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O canal de Menua que rega Van há 2.600 anos

Por volta de 800 a.C., o rei de Urartu levou água de nascente até Van, e as hortas da cidade ainda bebem dela

Canal de pedra de Menua entre hortas ao sul de Van, em Urartu

Canal de Menua, sul de Van, cerca de 800 a.C.

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A LINHA DO TEMPO

Cerca de 830 a.C., Sarduri I firma Tushpa como capital → cerca de 810 a.C., Menua assume o trono → cerca de 800 a.C., o canal chega a Van → século VI a.C., Urartu some das fontes → 1827, Friedrich Eduard Schulz copia as inscrições de Van → hoje, o canal rega hortas de Van e Edremit

A 56 quilômetros ao sul de Van, no leste da Turquia, nascentes brotam no fundo do vale do Engil, entre montanhas que passam boa parte do inverno sob neve. Dali, quem olha para o norte vê a encosta descer em direção ao lago Van, o maior lago de água alcalina do planeta.

A água do lago tem tanto carbonato de sódio que não serve para beber nem para regar. As margens são férteis, o verão é seco, e o espelho azul ao lado das plantações não ajuda nenhuma delas.

Para uma capital crescer ali, com palácio, celeiros reais e jardins, faltava a única peça que o lago não dava: água doce em volume constante durante os meses quentes, quando a chuva some das terras altas.

Por volta de 800 a.C., Menua, rei de Urartu, resolveu o impasse com pedra e paciência. Mandou abrir um canal que capta a água das nascentes do Engil e a conduz pela encosta, sem bomba nem roda, até a capital Tushpa, junto ao rochedo de Van.

O canal ainda corre. Em vários trechos ele passa ao lado de pomares e hortas de Van e de Edremit, e os agricultores abrem comportas de terra para desviar a água para os canteiros, como faziam os súditos do rei.

Os moradores mais velhos de Van chamam o curso d'água de Şamram, e boa parte deles não sabe que o rei que o encomendou falava uma língua extinta e adorava deuses que ninguém mais cultua.

Urartu, por outro lado, sumiu. O reino que dominou as terras altas entre o lago Van, o lago Urmia e o monte Ararat deixou de aparecer nas fontes escritas no século VI a.C., e por quase dois mil e quinhentos anos ninguém lembrou a língua em que os reis escreviam.

A primeira seção conta quem foi Menua, de onde a água sai e como uma obra de 56 quilômetros desce a encosta sem perder a força no caminho.

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I  O Estrato

A água que desce sem pressa

Urartu nasceu no século IX a.C., quando os chefes das montanhas do leste da Anatólia se juntaram sob uma só coroa. Sarduri I fixou a capital em Tushpa, uma cidadela sobre o rochedo que se ergue na margem leste do lago Van.

Menua, filho de Ishpuini, governou por volta de 810 a 786 a.C. e foi o grande construtor da dinastia. Seu nome aparece gravado em fortalezas, templos e obras de água espalhados pelo reino, quase sempre com a mesma fórmula: o rei fez, pela grandeza do deus Haldi, a divindade principal de Urartu.

Sob Menua, Urartu avançou para o norte, em direção ao vale do Araxes, e para o oeste, até a margem do Eufrates. Um reino que se espalhava por planaltos acima de 1.600 metros dependia de colheitas curtas, e cada horta irrigada no verão valia muito.

O traçado na curva de nível

O canal sai das nascentes do vale do Engil e corre para o norte, colado às encostas que margeiam o lago. Para não precisar de bomba, os engenheiros seguiram a curva de nível (a linha imaginária que liga pontos da mesma altitude), com uma queda tão pequena que a água anda devagar.

Água devagar escava menos o leito e chega inteira. Água rápida arranca as margens e transborda nas curvas. Em boa parte do percurso o canal é uma vala aberta na terra, revestida de pedra onde o solo é fraco.

Onde a encosta despenca, a obra muda de forma. Os construtores ergueram muros de arrimo (paredes que seguram a terra de um aterro) com blocos grandes assentados sem argamassa, e sobre eles fizeram o canal passar como uma prateleira pendurada no morro.

Parte desses muros ainda está de pé, com pedras do tamanho de uma mesa encaixadas umas nas outras. Sem argamassa, a parede respira: a água que infiltra escorre pelas frestas, em vez de acumular atrás do muro e empurrar até derrubá-lo.

A ponte de pedra sobre o rio

Num ponto do trajeto, o canal precisa vencer o vale de um rio que corre mais baixo. Ali os engenheiros de Menua levantaram um aterro alto, com muros de pedra dos dois lados, e fizeram a água cruzar por cima, num aqueduto de alvenaria.

Menua deixou o rio correr embaixo e pôs o canal para passar por cima dele.

Ao longo do percurso, o rei mandou gravar inscrições em escrita cuneiforme (a escrita feita de traços em forma de cunha) na rocha e em blocos dos muros. Elas dão crédito a Menua e, em algumas, rogam a ira de Haldi, de Teisheba, deus da tempestade, e de Shivini, deus do sol, contra quem estragar a obra.

 

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II  O Padrão

A obra que sobrevive ao dono

O canal de Menua não é caso isolado. Algumas obras de água da Antiguidade continuam funcionando muito tempo depois de o poder que as encomendou sair de cena, e elas têm traços em comum.

Na China, o governador Li Bing mandou construir por volta de 256 a.C. o sistema de Dujiangyan, que divide o rio Min sem barragem e rega a planície de Chengdu. O reino de Qin, que pagou a obra, virou passado; a água segue chegando aos campos de Sichuan.

No Irã, os qanats (túneis que trazem água subterrânea de um aquífero até a superfície por gravidade) mais antigos ainda abastecem aldeias do planalto. Em todos esses casos, o império que pagou a obra caiu, e a água seguiu chegando a quem planta.

Em Roma, Marco Agripa inaugurou em 19 a.C. o Aqua Virgo, o aqueduto que corre quase todo embaixo da terra. Reformado pelos papas, ele ainda alimenta a Fontana di Trevi, mais de dois mil anos após a inauguração.

Como um canal dura 26 séculos

O caso de Menua mostra quatro escolhas que pesam na longevidade:

1. Fonte estável: nascente que corre o ano todo, e não rio de enxurrada que traz pedra e lama na cheia.

2. Gravidade pura: queda suave pela curva de nível, sem peça móvel que quebre, gaste ou dependa de um técnico do palácio.

3. Pedra grande e seca: blocos pesados demais para a água arrastar, assentados sem argamassa que apodreça.

4. Dono no caminho: quem usa a água mora ao lado dela, vê o vazamento primeiro e tem motivo para consertar.

Quem cuida quando o rei some

O quarto item explica o paradoxo do canal. O palácio de Tushpa caiu, os escribas desapareceram, ninguém mais lia as inscrições. Só que as hortas continuaram precisando de água todo verão, e as aldeias ao longo do percurso seguiram limpando o leito e remendando os muros.

Armênios, persas, árabes, curdos e turcos governaram Van nos séculos seguintes. Nenhum deles precisou reconstruir o canal; bastou não deixar que ele entupisse.

A obra também nunca dependeu de um saber guardado no palácio. Limpar uma vala, recolocar uma pedra caída e abrir uma comporta de terra são tarefas que qualquer agricultor aprende vendo o vizinho fazer.

O Espelho: a obra que dura é a que serve a quem mora ao lado dela.

O sistema que você monta hoje sobrevive à sua saída quando a pessoa que o usa todo dia sabe consertá-lo e tem razão para fazer.

III  O Arquivo

Semíramis levou a fama

Por séculos, os moradores de Van chamaram a obra de canal de Semíramis, a rainha lendária da Assíria. Em turco, o nome local ainda é Şamram Su, a água de Şamram, forma popular de Semíramis.

A lenda tem autor conhecido. Moisés de Corene, na História da Armênia, conta que Semíramis se apaixonou pela região de Van, ergueu ali uma cidade e mandou trazer um rio de água doce para os jardins. A data da obra de Moisés é discutida: a tradição a põe no século V, e parte dos historiadores a empurra para o século VIII.

O alemão que copiou as pedras

Em 1827, o orientalista alemão Friedrich Eduard Schulz chegou a Van em missão da Sociedade Asiática de Paris, atrás justamente da cidade de Semíramis. Copiou dezenas de inscrições cuneiformes no rochedo e nos arredores.

As cópias chegaram a Paris e foram publicadas em 1840. Décadas de estudo depois, os filólogos (estudiosos de línguas antigas pelos textos) reconheceram nelas uma língua própria, o urartiano, e leram o nome do rei que assinava as pedras do canal. Não era Semíramis. Era Menua.

O texto mais curto dessas inscrições cabe numa linha e deixa a autoria clara:

“Pela grandeza do deus Haldi, Menua, filho de Ishpuini, fez este canal. Canal de Menua é seu nome.”

Menua de Urartu, inscrição cuneiforme ao longo do canal, por volta de 800 a.C.

O que as pedras não contam

As inscrições dão o rei e o deus, mas não o ano. A data de cerca de 800 a.C. vem do reinado de Menua, montado pelos historiadores a partir das listas de reis e das campanhas registradas, e pode variar alguns anos para mais ou para menos.

Também não se sabe quantos trabalhadores abriram o canal nem quanto tempo levou a obra. Nenhum texto de Urartu descreve o canteiro, e os arqueólogos só têm o resultado: a vala, os muros e as pedras com o nome do rei.

Fica a pergunta para você: qual obra sua continuaria funcionando se você saísse de cena amanhã, e quem cuidaria dela?

A 56 quilômetros ao sul de Van, as nascentes do Engil seguem enchendo o canal, e a água desce pela curva de nível até os pomares de Edremit, passando ao lado da pedra em que Menua mandou escrever que a obra levava o nome dele.

 
 
Quiz da edição

Como o canal de 56 km do rei Menua leva água até Van sem bomba nem roda?

ARepresas em degraus que elevam a água aos poucos
BTraçado que segue a curva de nível, com queda suave
CRodas d'água movidas pela correnteza do próprio canal
DTubulações de bronze que seguram a pressão da água

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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