palavras anotadas nas margens de livros árabes.

O Estrato volta ao reino antes da conquista: quem eram os corásmios, como viviam no deserto e como chegaram a ter arquivo, escrita e calendário próprios.

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I  O Estrato

Um reino de canais no deserto

A Corásmia aparece pela primeira vez por escrito na inscrição de Behistun, que o rei persa Dario I mandou gravar num penhasco do oeste do Irã perto de 520 a.C. Na lista de províncias do império aquemênida (a dinastia persa de Ciro e Dario), ela surge com o nome de Uvarazmi.

O reino vivia da água do Amu Darya, o rio que os gregos chamavam de Oxo. Sem irrigação, o baixo curso seria uma faixa verde estreita cercada de areia. Com os canais, a planície virou campo de trigo, cevada, algodão e pomares.

Os corásmios abriram canais de dezenas de quilômetros e cercaram as cidades com muralhas de tijolo cru (tijolo de barro secado ao sol, sem forno). Fortalezas como Ayaz-Kala e Toprak-Kala ainda erguem as paredes sobre colinas do Caracalpaquistão.

O palácio de Toprak-Kala

Toprak-Kala foi residência dos reis corásmios entre os séculos I e IV. O palácio tinha salões com estátuas de barro pintado e paredes cobertas de afrescos (pintura feita sobre o reboco ainda úmido), com músicos, dançarinos e figuras da corte.

Ali trabalhou a expedição soviética dirigida pelo arqueólogo Serguei Tolstov, que escavou a Corásmia a partir de 1937. Entre as ruínas apareceram documentos em couro e madeira escritos em corásmio, numa escrita derivada do aramaico (a língua da administração do antigo império persa).

Os textos são curtos, quase todos registros de contas e listas de pessoas. Mesmo assim, provam que o reino mantinha arquivo escrito séculos antes de Qutayba chegar.

A dinastia que contava os anos

Al-Biruni registrou que os reis da Corásmia contavam o tempo por uma era própria e, mais tarde, pelos anos da dinastia Afrígida, fundada segundo ele em 305 pelo rei Afrigh. Os afrígidas ainda governavam em Kath quando os árabes chegaram, e seguiram no trono, como vassalos, até 995.

Antes de 712, a Corásmia tinha escrita, arquivo, calendário e astrônomos próprios.

O calendário tinha 12 meses de 30 dias e cinco dias extras no fim do ano, o mesmo desenho do calendário zoroastriano (o da religião persa fundada por Zaratustra) usado no Irã. Os nomes dos meses, porém, eram corásmios, e eram eles que marcavam festas, semeadura e cheias do rio.

A conquista entrou por uma briga de família. Segundo o cronista árabe al-Tabari, o xá da Corásmia pediu socorro a Qutayba contra o próprio irmão, Khurrazad, que tinha tomado parte do poder. Qutayba veio, venceu o irmão, cobrou tributo e ficou com o reino.

 

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II  O Padrão

Quando o conquistador mira os escribas

A Corásmia não é caso único. Conquistadores que queriam apagar uma ordem antiga muitas vezes miraram nos poucos que sabiam ler, porque numa sociedade com pouca gente alfabetizada a memória escrita cabe num grupo pequeno de pessoas.

Na China, em 213 a.C., o imperador Qin Shi Huang mandou queimar livros de história e de filosofia que não fossem do seu próprio reino. O relato é do historiador Sima Qian, que escreveu no século I a.C., cerca de cem anos depois.

Em 1562, em Maní, na península de Iucatã, o frade franciscano Diego de Landa queimou códices maias (livros de casca de árvore dobrados em sanfona) num auto de fé (cerimônia pública de punição da Igreja). Restam hoje quatro códices maias reconhecidos, guardados em Dresden, Madri, Paris e na Cidade do México.

Nos três casos, a destruição atingiu a camada letrada, e a língua falada continuou viva por muito mais tempo. O chinês e as línguas maias seguem faladas até hoje.

Por que a fala dura mais que a escrita

Eliminar os escribas corta a transmissão escrita, mas o camponês continua falando com o filho. O caminho costuma ter três passos:

1. O conquistador elimina ou espalha quem lê e escreve a escrita local.

2. A administração passa para a língua do vencedor, e a escrita antiga perde utilidade prática.

3. A língua falada resiste algumas gerações, até sobrar só em palavras soltas anotadas por quem escreve na língua nova.

Na Corásmia, o terceiro passo levou uns seis séculos. O corásmio seguiu falado e aparece em glosas (anotações na margem ou entre as linhas de um texto) de manuscritos árabes dos séculos XII e XIII, como as do dicionário Muqaddimat al-Adab, do gramático al-Zamakhshari, nascido na Corásmia em 1075.

Em 1221, os mongóis de Gengis Khan arrasaram Urgench, a capital da época. Nas décadas seguintes, o turco ocupou o espaço do corásmio na fala da região.

Um nome que ficou no mundo

A Corásmia deixou outra marca, que qualquer estudante carrega sem saber. O matemático Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, cujo sobrenome quer dizer “o corásmio”, escreveu em Bagdá, no século IX, os livros que levaram a numeração indiana e a álgebra ao mundo de língua árabe.

Traduzido para o latim na Europa medieval, o nome dele virou Algoritmi, de onde vem a palavra algoritmo.

O reino que perdeu os escribas deu ao mundo a palavra algoritmo.

III  O Arquivo

O livro escrito na corte de Gorgan

Al-Biruni escreveu Vestígios dos Séculos Passados (em árabe, al-Athar al-Baqiya) perto do ano 1000, na corte de Qabus, governante de Gorgan, no norte do Irã. O livro compara os calendários e as festas de persas, sogdianos, judeus, cristãos, gregos e corásmios.

Para a Corásmia, ele trabalhou como quem entrevista sobreviventes. Anotou os nomes dos meses e das festas, explicou de onde vinha cada nome e comparou com as formas persas e sogdianas.

O trecho sobre Qutayba é curto e direto:

“Qutayba dispersou e destruiu por todos os meios os que sabiam escrever e ler a escrita corásmia, os que conheciam a história do país e estudavam suas ciências.”

Al-Biruni, Vestígios dos Séculos Passados, ano 1000 (tradução inglesa de Eduard Sachau, 1879)

Logo depois, ele admite o tamanho do estrago: por causa da perseguição, a história da Corásmia desde a chegada do islã ficou tão obscura que não se podia mais conhecê-la com exatidão.

O que se sabe e o que se perdeu

A lista dos meses chegou inteira porque Al-Biruni a copiou num livro escrito em árabe, a língua que sobreviveu ao reino. Nenhum livro de história escrito em corásmio antes de 712 foi encontrado até hoje.

A língua ficou sem livros, e os 12 meses atravessaram mil anos dentro de um livro árabe.

Não se sabe quantos livros existiam nem quantos letrados Qutayba mandou matar. Al-Biruni não deu número, os arqueólogos só acharam documentos administrativos, e o relato dele foi escrito quase 300 anos depois, a partir da memória guardada na própria Corásmia.

No século XX, o iranista alemão Walter Bruno Henning usou a lista de Al-Biruni e as glosas tardias para reconstruir parte do vocabulário e da gramática do corásmio. Os nomes dos meses serviram de chave para ler palavras que, sem eles, ficariam mudas.

Fica a pergunta para você: se a sua língua perdesse a escrita amanhã, quais 12 palavras você copiaria para que ela não sumisse?

Em Beruniy, a 41 graus de latitude norte e uns 90 metros acima do mar, o Amu Darya ainda corre junto às ruínas de Kath, e a cidade leva o nome do homem que guardou, num livro em árabe, os 12 meses com que os escribas da Corásmia contavam o ano.

 
 
Quiz da edição

Segundo o cronista al-Tabari, o que levou Qutayba ibn Muslim a entrar na Corásmia em 712?

AUma ordem direta do califado omíada pra expandir o território
BO xá da Corásmia pediu socorro contra o próprio irmão, Khurrazad
CUma revolta dos escribas contra o rei corásmio
DUm acordo comercial rompido sobre os canais do Amu Darya

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