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O monte de 22 metros de Poverty Point subiu em 90 dias

Na Louisiana, caçadores e pescadores sem roça ergueram seis cristas e um monte, e as camadas de terra guardaram a pressa da obra

Cristas de terra em semicírculo e um grande monte em Poverty Point

Poverty Point, Louisiana, por volta de 1700 a.C.

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A LINHA DO TEMPO

c. 1250 a.C., o Monte A sobe em semanas → c. 1100 a.C., o lugar se esvazia → 1913, Clarence B. Moore recolhe peças no sítio → 1953, James Ford lê as fotos aéreas → 2013, Ortmann e Kidder publicam a datação

A 32 graus e 38 minutos de latitude norte, na borda da Macon Ridge, no nordeste da Louisiana, um monte de terra sobe 22 metros acima da planície do Bayou Maçon. Do alto, a vista pega seis cristas baixas abertas em semicírculo, uma dentro da outra, viradas para o rio.

Quem empilhou essa terra não plantava. Os moradores de Poverty Point, por volta de 1700 antes de Cristo, viviam de peixe, veado, pato, nozes e raízes colhidas no mato e nos pântanos do vale do Mississippi. Os restos de comida achados nas escavações não trazem sinal de lavoura.

As cristas são separadas por valas rasas e cortadas por corredores que apontam para o centro. Sobre elas havia casas: os arqueólogos acharam buracos de poste, fogueiras e lixo de cozinha espalhados ao longo dos arcos.

O Monte A, o maior, fica a oeste das cristas. Guarda cerca de 238 mil metros cúbicos de terra, pela conta de Anthony Ortmann e Tristram Kidder no estudo publicado na revista Geoarchaeology em 2013. Toda essa terra subiu em cestos, carregados nas costas, sem animal de carga e sem roda.

Durante décadas, a leitura padrão dizia que obra desse porte pedia aldeia de agricultores, com celeiro cheio e chefe cobrando tributo. Caçadores, pela lógica dos manuais, mudavam de acampamento conforme a estação e não tinham braço sobrando para empilhar morro.

Ortmann e Kidder abriram o monte com sondagens e leram as camadas como se lê o miolo de um bolo. O resultado contrariou o manual: entre uma camada e outra não havia marca de chuva, de erosão ou de capim nascendo. A obra inteira subiu em menos de noventa dias.

O Estrato desce às camadas do Monte A e mostra como a terra guardou a pressa de quem a carregou.

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I  O Estrato

A terra do Monte A

A resposta de ontem

Que romance de 1950 fez de O'Keefe o rei de Yap?

Foi His Majesty O'Keefe, romance de Lawrence Klingman e Gerald Green publicado em 1950, que pintou o capitão como soberano da ilha. Em 1954 virou filme com Burt Lancaster no papel principal, rodado em Fiji. Os registros de Yap mostram um comerciante rico de copra, nunca um rei.

Antes do primeiro cesto, os construtores limparam o terreno. Na base do Monte A, Kidder e Ortmann acharam uma camada fina de vegetação queimada sobre solo encharcado. O lugar escolhido era baixo e úmido, ruim para casa, e nenhum vestígio conta por que a obra maior foi parar ali.

Por cima veio terra escura, de brejo, e depois camadas de cores diferentes: cinza, amarela, marrom, castanho-avermelhada. Cada cor saiu de um ponto diferente da paisagem, da beira do bayou (o braço de rio lento e pantanoso da região) ao alto da crista.

Os construtores não misturavam as terras ao acaso. Em vários cortes, uma faixa clara se apoia numa escura, e a seguinte volta a ser clara, num padrão repetido que pede gente combinada sobre onde despejar cada carga.

Camadas sem chuva

O argumento central do estudo cabe numa observação de campo. Terra solta exposta ao tempo forma crosta, recebe raiz de planta, lava na chuva e deixa um filme fino de sedimento na superfície. Nenhum desses sinais aparece entre as camadas do Monte A.

O vale do Mississippi recebe chuva forte em todas as estações. Uma pilha de terra deixada parada por alguns meses mostraria sulcos e lâminas de lama. As camadas do monte se encostam limpas, uma sobre a outra, como se a seguinte tivesse chegado antes da anterior secar.

A dupla também olhou a firmeza da obra. Mesmo com solos de tipos diferentes, empilhados sem pedra nem madeira de reforço, o monte segue de pé depois de mais de três milênios, sem sinal de deslizamento grande nas sondagens.

A terra do Monte A não tem cicatriz de estação: foi carregada mais rápido do que a chuva conseguiu marcar.

A conta dos cestos

No mesmo estudo, Ortmann e Kidder calcularam uma equipe na casa dos milhares de carregadores trabalhando ao mesmo tempo, número alto para gente sem lavoura. A estimativa sai do volume dividido pelo prazo.

Ninguém achou os cestos. Fibra vegetal apodrece em solo úmido, e o que restou são as próprias porções de terra, cada uma do volume de uma carga, visíveis nos cortes como manchas de cor.

A comida para essa multidão vinha do vale. Os pesquisadores supõem que peixe de lagoa, castanhas guardadas, veado e ave de arribação bastavam para manter gente reunida por semanas, desde que a reunião coincidisse com a fartura.

Para que servia o monte segue sem resposta firme. No topo não apareceu templo, túmulo nem casa de chefe, e as sondagens não acharam sepultamento dentro dele. O que se sabe com segurança é a velocidade, e só ela.

 

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II  O Padrão

Monumento antes da roça

Poverty Point fica numa terra sem pedra. A planície do Mississippi é feita de silte e argila trazidos pelo rio, e o cascalho útil mais próximo fica longe do sítio.

Para cozinhar, os moradores moldavam bolas de loess (o pó fino de rocha trazido pelo vento) e as assavam. Os arqueólogos chamam as peças de Poverty Point objects (objetos de Poverty Point), e elas aparecem às dezenas de milhares no sítio.

Esquentadas na fogueira e enterradas com a comida num buraco, as bolas seguravam calor por horas, no papel que a pedra cumpria em outras cozinhas. Há formatos cilíndricos, esféricos, com sulcos e com marcas de dedo.

Nos montes de lixo das cristas, ossos de peixe aparecem em quantidade maior que os de qualquer outro bicho, sinal de um povo que vivia de rede e anzol nas lagoas do bayou.

Pedra de longe

O que faltava em casa chegava por troca. No sítio apareceram cobre dos Grandes Lagos, galena (minério de chumbo brilhante) do Missouri, pedra-sabão das montanhas Apalaches e sílex de Ohio e Indiana.

Algumas dessas fontes ficam a mais de mil quilômetros. Ninguém sabe se as peças vinham em caravana ou passavam de mão em mão, aldeia a aldeia, pelos rios da bacia do Mississippi, porque os barcos e as trilhas não deixaram rastro.

Com a pedra-sabão faziam vasilhas pesadas. Com o cobre e o jaspe vermelho, contas, pingentes e pequenas figuras de coruja e de outras aves, achadas sobre as cristas.

Um povo sem lavoura juntou num só lugar a terra de um vale inteiro e a pedra de meio continente.

Göbekli Tepe, do outro lado do mundo

O mesmo desenho apareceu na Turquia. Em Göbekli Tepe, o arqueólogo Klaus Schmidt, do Instituto Arqueológico Alemão, escavou a partir de 1995 pilares de calcário entalhados por caçadores-coletores cerca de 11 mil anos atrás, antes de qualquer trigo domesticado na região.

Nos dois casos, o monumento chega antes da roça. A obra pede gente reunida, comida estocada e algum acordo entre grupos, e nenhum desses itens dependia do arado.

A diferença está no material. Schmidt achou pedra talhada; em Poverty Point, onde a pedra faltava, o monumento é a própria terra do vale, carregada cesto por cesto.

Nem a obra de terra era novidade no vale. O arqueólogo Joe Saunders publicou na revista Science, em 1997, a datação de Watson Brake, também na Louisiana, um anel de onze montes erguido por caçadores por volta de 3500 antes de Cristo. Poverty Point herdou a tradição e a levou a outra escala.

III  O Arquivo

O desenho visto do avião

Por volta de 1100 antes de Cristo, Poverty Point se esvaziou. As trocas de pedra minguaram, e as cristas pararam de receber casas e lixo novo.

A causa segue em debate. Tristram Kidder associou o abandono a cheias mais fortes do Mississippi naquele período, que teriam alagado o vale e cortado as rotas de troca. A hipótese tem apoio em sedimentos do rio, mas nenhuma prova direta saiu do sítio.

Uma fazenda no século XIX

No século XIX, o terreno virou fazenda, e a propriedade se chamava Poverty Point (Ponta da Pobreza). O sítio herdou a designação da plantação, sem relação com os antigos moradores.

Os arados rasparam as cristas por décadas. Do chão, elas pareciam ondulações do pasto, e o Monte A passava por morro natural para quem não sabia procurar.

Em 1913, o arqueólogo Clarence B. Moore subiu o rio de barco e recolheu bolas de argila e contas no local, sem enxergar o desenho que as peças cercavam.

As fotos de 1938

Em 1953, James A. Ford, do Museu Americano de História Natural, examinou fotografias aéreas tiradas pelo Exército americano em 1938. Vistas de cima, as ondulações do pasto formavam seis arcos concêntricos.

Do avião, o Monte A ganhou fama de ave de asas abertas. A leitura segue disputada, e parte dos arqueólogos vê ali só uma plataforma em T, gasta por três milênios de chuva.

Ford e o médico e arqueólogo amador Clarence Webb, de Shreveport, escavaram o sítio e publicaram em 1956 o relatório Poverty Point, a Late Archaic Site in Louisiana (Poverty Point, um sítio do Arcaico Tardio na Louisiana), a fase final dos caçadores-coletores da região.

Ford imaginou uma obra lenta, de séculos. Coube às sondagens de Ortmann e Kidder, mais de meio século depois, mostrar a velocidade do Monte A.

Seis arcos de terra passaram décadas debaixo do arado, sem ninguém ler a forma vista do chão.

Desde 1988, Poverty Point é monumento nacional americano, e o terreno é parque estadual da Louisiana, com trilha pelas cristas e escada até o alto do Monte A.

O governo da Louisiana comprou o terreno em 1972, e as escavações seguem até hoje em temporadas de verão, com estudantes de universidades do estado.

Do alto do Monte A, a 22 metros sobre a planície do Bayou Maçon, a vista ainda pega os seis arcos abertos para o rio, e agora se sabe que o morro sob os pés subiu em menos de noventa dias.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que ano a UNESCO pôs Poverty Point na lista do Patrimônio Mundial?

 
 
Quiz da edição

Segundo o estudo de Ortmann e Kidder publicado na revista Geoarchaeology em 2013, qual é o volume aproximado de terra do Monte A, o maior monte de Poverty Point?

A90 mil metros cúbicos
B1,1 milhão de metros cúbicos
C238 mil metros cúbicos
D22 mil metros cúbicos

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