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ED 107

O rinoceronte de ouro saiu da colina de Mapungubwe em 1934

Um reino do vale do Limpopo enterrou seus reis com ouro no século XIII, e o achado ficou décadas sem vitrine na África do Sul.

O rinoceronte de ouro saiu da colina de Mapungubwe em 1934

A colina de Mapungubwe vista do vale do Limpopo

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A LINHA DO TEMPO

século XI, povoados agropastoris ocupam o vale do Limpopo → c. 1220, a corte se instala no alto da colina de Mapungubwe → c. 1290, seca e deslocamento do comércio esvaziam o sítio → dezembro de 1932, Jerry van Graan sobe a colina guiado por moradores da região → 1934, a escavação universitária recolhe o rinoceronte de folha de ouro → 2002, a peça batiza a Ordem de Mapungubwe → 2003, a UNESCO inscreve o sítio na lista do Patrimônio Mundial.

No ponto em que o Shashe entrega sua água ao Limpopo, uma colina de arenito com trinta metros de paredão sobe sozinha da planície seca.

Do topo dela saiu, em 1934, um rinoceronte feito de folha de ouro pregada sobre madeira.

No ponto em que o rio Shashe entrega sua água ao Limpopo, a uns 530 metros de altitude e a mais de trezentos quilômetros do oceano Índico, uma colina de arenito com cerca de trinta metros de paredão vertical sobe sozinha da planície seca. De baixo, quem chega vê rocha lisa e nenhuma trilha óbvia. Do alto, vê o encontro dos dois rios, a savana de mopane e a terra que hoje divide África do Sul, Botsuana e Zimbábue.

Em dezembro de 1932, um fazendeiro chamado Jerry van Graan subiu ali guiado por moradores da região, que conheciam a colina e evitavam o topo. Ele desceu com contas de vidro e fragmentos de ouro trabalhado. Em vez de vender o material, escreveu ao professor Leo Fouché, da Universidade de Pretória, onde tinha estudado. A universidade comprou a fazenda e abriu escavação no ano seguinte.

O que saiu do topo da colina foram sepultamentos de gente enterrada sentada, cercada de milhares de contas de vidro, de bracelete de ouro e de objetos feitos de folha de ouro pregada sobre madeira esculpida. Entre eles, uma figura de rinoceronte de cerca de quinze centímetros, com um chifre só, recolhida em 1934 e hoje catalogada no Museu Mapungubwe da Universidade de Pretória.

Um rinoceronte de ouro em cima de uma colina do vale do Limpopo desmontava, sozinho, a linha que a historiografia oficial sul-africana ensinou por décadas: a de que o interior do país estava vazio de organização política antes da chegada dos colonos, e que qualquer estrutura complexa por ali teria vindo de fora. O material contradizia a linha, e o material ficou guardado.

Vale reconstruir o que Mapungubwe foi enquanto funcionava, entender o mecanismo que mantém um achado no depósito quando ele contraria quem paga a escavação, e ver onde checar cada afirmação.

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I  O Estrato

A colina onde a corte subiu e o povo ficou embaixo

Mapungubwe é o nome dado ao sítio e ao reino que teve centro nessa colina, no norte da atual província do Limpopo, África do Sul. As datações por radiocarbono publicadas pelas equipes que trabalharam no sítio colocam a ocupação principal entre cerca de 1220 e 1290 da nossa era, um período curto e denso.

A ocupação não começa ali. Antes da colina, o vale abrigou povoados agropastoris que os arqueólogos chamam de Schroda e K2, ocupados desde o século IX, com gado, cerâmica própria e comércio de marfim já ativo. K2 fica a poucos quilômetros da colina e foi abandonado quando a população se mudou para o pé de Mapungubwe.

A mudança tem geometria social visível no terreno. Antes, o gado ficava no centro do povoado e o chefe morava junto do rebanho. Em Mapungubwe, a elite subiu para o platô rochoso e a maioria da população ficou na planície ao redor. O arqueólogo Thomas Huffman, da Universidade do Witwatersrand, lê essa separação física como a primeira evidência de estratificação de classes no sul da África, e estima que a área ocupada no sopé abrigou milhares de pessoas.

A economia que sustentou a colina tinha três pernas: gado nas terras baixas do Limpopo, marfim e ouro extraídos e trabalhados no interior, e uma rota que descia até portos do canal de Moçambique, de onde a mercadoria seguia para Kilwa e para o mundo do oceano Índico.

O que voltava por essa rota está no chão do sítio. As escavações recolheram contas de vidro fabricadas fora da África, fragmentos de cerâmica vidrada chinesa e tecido, todos itens que não se produziam no vale. Contas de vidro em quantidade grande, num lugar sem vidraria, indicam um fluxo regular e não um contato isolado.

O ouro é o material que muda a leitura. Além do rinoceronte, saíram do topo da colina um cetro e um recipiente em forma de tigela, feitos com a mesma técnica: folha de ouro batida e pregada com tachas minúsculas sobre um corpo de madeira esculpida. A madeira apodreceu no solo, o ouro amassou, e a restauração precisou remontar a forma a partir das lâminas soltas.

A técnica diz duas coisas ao mesmo tempo. Havia ourives locais capazes de bater ouro em folha fina e de trabalhar com tacha de ouro, e havia uma corte com poder para acumular metal e enterrá-lo em vez de comerciá-lo. Objeto de ouro que sai de circulação e vai para a sepultura é sinal de hierarquia consolidada.

O topo da colina também explica por que o sítio se preservou. O acesso original passava por uma fenda estreita na rocha, com degraus talhados e buracos para postes de madeira, e a subida podia ser controlada por poucas pessoas. Um lugar difícil de alcançar guarda melhor o que foi enterrado nele, e foi por causa da altura que a terra do platô, carregada de contas e de lâminas de ouro, ficou onde estava por sete séculos.

O abandono veio rápido. A queda de temperatura e de chuva na região, no fim do século XIII, reduziu a capacidade agrícola do vale, e o eixo do comércio de ouro se deslocou para o planalto ao norte, onde o Grande Zimbábue cresceu no século seguinte. A corte que mandava do alto da colina deixou de mandar em algumas décadas.

 

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II  O Padrão

Achado que contraria o poder vira material de depósito

A escavação de Mapungubwe começou com aval acadêmico e publicação. Leo Fouché organizou o primeiro volume de resultados, Mapungubwe: Ancient Bantu Civilization on the Limpopo, publicado pela Cambridge University Press em 1937. O nome no título já dizia de quem era a cidade, e o volume circulou.

Depois, o assunto esfriou. A história oficial que se consolidou na África do Sul a partir de 1948 dependia de uma premissa simples: a de que colonos e populações africanas teriam chegado ao interior mais ou menos na mesma época, encontrando terra vazia. Uma corte com ouro, classes e comércio oceânico datada do século XIII no vale do Limpopo não cabia nessa premissa.

As peças de ouro não foram destruídas nem escondidas em cofre secreto: ficaram na Universidade de Pretória, com acesso restrito, sem exposição pública permanente, e a exibição ampla do rinoceronte só veio nas décadas de 1990 e 2000, mais de sessenta anos depois de recolhido.

O mecanismo aqui é mais discreto que a censura direta. Ninguém precisa queimar um relatório para desativar um achado. Basta não financiar a continuidade, não montar a vitrine, não incluir o caso no currículo escolar e tratar o sítio como assunto técnico de um departamento. O objeto continua existindo e para de ser argumento.

O custo apareceu na formação de gerações inteiras. Quem passou pela escola sul-africana entre os anos 1950 e 1980 aprendeu geografia, mineração e guerras de fronteira, e não aprendeu que a mesma paisagem tinha abrigado um Estado com corte e rota comercial cinco séculos antes da colonização.

A pesquisa não parou nesse intervalo, e essa parte costuma ficar de fora do resumo apressado do caso. Departamentos de arqueologia continuaram publicando datações, análises de cerâmica e estudos das contas de vidro ao longo de todo o período. Produzir conhecimento e distribuí-lo são operações diferentes, e só a segunda muda o que um país acredita sobre o próprio passado.

A reversão foi deliberada e recente. Em 2002, o governo criou a Ordem de Mapungubwe, a mais alta condecoração civil do país, com o rinoceronte de ouro no desenho da insígnia, e Nelson Mandela foi o primeiro a recebê-la. Em 2003, a UNESCO inscreveu a paisagem cultural de Mapungubwe na lista do Patrimônio Mundial. Em 2000, o entorno virou parque nacional.

Há ainda uma pendência material. Os sepultamentos escavados nos anos 1930 foram removidos da colina e guardados pela universidade, e parte deles voltou a ser enterrada no sítio em cerimônia de 2007, depois de negociação com comunidades locais que reivindicavam a devolução.

O Espelho: repare em quanto material da sua própria operação está tecnicamente disponível e praticamente inerte, num drive que ninguém abre, num relatório que ninguém apresenta. Guardar sem exibir produz o mesmo efeito de não ter.

A decisão que dá vida ao dado não é a de arquivar, é a de colocá-lo onde ele conta e onde alguém precisa responder por ele. Documento que fica no depósito perde para a versão que está na parede.

III  O Arquivo

Onde checar Mapungubwe e o vale do Limpopo

Para o registro original da escavação, ver Leo Fouché, Mapungubwe: Ancient Bantu Civilization on the Limpopo, publicado pela Cambridge University Press em 1937, e o segundo volume, organizado por Guy Anthony Gardner, publicado pela mesma editora em 1963.

Para a leitura arqueológica atual, ver Thomas Huffman, Mapungubwe: Ancient African Civilisation on the Limpopo, publicado pela Wits University Press em 2005, que reúne as datações, a sequência Schroda, K2 e Mapungubwe, e o argumento sobre a separação espacial entre elite e população.

Para o acervo e a história dos objetos, ver os trabalhos de Sian Tiley-Nel, curadora da Coleção Mapungubwe na Universidade de Pretória, entre eles Mapungubwe Remembered, de 2011, que documenta a trajetória das peças de ouro desde 1933.

Vale um aviso sobre a técnica do rinoceronte. A figura é folha de ouro sobre madeira, e a madeira não sobreviveu: a forma que se vê hoje resulta de remontagem das lâminas amassadas, e a interpretação do animal representado já foi discutida na bibliografia.

Vale outro aviso sobre o nome. Mapungubwe é topônimo em língua local com etimologia disputada, e o reino não deixou registro escrito próprio: tudo que se afirma sobre a corte vem de escavação, datação e comparação com sítios vizinhos, nunca de um texto produzido por quem morou ali.

O rinoceronte de folha de ouro está no Museu Mapungubwe, no campus Hatfield da Universidade de Pretória, remontado sobre suporte, catalogado como peça de sepultamento do século XIII recolhida na colina em 1934.

 
 

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O que Jerry van Graan fez com o ouro e as contas de vidro depois de subir a colina de Mapungubwe em dezembro de 1932?

AVendeu o material a um colecionador de Joanesburgo
BEscreveu ao professor Leo Fouché, da Universidade de Pretória
CDoou as peças direto a um museu de Cape Town
DEnterrou tudo de volta na colina por respeito local

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