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II O Padrão
Vinho, cerveja e mel na mesma taça
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O serviço de bronze recolhido na câmara tem 157 peças, contadas uma a uma no relatório final da escavação. Três caldeirões grandes montados em tripés de ferro, jarros de despejo, e 100 taças rasas com um umbigo no centro, a forma que os arqueólogos chamam de ômfalo, saliência que o dedo segura por baixo para erguer o vaso com uma mão só. Um serviço desenhado para servir muita gente de pé, em movimento, e não para uma mesa sentada.
Os resíduos ressecados no fundo desses vasos ficaram guardados no museu por quatro décadas. Em 1999, a equipe de Patrick McGovern, do Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia, publicou na revista Nature a análise química das amostras. As técnicas foram cromatografia e espectrometria aplicadas aos compostos que sobrevivem à secagem: tartarato, marcador da uva; oxalato de cálcio, marcador da cevada fermentada; e cera de abelha junto com os açúcares residuais do mel.
Os três marcadores apareceram juntos, nos mesmos vasos. A leitura direta é que a bebida servida naquele funeral misturava vinho de uva, cerveja de cevada e hidromel, mel fermentado, na mesma taça. Não eram três bebidas em rodadas separadas. Era uma fermentação mista, provavelmente amarelada e turva, com teor alcoólico estimado pela equipe em torno de oito por cento.
A mesma análise leu os caldeirões e devolveu o prato: um guisado de carneiro ou cabra grelhada antes de entrar na panela, com lentilha, mel, azeite e tempero, servido morno para cerca de cem convidados.
Um funeral assim custa caro e não acontece por acaso. O banquete fúnebre era o momento em que a corte inteira via, com os próprios olhos, quem pagava a conta, quem servia e quem bebia. O herdeiro que enterra o antecessor com 157 vasos de bronze e comida para cem pessoas está anunciando em público que o tesouro, a rede de fornecedores e a autoridade passaram para a mão dele sem interrupção. Depois da refeição, os vasos foram empilhados dentro da câmara e o monte subiu sobre tudo, o que retirou de circulação uma fortuna em metal.
A escolha do bronze em vez do metal precioso também comunica. Ouro se derrete e vira outra coisa; um serviço de bronze com 100 taças iguais mostra padronização de oficina, controle de produção e capacidade de mobilizar artesãos em série. É a riqueza exibida como organização, não como brilho.
O Espelho: a Frígia não deixou arquivo próprio comparável ao assírio, e quase tudo que se sabe da política dela chega filtrado por vizinhos e por gregos que escreveram séculos depois. O que sobreviveu sem intermediário foi a sujeira no fundo de uma taça, matéria que ninguém teve interesse em editar. Vale perguntar quais registros do seu trabalho continuariam legíveis se todo relatório oficial sumisse e restassem apenas os rastros que ninguém cuidou de arrumar.
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III O Arquivo
Onde checar o túmulo, a bebida e a data
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Para a escavação, ver Rodney S. Young e colaboradores, Gordion Excavations Final Reports I, The Gordion Tumuli, publicado pelo University of Pennsylvania Museum em 1981, que traz o inventário peça a peça da câmara do túmulo MM, inclusive a contagem dos 157 vasos de bronze e a descrição do corpo.
Para a análise química, ver Patrick E. McGovern, Donald L. Glusker, Robert A. Moreau e colaboradores, A funerary feast fit for King Midas, publicado na revista Nature em dezembro de 1999, e o desdobramento em Patrick E. McGovern, Ancient Wine, The Search for the Origins of Viniculture, Princeton University Press, 2003, que detalha os marcadores de uva, cevada e mel e a reconstrução do guisado.
Para a datação, ver os trabalhos do laboratório de dendrocronologia da Universidade Cornell dirigido por Peter Kuniholm, que fixaram o corte da madeira do túmulo por volta de 740 a.C. e foram revisados com radiocarbono em publicações posteriores. Para os móveis, ver Elizabeth Simpson, The Gordion Wooden Objects, volume I, editado pela Brill em 2010, que reconstrói a marchetaria das mesas e o leito funerário.
Vale um aviso sobre a identidade do ocupante. Nenhum documento do túmulo nomeia o homem enterrado ali. A datação por anéis de madeira o coloca antes do reinado de Mita registrado pelos assírios, e o apelido Midas Mound é anterior a qualquer prova. A leitura mais aceita hoje aponta para o antecessor de Midas, sem confirmação possível enquanto não aparecer inscrição funerária.
Vale outro aviso sobre a bebida. A análise identifica os marcadores químicos de uva, cevada e mel nos mesmos vasos, e não a receita exata, a proporção entre os três nem o método de fermentação. As reconstruções comerciais que circulam desde 2000, feitas em parceria com cervejarias, são interpretação de laboratório, e não cópia documentada do que se serviu no funeral.
A taça de bronze com o umbigo no centro está hoje no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ancara, a 90 quilômetros do monte que a guardou, exposta com a mancha amarelada do fundo intacta e catalogada como louça de banquete do século VIII a.C.
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