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O manuscrito original da Relação se perdeu. O que existe é uma cópia resumida, feita por volta de 1660, que o abade francês Charles Étienne Brasseur de Bourbourg encontrou em 1862 na Real Academia de la Historia, em Madri, e publicou dois anos depois.
Na cópia estava o alfabeto. Landa tinha pedido a informantes maias que escrevessem as letras espanholas, e anotou o sinal que cada um desenhou ao lado da letra correspondente: um para o a, outro para o b, outro para o c.
O erro que virou chave
O erro estava na pergunta. Quando Landa dizia “be”, o escriba desenhava o sinal maia que soava “be”, uma sílaba, e não uma letra solta. A lista misturava sílabas, vogais e um ou outro sinal repetido, e ninguém no século XIX conseguiu ler um códice com ela.
O arqueólogo britânico Eric Thompson, maior autoridade em escrita maia entre as décadas de 1930 e 1960, tratou o alfabeto de Landa como um equívoco sem valor e defendeu que os glifos eram símbolos de ideias, não de sons.
Em 1952, Yuri Knorozov, um jovem linguista de Leningrado, publicou na revista Sovetskaya Etnografiya (Etnografia Soviética) o artigo que derrubou a tese. Ele leu a lista de Landa como um silabário (tabela de sílabas, cada uma de consoante e vogal) e testou os sinais no códice de Dresden.
Ao lado do desenho de um peru, dois sinais da lista davam cu e tz: cutz, a palavra iucateque para peru. Ao lado de um cão, tzu e l: tzul, cão. O americano Michael Coe conta o embate no livro Breaking the Maya Code (Decifrando o código maia), de 1992, e mostra que a leitura de Knorozov só foi aceita no Ocidente na década de 1970.
Os quatro que sobraram
O códice de Dresden foi comprado em Viena em 1739 por Johann Christian Götze, diretor da biblioteca real da Saxônia, e ficou molhado no bombardeio da cidade em 1945. O de Paris apareceu em 1859, num cesto de papéis da Biblioteca Nacional da França, achado pelo orientalista Léon de Rosny.
O de Madri chegou em dois pedaços, comprados separados na década de 1860 e reunidos depois. O do México foi exibido pela primeira vez em 1971, em Nova York, e só em 2016 um estudo de Stephen Houston, Michael Coe, Mary Miller e Karl Taube concluiu que era autêntico, do século XIII.
Fica a pergunta para você: das histórias que você conta sobre a sua família, quantas chegaram pela boca de quem ganhou a briga?
O convento de Maní continua de pé ao lado da praça, a 20 graus ao norte do equador. Os livros queimados ali em 1562 não voltaram, e os sinais que o mesmo frade anotou quatro anos depois viraram a primeira chave usada para ler os quatro códices que sobreviveram.
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