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O sultanato de Kilwa foi uma cidade-Estado suaíli, muçulmana, que floresceu entre os séculos XII e XV. Os suaílis eram povos bantos da costa, falantes de uma língua africana cheia de palavras árabes, que viviam do comércio com a Arábia, a Pérsia e a Índia.
A Crônica de Kilwa, texto árabe compilado por volta de 1520 e conhecido pelo título Kitab al-Sulwa (O Livro da Consolação), conta que a cidade foi fundada por Ali ibn al-Hasan, filho de um sultão de Shiraz, na Pérsia. Os historiadores leem a origem persa como lenda de prestígio: as escavações mostram uma aldeia africana na ilha séculos antes da primeira dinastia com nome árabe.
A virada veio no fim do século XII, quando Kilwa passou a controlar Sofala, porto a mais de 1.500 quilômetros ao sul, no atual Moçambique. Sofala era a saída do ouro extraído no planalto do Zimbábue, a mesma região onde se ergueu a cidade de pedra do Grande Zimbábue.
O ouro descia do planalto até Sofala, subia a costa em barcos de tábuas costuradas com fibra de coco e parava em Kilwa, onde pagava taxa antes de seguir para Áden e para o Golfo Pérsico. Na volta, os barcos traziam tecido indiano, contas de vidro e porcelana chinesa.
A cidade que cunhava moeda
Kilwa foi das poucas cidades da costa a cunhar moeda própria, pequenas peças de cobre gravadas com o título do sultão reinante. Em 1944, um militar australiano, Maurie Isenberg, achou quatro dessas moedas numa praia das ilhas Wessel, no norte da Austrália. Como chegaram lá ainda é um enigma sem resposta: nenhum documento registra viagem de Kilwa até a Austrália, e os pesquisadores discutem naufrágio, troca em cadeia por portos da Indonésia ou visita de navio estrangeiro.
Kilwa não produzia ouro: cobrava pedágio sobre o ouro dos outros, e toda a sua grandeza dependia de uma rota que ela não controlava na origem.
Al-Hasan ibn Sulaiman herdou essa máquina de taxar no auge. Além do palácio, mandou ampliar a Grande Mesquita da cidade com uma sala coberta de cúpulas de coral, a maior construção religiosa da costa suaíli na época.
"Kilwa é uma das cidades mais belas e mais bem construídas do mundo. Toda ela é de construção elegante." (Ibn Battuta, Rihla, texto fixado por Ibn Juzayy, 1355)
A frase virou cartão-postal da cidade, mas Ibn Battuta registrou também o custo: o sultão mantinha a riqueza com expedições de saque contra os povos do continente, e os escravizados e o marfim tomados nelas entravam no mesmo comércio do ouro.
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