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Kanishka gravou numa laje os 3 reis antes dele

Achada em 1993 em Rabatak, no Afeganistão, a pedra em báctrio com letras gregas fixou a ordem dos reis kushanas

Laje de calcário com letras gregas num morro afegão

Rabatak, Afeganistão, achada em 1993

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A LINHA DO TEMPO

Século I, Kujula Kadphises une os clãs yuezhi → Vima Taktu cunha as moedas do Grande Salvador → Vima Kadphises estende o império à Índia → por volta de 127, Kanishka inaugura o ano 1 → 1993, a laje aparece em Rabatak

Perto do paralelo 36 norte, a pouco menos de 200 quilômetros de Cabul, o morro de Rabatak domina um trecho da província de Baghlan, no norte do Afeganistão. Do alto se vê a planície do rio Surkhab e, ao sul, a colina de Surkh Kotal, onde ficava um templo dos reis kushanas.

Em 1993, o país vivia a guerra entre facções que veio depois da saída das tropas soviéticas. No morro, homens da região cavavam o terreno e acharam uma laje de calcário coberta de letras, com 23 linhas de texto.

Para quem conhecia o grego, as letras pareciam familiares: alfa, ômicron, rô, sigma. As palavras, não. A língua era o báctrio, falada no norte do Afeganistão antigo, que os kushanas escreviam com o alfabeto deixado ali pelos sucessores de Alexandre, o Grande.

Tim Porter, da HALO Trust, ONG britânica de remoção de minas terrestres, fotografou a pedra e levou as imagens ao Museu Britânico, em Londres. Ali elas chegaram ao numismata (estudioso de moedas) Joe Cribb e ao linguista Nicholas Sims-Williams, da Escola de Estudos Orientais e Africanos, a SOAS, especialista em báctrio.

A leitura revelou quem falava na laje. Era Kanishka, o mais famoso dos reis kushanas, senhor de um império que ia da Ásia Central ao vale do Ganges no século II depois de Cristo.

No meio do texto, Kanishka faz uma conta de família: cita o bisavô, o avô e o pai, todos reis, e se põe em quarto lugar. Até 1993, os historiadores discutiam a sequência desses governantes com base em moedas e em crônicas chinesas, e um deles nem sequer tinha nome conhecido.

A laje resolveu a discussão, e trouxe junto um decreto, um santuário e uma lista de cidades conquistadas na Índia.

O Estrato sobe ao morro e mostra o que a pedra diz, linha a linha.

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I  O Estrato

O decreto do ano 1

A resposta de ontem

Por que os ossos de Samdzong têm marcas de faca?

As marcas vêm de um rito funerário: antes do enterro, a carne era retirada dos ossos com lâmina, e só os ossos desciam para a câmara. Mark Aldenderfer, que liderou a escavação, liga a prática a uma forma antiga do enterro celeste tibetano, em que o corpo é entregue aos abutres.

A laje de Rabatak abre com títulos. Kanishka se apresenta como “o grande salvador, o justo, o soberano, o deus digno de culto”, e data o texto do ano 1 do seu reinado, o primeiro de uma contagem nova.

Logo depois vem uma frase de política cultural. O rei conta ter emitido um édito em grego e depois o ter posto em “ariano”, palavra pela qual os kushanas chamavam o báctrio.

As moedas confirmam a virada. Nos primeiros anos de Kanishka, as legendas trazem o grego, com o título basileus basileon (rei dos reis). Pouco depois, as mesmas moedas passam a trazer shaonano shao, o mesmo título em báctrio, escrito com as letras gregas de sempre.

O texto segue com a guerra. Kanishka afirma ter imposto a sua vontade a cidades da Índia e cita Saketa, Kausambi, Pataliputra e Sri Champa, algumas no vale do Ganges, a mais de mil quilômetros do morro de Rabatak.

O santuário de Kasig

A razão de ser da laje é religiosa. Kanishka manda erguer um bagolango (santuário, literalmente lugar dos deuses) num ponto chamado Kasig, na planície de Ab-i Ghund, e manda pôr ali as imagens de uma lista de divindades.

A lista mistura origens. Entra Mihir, deus iraniano ligado ao sol e aos contratos, ao lado de deusas de cultos antigos da Mesopotâmia e de deuses indianos da guerra, como Mahasena e Visakha.

Quem tocou a obra foi um funcionário chamado Shafar, com o título de karalrang (algo como governador de fronteira), auxiliado por outros dois oficiais citados na pedra.

O rei dos reis escreveu com letra grega, mas na língua de quem morava ao pé do morro.

Os quatro reis

Na passagem mais disputada pelos historiadores, Kanishka manda fazer imagens também dos reis da família: do bisavô Kujula Kadphises, do avô Vima Taktu, do pai Vima Kadphises e dele mesmo.

Em báctrio, a pedra grafa os três antepassados como Kozoulo Kadphiso, Ooemo Taktoo e Ooemo Kadphiso. As formas batem com as legendas das moedas e encerram uma discussão de décadas sobre a ordem da dinastia.

Antes da laje, havia quem pusesse Vima Kadphises logo depois de Kujula, e quem defendesse um intervalo longo, ou até outra família, entre ele e Kanishka. A pedra mostra quatro gerações seguidas, de pai para filho.

 

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II  O Padrão

O rei sem nome

Antes de Rabatak, a dinastia kushana era um quebra-cabeça montado em moedas. Kujula Kadphises, o fundador, aparecia nas próprias moedas e no Hou Hanshu (Livro dos Han Posteriores), crônica chinesa compilada por Fan Ye no século V.

A crônica conta como o chefe de um dos cinco clãs yuezhi (povo nômade vindo das fronteiras da China), chamado em chinês Qiujiuque, submeteu os outros quatro, atacou a Pártia e tomou terras no atual Afeganistão. Ele viveu mais de 80 anos, e o filho, Yangaozhen, avançou sobre o noroeste da Índia.

Havia, porém, uma série enorme de moedas de cobre sem rei identificado. Traziam a legenda grega Soter Megas (Grande Salvador) e circularam do Afeganistão ao Punjab. Os numismatas chamavam o emissor de “rei anônimo”.

A laje deu a ele um lugar na fila. Vima Taktu aparece entre Kujula e Vima Kadphises, e Joe Cribb atribuiu a ele as moedas do Grande Salvador. Pela leitura de Cribb, o Yangaozhen da crônica chinesa corresponde a Vima Taktu, e não a Vima Kadphises, como se pensava.

A genealogia como título

Gravar antepassados em pedra era um gesto antigo na região. Dario I, da Pérsia, abre a inscrição de Behistun, talhada por volta de 520 antes de Cristo, recitando os reis da família e dizendo que oito deles reinaram antes dele.

Nos dois casos, a lista servia ao poder. Dario subiu ao trono depois de eliminar um rival e precisava provar o direito de sangue. Kanishka abria uma era nova de calendário e queria a contagem dela amarrada a três gerações de reis.

O suporte mudava o público. Dario mandou talhar o texto num penhasco, dezenas de metros acima da estrada para Ecbátana, à vista de quem passava. Kanishka pôs o dele num santuário dinástico, para os sacerdotes do culto real e para os deuses da lista.

Uma lista de quatro reis numa pedra de santuário resolveu a ordem da dinastia, assunto de décadas de debate entre numismatas.

A conta do calendário

O ano 1 de Kanishka importa para muito além do Afeganistão. Inscrições de Mathura a Peshawar datam fatos pela era dele, e a cronologia da arte de Gandhara (região do atual Paquistão onde surgiram algumas das primeiras estátuas do Buda, com feições gregas) depende dessa contagem.

Com a sequência de Rabatak fixada, o indólogo alemão Harry Falk propôs em 2001, num artigo na revista Silk Road Art and Archaeology, o ano 127 depois de Cristo para o início da era. O cálculo partiu de uma passagem astronômica de um tratado indiano, o Yavanajataka (Horóscopo dos gregos).

A data tem críticos, e outros autores defendem anos próximos. Nenhum deles mexe na ordem dos quatro reis, que a laje deixou fixa.

III  O Arquivo

Da SOAS ao museu de Cabul

Nicholas Sims-Williams e Joe Cribb publicaram a primeira leitura no volume 4 da revista Silk Road Art and Archaeology, datado de 1995 e 1996, com o título A New Bactrian Inscription of Kanishka the Great (Uma nova inscrição báctria de Kanishka, o Grande).

A primeira leitura saiu das fotografias levadas a Londres. A pedra continuava no Afeganistão, num país em guerra, e partes da superfície estavam gastas.

Sims-Williams voltou ao texto em leituras posteriores e ajustou trechos danificados. A sequência dos quatro reis saiu igual em todas as versões.

O báctrio antes e depois

Até a década de 1950, quase nada se lia em báctrio. A virada veio em 1957, quando a missão arqueológica francesa no Afeganistão, a DAFA, dirigida por Daniel Schlumberger, achou em Surkh Kotal uma inscrição longa na mesma língua.

O texto de Surkh Kotal, datado do ano 31 da era de Kanishka, conta como um oficial chamado Nokonzoko consertou o poço do templo, que tinha secado e deixado o santuário vazio.

Rabatak completou o quadro. Surkh Kotal mostrava um templo dos kushanas em uso três décadas depois do ano 1; a laje nova mostrava o próprio Kanishka mandando erguer um santuário assim no começo da sua era.

Nos anos 1990 também surgiram documentos báctrios em couro e pergaminho, escritos entre os séculos IV e VIII. Muitos foram para a coleção de Nasser David Khalili, em Londres, e Sims-Williams os editou em volumes publicados a partir de 2000.

Duas pedras do mesmo vale, separadas por 30 anos de reinado, devolveram a voz a uma língua esquecida.

A pedra hoje

A laje de Rabatak foi levada ao Museu Nacional do Afeganistão, no bairro de Darulaman, em Cabul. O museu tinha sido saqueado durante a guerra civil dos anos 1990, e em 2001 o regime talibã quebrou a marretadas centenas de estátuas do acervo.

Funcionários do museu esconderam parte das peças antes da destruição, e o prédio reabriu em 2004, reconstruído com ajuda internacional. A laje atravessou os dois períodos e segue na coleção do museu, com as 23 linhas inteiras.

No morro de Rabatak, perto do paralelo 36, o vale do Surkhab continua à vista de Surkh Kotal, e a pedra que saiu dali guarda a fila dos quatro reis em Cabul. Antes dos reis, porém, a laje cita as divindades do santuário, e uma deusa vem na frente de todas.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que deusa abre a lista de divindades gravada na laje de Rabatak?

★ RARO

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Na laje de Rabatak, qual rei aparece entre Kujula Kadphises e Vima Kadphises na genealogia gravada por Kanishka?

AKanishka
BVima Taktu
CShafar
DDario I

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