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O alfabeto errado do frade que queimou os livros maias

Diego de Landa queimou os códices de Maní em 1562 e, quatro anos depois, anotou à mão as letras que ajudariam a ler a escrita maia

Fogueira de códices maias na praça de Maní, 1562

Maní, no Iucatã, 12 de julho de 1562

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A LINHA DO TEMPO

1549, Diego de Landa chega ao Iucatã → 1561, Landa assume o comando dos franciscanos na província → maio de 1562, ídolos achados numa caverna perto de Maní abrem o inquérito → 12 de julho de 1562, auto de fé em Maní e fogueira dos códices → 1563, Landa é chamado à Espanha para responder pelo inquérito → c. 1566, Landa escreve a Relación de las cosas de Yucatán com o alfabeto maia → 1739, o códice de Dresden é comprado em Viena → 1862, Brasseur de Bourbourg acha a cópia da Relação em Madri → 1952, Yuri Knorozov mostra que a escrita maia é silábica → 2016, o Códice Maia do México é autenticado

Em 1562, um frade queimou os livros maias de Maní numa praça do Iucatã.

Quatro anos depois, ele mesmo anotou a chave para ler os que sobraram.

Maní fica a 20 graus ao norte do equador, numa planície de calcário do Iucatã sem nenhum rio na superfície, a uns 80 quilômetros ao sul de Mérida. A água ali se tira de cenotes (poços naturais abertos no calcário), e do adro do convento franciscano se via a praça inteira do povoado.

Em 12 de julho de 1562, essa praça recebeu um auto de fé (cerimônia pública de penitência imposta pela Igreja). Quem comandava era Diego de Landa, frade franciscano nascido em Cifuentes, na Espanha, e chefe da ordem no Iucatã.

Desde maio, os frades interrogavam chefes maias da região, depois que dois meninos acharam ídolos e restos humanos numa caverna perto do povoado. Os interrogatórios usaram açoite e corda, e dezenas de homens saíram condenados.

Na cerimônia, os condenados desfilaram com hábitos de penitente diante dos frades e das autoridades espanholas. Na praça, Landa mandou queimar as estátuas de deuses e os livros que o inquérito tinha arrancado das casas.

Os livros maias eram códices (livros dobrados em sanfona): tiras longas de papel feito de casca de figueira, cobertas por uma camada fina de cal e pintadas em preto e vermelho. Neles os escribas registravam calendários, profecias, tabelas do planeta Vênus e o ciclo das chuvas.

Dos livros que existiam no Iucatã antes da conquista, só quatro chegaram até hoje. Nenhum saiu da fogueira de Maní: atravessaram o oceano por outros caminhos e foram parar em Dresden, Madri, Paris e na Cidade do México.

Quatro anos depois, o mesmo frade estava na Espanha, chamado de volta para responder pelos excessos do inquérito. Lá escreveu uma relação dos costumes do Iucatã e copiou à mão um alfabeto maia que achava ter entendido.

Para ver como a mão que queimou os livros também guardou a chave deles, é preciso começar pela fogueira e pelo que Landa contou dela.

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I  O Estrato

A fogueira no adro de Maní

Diego de Landa chegou ao Iucatã em 1549, com 25 anos, num grupo de frades franciscanos mandado para converter os maias. Aprendeu o maia iucateque (a língua falada na península) e percorreu a pé as aldeias do interior, fundando conventos e escolas para os filhos dos chefes.

Em 1561, virou provincial, o superior dos franciscanos na região. O Iucatã ainda não tinha bispo residente, e Landa passou a agir como juiz de fé quando os ídolos de Maní apareceram, no ano seguinte.

O inquérito durou três meses. Os frades concluíram que os chefes batizados continuavam a oferecer sacrifícios aos deuses antigos, e trataram os livros pintados como prova do crime.

O que o frade escreveu

O próprio Landa descreveu a cena na Relación de las cosas de Yucatán (relato sobre o Iucatã), o texto que escreveu na Espanha por volta de 1566. A frase é curta e não esconde nada:

“Achamos com eles grande número de livros destas suas letras, e porque não havia neles nada em que não houvesse superstição e falsidades do demônio, nós os queimamos todos, o que eles sentiram muitíssimo e lhes deu grande pena.”

Diego de Landa, Relación de las cosas de Yucatán, c. 1566 (tradução livre)

Quantos livros arderam em Maní não se sabe. Landa escreveu só “grande número”, e nenhum inventário do inquérito sobreviveu para dar a conta.

O frade que mandou acender a fogueira foi também quem deixou escrito, com as próprias palavras, o que ela consumiu.

O processo na Espanha

A violência do inquérito chegou a Mérida em agosto de 1562, com Francisco de Toral, o primeiro bispo a assumir a diocese. Toral soltou os presos, ouviu os chefes maias e escreveu ao rei Filipe II denunciando os métodos dos frades.

Landa embarcou para a Espanha em 1563 para se defender. Uma junta de teólogos examinou o caso e, em 1569, deu razão a ele. Quatro anos depois, com Toral já fora do cargo, Landa voltou ao Iucatã como bispo e governou a diocese em Mérida até 1579, o último ano da vida dele.

Foi durante os anos de espera pelo julgamento, longe da península, que ele escreveu a Relação. O livro servia à defesa: mostrava um povo culto, com calendário e letras, mas desviado pelo demônio, e um frade que o conhecia por dentro.

 

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II  O Padrão

O barro que o fogo cozinhou

O mesmo fogo que apaga um arquivo às vezes o preserva. O exemplo mais nítido fica em Tell Mardikh, colina no norte da Síria a uns 55 quilômetros ao sul de Alepo, onde estava Ebla, cidade que dominou o comércio da região por volta de 2400 antes de Cristo.

Por volta de 2300 antes de Cristo, o palácio de Ebla foi saqueado e incendiado. Quem atacou ainda é discutido: os textos da Acádia atribuem a conquista aos reis Sargão e Naram-Sin, mas nenhum documento achado em Ebla confirma o autor.

As tabuletas assadas

Os escribas de Ebla escreviam em tabuletas de argila crua, guardadas em prateleiras de madeira numa sala do palácio. Quando o teto pegou fogo, as prateleiras caíram e o calor cozeu a argila, como num forno de olaria.

Em 1975, a missão arqueológica italiana chefiada por Paolo Matthiae, da Universidade de Roma La Sapienza, abriu a sala. Achou cerca de 17.000 tabuletas e fragmentos, a contagem que a própria missão publicou, muitos na ordem em que tinham caído das prateleiras.

O epigrafista Giovanni Pettinato leu os primeiros textos e identificou a língua, o eblaíta, uma língua semita até então desconhecida. As tabuletas trazem contas de tecidos e metais, tratados com cidades vizinhas e listas de palavras em duas línguas.

O Espelho: em Ebla, o incêndio do inimigo transformou argila frágil em arquivo durável; em Maní, o inimigo que queimou os livros escreveu o único manual que restou para lê-los.

O texto copiado pelo padre

O padrão se repete na Guatemala. O Popol Vuh, o livro sagrado dos maias quichés, só chegou até hoje porque um dominicano, Francisco Ximénez, copiou o texto na língua original por volta de 1701, em Chichicastenango, e pôs a tradução em espanhol ao lado.

O manuscrito dele está na Biblioteca Newberry, em Chicago. O original quiché que Ximénez teve nas mãos nunca foi achado, e ninguém sabe que fim levou.

Nos três casos, o registro que sobrou passou pela mão de quem venceu. O que os maias e os eblaítas diziam de si mesmos chega filtrado por um incêndio de guerra, por um frade em processo e por um padre que precisava mostrar aos superiores que entendia os nativos que convertia.

III  O Arquivo

O alfabeto que Knorozov leu

O manuscrito original da Relação se perdeu. O que existe é uma cópia resumida, feita por volta de 1660, que o abade francês Charles Étienne Brasseur de Bourbourg encontrou em 1862 na Real Academia de la Historia, em Madri, e publicou dois anos depois.

Na cópia estava o alfabeto. Landa tinha pedido a informantes maias que escrevessem as letras espanholas, e anotou o sinal que cada um desenhou ao lado da letra correspondente: um para o a, outro para o b, outro para o c.

O erro que virou chave

O erro estava na pergunta. Quando Landa dizia “be”, o escriba desenhava o sinal maia que soava “be”, uma sílaba, e não uma letra solta. A lista misturava sílabas, vogais e um ou outro sinal repetido, e ninguém no século XIX conseguiu ler um códice com ela.

O arqueólogo britânico Eric Thompson, maior autoridade em escrita maia entre as décadas de 1930 e 1960, tratou o alfabeto de Landa como um equívoco sem valor e defendeu que os glifos eram símbolos de ideias, não de sons.

Em 1952, Yuri Knorozov, um jovem linguista de Leningrado, publicou na revista Sovetskaya Etnografiya (Etnografia Soviética) o artigo que derrubou a tese. Ele leu a lista de Landa como um silabário (tabela de sílabas, cada uma de consoante e vogal) e testou os sinais no códice de Dresden.

Ao lado do desenho de um peru, dois sinais da lista davam cu e tz: cutz, a palavra iucateque para peru. Ao lado de um cão, tzu e l: tzul, cão. O americano Michael Coe conta o embate no livro Breaking the Maya Code (Decifrando o código maia), de 1992, e mostra que a leitura de Knorozov só foi aceita no Ocidente na década de 1970.

Os quatro que sobraram

O códice de Dresden foi comprado em Viena em 1739 por Johann Christian Götze, diretor da biblioteca real da Saxônia, e ficou molhado no bombardeio da cidade em 1945. O de Paris apareceu em 1859, num cesto de papéis da Biblioteca Nacional da França, achado pelo orientalista Léon de Rosny.

O de Madri chegou em dois pedaços, comprados separados na década de 1860 e reunidos depois. O do México foi exibido pela primeira vez em 1971, em Nova York, e só em 2016 um estudo de Stephen Houston, Michael Coe, Mary Miller e Karl Taube concluiu que era autêntico, do século XIII.

Fica a pergunta para você: das histórias que você conta sobre a sua família, quantas chegaram pela boca de quem ganhou a briga?

O convento de Maní continua de pé ao lado da praça, a 20 graus ao norte do equador. Os livros queimados ali em 1562 não voltaram, e os sinais que o mesmo frade anotou quatro anos depois viraram a primeira chave usada para ler os quatro códices que sobreviveram.

 
 
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