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ED 142
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O leão de pedra que guarda o céu de 62 a.C.

No alto do Nemrut, Antíoco I de Comagena mandou esculpir deuses gregos e persas, e Roma anexou o reino em 72

Colossos de deuses e o tumulus de pedra no alto do Nemrut Dağ, em Comagena

Nemrut Dağ, terraço oeste, século I a.C.

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A LINHA DO TEMPO

Cerca de 163 a.C., Ptolemeu rompe com os selêucidas → 64 a.C., Pompeu confirma Antíoco I → 62 a.C., o céu gravado no leão → 38 a.C., Marco Antônio cerca Samósata → 17, Tibério anexa o reino → 38, Calígula devolve o trono → 72, Vespasiano anexa Comagena → 1881, Karl Sester sobe o Nemrut → 1953, Theresa Goell começa a escavar

A cerca de 2.100 metros, no alto do Nemrut Dağ, no sudeste da Turquia, a vista alcança o lago da represa Atatürk, onde o Eufrates corre represado. No topo da montanha, uma colina artificial de pedra britada sobe uns 50 metros acima da rocha.

Aos pés dessa colina, em dois terraços, o leste e o oeste, estão sentadas estátuas de calcário com oito a nove metros de altura. As cabeças caíram com os terremotos dos séculos seguintes e hoje descansam no chão, viradas para o visitante, cada uma do tamanho de um carro pequeno.

Quem mandou erguer o conjunto foi Antíoco I Teos de Comagena, rei de um território pequeno espremido entre o Império Romano, a oeste, e o Império Parta, a leste. Comagena ficava na margem direita do Eufrates, com capital em Samósata.

No terraço oeste, entre os colossos, há uma laje de pedra com um leão de perfil. Sobre o corpo da fera estão espalhadas 19 estrelas, e no pescoço dela pende uma lua crescente. Acima do lombo aparecem três astros maiores, cada um com uma legenda em grego.

As legendas identificam os planetas pelos deuses: Faetonte de Zeus (Júpiter), Estilbão de Apolo (Mercúrio) e Piroente de Héracles (Marte). O leão é a constelação de Leão, e a cena registra uma posição exata do céu, como uma fotografia feita a cinzel.

O reino que encomendou a laje durou ainda 133 anos depois da data gravada nela. Em 72, o imperador Vespasiano mandou o governador da Síria ocupar Samósata, e Comagena virou parte da província romana.

A primeira parte explica como um rei de fronteira montou essa família de deuses e por que pôs no alto da montanha o céu do ano em que a sorte dele virou.

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I  O Estrato

Um rei com dois avôs

Comagena nasceu de um pedaço do antigo reino selêucida, a dinastia grega que herdou a Síria e a Mesopotâmia depois de Alexandre, o Grande. Por volta de 163 a.C., o governador local, Ptolemeu, deixou de obedecer a Antioquia e se declarou rei.

Um descendente dele, Mitrídates I Calínico, casou com Laodice, princesa selêucida, e desse casamento nasceu Antíoco I. Pelo lado do pai, a família se dizia herdeira de Dario I, o rei persa; pelo lado da mãe, de Alexandre, através dos generais que repartiram o império macedônio.

Deuses com dois nomes

Antíoco transformou a dupla ascendência em religião. Nas estátuas do Nemrut, cada deus carrega um nome grego e um persa: Zeus-Oromasdes junta o rei dos olímpicos a Ahura Mazda, o deus supremo do zoroastrismo, a antiga religião do Irã.

Ao lado dele sentam Apolo-Mitra, deus da luz e dos juramentos, e Héracles-Artagnes, que soma o herói grego ao deus persa da vitória. Entre os três está a própria Comagena, deusa da terra fértil do reino, com uma cornucópia (o chifre cheio de frutas) no colo.

E está o próprio Antíoco, na mesma altura dos deuses. Os relevos de Arsameia, residência real no vale do Ninfeu, abaixo do Nemrut, mostram o rei apertando a mão de Héracles, de Mitra e de Zeus. Os arqueólogos chamam a cena de dexiose (o aperto de mão entre iguais).

Antíoco não pediu a bênção dos deuses: apertou a mão deles como quem fecha um acordo.

A data no peito do leão

Em 1959, os historiadores da ciência Otto Neugebauer e H. B. van Hoesen, no livro Greek Horoscopes (Horóscopos Gregos), calcularam quando Júpiter, Mercúrio e Marte estiveram juntos em Leão ao lado da Lua. A resposta foi 7 de julho de 62 a.C.

A data conversa com a política. Em 64 a.C., o general romano Pompeu reorganizou o Oriente após a guerra contra Mitrídates VI do Ponto, e Antíoco, que tinha ficado ao lado de Roma, foi confirmado no trono e ganhou terras na Mesopotâmia. A leitura mais aceita liga o leão a essa confirmação.

Há quem discorde. Em 2010, os astrônomos Juan Antonio Belmonte e César González García propuseram 49 a.C., ano em que o monumento teria sido começado. A laje não traz o ano escrito, e a escolha depende de qual evento se acredita que o rei quis lembrar.

O próprio Antíoco deixou claro para que servia o monte. Na inscrição gravada no dorso dos tronos, o nomos (a lei do culto, em grego) manda celebrar o aniversário dele no dia 16 de cada mês e a coroação no dia 10, com banquete pago pelo tesouro real.

 

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II  O Padrão

A fresta entre Roma e os partas

Comagena vivia da posição. Controlava a travessia do Eufrates em Samósata e as estradas que ligavam a Síria romana à Armênia e à Mesopotâmia parta. Para Roma, era uma guarita; para os partas, uma porta de entrada.

Antíoco jogou nas duas mesas. Em 51 a.C., Cícero, então governador romano da Cilícia, registrou em cartas ao Senado que recebera de Antíoco o aviso de que os partas tinham cruzado o Eufrates.

Na mesma época, o rei casou a filha Laodice com Orodes II, rei dos partas, o vencedor de Crasso em Carras. Em 48 a.C., mandou tropas a Pompeu na guerra civil romana. A cada crise, Comagena pagava aos dois lados.

O cerco de Samósata

A conta veio em 38 a.C. Marco Antônio cercou Samósata, acusando Antíoco de abrigar partas em fuga. A cidade resistiu, e o cerco terminou num acordo: segundo Plutarco, na Vida de Antônio, o rei pagou 300 talentos (unidade de peso usada para medir prata).

Antíoco saiu das fontes pouco depois, por volta de 36 a.C. O filho Mitrídates II herdou o trono e a mesma posição incômoda.

Como o tampão é engolido

A história de Comagena segue três passos:

1. O reino pequeno cresce na fresta entre dois impérios que não conseguem se vencer.

2. Para sobreviver, fala as duas línguas: casa filhas com os dois lados, paga tributo a um e avisa o outro.

3. Quando um dos impérios estabiliza a fronteira, a fresta fecha, e o tampão vira despesa a cortar.

O Espelho: Comagena durou o tempo que Roma e os partas levaram para precisar menos dela.

Ao sul, a Nabateia, reino árabe com capital em Petra, fez trajeto parecido. Enriqueceu com as caravanas de incenso entre a Arábia e o Mediterrâneo e, em 106, o imperador Trajano a transformou na província da Arábia sem registro de batalha.

Os últimos reis de Samósata

Em 17, com a morte de Antíoco III, o imperador Tibério anexou Comagena pela primeira vez. Em 38, Calígula devolveu o trono a Antíoco IV, amigo de infância dele em Roma.

Em 72, Lúcio Cesênio Peto, governador da Síria, acusou Antíoco IV de tramar com os partas e marchou sobre Samósata. Segundo Flávio Josefo, na Guerra dos Judeus, os filhos do rei lutaram um dia e fugiram para o território parta. Antíoco IV terminou a vida em Roma, com renda paga pelo imperador.

III  O Arquivo

A tumba que ninguém abriu

Por quase 1.800 anos, o Nemrut ficou fora dos mapas europeus. Em 1881, o engenheiro alemão Karl Sester, que estudava rotas para o governo otomano, ouviu de moradores sobre uma montanha cheia de estátuas e subiu para ver.

Em 1883, Osman Hamdi Bey, diretor do Museu Imperial de Constantinopla, e Karl Humann, responsável por levar o Altar de Pérgamo para Berlim, fizeram os primeiros desenhos e medições. Humann e Otto Puchstein publicaram o levantamento em 1890.

A americana que cavou 20 anos

Theresa Goell, arqueóloga americana, chegou ao Nemrut em 1953 e voltou em quase todas as temporadas até 1973. Tinha uma meta: achar a câmara funerária de Antíoco sob o tumulus (a colina artificial de pedra que cobre a tumba).

Goell abriu trincheiras e túneis e tentou prospecção sísmica, que lê o subsolo pelas ondas de pequenas explosões. A pedra britada desabava a cada avanço. Ela encerrou a carreira sem encontrar a câmara.

Até hoje ninguém sabe se o corpo de Antíoco está ali. A escavação nunca chegou ao centro do monte, e abrir o tumulus destruiria o monumento. A data exata da morte do rei também segue desconhecida, porque as fontes romanas o perdem de vista por volta de 36 a.C.

A promessa nos tronos

No texto que mandou gravar nos tronos, Antíoco explicou por que escolheu o cume:

“Decidi erguer este hierotésio perto dos tronos celestes, onde a forma do meu corpo, após mandar a alma aos tronos de Zeus Oromasdes, dormirá pelo tempo sem fim.”

Antíoco I de Comagena, inscrição do nomos do Nemrut Dağ, por volta de 50 a.C.

Hierotésio, no grego da inscrição, é o santuário que também serve de tumba. O rei planejou o lugar para durar, e os terremotos derrubaram as cabeças, mas deixaram os corpos sentados. Em 1987, a UNESCO incluiu o sítio na lista do Patrimônio Mundial.

Samósata teve outro destino. A capital está sob as águas da represa Atatürk, e os arqueólogos fizeram escavações de salvamento antes da inundação.

Fica a pergunta para você: em que fresta entre dois lados maiores você trabalha hoje, e o que acontece com o seu lugar se eles fizerem as pazes?

A cerca de 2.100 metros, a laje do leão segue no terraço oeste, com as 19 estrelas, a lua no pescoço e os três planetas que Neugebauer e van Hoesen leram como o céu de 7 de julho de 62 a.C. Do mesmo cume, abaixo, brilha o lago que cobriu Samósata.

 
 
Quiz da edição

Segundo Plutarco, quanto Antíoco I pagou a Marco Antônio pra encerrar o cerco de Samósata, em 38 a.C.?

A100 talentos de prata
B500 talentos de prata
C300 talentos de prata
D1.000 talentos de prata

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