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ED 098

O acordo que segurou a Núbia por seiscentos anos

Em 652, depois de duas investidas árabes contra Dongola, Makuria firmou um pacto anual de trigo, tecido e cativos que durou seis séculos.

O acordo que segurou a Núbia por seiscentos anos

Muralha de Dongola, capital cristã de Makuria

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A LINHA DO TEMPO

Século IV, o reino de Méroe se desfaz e o vale do Nilo se fragmenta → século VI, missionários de Constantinopla batizam as cortes núbias → 641 e 652, duas expedições árabes chegam a Dongola e recuam → 652, o baqt é firmado → 1317, a sala do trono de Dongola vira mesquita.

Em 652 da era comum, depois de dois exércitos árabes recuarem diante de Dongola, Makuria firmou um pacto anual com o Egito.

Cativos de um lado, trigo, tecido e cavalos do outro, e quase seiscentos anos de reino cristão no Nilo.

Em 652 da era comum, um exército árabe comandado por Abdallah ibn Sa'd chegou às muralhas de uma cidade de tijolo cru plantada no alto Nilo, quase mil quilômetros ao sul do Cairo, e montou catapultas diante dela.

O relato árabe registra as pedras atingindo a catedral da cidade. Registra também outra coisa, e essa parte é mais estranha: os defensores acertavam os olhos dos atacantes com flecha. Os cronistas passaram a chamar os arqueiros do sul de feridores de pupila, um apelido que virou parte fixa da descrição daquela gente nas fontes seguintes.

Onze anos antes, uma primeira expedição já tinha subido o rio e voltado sem cidade tomada. Era a segunda tentativa, e a segunda vez que o exército que estava varrendo o Egito, a Síria e a Pérsia parava diante de uma capital africana pequena, sem tesouro conhecido e sem aliado poderoso atrás dela.

O que veio depois do cerco vale mais que o cerco. Em vez de terceira campanha, as duas partes fecharam um pacto. Todo ano, o reino do sul entregaria uma quantidade fixa de cativos ao governador do Egito. Todo ano, o Egito devolveria trigo, lentilha, vinho, tecido de linho e cavalos.

O nome do acordo ficou como baqt, palavra que os cronistas árabes derivaram do termo grego para pacto. Ele não era tributo de submissão, porque os dois lados entregavam mercadoria. Não era comércio livre, porque a quantidade era fixada e a entrega era obrigatória. Era um contrato entre um império em expansão e um reino que ele não conseguiu engolir.

O detalhe que impressiona é a durabilidade. Enquanto reinos maiores foram absorvidos em uma geração, aquele reino cristão do Nilo seguiu emitindo bispos, pintando igrejas e escrevendo em língua própria por quase seiscentos anos, cercado por um mundo que tinha mudado de religião e de idioma em volta dele.

Vale reconstruir de onde saiu esse reino, o que exatamente estava escrito no acordo e por que ele funcionou por tanto tempo, e o que restou de tudo quando o arranjo finalmente se desfez.

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I  O Estrato

O reino que nasceu do vazio deixado por Méroe

Quem olha o mapa do Nilo costuma parar no Egito. Rio acima da primeira catarata começa outro país, chamado Núbia nas fontes antigas, com terra estreita entre o rio e o deserto, ouro nas montanhas do leste e uma história própria de reinos que já tinham governado o Egito inteiro no século VIII antes da era comum.

O último grande estado dessa linhagem foi Méroe, com pirâmides próprias, escrita própria e ferro fundido em escala. Ele se desfaz no século IV da era comum, e o vale entra em duas centenas de anos mal documentados, com sepulturas ricas em túmulos de terra e nenhum registro escrito de quem mandava.

Do outro lado desse vão aparecem três reinos, não um. Nobádia ao norte, com capital em Faras. Makuria no centro, com capital em Dongola. Alódia ao sul, com capital em Soba, perto da confluência dos dois Nilos. Makuria acabaria absorvendo Nobádia e virando a potência do conjunto.

A conversão dessas cortes ao cristianismo tem data e tem disputa registrada. Missionários chegam de Constantinopla no século VI, e as fontes descrevem duas missões concorrentes, uma apoiada pela imperatriz Teodora e outra pelo imperador Justiniano, correndo para batizar primeiro os reis do sul.

A Núbia não foi convertida por conquista. Foi disputada por embaixada, e escolheu a versão do cristianismo que a colocava junto do Egito copta, não junto da capital imperial que mandava os presentes.

A consequência arquitetônica aparece rápido no solo. Templos antigos viram igreja, e cidades inteiras ganham planta nova. Em Dongola, escavações trouxeram à luz uma igreja de colunas de granito e um edifício de dois andares com sala abobadada no topo, interpretado como sala do trono, com paredes que depois receberam pintura religiosa.

Em Faras, a catedral guardava um programa de murais que ficou soterrado quando o edifício foi coberto por areia. Bispos de rosto sério, arcanjos de asa larga, uma pintura da Virgem com uma rainha núbia sob a proteção dela, tudo com legenda escrita ao lado das figuras.

Essa escrita é o segundo achado que muda o entendimento do lugar. Os núbios adotaram o alfabeto copta e acrescentaram letras vindas da tradição meroítica para sons que o grego não tinha, criando o núbio antigo, uma língua africana com literatura escrita própria na Idade Média.

Documentos em núbio antigo sobreviveram em rolo de pergaminho e em folha solta, tratando de coisa miúda: venda de terreno, empréstimo, herança, nomeação de funcionário, carta de bispo. Não é literatura de corte, é papelada de cartório, e papelada de cartório prova administração funcionando.

O Estado que essa papelada revela tem hierarquia clara. Um rei em Dongola, um funcionário poderoso no norte chamado eparca, encarregado da fronteira com o Egito, bispos com sé própria e um clero que escrevia em três línguas conforme a situação: grego para liturgia, copta para correspondência com o Egito e núbio antigo para a vida local.

Nada disso era projeto de província periférica. Era um reino africano letrado, com igreja organizada, capital murada e capacidade de mobilizar arqueiros suficientes para fazer dois exércitos árabes recuarem.

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II  O Padrão

Quem não vence a guerra negocia o calendário

O texto do baqt chegou até nós por cronistas árabes posteriores, com destaque para Ibn Abd al-Hakam, no século IX, e al-Maqrizi, muito depois, e as versões não coincidem em tudo. O núcleo, porém, se repete em todas.

Makuria entregava anualmente um número fixo de cativos ao governador do Egito, na casa das centenas, gente vinda em boa parte de fora das fronteiras do próprio reino. Em troca, o Egito remetia trigo, cevada, lentilha, vinho, panos de linho e cavalos, numa contrapartida também especificada.

Havia cláusulas que não são de tributo nenhum. Cada lado se comprometia a não atacar o outro, a devolver fugitivos, a garantir segurança de mercador e viajante, e a manter em funcionamento uma mesquita em Dongola para os muçulmanos que passassem por lá.

O baqt não transformou Makuria em terra submetida. Ele criou uma fronteira reconhecida, com preço anual conhecido, e transformou uma guerra de conquista em despesa administrativa previsível para os dois lados.

O cálculo do lado árabe é frio e fácil de reconstruir. Subir o Nilo acima da terceira catarata significava linha de suprimento longa, cataratas intransponíveis para barco carregado, deserto nos flancos, calor extremo e um adversário que atirava melhor. O prêmio no fim daquilo era um vale estreito sem cidade rica.

O cálculo núbio é igualmente frio. Aceitar entrega anual custava menos que campanha militar todo ano, e a contrapartida em grão e tecido tinha valor real numa economia agrícola de faixa estreita de terra irrigada.

"O baqt não era um tributo no sentido comum. Era um acordo bilateral, com obrigações de ambas as partes, e nisso ele difere de tudo o que os árabes impuseram às terras que conquistaram de fato."
Derek A. Welsby, The Medieval Kingdoms of Nubia, British Museum Press, 2002

O arranjo aguentou séculos e não aguentou sem atrito. Houve rodadas de cobrança atrasada, houve expedição punitiva egípcia, houve ataque núbio ao Egito e houve rei de Dongola viajando ao Cairo para negociar pessoalmente. O acordo era renegociado, quebrado e remendado, e voltava.

O que finalmente derrubou o arranjo veio de dentro do Egito, não do sul. A partir do século XIII, sob os mamelucos, o Cairo passou a intervir na sucessão do trono núbio, apoiando candidato próprio e transformando a briga dinástica de Dongola em assunto de política externa egípcia.

Ao mesmo tempo, grupos árabes nômades se instalaram no vale por casamento e por pastoreio, sem exército e sem bandeira, mudando a composição da população e a rede de lealdades locais mais rápido do que qualquer campanha faria.

O fim tem uma data simbólica no próprio prédio que abriu esta edição: em 1317, uma inscrição registra a conversão da sala do trono de Dongola em mesquita. O reino ainda existia no papel, mas a casa onde ele se sentava tinha trocado de função.

O Espelho: repare em quanto do que você chama de estabilidade é, na verdade, um acordo que alguém renova por interesse próprio. Enquanto o outro lado achar mais barato pagar do que brigar, o arranjo dura. Quando a conta virar, ele acaba, e o aviso não vem por escrito.

Escreva hoje qual é o acordo tácito que sustenta o seu trabalho, quem o renova e o que mudaria a conta de quem renova. Quem enxerga o cálculo alheio tem tempo de se mexer antes de a mesquita ser instalada na sala do trono.

 
 

III  O Arquivo

Onde checar Makuria e o baqt

Para o quadro geral da região, ver William Y. Adams, Nubia: Corridor to Africa, Princeton University Press, 1977, ainda a síntese de referência apesar da idade.

Para o período cristão especificamente, ver Derek A. Welsby, The Medieval Kingdoms of Nubia: Pagans, Christians and Muslims along the Middle Nile, British Museum Press, 2002, e Giovanni Ruffini, Medieval Nubia: A Social and Economic History, Oxford University Press, 2012, que trabalha os documentos em núbio antigo.

Os murais da catedral de Faras foram retirados na campanha internacional de salvamento da Núbia, nos anos 1960, antes da subida das águas da represa de Assuã, e hoje estão divididos entre o Museu Nacional de Varsóvia e o Museu Nacional do Sudão, em Cartum.

Vale um aviso sobre os números do acordo. As quantidades citadas para o baqt variam conforme o cronista e a época, e as fontes árabes que descrevem o pacto são bem posteriores a 652, o que recomenda tratar as cifras como ordem de grandeza.

Vale outro aviso sobre as escavações. Dongola é sítio ativo, com trabalho polonês de longa duração, e interpretações sobre a função dos edifícios continuam sendo revistas conforme novas campanhas de campo publicam resultado.

 
 
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No cerco de 652 em Dongola, por que os cronistas árabes deram aos arqueiros de Makuria o apelido de feridores de pupila?

APorque decoravam os escudos com símbolos de olhos
BPorque nunca erravam o alvo das catapultas
CPorque acertavam os olhos dos atacantes com flecha
DPorque cegavam os prisioneiros capturados em batalha

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