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Comagena nasceu de um pedaço do antigo reino selêucida, a dinastia grega que herdou a Síria e a Mesopotâmia depois de Alexandre, o Grande. Por volta de 163 a.C., o governador local, Ptolemeu, deixou de obedecer a Antioquia e se declarou rei.
Um descendente dele, Mitrídates I Calínico, casou com Laodice, princesa selêucida, e desse casamento nasceu Antíoco I. Pelo lado do pai, a família se dizia herdeira de Dario I, o rei persa; pelo lado da mãe, de Alexandre, através dos generais que repartiram o império macedônio.
Deuses com dois nomes
Antíoco transformou a dupla ascendência em religião. Nas estátuas do Nemrut, cada deus carrega um nome grego e um persa: Zeus-Oromasdes junta o rei dos olímpicos a Ahura Mazda, o deus supremo do zoroastrismo, a antiga religião do Irã.
Ao lado dele sentam Apolo-Mitra, deus da luz e dos juramentos, e Héracles-Artagnes, que soma o herói grego ao deus persa da vitória. Entre os três está a própria Comagena, deusa da terra fértil do reino, com uma cornucópia (o chifre cheio de frutas) no colo.
E está o próprio Antíoco, na mesma altura dos deuses. Os relevos de Arsameia, residência real no vale do Ninfeu, abaixo do Nemrut, mostram o rei apertando a mão de Héracles, de Mitra e de Zeus. Os arqueólogos chamam a cena de dexiose (o aperto de mão entre iguais).
Antíoco não pediu a bênção dos deuses: apertou a mão deles como quem fecha um acordo.
A data no peito do leão
Em 1959, os historiadores da ciência Otto Neugebauer e H. B. van Hoesen, no livro Greek Horoscopes (Horóscopos Gregos), calcularam quando Júpiter, Mercúrio e Marte estiveram juntos em Leão ao lado da Lua. A resposta foi 7 de julho de 62 a.C.
A data conversa com a política. Em 64 a.C., o general romano Pompeu reorganizou o Oriente após a guerra contra Mitrídates VI do Ponto, e Antíoco, que tinha ficado ao lado de Roma, foi confirmado no trono e ganhou terras na Mesopotâmia. A leitura mais aceita liga o leão a essa confirmação.
Há quem discorde. Em 2010, os astrônomos Juan Antonio Belmonte e César González García propuseram 49 a.C., ano em que o monumento teria sido começado. A laje não traz o ano escrito, e a escolha depende de qual evento se acredita que o rei quis lembrar.
O próprio Antíoco deixou claro para que servia o monte. Na inscrição gravada no dorso dos tronos, o nomos (a lei do culto, em grego) manda celebrar o aniversário dele no dia 16 de cada mês e a coroação no dia 10, com banquete pago pelo tesouro real.
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