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ED 120

O banquete de Gordion ficou no fundo das taças

Cento e cinquenta e sete vasos de bronze guardaram por quase 2.700 anos a receita da bebida servida num funeral frígio.

O banquete de Gordion ficou no fundo das taças

Taça de bronze do túmulo MM, Gordion

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A LINHA DO TEMPO

século IX a.C., Gordion se consolida como centro urbano no vale do Sangário → por volta de 740 a.C., segundo a datação por anéis de madeira do laboratório da Universidade Cornell, corta-se o zimbro do túmulo MM e ergue-se a câmara funerária → 717 a 709 a.C., arquivos assírios de Sargão II registram Mita do país Mushki, identificado com o rei Midas da tradição grega → início do século VII a.C., a pressão cimeriana atinge o planalto e Gordion perde o comando político → 333 a.C., Alexandre passa por Gordion e o episódio do nó vira lenda → 1957, a expedição de Rodney Young perfura o túmulo e encontra a câmara de madeira intacta → 1999, a equipe de Patrick McGovern publica na Nature a análise química dos resíduos dos vasos → 2010, Elizabeth Simpson publica o estudo dos móveis de madeira do túmulo

Na margem do rio Sakarya, no planalto da Anatólia central, uma colina de 53 metros de altura foi empilhada à mão sobre uma câmara de madeira.

Dentro dela, 157 vasos de bronze guardaram o resto da bebida servida num funeral de 740 a.C.

A 700 metros de altitude, na margem do rio Sakarya, uns 90 quilômetros a sudoeste de Ancara, uma colina artificial de 53 metros de altura e quase 300 metros de diâmetro se levanta sozinha sobre o planalto da Anatólia central. Quem sobe até o topo enxerga campos de trigo em todas as direções, o leito raso do rio cortando o vale e, a poucos minutos de caminhada, o morro achatado onde ficava a cidadela murada de Gordion.

A colina não é acidente de relevo. É um túmulo, montanha de terra e cascalho empilhada à mão sobre uma câmara de madeira. Os arqueólogos a chamam de túmulo MM, iniciais de Midas Mound, o monte de Midas, apelido que a escavação herdou antes de saber quem estava lá dentro.

Em 1957, a expedição da Universidade da Pensilvânia dirigida por Rodney Young furou o monte com uma sondagem horizontal e atravessou 70 metros de aterro até bater em pedra. Atrás da parede de pedra havia uma caixa de toras de zimbro e pinho, fechada por dentro, nunca aberta por saqueador. É o edifício de madeira mais antigo que continua de pé no mundo.

Dentro, sobre um leito de tábuas, estava o corpo de um homem de uns sessenta anos e pouco mais de um metro e sessenta. Ao redor dele, encostados nas paredes e empilhados no chão, havia móveis de madeira com marchetaria geométrica, fivelas de bronze às centenas e o serviço completo de uma refeição: caldeirões de bronze com alças em forma de figura humana, jarros de despejo e mais de cem taças rasas. Nada de ouro, nada de prata. Bronze e madeira, do começo ao fim.

O que ninguém esperava é que a refeição ainda estivesse lá. No fundo dos vasos restavam manchas e crostas amareladas, resíduo orgânico ressecado por cerca de 2.700 anos. Quatro décadas depois da escavação, um laboratório de química aplicada à arqueologia leu aquelas manchas e devolveu a lista de ingredientes.

Vale reconstruir quem eram os frígios antes de erguer o monte, o que os resíduos dos vasos revelaram sobre a bebida e a comida daquele dia e por que um funeral virou o documento mais confiável que a Frígia deixou.

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I  O Estrato

A cidadela sobre o rio Sangário

Os frígios falavam uma língua indo-europeia próxima do grego, escreviam num alfabeto aparentado ao grego arcaico e ocupavam o coração do planalto anatólio depois que o império hitita se desfez, por volta de 1200 a.C. Gordion, a capital, ficava num ponto de passagem obrigatório: o vale do rio Sangário, que os turcos chamam hoje de Sakarya, é o corredor natural entre a costa egeia e o interior da Anatólia. Quem controlava a travessia controlava o comércio de leste a oeste.

A cidade tinha muralha de pedra, um portão monumental com rampa e torres, e um bairro de edifícios de planta retangular com vestíbulo aberto, o megaron, salão de recepção com lareira central. Nos pisos de alguns deles apareceram mosaicos de seixos coloridos arrumados em padrões geométricos, entre os mais antigos que se conhecem. Nas encostas em volta, oficinas de tecelagem deixaram milhares de pesos de tear, sinal de produção têxtil em escala industrial para a época.

O nome que a tradição grega grudou na Frígia é Midas, o rei cujo toque transformava tudo em ouro. A figura histórica por trás da lenda aparece em arquivo alheio: entre 717 e 709 a.C., os escribas do rei assírio Sargão II registraram em tábuas cuneiformes as negociações e os atritos com um soberano chamado Mita, do país Mushki, que a maioria dos assiriólogos identifica com o Midas da memória grega. Um rei da Anatólia central com nome quase idêntico, no século certo, tratando de igual para igual com a maior potência militar do Oriente Próximo.

O monte de terra sobre a câmara de zimbro consumiu, pelas estimativas de volume da própria escavação da Universidade da Pensilvânia, dezenas de milhares de metros cúbicos de aterro carregados a cesto.

Quando o túmulo MM foi erguido é a pergunta que mais mudou de resposta. A datação veio da própria madeira: o laboratório de dendrocronologia, a datação por anéis de crescimento de árvore, da Universidade Cornell, dirigido por Peter Kuniholm, montou a sequência de anéis das toras de zimbro e de pinho e fixou o corte da madeira por volta de 740 a.C., resultado ancorado depois em medições de radiocarbono. A data empurra o enterro para antes do reinado documentado por Sargão II, o que torna improvável que o homem deitado ali seja o próprio Mita.

A hipótese que os escavadores passaram a preferir é que o ocupante seja o antecessor, o pai que a tradição grega chama de Górdias, e que o filho tenha organizado o funeral. Continua sendo hipótese. O túmulo não trouxe inscrição com nome, e os grafites em alfabeto frígio encontrados nas paredes da câmara e em alguns vasos não identificam o morto. Quem escreve que Midas está enterrado no monte que leva o apelido dele está afirmando mais do que o material permite.

Gordion perdeu o comando político no início do século VII a.C., sob a pressão dos cimérios vindos do norte, e depois passou à órbita lídia e persa. A cidade continuou habitada, encolhida, por mais de mil anos. Em 333 a.C., Alexandre parou ali e o episódio do nó de Górdias entrou na literatura.

 

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II  O Padrão

Vinho, cerveja e mel na mesma taça

O serviço de bronze recolhido na câmara tem 157 peças, contadas uma a uma no relatório final da escavação. Três caldeirões grandes montados em tripés de ferro, jarros de despejo, e 100 taças rasas com um umbigo no centro, a forma que os arqueólogos chamam de ômfalo, saliência que o dedo segura por baixo para erguer o vaso com uma mão só. Um serviço desenhado para servir muita gente de pé, em movimento, e não para uma mesa sentada.

Os resíduos ressecados no fundo desses vasos ficaram guardados no museu por quatro décadas. Em 1999, a equipe de Patrick McGovern, do Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia, publicou na revista Nature a análise química das amostras. As técnicas foram cromatografia e espectrometria aplicadas aos compostos que sobrevivem à secagem: tartarato, marcador da uva; oxalato de cálcio, marcador da cevada fermentada; e cera de abelha junto com os açúcares residuais do mel.

Os três marcadores apareceram juntos, nos mesmos vasos. A leitura direta é que a bebida servida naquele funeral misturava vinho de uva, cerveja de cevada e hidromel, mel fermentado, na mesma taça. Não eram três bebidas em rodadas separadas. Era uma fermentação mista, provavelmente amarelada e turva, com teor alcoólico estimado pela equipe em torno de oito por cento.

A mesma análise leu os caldeirões e devolveu o prato: um guisado de carneiro ou cabra grelhada antes de entrar na panela, com lentilha, mel, azeite e tempero, servido morno para cerca de cem convidados.

Um funeral assim custa caro e não acontece por acaso. O banquete fúnebre era o momento em que a corte inteira via, com os próprios olhos, quem pagava a conta, quem servia e quem bebia. O herdeiro que enterra o antecessor com 157 vasos de bronze e comida para cem pessoas está anunciando em público que o tesouro, a rede de fornecedores e a autoridade passaram para a mão dele sem interrupção. Depois da refeição, os vasos foram empilhados dentro da câmara e o monte subiu sobre tudo, o que retirou de circulação uma fortuna em metal.

A escolha do bronze em vez do metal precioso também comunica. Ouro se derrete e vira outra coisa; um serviço de bronze com 100 taças iguais mostra padronização de oficina, controle de produção e capacidade de mobilizar artesãos em série. É a riqueza exibida como organização, não como brilho.

O Espelho: a Frígia não deixou arquivo próprio comparável ao assírio, e quase tudo que se sabe da política dela chega filtrado por vizinhos e por gregos que escreveram séculos depois. O que sobreviveu sem intermediário foi a sujeira no fundo de uma taça, matéria que ninguém teve interesse em editar. Vale perguntar quais registros do seu trabalho continuariam legíveis se todo relatório oficial sumisse e restassem apenas os rastros que ninguém cuidou de arrumar.

III  O Arquivo

Onde checar o túmulo, a bebida e a data

Para a escavação, ver Rodney S. Young e colaboradores, Gordion Excavations Final Reports I, The Gordion Tumuli, publicado pelo University of Pennsylvania Museum em 1981, que traz o inventário peça a peça da câmara do túmulo MM, inclusive a contagem dos 157 vasos de bronze e a descrição do corpo.

Para a análise química, ver Patrick E. McGovern, Donald L. Glusker, Robert A. Moreau e colaboradores, A funerary feast fit for King Midas, publicado na revista Nature em dezembro de 1999, e o desdobramento em Patrick E. McGovern, Ancient Wine, The Search for the Origins of Viniculture, Princeton University Press, 2003, que detalha os marcadores de uva, cevada e mel e a reconstrução do guisado.

Para a datação, ver os trabalhos do laboratório de dendrocronologia da Universidade Cornell dirigido por Peter Kuniholm, que fixaram o corte da madeira do túmulo por volta de 740 a.C. e foram revisados com radiocarbono em publicações posteriores. Para os móveis, ver Elizabeth Simpson, The Gordion Wooden Objects, volume I, editado pela Brill em 2010, que reconstrói a marchetaria das mesas e o leito funerário.

Vale um aviso sobre a identidade do ocupante. Nenhum documento do túmulo nomeia o homem enterrado ali. A datação por anéis de madeira o coloca antes do reinado de Mita registrado pelos assírios, e o apelido Midas Mound é anterior a qualquer prova. A leitura mais aceita hoje aponta para o antecessor de Midas, sem confirmação possível enquanto não aparecer inscrição funerária.

Vale outro aviso sobre a bebida. A análise identifica os marcadores químicos de uva, cevada e mel nos mesmos vasos, e não a receita exata, a proporção entre os três nem o método de fermentação. As reconstruções comerciais que circulam desde 2000, feitas em parceria com cervejarias, são interpretação de laboratório, e não cópia documentada do que se serviu no funeral.

A taça de bronze com o umbigo no centro está hoje no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara, a 90 quilômetros do monte que a guardou, exposta com a mancha amarelada do fundo intacta e catalogada como louça de banquete do século VIII a.C.

 
 

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