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O cubo de ouro que entregou o reino de Dian
Em 1956, a tumba 6 de Shizhaishan devolveu o selo que a dinastia Han deu ao rei de Dian em 109 a.C.
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Selo do rei de Dian, ouro, 109 a.C.
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A LINHA DO TEMPO
século IV a.C., o povo de Dian ocupa a bacia do lago e funde bronze → por volta de 122 a.C., o rei de Dian pergunta aos enviados Han quem é maior, os Han ou ele → 109 a.C., o imperador Wu envia tropas, o rei se rende e recebe o selo de ouro → 109 a.C., a região vira a comanderia de Yizhou → 86 a.C., revolta na comanderia de Yizhou → século I d.C., o bronze de Dian some das tumbas → 1956, o Museu Provincial de Yunnan acha o selo na tumba 6 de Shizhaishan → hoje, o selo está no Museu Nacional da China, em Pequim
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Numa colina sobre o lago Dian, em Yunnan, uma tumba guardou por dois mil anos o selo de ouro de um rei.
O imperador Han deu o carimbo ao rei de Dian em 109 a.C. Com ele, o reino passou a ter dono.
A 1.890 metros de altitude, na margem sudeste do lago Dian, cerca de 40 quilômetros ao sul de Kunming, na província chinesa de Yunnan, uma colina baixa de calcário se ergue entre arrozais. Do alto se enxerga a água do maior lago da província e a linha de montanhas que fecha o vale. Os camponeses chamam o morro de Shizhaishan, a montanha do forte de pedra.
Em 1956, uma equipe do Museu Provincial de Yunnan abriu ali a tumba de número 6. Entre armas de bronze, contas de jade e recipientes cheios de conchas, apareceu um cubo amarelo menor que uma caixa de fósforos. Por cima dele, enrolada sobre si mesma, uma serpente de ouro servia de alça.
Na face de baixo havia quatro caracteres gravados em escrita de selo, o estilo antigo de letra chinesa reservado aos carimbos oficiais. Transliterados, dizem Dian wang zhi yin, que em português quer dizer "selo do rei de Dian".
Até aquela temporada, o reino de Dian vivia em poucas linhas de papel. O historiador Sima Qian, escrevendo por volta de 91 a.C., contou que os exércitos da dinastia Han chegaram ao lago em 109 a.C., que o rei local se rendeu e que o imperador lhe entregou um selo de rei. Parte dos estudiosos lia o relato como exagero de cronista da corte. O cubo tirou a dúvida: o objeto descrito no livro estava na terra, dentro da sepultura de quem o recebeu.
A peça parece um presente. Funcionava como contrato. Quem aceitava o carimbo do imperador continuava no trono, mas passava a governar em nome de outro, e o reino que usava aquele selo deixava de ser inteiramente seu.
Nas décadas seguintes, a bacia do lago recebeu governadores Han, colonos, impostos e estradas. Os bronzes de Dian, povoados de guerreiros, tecelãs e cerimônias, ficam cada vez mais raros nas tumbas. No século I d.C., a arte que identificava o reino desaparece do registro arqueológico.
Para medir o que se perdeu com a rendição, vale conhecer primeiro o reino que existia na beira do lago quando o carimbo ainda não tinha chegado.
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I O Estrato
O reino de bronze da beira do lago
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O reino de Dian ocupou a bacia do lago entre os séculos IV e I a.C. Era um povo sem escrita própria, que plantava arroz nas margens, pescava, criava gado e cavalos e fundia bronze com uma habilidade que os arqueólogos chineses só entenderam depois das escavações de Shizhaishan.
Tudo o que sabemos do rosto desse povo vem de duas fontes. A primeira são os textos chineses, escritos por quem via Dian de fora. A segunda são as tumbas, e nelas o reino fala por imagem, porque não deixou uma frase escrita.
O Museu Provincial de Yunnan fez quatro campanhas na colina entre 1955 e 1960 e abriu cerca de 50 tumbas. O material mais famoso são os recipientes para cauris, cilindros de bronze feitos para guardar conchas de cauri (búzios do oceano Índico que serviam de moeda na região). As tampas trazem pequenas esculturas em cena: um mercado com dezenas de figuras, mulheres tecendo em teares presos à cintura, guerreiros a cavalo, um ritual com vítima amarrada a um poste.
Essas miniaturas mostram uma sociedade rica e dividida em camadas. As mulheres de posição aparecem sentadas em liteiras, os chefes carregam armas de cerimônia, e os tambores de bronze, empilhados como tesouro, marcam o poder de cada casa.
Sima Qian explica a origem do reino com uma lenda. Por volta de 280 a.C., o general Zhuang Qiao, do reino chinês de Chu, teria chegado ao lago com um exército, ficado sem caminho de volta quando o reino de Qin cortou a rota e se proclamado rei, vestindo as roupas do povo local. Os arqueólogos não acharam prova material da chegada desse general: as tumbas de Dian mostram uma cultura local, com poucos traços de Chu.
Dian não precisou de escrita para registrar quem era: gravou no bronze o mercado, a guerra e o culto, e é por essas tampas que o reino ainda aparece.
O primeiro contato direto com a corte Han veio por acaso. Por volta de 122 a.C., o imperador Wu mandou enviados procurar uma rota terrestre até a Índia. Eles pararam na corte de Dian, e o rei, chamado Changqiang nos textos, fez uma pergunta que ficou registrada.
"O rei de Dian perguntou ao enviado Han: 'Qual é maior, Han ou nós?'" (Sima Qian, Registros do Historiador, capítulo das Memórias dos Bárbaros do Sudoeste, cerca de 91 a.C.)
O cronista usa a cena para mostrar um rei que não fazia ideia da escala do império vizinho. Changqiang governava algumas dezenas de milhares de pessoas, segundo o mesmo capítulo; o imperador Wu mandava num território que ia da Coreia à Ásia Central. A resposta chegaria treze anos depois, em forma de exército.
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