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ED 089

O que sobrou dos cassitas cabe numa lista de cavalos

Babilônia, século XVI a.C.: uma casa estrangeira ficou quase quatrocentos anos no trono e quase não deixou vestígio da própria língua.

O que sobrou dos cassitas cabe numa lista de cavalos

Kudurru cassita e o zigurate de Dur Kurigalzu

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A LINHA DO TEMPO

Cerca de 1595 a.C., a Babilônia perde a casa de Hamurábi e os cassitas ocupam o vazio → século XIV a.C., Kurigalzu ergue a capital de Dur Kurigalzu → 1225 a.C., a Assíria invade e leva o rei acorrentado → 1155 a.C., Elam derruba o último rei cassita.

Uma casa estrangeira ficou quase quatro séculos no trono da Babilônia.

Da língua dela sobraram nomes de divindade e termos de cor de cavalo.

Numa tabuinha de argila copiada em escola de escriba babilônica, duas colunas correm lado a lado. À esquerda, palavras de uma língua que quase ninguém falava. À direita, o equivalente em acádio, a língua do dia a dia da cidade.

O conteúdo da lista é modesto. Nomes de divindade, pedaços de nome próprio e um punhado de termos para descrever cavalo, boa parte deles sobre a cor do pelo do animal.

Essa lista está entre as maiores porções que restam do cassita. Somando tudo que a assiriologia consegue reunir, o vocabulário conhecido não passa de algumas dezenas de palavras, e quase nenhuma delas aparece dentro de uma frase.

A língua não tem parente conhecido. Não é semítica como o acádio, não é o sumério, não é o elamita nem o hurrita, e as tentativas de encaixá-la numa família seguem sem acordo entre especialistas.

Quem falava aquela língua não era um grupo derrotado nem uma minoria escondida no interior. Era a família que ocupou o trono da Babilônia por quase quatro séculos.

Foi o reinado mais longo que a Mesopotâmia conheceu, e não foi um reinado obscuro. Nesse intervalo a Babilônia trocava carta de igual para igual com o faraó do Egito, mandava lápis-lazúli e recebia ouro em barra.

O Estado que essa gente governava produzia papelada em escala. Só a cidade de Nipur devolveu milhares de tabuinhas administrativas do período, de um aparato que cobrava, distribuía e registrava entrega.

E, ainda assim, da língua deles sobrou um glossário de cor de cavalo. Não por destruição, por opção: escreveram em acádio, cultuaram deus babilônico e deixaram o escriba local exatamente onde ele já estava.

Antes de tratar do esquecimento, vale reconstruir o começo. De onde veio essa gente, como chegou ao trono de uma cidade que não era dela e o que fez com o país nos quatro séculos em que mandou.

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I  O Estrato

A dinastia mais longa que a Babilônia teve

Os cassitas aparecem no registro babilônico antes de governarem qualquer coisa. Documentos do reinado de Samsu-iluna, filho de Hamurábi, no século XVIII a.C., já mencionam grupos cassitas na fronteira e trabalhador cassita contratado na colheita.

A origem provável está a leste, na cordilheira dos Zagros, no que hoje é o oeste do Irã. Não existe sítio identificado com segurança como terra natal, e a proposta se apoia em nome próprio e em rota de entrada.

A queda da casa de Hamurábi não foi obra deles. Por volta de 1595 a.C., um exército hitita comandado por Mursili I desceu o Eufrates, saqueou a Babilônia e voltou para a Anatólia sem ocupar nada.

O trono ficou vago e a documentação some por décadas. Quando o registro volta, quem está sentado nele é um rei cassita, e a lista real babilônica passa a contar trinta e seis reis dessa casa.

A consolidação levou tempo. Só no século XV a.C. a dinastia incorpora o País do Mar, no extremo sul, e a Babilônia inteira passa a funcionar como um só Estado territorial, coisa que a região não tinha antes.

Nenhuma outra dinastia mesopotâmica chegou perto dessa duração. A casa de Hamurábi ficou cerca de três séculos, a Terceira Dinastia de Ur ficou cerca de um, e a cassita atravessou quatro, de cerca de 1595 a 1155 a.C.

O nome que os cassitas davam ao país era Karduniash. O termo pegou: séculos depois do fim da dinastia, rei assírio ainda chamava a Babilônia de Karduniash em inscrição oficial.

No século XIV a.C., o rei Kurigalzu ergueu uma capital nova a poucos quilômetros da atual Bagdá e batizou de Dur Kurigalzu, a fortaleza de Kurigalzu. O núcleo de tijolo do zigurate continua de pé, com cerca de 57 metros.

Ao mesmo tempo, a dinastia bancou a reforma de Nipur, cidade santa do deus Enlil, e devolveu ao templo antigo a função de centro religioso e administrativo do país inteiro.

A política externa era de potência. As cartas de Amarna, achadas no Egito, guardam a correspondência entre reis cassitas como Kadashman Enlil I e Burna Buriash II e os faraós Amenófis III e Aquenáton.

O assunto costuma ser ouro, lápis-lazúli, cavalo e casamento entre as duas casas. O tom é de parceiro que cobra atraso e reclama de presente pequeno, não de vassalo que pede favor.

O fim veio em duas etapas. Por volta de 1225 a.C., o assírio Tukulti Ninurta I invadiu a Babilônia, levou o rei Kashtiliash IV acorrentado para Assur e tirou a estátua de Marduk do templo.

A dinastia se recompôs por algumas décadas. Em 1155 a.C., uma campanha elamita derrubou o último rei cassita, Enlil nadin ahi, e o levou para Susa junto com o espólio da cidade.

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II  O Padrão

O reinado que não deixou cicatriz

A pergunta que fica é como uma casa estrangeira ficou quatro séculos no poder sem deixar marca cultural proporcional ao tempo.

A resposta está no método de governo. Os cassitas não impuseram língua, não impuseram panteão e não trocaram a máquina administrativa que encontraram funcionando.

O acádio seguiu como língua de documento, de contrato e de literatura. A carta que um rei cassita mandava ao faraó do Egito era escrita em acádio, língua materna de nenhum dos dois.

"Desde o tempo em que meus antepassados e os teus firmaram amizade, eles mandaram belos presentes um ao outro e não recusaram pedido de nada que fosse belo."
Carta de Amarna EA 9, de Burna Buriash II ao faraó, em William Moran, The Amarna Letters, 1992

No culto foi igual. Os reis restauraram templo de Marduk, de Enlil e de Ishtar, e acrescentaram ao panteão apenas duas divindades próprias, Shuqamuna e Shumaliya, ligadas à posse do trono.

A escola de escriba continuou babilônica, e o período foi produtivo. É no médio babilônico que boa parte da literatura mesopotâmica assume a forma padrão que os arquivos do primeiro milênio vão copiar.

A versão canônica da epopeia de Gilgamesh, atribuída pela tradição posterior ao escriba Sin leqi unninni, é datada desse intervalo. As grandes séries de presságio e as listas lexicais também se estabilizam nele.

A invenção mais visível da dinastia é jurídica: o kudurru, a pedra de concessão de terra. Um bloco entalhado com o limite do lote, o nome do beneficiado, os símbolos dos deuses e a maldição contra quem mexer no marco.

O kudurru resolveu um problema de Estado: garantir a posse de terra dada por um rei que não estaria vivo para defender a doação. A solução durou mais que a dinastia.

Falta uma coisa em toda essa lista: catástrofe. Não há relato de colapso no meio do período, não há grande poema de lamentação sobre a queda da cidade, não há camada de incêndio que marque a época.

O registro histórico é construído em cima de ruptura. Guerra, praga, cheia, incêndio e saque deixam camada, monumento e literatura. Quatro séculos de máquina girando deixam recibo.

E recibo foi o que sobrou. Ração de trabalhador, entrega de cevada, contagem de gado, lista de pessoal, o tipo de documento que ninguém transforma em capítulo de livro de história.

Junte a escolha dos próprios cassitas. Ao adotar a língua da casa que tomaram, eles abriram mão de deixar literatura própria, e quem não tem literatura própria não tem voz no registro que ele mesmo alimenta.

Ainda tem um detalhe cruel na cadeia. Boa parte dos kudurrus que documentam a rotina cassita chegou até hoje porque o exército elamita levou as pedras como espólio para Susa.

O registro da manutenção sobreviveu pendurado numa ruptura. Sem o saque que fechou a dinastia, boa parte dessas pedras teria ficado espalhada em templo de província.

O Espelho: abra o último relatório que você escreveu sobre o próprio trabalho e conte quantas linhas tratam de problema resolvido e quantas tratam do que não quebrou.

A segunda contagem vem quase sempre zerada, e é ela que explica por que o trabalho de quem mantém o sistema de pé fica invisível na avaliação. Descreva a manutenção com o mesmo detalhe que você dá ao incêndio.

 
 

III  O Arquivo

Onde checar os cassitas e Dur Kurigalzu

Sobre a história política da dinastia e a documentação dos reis, ver John Anthony Brinkman, Materials and Studies for Kassite History, volume 1, de 1976, a compilação padrão da área.

Sobre a língua e o material que sobrou dela, ver Kemal Balkan, Kassitenstudien 1: Die Sprache der Kassiten, de 1954, que reúne nome próprio, nome de divindade e o vocabulário de cavalo preservado em lista bilíngue.

Sobre origem, política e cultura do período num texto de síntese, ver Walter Sommerfeld, The Kassites of Ancient Mesopotamia: Origins, Politics and Culture, publicado em Civilizations of the Ancient Near East, de 1995.

Sobre os kudurrus, ver Susanne Paulus, Die babylonischen Kudurru Inschriften von der kassitischen bis zur frühneubabylonischen Zeit, de 2014, edição crítica do corpus inteiro.

Sobre a correspondência com o Egito, ver William Moran, The Amarna Letters, de 1992, com as cartas de Kadashman Enlil I e de Burna Buriash II traduzidas e comentadas.

Sobre o arquivo administrativo e a sociedade do período, ver Leonhard Sassmannshausen, Beiträge zur Verwaltung und Gesellschaft Babyloniens in der Kassitenzeit, de 2001, montado sobre as tabuinhas de Nipur.

Sobre a capital nova, ver os relatórios de Taha Baqir sobre as escavações do governo iraquiano em Aqar Quf, publicados na revista Iraq na primeira metade dos anos 1940.

Sobre a ideia de uma corrente de tradição escrita que atravessa os séculos na Mesopotâmia, ver A. Leo Oppenheim, Ancient Mesopotamia: Portrait of a Dead Civilization, de 1964.

Para ver de perto, o Museu do Louvre expõe kudurrus cassitas que os elamitas levaram para Susa, no mesmo carregamento do código de Hamurábi, achados pela missão francesa a partir de 1901.

Vale o aviso de cronologia. As datas de 1595 e de 1155 a.C. seguem a cronologia média, que é convenção de trabalho, e existem propostas alta e baixa que deslocam tudo em décadas.

Vale outro aviso de fonte. Parte do que se atribui aos primeiros reis cassitas vem de cópia feita mil anos depois, como a inscrição de Agum kakrime, e a autenticidade do texto é discutida.

Vale um aviso final de contagem. O número de palavras cassitas conhecidas muda conforme o autor, porque quase todo o material é nome próprio, e nome próprio nem sempre entrega o significado.

 
 
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