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ED 134

2 leitores escolheram Maldivas budistas. Aqui está.

Maldivas, as ilhas budistas que guardaram o passado em coral

Antes do islã, o arquipélago ergueu mosteiros de pedra de coral; em 2012, o que restava deles foi quebrado dentro do museu

Cabeça de Buda talhada em pedra de coral, Maldivas

Buda de coral, Museu Nacional de Malé

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A LINHA DO TEMPO

Primeiros séculos da era cristã, monges chegam do sul da Ásia e erguem estupas de coral → 1153, o rei Dhovemi adota o islã e vira sultão Muhammad al-Adil → 1343 e 1344, Ibn Battuta vive nas ilhas e anota a história da conversão → 1922, H. C. P. Bell investiga as ruínas budistas → 1982 a 1984, Thor Heyerdahl escava montes de ruína em Nilandhoo → 1996 a 1998, Egil Mikkelsen escava o mosteiro de Kaashidhoo → 7 de fevereiro de 2012, um grupo invade o Museu Nacional em Malé e quebra as peças budistas

As Maldivas seguiram Buda por mais de mil anos e ergueram mosteiros com pedra tirada do recife.

Em 2012, o pouco que sobrou deles foi quebrado dentro do museu da capital.

A 4 graus ao norte do equador, no meio do Oceano Índico, a ilha de Malé tem menos de 2 quilômetros de ponta a ponta e fica, em média, 1,5 metro acima da maré. Dali não se vê montanha nem rio. Se vê laguna verde, recife e o horizonte reto em todas as direções.

Malé é a capital das Maldivas, um arquipélago de cerca de 1.190 ilhas de coral espalhadas por 26 atóis (anéis de recife que cercam uma laguna). Nenhuma delas tem rocha de verdade. O chão inteiro é areia e esqueleto de coral, empilhado pelo mar ao longo de milênios.

Num país assim, quem quis construir algo que durasse teve de usar o próprio recife. Os pedreiros cortavam blocos de coral vivo, que sai da água mole e endurece ao secar ao sol. Com essa pedra se ergueram mesquitas, poços e muros.

Muito antes das mesquitas, a mesma pedra serviu a outro uso. As Maldivas foram budistas por mais de mil anos, e espalhados pelos atóis há montes de entulho que os moradores chamam de hawitta (monte de ruína antiga, em dhivehi, a língua local).

Desses montes saíram cabeças de Buda, pedras entalhadas com flor de lótus e pequenos relicários. A maior parte foi levada para o Museu Nacional, um prédio de três andares inaugurado em Malé em 2010.

Na manhã de 7 de fevereiro de 2012, a capital estava em convulsão. O presidente Mohamed Nasheed renunciava sob pressão de policiais amotinados. Enquanto as ruas ferviam, um pequeno grupo de homens entrou no museu e partiu a marteladas as peças da sala pré-islâmica.

O diretor do museu, Ali Waheed, disse à agência Associated Press naquela semana que cerca de 30 objetos tinham sido destruídos, quase tudo o que o país tinha do seu passado budista. O que eles eram, e de onde vinham, começa nos montes de coral dos atóis.

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I  O Estrato

Os mosteiros erguidos com o recife

Ninguém sabe a data exata em que o budismo chegou às Maldivas. Os achados arqueológicos mais antigos apontam para os primeiros séculos da era cristã, e a origem mais provável é o Sri Lanka, a cerca de 700 quilômetros a nordeste, onde o budismo já era religião de reis.

O exemplo mais bem estudado é o mosteiro de Kaashidhoo, uma ilha a uns 80 quilômetros ao norte de Malé. Entre 1996 e 1998, uma equipe do arqueólogo norueguês Egil Mikkelsen escavou ali um conjunto de estupas (monumentos budistas em forma de cúpula que guardam relíquias) e celas de monges.

Mikkelsen publicou os resultados em Archaeological Excavations of a Monastery at Kaashidhoo (Museu Nacional das Maldivas, 2000). Pela datação por carbono do sítio, o mosteiro funcionava entre os séculos IV e IX.

Uma pedra que sai do mar

As estupas eram de coral cortado. Os construtores tiravam blocos de porites (um coral maciço, de crescimento lento) da borda do recife, ainda úmidos, e os entalhavam com facilidade. Ao secar, a pedra endurecia e aceitava ornamento fino: pétalas, molduras, rostos.

Em Kaashidhoo apareceram também conchas de cauri (pequenas conchas usadas como moeda em todo o Oceano Índico). As Maldivas eram o grande fornecedor dessas conchas, que circulavam da costa africana até a China e pagavam escravos e tecidos em Bengala.

Os monges viviam desse comércio. Navios que iam do Golfo Pérsico para o Sudeste Asiático paravam nos atóis para buscar água, coco e cauri, e o mosteiro ficava perto do ancoradouro. A riqueza do mar sustentava a comunidade religiosa, como os grãos sustentavam os templos no continente.

Num arquipélago sem rocha, sem metal e sem barro, o recife era ao mesmo tempo pedreira, moeda e despensa.

Outro sítio famoso fica em Nilandhoo, no atol de Faafu. Ali o norueguês Thor Heyerdahl, o navegador da jangada Kon-Tiki, escavou montes de ruína entre 1982 e 1984 e descreveu o que achou em The Maldive Mystery (1986). Heyerdahl defendia teorias de navegadores pré-budistas que os arqueólogos de hoje não aceitam, mas as estátuas e os blocos que ele trouxe à luz são reais.

Na ilha de Thoddoo, no atol de Alif, apareceu em 1958 (quando moradores cavavam um monte de ruína em busca de pedra) uma estátua de Buda sentado de coral, junto de um relicário com uma moeda romana de prata. Peças assim, de Thoddoo, Kaashidhoo e outras ilhas, foram parar nas vitrines de Malé.

 

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II  O Padrão

O rei que virou sultão em 1153

O passado budista acabou por decisão de um homem. Em 1153, o rei Dhovemi Kalaminja adotou o islã e passou a se chamar sultão Muhammad al-Adil. As ilhas seguiram o rei.

O relato mais conhecido da conversão foi escrito por um viajante. O marroquino Ibn Battuta passou cerca de um ano e meio nas Maldivas, entre 1343 e 1344, trabalhou como juiz em Malé e registrou a história que os moradores contavam dois séculos depois do fato.

O demônio que vinha do mar

Segundo esse relato, um espírito subia do mar todo mês, e os ilhéus entregavam a ele uma moça virgem, deixada num templo à beira da água. Um visitante muçulmano, Abu al-Barakat, tomou o lugar da moça e passou a noite recitando o Corão. O espírito nunca mais apareceu, e o rei se converteu.

A lenda tem a forma de muitas histórias de conversão: um prodígio, um forasteiro corajoso e um rei convencido. O que ela não esconde é que a mudança veio de cima, pela corte, e se espalhou pelas ilhas porque o rei mandava em todas.

Ibn Battuta escreveu na Rihla, o livro das viagens que ditou em 1355: "Os habitantes destas ilhas são muçulmanos piedosos e honestos". O relato não diz o que foi feito dos templos.

Essa resposta está nos loamaafaanu (placas de cobre com ordens reais, em dhivehi). As mais antigas que restam são do fim do século XII e foram escritas em dives akuru (o antigo alfabeto das ilhas, derivado das escritas do sul da Índia). Elas registram doações a mesquitas e contam que os monges foram trazidos a Malé e que os mosteiros foram derrubados.

Os blocos de coral das estupas não se perderam. Foram reaproveitados em mesquitas, poços e alicerces, e boa parte das ruínas que sobraram ficou soterrada nos hawitta, coberta de mato e areia.

A fé mudou, a língua ficou. O dhivehi guarda palavras de origem budista e sânscrita, e o dives akuru seguiu em uso por séculos, até dar lugar ao thaana, a escrita atual, que corre da direita para a esquerda.

O Espelho: o mesmo coral que ergueu as estupas virou alicerce das mesquitas. Mais de 850 anos depois, o pouco que escapou dessa reciclagem foi reunido numa única sala, e uma sala só se esvazia com poucos golpes.

III  O Arquivo

O que restou da sala pré-islâmica

A primeira investigação séria das ruínas budistas foi de H. C. P. Bell, funcionário britânico do serviço civil do Ceilão (o atual Sri Lanka). Ele visitou as ilhas em 1879, 1920 e 1922 e publicou The Maldive Islands: Monograph on the History, Archaeology and Epigraphy (Colombo, 1940).

O livro de Heyerdahl, The Maldive Mystery (1986), descreve as escavações de Nilandhoo. O relatório de Mikkelsen sobre Kaashidhoo saiu pelo Museu Nacional em 2000. A passagem de Ibn Battuta pelas ilhas está na Rihla, com tradução em inglês de H. A. R. Gibb pela Hakluyt Society.

O ataque de 2012 foi noticiado pela Associated Press e pela BBC naquela semana. Pelos relatos da época, os homens quebraram estátuas de coral e de calcário, entre elas uma grande cabeça de Buda e uma peça com seis faces.

O que se perdeu e o que se juntou

Depois do ataque, os fragmentos foram recolhidos e guardados. Algumas peças foram coladas e voltaram a ser expostas, mas o museu nunca publicou um inventário completo do que se salvou e do que ficou em cacos. Por falta desse documento, não se sabe quantos dos 30 objetos foram de fato recuperados.

Também não se sabe quem foram os autores. Alguns suspeitos chegaram a ser presos, e a imprensa local relatou o caso na Justiça, mas nenhuma condenação definitiva chegou a ser divulgada até hoje.

Fora do museu, os hawitta seguem espalhados pelos atóis. Muitos estão em ilhas habitadas, cobertos de vegetação, e vários nunca foram escavados. Em algumas ilhas, a areia de um monte já foi usada como aterro em obra de casa ou de resort, e com ela foram blocos entalhados que ninguém registrou. O que ainda existe da fase budista das Maldivas está, em grande parte, debaixo da terra.

Vale um aviso sobre as datas. A conversão é registrada em 1153 pela tradição maldívia, mas alguns historiadores aceitam 1153 ou 1154, conforme a leitura das crônicas. As datas de Kaashidhoo vêm da datação por carbono e têm margem de algumas décadas.

Para visitar, o Museu Nacional fica no parque Sultan, no centro de Malé, a poucos minutos a pé do cais. Antes de ir, vale confirmar no próprio museu quais peças pré-islâmicas estão expostas, porque a sala passou por fechamentos e reabertura depois do ataque.

Na ilha de 2 quilômetros a 4 graus do equador, o recife ainda cerca Malé por todos os lados. No Museu Nacional, a poucos minutos do cais, a cabeça de Buda talhada nesse mesmo recife guarda as linhas de cola nos pontos onde o martelo bateu em 2012.

 
 
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