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A Corásmia não é caso único. Conquistadores que queriam apagar uma ordem antiga muitas vezes miraram nos poucos que sabiam ler, porque numa sociedade com pouca gente alfabetizada a memória escrita cabe num grupo pequeno de pessoas.
Na China, em 213 a.C., o imperador Qin Shi Huang mandou queimar livros de história e de filosofia que não fossem do seu próprio reino. O relato é do historiador Sima Qian, que escreveu no século I a.C., cerca de cem anos depois.
Em 1562, em Maní, na península de Iucatã, o frade franciscano Diego de Landa queimou códices maias (livros de casca de árvore dobrados em sanfona) num auto de fé (cerimônia pública de punição da Igreja). Restam hoje quatro códices maias reconhecidos, guardados em Dresden, Madri, Paris e na Cidade do México.
Nos três casos, a destruição atingiu a camada letrada, e a língua falada continuou viva por muito mais tempo. O chinês e as línguas maias seguem faladas até hoje.
Por que a fala dura mais que a escrita
Eliminar os escribas corta a transmissão escrita, mas o camponês continua falando com o filho. O caminho costuma ter três passos:
1. O conquistador elimina ou espalha quem lê e escreve a escrita local.
2. A administração passa para a língua do vencedor, e a escrita antiga perde utilidade prática.
3. A língua falada resiste algumas gerações, até sobrar só em palavras soltas anotadas por quem escreve na língua nova.
Na Corásmia, o terceiro passo levou uns seis séculos. O corásmio seguiu falado e aparece em glosas (anotações na margem ou entre as linhas de um texto) de manuscritos árabes dos séculos XII e XIII, como as do dicionário Muqaddimat al-Adab, do gramático al-Zamakhshari, nascido na Corásmia em 1075.
Em 1221, os mongóis de Gengis Khan arrasaram Urgench, a capital da época. Nas décadas seguintes, o turco ocupou o espaço do corásmio na fala da região.
Um nome que ficou no mundo
A Corásmia deixou outra marca, que qualquer estudante carrega sem saber. O matemático Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, cujo sobrenome quer dizer “o corásmio”, escreveu em Bagdá, no século IX, os livros que levaram a numeração indiana e a álgebra ao mundo de língua árabe.
Traduzido para o latim na Europa medieval, o nome dele virou Algoritmi, de onde vem a palavra algoritmo.
O reino que perdeu os escribas deu ao mundo a palavra algoritmo.
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