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ED 127

O tapete que dormiu 24 séculos no gelo do Altai

Em 1949, Serguei Rudenko achou no Altai o mais antigo tapete de nó conhecido. Um saque e o gelo o salvaram.

Montes funerários de pedra no vale de Pazyryk, no Altai

Kurgans de Pazyryk, no planalto de Ulagan

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A LINHA DO TEMPO

séculos VI a III a.C., a cultura de Pazyryk ergue kurgans nos vales altos do Altai → século IV a.C., uma família de chefes é sepultada no kurgan 5 com cavalos, uma carroça e um tapete de nó → pouco depois do enterro, ladrões abrem um túnel na câmara e a água que entra por ele congela → 1929, Serguei Rudenko e Mikhail Griaznov escavam o kurgan 1 de Pazyryk → 1947 a 1949, Rudenko abre os kurgans 2 a 5 → 1949, o tapete sai do gelo do kurgan 5 → 1953, Rudenko publica o estudo dos túmulos → hoje, o tapete está no Museu Hermitage, em São Petersburgo

No vale de Pazyryk, no Altai siberiano, um tapete de lã passou 24 séculos preso no gelo de uma tumba.

Ladrões abriram a câmara, a água entrou por eles e congelou: foi o saque que salvou a peça.

A 1.600 metros de altitude, no vale de Pazyryk, planalto de Ulagan, na República de Altai, sul da Sibéria, o solo segue congelado a um metro da superfície mesmo em julho. No inverno, o termômetro desce abaixo de 40 graus negativos e o capim do vale endurece sob a neve.

Ali, em 1949, o arqueólogo soviético Serguei Rudenko abriu o quinto de uma fileira de montes funerários de pedra, os kurgans (túmulos cobertos por um monte de terra e rocha). Dentro da câmara de madeira, preso num bloco de gelo que a equipe teve de derreter com água fervida, estava um tapete dobrado.

A peça tem perto de dois metros de lado e foi feita com nós, fio a fio, como os tapetes persas vendidos hoje. A datação por radiocarbono a coloca no século IV ou III a.C. Nenhuma escavação encontrou até agora um tapete de nó mais velho: o de Pazyryk tem cerca de 2.400 anos.

A lã deveria ter virado pó. Tecido enterrado apodrece em poucas décadas: fungos e bactérias comem a fibra e a umidade desbota a tinta. O que salvou esta peça foi uma cadeia de acidentes.

Ladrões abriram a tumba pouco depois do enterro. A chuva e o degelo entraram pelo túnel deles e encheram a câmara. O frio do Altai transformou essa água num bloco que nunca mais descongelou.

O tapete passou vinte e quatro séculos dentro desse freezer natural, com as cores quase intactas: vermelho, ocre, azul, creme. Na borda, cavaleiros desfilam em fila, uns montados, outros puxando a montaria. Na faixa seguinte, uma procissão de cervos caminha no sentido oposto.

Hoje ele ocupa uma sala inteira do Museu Hermitage, em São Petersburgo, a quase quatro mil quilômetros do vale onde foi achado.

Para entender como uma peça de lã chegou inteira até nós, vale descer primeiro à câmara onde ela foi deixada e conhecer o povo que a enterrou.

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I  O Estrato

Os cavaleiros do planalto de Ulagan

A cultura de Pazyryk é batizada pelo vale, não por um povo que se chamasse assim. Os arqueólogos batizam culturas sem escrita pelo sítio onde elas foram descritas pela primeira vez. Esses pastores ocuparam os planaltos do Altai entre os séculos VI e III a.C. e eram aparentados aos citas, os cavaleiros nômades que o historiador grego Heródoto descreveu nas estepes ao norte do mar Negro.

Viviam de rebanhos de cavalos, ovelhas e gado. No verão, subiam aos pastos altos; no inverno, desciam para vales mais abrigados. Sabiam curtir couro, bater feltro, trabalhar ouro em folha e entalhar madeira com animais retorcidos, o estilo que os historiadores da arte chamam de estilo animal (figuras de bichos em luta ou enroscados, típicas das estepes).

Os chefes eram enterrados em kurgans. A receita se repetia: um poço de quatro a sete metros de fundura, uma câmara de troncos de lariço (conífera da Sibéria que resiste bem à umidade) montada no fundo, o corpo embalsamado num caixão escavado num tronco inteiro, e por cima um monte de pedras soltas.

Rudenko chegou a Pazyryk pela primeira vez em 1929, com o colega Mikhail Griaznov, e escavou o kurgan 1. Achou cavalos sacrificados com arreios e máscaras de feltro, mas a guerra e os anos de Stálin interromperam o trabalho. Ele só voltou ao vale em 1947, para abrir os kurgans 2 a 5 em três temporadas seguidas.

Os pastores de Pazyryk não deixaram uma palavra escrita, mas enterraram o que usavam, e é pela câmara que sabemos como sentavam, cavalgavam e decoravam o chão.

O kurgan 5 guardava um homem e uma mulher embalsamados, nove cavalos com as selas e os arreios, uma carroça de quatro rodas feita de bétula e uma tapeçaria de feltro que cobria uma parede da câmara. Nela, uma deusa sentada recebe um cavaleiro.

Os cavalos mostram o que valia para essa gente. Eram animais altos e bem alimentados, com a crina aparada e a cauda trançada, enterrados com selas de feltro e couro enfeitadas por figuras recortadas. Para os pastores do Altai, o cavalo era riqueza, transporte e companhia na outra vida.

O tapete estava dobrado num canto. Mede cerca de 1,83 por 2 metros. No centro, 24 quadrados com uma espécie de cruz floral, dispostos em seis fileiras de quatro. Em volta, faixas de grifos (animal mítico com corpo de leão e cabeça de águia), de cervos e de cavaleiros.

Não era peça de exibição trazida só para o túmulo. As marcas de uso na lã indicam que alguém pisou nele ou sentou nele antes que fosse dobrado para a última viagem do dono.

 

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II  O Padrão

O gelo que os ladrões fabricaram

A preservação começa pela pedra. O monte de rochas soltas sobre o kurgan funciona como isolante: no verão, sombreia o solo; no inverno, deixa o ar gelado descer pelos vãos entre as pedras. Com o tempo, a terra logo abaixo esfria mais do que a terra ao redor.

Os ladrões fizeram a outra metade. Pouco depois dos enterros, eles cavaram túneis até as câmaras para levar o ouro, cortaram os corpos para arrancar joias e saíram. O túnel ficou aberto. Por ele entraram a água da chuva e a do degelo, que encheram a câmara e congelaram.

Essa lente de gelo (camada de gelo permanente presa dentro da terra) nunca mais descongelou. Tudo o que os ladrões deixaram para trás, madeira, couro, feltro, pele humana com tatuagens, ficou selado no escuro, a poucos graus abaixo de zero, por mais de dois milênios.

Para tirar esse conteúdo, a equipe de Rudenko ferveu água em caldeirões na borda do poço e a derramou sobre o gelo, balde a balde, recolhendo cada peça conforme ela se soltava. O tapete saiu duro de frio, secou devagar e só foi desdobrado por inteiro no laboratório, em Leningrado, o nome soviético de São Petersburgo.

O saque que devia apagar o túmulo de Pazyryk abriu o caminho para a água que o conservou: a peça mais frágil da câmara sobreviveu justamente porque alguém a invadiu.

O tapete é de lã tingida com corantes vegetais e animais, entre eles a cochonilha (inseto que, moído, dá o vermelho). O nó usado é o simétrico, também chamado nó turco, em que o fio dá a volta em dois fios da trama do tear. Na contagem publicada por Rudenko em 1953, são cerca de 36 nós por centímetro quadrado, densidade de tapete fino até para os padrões atuais.

Esse número derruba a ideia de um começo tosco. Uma técnica com esse acabamento pressupõe séculos de oficina anterior, dos quais nada restou. O tapete de Pazyryk é o mais antigo que conhecemos, mas não foi o primeiro a ser feito.

Quem o teceu segue em debate. Rudenko achou que viera da Pérsia aquemênida, porque os cavaleiros e as figuras lembram os relevos de Persépolis, a capital cerimonial dos reis persas. Outros pesquisadores defendem a Armênia ou uma oficina da própria Ásia Central. A dúvida continua por dois motivos concretos: o tapete não traz assinatura, e nenhum tear ou ateliê daquela época apareceu em escavação.

O Espelho: às vezes quem protege um acervo é quem o atacou, e o cuidado de quem o guardou pesa menos. Vale olhar para as perdas do próprio trabalho perguntando o que elas, sem querer, deixaram preservado.

III  O Arquivo

Do gelo de Ulagan à vitrine do Hermitage

Para os túmulos e o tapete, ver Frozen Tombs of Siberia: The Pazyryk Burials of Iron Age Horsemen (Túmulos congelados da Sibéria: os enterros de Pazyryk, cavaleiros da Idade do Ferro), de Serguei Rudenko, publicado pela University of California Press em 1970. É a tradução do relatório russo de 1953, com a descrição peça a peça da câmara do kurgan 5.

Para ver o tapete, ele está no Museu Hermitage, em São Petersburgo, ao lado da carroça de bétula, a tapeçaria de feltro da deusa e os arreios dos cavalos. O museu mantém a peça sob luz baixa, porque a lã tingida desbota com a exposição.

Vale um aviso sobre as datas. As primeiras estimativas de Rudenko situavam o kurgan 5 no século V a.C. A dendrocronologia (datação pela contagem dos anéis das árvores usadas na câmara) e novas medições de radiocarbono puxaram a data para o século IV ou III a.C. As faixas desta edição seguem as datações mais recentes.

Vale outro aviso sobre o frio. O mesmo gelo que salvou Pazyryk agora recua com o aquecimento das montanhas. Em 1998, a UNESCO inscreveu as Montanhas Douradas do Altai como Patrimônio Mundial, e os arqueólogos que ainda trabalham no planalto pedem que os kurgans congelados restantes sejam estudados enquanto a lente de gelo resiste.

Foi assim que, em 1993, a arqueóloga russa Natalia Polosmak encontrou no planalto de Ukok, também no Altai, a chamada Princesa de Ukok, uma mulher da cultura de Pazyryk com os braços tatuados, conservada pelo mesmo tipo de gelo.

No vale de Pazyryk, a 1.600 metros, o kurgan 5 é hoje um anel de pedras sobre um chão ainda congelado a um metro da superfície. Os cavaleiros e os cervos que passaram vinte e quatro séculos presos no gelo desse chão desfilam agora sob a luz baixa de uma sala do Hermitage.

 
 
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Quiz da edição

No kurgan 5 de Pazyryk, o que impediu a lã do tapete de apodrecer ao longo de 24 séculos?

AFoi untado com resina de lariço antes de fechar o caixão
BFicou seco dentro de jarros de cerâmica lacrados
CA água que entrou pelo túnel aberto por ladrões congelou dentro da câmara
DFoi enterrado em areia seca a grande profundidade

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