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Civilizações Perdidas   Civilizações Perdidas
ED 129

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O palácio de Kilwa que o sultão deixou pela metade

O sultão al-Hasan ergueu na ilha o maior palácio da costa africana, e a obra parou antes do fim

Arcos de coral sem telhado do palácio Husuni Kubwa sobre o mar

Husuni Kubwa, Kilwa Kisiwani, século XIV

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A LINHA DO TEMPO

século XII, Kilwa assume o controle do porto de Sofala e do ouro do interior → por volta de 1320, o sultão al-Hasan ibn Sulaiman começa o Husuni Kubwa → 1331, Ibn Battuta visita a cidade → por volta de 1333, al-Hasan sai de cena e a obra do palácio para → 1355, Ibn Juzayy fecha o texto da Rihla em Fez → 1505, a frota de Francisco de Almeida saqueia Kilwa → 1958 a 1965, Neville Chittick escava o palácio → 1981, a UNESCO inscreve as ruínas na lista do Patrimônio Mundial

Numa ilha da costa da Tanzânia, os arcos de um palácio de coral seguem sem telhado há quase setecentos anos.

O sultão al-Hasan ibn Sulaiman começou a obra por volta de 1320. Ela parou antes do fim.

A 300 quilômetros ao sul de Dar es Salaam, na costa da Tanzânia, a ilha de Kilwa Kisiwani fica a dois quilômetros do continente, separada dele por um canal de manguezais. Na ponta norte, sobre um barranco de coral a uns 15 metros do mar, uma fileira de arcos sem telhado olha para o oceano Índico. Da borda se vê a entrada do porto e a linha verde da costa africana.

Os pescadores da ilha chamam as ruínas de Husuni Kubwa, que em suaíli quer dizer "a grande fortaleza". O apelido engana: era um palácio, o maior construído na costa leste da África antes da chegada dos europeus.

Quem mandou erguê-lo foi o sultão al-Hasan ibn Sulaiman, que governou Kilwa por volta de 1310 a 1333. Uma inscrição em árabe achada nas ruínas repete o título dele, al-Malik al-Mansur (o rei vitorioso). O projeto tinha pátios, salões de audiência, depósitos para mercadoria, uma escadaria que descia até a praia e uma piscina octogonal escavada no coral.

Em 1331, com a obra em andamento, desembarcou na ilha um viajante marroquino de 27 anos, Ibn Battuta. Ele vinha de Mogadíscio e Mombaça, seguindo as monções (ventos sazonais que empurravam os barcos para o sul entre novembro e março). O que viu em Kilwa entrou no relato que ditou mais tarde, em Fez.

Ele escreveu que a cidade era uma das mais belas e bem construídas do mundo. Descreveu casas de madeira e pedra, um sultão famoso pela generosidade e uma população em guerra santa constante contra os povos do interior.

O palácio do sultão generoso nunca ficou pronto. Os arqueólogos que o escavaram no século XX acharam paredes que pararam na altura do peito, salas sem cobertura e alicerces de alas que jamais subiram. A construção foi abandonada pouco depois da visita de Ibn Battuta, e a corte voltou a morar no centro da cidade.

Para entender por que um sultão rico largou a própria casa pela metade, vale conhecer primeiro de onde vinha o dinheiro que pagou os arcos.

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I  O Estrato

O ouro que vinha de Sofala

O sultanato de Kilwa foi uma cidade-Estado suaíli, muçulmana, que floresceu entre os séculos XII e XV. Os suaílis eram povos bantos da costa, falantes de uma língua africana cheia de palavras árabes, que viviam do comércio com a Arábia, a Pérsia e a Índia.

A Crônica de Kilwa, texto árabe compilado por volta de 1520 e conhecido pelo título Kitab al-Sulwa (O Livro da Consolação), conta que a cidade foi fundada por Ali ibn al-Hasan, filho de um sultão de Shiraz, na Pérsia. Os historiadores leem a origem persa como lenda de prestígio: as escavações mostram uma aldeia africana na ilha séculos antes da primeira dinastia com nome árabe.

A virada veio no fim do século XII, quando Kilwa passou a controlar Sofala, porto a mais de 1.500 quilômetros ao sul, no atual Moçambique. Sofala era a saída do ouro extraído no planalto do Zimbábue, a mesma região onde se ergueu a cidade de pedra do Grande Zimbábue.

O ouro descia do planalto até Sofala, subia a costa em barcos de tábuas costuradas com fibra de coco e parava em Kilwa, onde pagava taxa antes de seguir para Áden e para o Golfo Pérsico. Na volta, os barcos traziam tecido indiano, contas de vidro e porcelana chinesa.

A cidade que cunhava moeda

Kilwa foi das poucas cidades da costa a cunhar moeda própria, pequenas peças de cobre gravadas com o título do sultão reinante. Em 1944, um militar australiano, Maurie Isenberg, achou quatro dessas moedas numa praia das ilhas Wessel, no norte da Austrália. Como chegaram lá ainda é um enigma sem resposta: nenhum documento registra viagem de Kilwa até a Austrália, e os pesquisadores discutem naufrágio, troca em cadeia por portos da Indonésia ou visita de navio estrangeiro.

Kilwa não produzia ouro: cobrava pedágio sobre o ouro dos outros, e toda a sua grandeza dependia de uma rota que ela não controlava na origem.

Al-Hasan ibn Sulaiman herdou essa máquina de taxar no auge. Além do palácio, mandou ampliar a Grande Mesquita da cidade com uma sala coberta de cúpulas de coral, a maior construção religiosa da costa suaíli na época.

"Kilwa é uma das cidades mais belas e mais bem construídas do mundo. Toda ela é de construção elegante." (Ibn Battuta, Rihla, texto fixado por Ibn Juzayy, 1355)

A frase virou cartão-postal da cidade, mas Ibn Battuta registrou também o custo: o sultão mantinha a riqueza com expedições de saque contra os povos do continente, e os escravizados e o marfim tomados nelas entravam no mesmo comércio do ouro.

 

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II  O Padrão

A casa grande demais para a rota

O Husuni Kubwa foi desenhado para uma escala que a ilha nunca tinha visto. Segundo o levantamento do arqueólogo britânico Neville Chittick, publicado em 1974, o complexo passava de cem cômodos e ocupava todo o topo do barranco, com um pátio de recepção, um bloco residencial e um grande pátio sul cercado de depósitos.

Os depósitos explicam o projeto. O palácio era também entreposto: o sultão recebia mercadores, cobrava a taxa e guardava o ouro dentro da própria casa, com acesso direto à praia pela escadaria.

A piscina octogonal, escavada no coral e cercada de degraus, é a peça que mais intriga. Chittick não achou nenhum sistema para enchê-la com água doce, e a ilha não tem rio. A hipótese dele é que servia para banho cerimonial com água da chuva armazenada, mas nenhum texto da época descreve seu uso, e a função exata segue sem confirmação.

Por que a obra parou

As escavações mostram o abandono com clareza. Várias salas nunca receberam teto; algumas paredes não passaram do primeiro metro. Chittick concluiu que o palácio foi ocupado por pouco tempo, talvez uma única geração, e deixado de lado depois de al-Hasan.

A causa exata ninguém registrou. A Crônica de Kilwa não menciona o palácio, e o sultão sai dos registros por volta de 1333. Os arqueólogos apontam dois fatores que coincidem: a morte ou deposição de al-Hasan, e a queda da produção de ouro no planalto do Zimbábue em meados do século XIV. A Peste Negra, que chegou aos portos do Índico nas décadas de 1340 e 1350, também reduziu o comércio de longa distância.

O Husuni Kubwa foi planejado no pico da receita, como se o pico fosse o piso, e ficou pela metade quando o fluxo que o sustentava encolheu.

Kilwa sobreviveu, mas menor. Os sultões seguintes voltaram a construir em escala modesta, e a cidade atravessou o século XV disputando o comércio com Mombaça e Malindi.

O golpe final veio pelo mar. Em 1505, a frota portuguesa de Francisco de Almeida atacou a cidade, pôs um sultão aliado no trono e ergueu um forte, a Gereza. Com os portugueses no controle de Sofala, o ouro deixou de passar por Kilwa, e a ilha virou um posto secundário.

O padrão se repete em cidades-pedágio da história: a riqueza que vem de taxar uma passagem cresce rápido e some rápido, porque depende de uma rota que outros podem desviar.

O Espelho: quem planeja o gasto grande no melhor ano de faturamento assume que o melhor ano é o normal. A obra do Husuni Kubwa mostra quanto custa descobrir o contrário com as paredes ainda sem teto.

III  O Arquivo

Dos arcos de coral à lista da UNESCO

Para o palácio, a fonte principal é a obra de Neville Chittick, Kilwa: An Islamic Trading City on the East African Coast, publicada em dois volumes pelo British Institute in Eastern Africa, em Nairóbi, em 1974. Reúne as escavações de 1958 a 1965, a planta completa do Husuni Kubwa e a leitura da inscrição de al-Hasan.

Para a visita de 1331, a referência é a Rihla de Ibn Battuta, texto fixado pelo secretário Ibn Juzayy em Fez, em 1355. A tradução inglesa de H. A. R. Gibb, publicada pela Hakluyt Society, traz o trecho sobre Kilwa no volume II, de 1962.

Vale um aviso sobre a data da viagem. Ibn Battuta ditou o relato mais de vinte anos depois, e o calendário da Rihla tem falhas; parte dos estudiosos coloca a passagem por Kilwa em 1330 ou 1332. O ano de 1331 é o mais aceito, mas não é certo.

Vale outro aviso sobre o fim de al-Hasan. As fontes não dizem se ele morreu no trono ou foi deposto, nem em que ano exato. A Crônica de Kilwa chegou em versões que discordam entre si, e a data de 1333 vem da contagem dos reinados, não de um registro direto.

Para ver as ruínas, o Husuni Kubwa, a Grande Mesquita e o forte português formam o sítio Ruínas de Kilwa Kisiwani e de Songo Mnara, inscrito pela UNESCO na lista do Patrimônio Mundial em 1981. O acesso é de barco a partir de Kilwa Masoko, no continente.

No barranco da ponta norte, a 300 quilômetros de Dar es Salaam, os arcos de coral continuam sem telhado sobre o Índico. A piscina octogonal está seca e cheia de folhas, e a inscrição que chama al-Hasan ibn Sulaiman de rei vitorioso segue presa às pedras de uma casa que ele não chegou a terminar.

 
 
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