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ED 128

O cubo de ouro que entregou o reino de Dian

Em 1956, a tumba 6 de Shizhaishan devolveu o selo que a dinastia Han deu ao rei de Dian em 109 a.C.

Selo de ouro com alça de serpente junto ao lago Dian

Selo do rei de Dian, ouro, 109 a.C.

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A LINHA DO TEMPO

século IV a.C., o povo de Dian ocupa a bacia do lago e funde bronze → por volta de 122 a.C., o rei de Dian pergunta aos enviados Han quem é maior, os Han ou ele → 109 a.C., o imperador Wu envia tropas, o rei se rende e recebe o selo de ouro → 109 a.C., a região vira a comanderia de Yizhou → 86 a.C., revolta na comanderia de Yizhou → século I d.C., o bronze de Dian some das tumbas → 1956, o Museu Provincial de Yunnan acha o selo na tumba 6 de Shizhaishan → hoje, o selo está no Museu Nacional da China, em Pequim

Numa colina sobre o lago Dian, em Yunnan, uma tumba guardou por dois mil anos o selo de ouro de um rei.

O imperador Han deu o carimbo ao rei de Dian em 109 a.C. Com ele, o reino passou a ter dono.

A 1.890 metros de altitude, na margem sudeste do lago Dian, cerca de 40 quilômetros ao sul de Kunming, na província chinesa de Yunnan, uma colina baixa de calcário se ergue entre arrozais. Do alto se enxerga a água do maior lago da província e a linha de montanhas que fecha o vale. Os camponeses chamam o morro de Shizhaishan, a montanha do forte de pedra.

Em 1956, uma equipe do Museu Provincial de Yunnan abriu ali a tumba de número 6. Entre armas de bronze, contas de jade e recipientes cheios de conchas, apareceu um cubo amarelo menor que uma caixa de fósforos. Por cima dele, enrolada sobre si mesma, uma serpente de ouro servia de alça.

Na face de baixo havia quatro caracteres gravados em escrita de selo, o estilo antigo de letra chinesa reservado aos carimbos oficiais. Transliterados, dizem Dian wang zhi yin, que em português quer dizer "selo do rei de Dian".

Até aquela temporada, o reino de Dian vivia em poucas linhas de papel. O historiador Sima Qian, escrevendo por volta de 91 a.C., contou que os exércitos da dinastia Han chegaram ao lago em 109 a.C., que o rei local se rendeu e que o imperador lhe entregou um selo de rei. Parte dos estudiosos lia o relato como exagero de cronista da corte. O cubo tirou a dúvida: o objeto descrito no livro estava na terra, dentro da sepultura de quem o recebeu.

A peça parece um presente. Funcionava como contrato. Quem aceitava o carimbo do imperador continuava no trono, mas passava a governar em nome de outro, e o reino que usava aquele selo deixava de ser inteiramente seu.

Nas décadas seguintes, a bacia do lago recebeu governadores Han, colonos, impostos e estradas. Os bronzes de Dian, povoados de guerreiros, tecelãs e cerimônias, ficam cada vez mais raros nas tumbas. No século I d.C., a arte que identificava o reino desaparece do registro arqueológico.

Para medir o que se perdeu com a rendição, vale conhecer primeiro o reino que existia na beira do lago quando o carimbo ainda não tinha chegado.

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I  O Estrato

O reino de bronze da beira do lago

O reino de Dian ocupou a bacia do lago entre os séculos IV e I a.C. Era um povo sem escrita própria, que plantava arroz nas margens, pescava, criava gado e cavalos e fundia bronze com uma habilidade que os arqueólogos chineses só entenderam depois das escavações de Shizhaishan.

Tudo o que sabemos do rosto desse povo vem de duas fontes. A primeira são os textos chineses, escritos por quem via Dian de fora. A segunda são as tumbas, e nelas o reino fala por imagem, porque não deixou uma frase escrita.

O Museu Provincial de Yunnan fez quatro campanhas na colina entre 1955 e 1960 e abriu cerca de 50 tumbas. O material mais famoso são os recipientes para cauris, cilindros de bronze feitos para guardar conchas de cauri (búzios do oceano Índico que serviam de moeda na região). As tampas trazem pequenas esculturas em cena: um mercado com dezenas de figuras, mulheres tecendo em teares presos à cintura, guerreiros a cavalo, um ritual com vítima amarrada a um poste.

Essas miniaturas mostram uma sociedade rica e dividida em camadas. As mulheres de posição aparecem sentadas em liteiras, os chefes carregam armas de cerimônia, e os tambores de bronze, empilhados como tesouro, marcam o poder de cada casa.

Sima Qian explica a origem do reino com uma lenda. Por volta de 280 a.C., o general Zhuang Qiao, do reino chinês de Chu, teria chegado ao lago com um exército, ficado sem caminho de volta quando o reino de Qin cortou a rota e se proclamado rei, vestindo as roupas do povo local. Os arqueólogos não acharam prova material da chegada desse general: as tumbas de Dian mostram uma cultura local, com poucos traços de Chu.

Dian não precisou de escrita para registrar quem era: gravou no bronze o mercado, a guerra e o culto, e é por essas tampas que o reino ainda aparece.

O primeiro contato direto com a corte Han veio por acaso. Por volta de 122 a.C., o imperador Wu mandou enviados procurar uma rota terrestre até a Índia. Eles pararam na corte de Dian, e o rei, chamado Changqiang nos textos, fez uma pergunta que ficou registrada.

"O rei de Dian perguntou ao enviado Han: 'Qual é maior, Han ou nós?'" (Sima Qian, Registros do Historiador, capítulo das Memórias dos Bárbaros do Sudoeste, cerca de 91 a.C.)

O cronista usa a cena para mostrar um rei que não fazia ideia da escala do império vizinho. Changqiang governava algumas dezenas de milhares de pessoas, segundo o mesmo capítulo; o imperador Wu mandava num território que ia da Coreia à Ásia Central. A resposta chegaria treze anos depois, em forma de exército.

 

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II  O Padrão

O carimbo que virou comanderia

Em 109 a.C., o imperador Wu mandou tropas das províncias de Ba e Shu, no atual Sichuan, contra os povos do sudoeste. Os primeiros alvos foram os Laojin e os Mimo, vizinhos aparentados a Dian, que resistiram e foram destruídos. Com os aliados esmagados às portas, o rei de Dian escolheu outro caminho.

Sima Qian conta que ele entregou o reino inteiro, pediu que a corte mandasse funcionários e recebeu em troca o selo de rei, com a licença de continuar à frente do seu povo. No mesmo ano, a bacia do lago virou a comanderia de Yizhou (unidade administrativa governada por um funcionário nomeado pela capital).

O selo explica a troca melhor que o texto. Na China Han, o carimbo era a própria autoridade: quem o tinha assinava ordens; quem o perdia deixava de mandar. Material e alça indicavam a posição do dono na hierarquia imperial. Ouro com serpente era a fórmula reservada aos governantes aliados do sul, enquanto chefes do norte recebiam alças em forma de camelo.

O ouro do selo não era riqueza dada ao rei de Dian: era a medida do lugar que o império lhe reservava, abaixo do imperador e dentro do mapa Han.

O mesmo desenho reaparece longe de Yunnan. Em 1784, um camponês da ilha de Shikanoshima, na baía de Fukuoka, no Japão, achou um cubo de ouro com alça de serpente e cinco caracteres: Han Wa no Na no kokuo, "rei de Na, de Wa, vassalo de Han". O Livro dos Han Posteriores, compilado por Fan Ye no século V, registra que o imperador Guangwu deu um selo ao rei de Na em 57 d.C. Os dois objetos saíram da mesma oficina de poder, com a mesma serpente enrolada.

Em Dian, o contrato cobrou o preço rápido. O Livro de Han, de Ban Gu, registra uma revolta na comanderia de Yizhou em 86 a.C., abafada por tropas imperiais. Colonos chineses ocuparam as terras férteis, os impostos passaram a seguir para a capital e os chefes locais foram perdendo função.

As tumbas acompanham a queda. Nas sepulturas mais tardias de Shizhaishan, espelhos, moedas e armas de ferro no estilo Han tomam o lugar dos bronzes locais. O rei de Dian desaparece dos textos depois da conquista: nenhum cronista registra um sucessor ou a data em que o título deixou de existir, e o silêncio das fontes tem motivo, porque para a corte Han o reino já era uma comanderia como outra qualquer.

O padrão da rendição de Dian se repete em muitos impérios: a conquista mais barata é a que deixa o governante local no trono, com um título novo, enquanto a administração troca de dono por baixo dele.

O Espelho: um acordo que mantém o cargo e muda a quem se responde costuma parecer vitória no dia da assinatura. Vale olhar, em cada parceria, qual carimbo passou a mandar.

III  O Arquivo

Da tumba 6 à vitrine de Pequim

Para as escavações, a fonte principal é o relatório do Museu Provincial de Yunnan, Relatório de Escavação do Cemitério Antigo de Shizhaishan, em Jinning, publicado pela editora Wenwu, de Pequim, em 1959. Traz a planta das tumbas, a descrição da tumba 6 e as fotografias do selo no momento da retirada.

Para o texto, a referência é Registros do Historiador, de Sima Qian, concluído por volta de 91 a.C. As Memórias dos Bárbaros do Sudoeste narram a visita dos enviados, a pergunta de Changqiang e a rendição de 109 a.C. Há tradução inglesa de Burton Watson, publicada pela Columbia University Press em 1961.

Para ver o selo, ele está no Museu Nacional da China, na praça Tiananmen, em Pequim. Pela ficha do museu, o cubo mede 2,4 centímetros de lado e pesa cerca de 90 gramas. O Museu Provincial de Yunnan, em Kunming, guarda uma réplica e boa parte dos recipientes de cauris de Shizhaishan.

Vale um aviso sobre a identidade do morto. A tumba 6 guardava o selo, mas nenhuma inscrição nomeia quem estava enterrado ali, e os ossos se desfizeram na terra ácida da colina. O ocupante pode ser o rei que se rendeu em 109 a.C. ou um herdeiro que recebeu o carimbo dele; sem ossada nem epitáfio, a pergunta segue aberta, e os arqueólogos chineses registram as duas hipóteses.

Vale outro aviso sobre quem assinou a rendição. Changqiang é o governante que recebeu os enviados por volta de 122 a.C.; Sima Qian não diz com clareza se ele ainda reinava treze anos depois, na rendição. Muitos livros juntam os dois episódios num só rei, o que as fontes não garantem.

Quem quiser ir além deve procurar também as escavações de Lijiashan, a cerca de 40 quilômetros de Shizhaishan, abertas pelo Museu Provincial de Yunnan a partir de 1972, com bronzes do mesmo povo expostos hoje num museu próprio, em Jiangchuan.

Na colina de Shizhaishan, a 1.890 metros, a tumba 6 é hoje uma depressão coberta de mato sobre o lago Dian. O cubo de ouro com a serpente enrolada está numa vitrine de Pequim, a cerca de 2.100 quilômetros do lago, catalogado como o selo que o imperador Wu entregou ao rei de Dian em 109 a.C.

 
 
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