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O palácio que o rio Murgab deixou para trás
Por volta de 2000 a.C., Gonur Depe comandava um oásis no Karakum. O delta do Murgab mudou de lugar e a cidade secou.
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Gonur Depe, no deserto de Karakum
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A LINHA DO TEMPO
cerca de 2300 a.C., agricultores ocupam os braços do delta do Murgab, no sul do atual Turcomenistão → cerca de 2000 a.C., Gonur Depe vira o maior centro do oásis de Margiana, com palácio murado e necrópole real → cerca de 1800 a.C., o braço do delta que abastecia Gonur começa a secar e o leito ativo migra para o sul → cerca de 1700 a.C., o povoado é abandonado e a população se desloca para Togolok e outros sítios mais próximos da água → 1972, o arqueólogo Viktor Sarianidi começa a escavar Gonur Depe → 1976, Sarianidi propõe o conceito de Complexo Arqueológico Bactria-Margiana → 1994, Fredrik Hiebert publica o estudo das fases dos oásis de Margiana → 2013, terminam as quatro décadas de campanhas de Sarianidi em Gonur
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Em Gonur Depe, no deserto de Karakum, um palácio murado comandou um oásis por volta de 2000 a.C.
O braço do rio Murgab que o abastecia mudou de lugar, e a cidade foi deixada no seco.
A 38 graus de latitude norte, cerca de 60 quilômetros ao norte da cidade turcomena de Mary, o deserto de Karakum é uma planície de argila rachada e dunas baixas. Quem sobe o monte de terra que os turcomenos chamam de Gonur Depe (colina cinzenta, em turcomeno) vê areia em todas as direções e nenhum rio.
Há quatro mil anos, a mesma vista mostrava canais de irrigação, campos de cevada e trigo e um palácio murado com torres retangulares nos cantos. Ali corria um dos braços do rio Murgab, que desce das montanhas do Afeganistão e, ao chegar à planície, se abre em leque, como os dedos de uma mão espalmada, antes de sumir na areia.
Esse leque de braços é um delta interior: o rio não chega ao mar, ele se divide em canais rasos que espalham água e lodo pela planície até se esgotar. Onde o braço passava, havia oásis. Onde ele deixava de passar, sobrava deserto.
Por volta de 2000 a.C., Gonur Depe era o maior povoado desse oásis, a região que os gregos chamariam mais tarde de Margiana. O palácio ocupava o centro, cercado por muralhas duplas, com salões, pátios, oficinas de metal e cerâmica e um grande cemitério do lado de fora dos muros.
A cidade pertencia a uma cultura que os arqueólogos chamam de Complexo Arqueológico Bactria-Margiana, ou civilização do Oxus (nome grego do rio Amu Darya), espalhada pelos oásis do atual Turcomenistão, Uzbequistão, Afeganistão e Tadjiquistão. Seus contemporâneos eram as cidades do Indo e da Mesopotâmia, com quem trocavam objetos.
O arqueólogo soviético Viktor Sarianidi escavou o sítio por quatro décadas, de 1972 até 2013. Encontrou o palácio, as oficinas, túmulos com carroças de rodas maciças e animais sepultados junto de pessoas. Encontrou também o sinal de que a cidade não caiu por guerra nem por incêndio: foi deixada.
Os moradores saíram porque a água parou de chegar. O braço do Murgab que alimentava Gonur secou, e o leito ativo do rio migrou para o sul. Para entender como uma cidade inteira depende de um canal que ninguém escolheu, vale começar pelo chão em que ela foi construída.
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I O Estrato
Um oásis desenhado pelo lodo
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O rio Murgab nasce no Hindu Kush, a cordilheira do norte do Afeganistão, e corre cerca de 850 quilômetros até se perder no Karakum. Na planície de Mary, ele perde velocidade e deposita a areia fina e o lodo que carrega. Esse depósito, acumulado por milênios, formou um cone largo de terra fértil no meio do deserto.
Os agricultores que ocuparam o cone por volta de 2300 a.C. não precisavam de chuva, que ali quase não cai. Precisavam do braço do rio. Cavavam canais curtos que saíam dele e inundavam os campos na época da cheia, quando a neve derretida das montanhas enchia o Murgab entre a primavera e o início do verão.
O problema está na própria natureza do delta. O lodo que o rio deposita vai elevando o fundo de cada braço. Com o tempo, o canal fica mais alto que o terreno em volta, e numa cheia forte a água rompe a margem e abre caminho por outro lado, onde o chão é mais baixo. O braço antigo recebe cada vez menos água até secar.
Os geógrafos chamam esse salto de avulsão (mudança brusca do leito de um rio para um canal novo). No Murgab, ele se repetiu várias vezes em poucos milênios, e cada salto redesenhou o mapa dos campos cultiváveis. Os povoados da Idade do Bronze ficam hoje enfileirados sobre leitos mortos, como marcas de onde o rio esteve.
Num delta interior, o leito do rio nunca fica parado: cada braço carrega o lodo que um dia vai entupi-lo, e o oásis acompanha a água ou desaparece com ela.
Gonur cresceu num desses braços, na porção norte do cone, e chegou ao auge por volta de 2000 a.C. O centro murado, que Sarianidi chamou de Gonur Norte, tinha palácio, um salão que ele interpretou como templo do fogo, reservatórios e bairros de artesãos. Um povoado menor, Gonur Sul, ficava a poucas centenas de metros.
As oficinas produziam objetos de bronze, prata e ouro, contas de pedras vindas de longe e selos de pedra gravados com animais e figuras aladas. Em Gonur apareceram peças de marfim e selos no estilo das cidades do Indo, prova de contato com o vale do Indo, a quase dois mil quilômetros dali.
O cemitério real, escavado nos anos 2000, trouxe túmulos com carroças de quatro rodas maciças de madeira com aros de bronze, e com animais sepultados junto dos donos: cavalos, camelos, cães, carneiros. Um dos túmulos tinha um potro inteiro ao lado de uma carroça.
Nada disso vivia sem o braço do Murgab. O barro dos tijolos, a água dos reservatórios, a cevada dos celeiros e o capim dos animais dependiam do mesmo canal que o lodo, ano a ano, ia levantando.
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