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A preservação começa pela pedra. O monte de rochas soltas sobre o kurgan funciona como isolante: no verão, sombreia o solo; no inverno, deixa o ar gelado descer pelos vãos entre as pedras. Com o tempo, a terra logo abaixo esfria mais do que a terra ao redor.
Os ladrões fizeram a outra metade. Pouco depois dos enterros, eles cavaram túneis até as câmaras para levar o ouro, cortaram os corpos para arrancar joias e saíram. O túnel ficou aberto. Por ele entraram a água da chuva e a do degelo, que encheram a câmara e congelaram.
Essa lente de gelo (camada de gelo permanente presa dentro da terra) nunca mais descongelou. Tudo o que os ladrões deixaram para trás, madeira, couro, feltro, pele humana com tatuagens, ficou selado no escuro, a poucos graus abaixo de zero, por mais de dois milênios.
Para tirar esse conteúdo, a equipe de Rudenko ferveu água em caldeirões na borda do poço e a derramou sobre o gelo, balde a balde, recolhendo cada peça conforme ela se soltava. O tapete saiu duro de frio, secou devagar e só foi desdobrado por inteiro no laboratório, em Leningrado, o nome soviético de São Petersburgo.
O saque que devia apagar o túmulo de Pazyryk abriu o caminho para a água que o conservou: a peça mais frágil da câmara sobreviveu justamente porque alguém a invadiu.
O tapete é de lã tingida com corantes vegetais e animais, entre eles a cochonilha (inseto que, moído, dá o vermelho). O nó usado é o simétrico, também chamado nó turco, em que o fio dá a volta em dois fios da trama do tear. Na contagem publicada por Rudenko em 1953, são cerca de 36 nós por centímetro quadrado, densidade de tapete fino até para os padrões atuais.
Esse número derruba a ideia de um começo tosco. Uma técnica com esse acabamento pressupõe séculos de oficina anterior, dos quais nada restou. O tapete de Pazyryk é o mais antigo que conhecemos, mas não foi o primeiro a ser feito.
Quem o teceu segue em debate. Rudenko achou que viera da Pérsia aquemênida, porque os cavaleiros e as figuras lembram os relevos de Persépolis, a capital cerimonial dos reis persas. Outros pesquisadores defendem a Armênia ou uma oficina da própria Ásia Central. A dúvida continua por dois motivos concretos: o tapete não traz assinatura, e nenhum tear ou ateliê daquela época apareceu em escavação.
O Espelho: às vezes quem protege um acervo é quem o atacou, e o cuidado de quem o guardou pesa menos. Vale olhar para as perdas do próprio trabalho perguntando o que elas, sem querer, deixaram preservado.
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