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ED 158
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Kanem reinou 300 anos de uma capital nunca achada

No lago Chade, a dinastia sefuwa governou de Njimi, trocou de margem sob ataque dos bulala e levou só a lista dos reis

Acampamento real na planície de Kanem, perto do lago Chade

Kanem, lago Chade, século XIII

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A LINHA DO TEMPO

c. 872, Al-Yaqubi cita Kanem → c. 1075, o mai Hume adota o islã → 1154, Al-Idrisi registra Anjimi → c. 1380, a corte troca Kanem por Bornu → c. 1470, Ali Gaji funda Ngazargamu

A cerca de 280 metros de altitude, no meio do Sahel, o lago Chade se espalha por quatro países atuais: Chade, Níger, Nigéria e Camarões. Da margem nordeste se via uma planície de areia e capim baixo, cortada por vales secos, onde camelos e bois disputavam os mesmos poços.

Essa planície se chama Kanem até hoje. Foi o centro de um reino que durou séculos, governado por reis chamados mai (rei, na língua kanuri). Eles cobravam tributo dos povos em volta do lago e mandavam caravanas pelo deserto até o Fezzan, no sul da atual Líbia.

Os geógrafos árabes escreveram sobre a capital desse reino. Al-Idrisi, que trabalhava na corte normanda da Sicília, registrou em 1154 uma cidade chamada Anjimi. Autores posteriores repetiram o nome em outras grafias, até se firmar a forma Njimi.

Nenhum deles deixou uma posição exata. Diziam que ficava em Kanem, a alguns dias de marcha da água, com a residência do rei e casas de barro em volta. A descrição para por aí. Nenhum autor mediu a muralha, contou as casas ou disse de que lado da água a cidade ficava.

Hoje ninguém sabe onde Njimi ficava. Pesquisadores percorreram a região, e nenhuma ruína recebeu o nome com segurança. O lago encolheu e cresceu muitas vezes desde então, e as margens antigas ficaram sob areia. A capital de um reino que mandava em boa parte do Sahel central sumiu do chão.

No fim do século XIV, a dinastia que governava de Njimi, a dos sefuwa, abandonou Kanem. A corte contornou o lago e se instalou em Bornu, na margem oeste, empurrada por parentes rivais, os bulala.

Foi em Bornu, longe da antiga capital, que o reino guardou a lista dos próprios reis. Graças a ela, Kanem tem datas, nomes e túmulos, mesmo sem endereço.

O Estrato começa pelo primeiro rei que essa lista chama de muçulmano e pelos escritos que dão a Kanem uma cronologia.

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I  O Estrato

A lista guardada em Bornu

Por volta de 1075, segundo a crônica dos reis de Bornu, o mai Hume ibn Salamna se converteu ao islã. A crônica, conhecida como Diwan (registro, em árabe), lista os soberanos sefuwa em ordem, com a duração de cada reinado e o lugar onde cada um foi enterrado.

Os sefuwa diziam descender de Saif ibn Dhi Yazan, herói lendário do Iêmen. O historiador alemão Dierk Lange, que publicou a edição crítica do Diwan em 1977, lê essa ascendência como genealogia de prestígio, criada depois da conversão para ligar a família ao mundo árabe.

O que os árabes ouviram

Kanem aparece nos textos antes da conversão. Al-Yaqubi, historiador de Bagdá, escreveu por volta de 872 que o povo zaghawa vivia num lugar chamado Kanem. Al-Bakri, em Córdoba, mencionou em 1068 o reino além do deserto, com um rei e um povo que os mercadores conheciam de nome.

As notícias chegavam pelas caravanas. Ninguém em Bagdá ou Córdoba tinha visto o lago, e os textos registram, por esse motivo, povos e reis, quase nunca distâncias.

Em 1353, o viajante marroquino Ibn Battuta passou por Takedda, no atual Níger, e ouviu falar do rei de Bornu. Na Rihla (o livro de viagens), ditada em 1355, anotou que o soberano era “um muçulmano que não se mostra ao povo e só fala com ele por trás de uma cortina”.

O detalhe da cortina bate com a corte sefuwa descrita pelas tradições: o mai aparecia pouco, cercado de guardas, e falava por intermediários. A frase de Ibn Battuta também mostra outra data útil: em 1353 o nome Bornu já circulava como reino, antes de a corte deixar Kanem de vez.

Kanem tinha cronologia escrita, rotas de caravana e capital citada por geógrafos; só faltava o lugar da capital no chão.

Dunama Dibalemi e o talismã

O auge de Kanem veio com o mai Dunama Dibalemi, que reinou no século XIII, entre cerca de 1210 e 1248 pela cronologia de Lange. Suas tropas chegaram ao Fezzan e controlaram a rota de caravanas que levava cavalos para o sul e marfim e cativos para o norte.

A tradição de Bornu atribui a ele um gesto que explicaria a ruína posterior. Dunama abriu o mune, um objeto sagrado guardado embrulhado, cujo conteúdo ninguém podia ver. Os cronistas posteriores disseram que a abertura soltou as guerras dentro da família real.

O que havia dentro do mune, as fontes não dizem. Os relatos guardam só o gesto e a culpa que a tradição pôs nele. Lange sugere que a história serviu para explicar, depois, uma crise de sucessão que já tinha outras causas.

 

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II  O Padrão

A capital que seguia o rei

O padrão de Kanem é a capital entendida como corte. Para um reino de pastores e cavaleiros, o centro do poder era o lugar onde o mai estava, com sua guarda, seus tambores e seu tesouro. O endereço podia mudar sem o reino mudar.

Njimi, então, pode ter sido feita de material que não dura. Casas de barro cru, cercados de espinheiro e tendas de couro se desfazem em poucas estações de chuva. O Sahel apaga depressa o que não leva pedra nem tijolo cozido.

Os parentes do lago Fitri

Os bulala eram um ramo da própria família real, assentado em volta do lago Fitri, a leste de Kanem, no atual Chade. No século XIV, disputaram o trono com os sefuwa, que eram seus primos pela linha materna, segundo as tradições recolhidas por Lange.

Pelo Diwan, vários mai seguidos caíram em combate contra os bulala em poucas décadas. Cada derrota abria uma nova briga de sucessão em Njimi, e cada briga deixava a corte mais fraca para a próxima guerra.

Sob o mai Umar ibn Idris, no fim do século XIV, a corte desistiu de Kanem. Contornou o lago e foi para Bornu, a oeste, onde os sefuwa já tinham aliados e pastagens. Os bulala ficaram com a antiga terra e com Njimi.

Uma capital que segue o rei deixa poucos rastros; uma capital murada deixa a muralha.

Um século sem sede

Por quase cem anos, a corte viveu em deslocamento por Bornu, de acampamento em acampamento. Os mai brigavam entre si e com os vizinhos, e nenhum deles fixou residência por muito tempo.

Por volta de 1470, o mai Ali Gaji fundou Birni Ngazargamu (birni quer dizer cidade murada, em kanuri), às margens do rio Komadugu Yobe, no nordeste da atual Nigéria. A cidade ganhou muralha de terra com vários quilômetros de volta.

Ngazargamu serviu de capital por mais de três séculos, até ser saqueada pelos fulani (povo pastor que formou um califado no norte da atual Nigéria) em 1808. Ao contrário de Njimi, deixou ruína visível, ainda medida e fotografada por pesquisadores.

O espelho

Quem muda de sede com frequência guarda o poder na pessoa e no registro, e paga com a memória do lugar. A lista sobrevive porque viaja na bagagem; o palácio de barro fica para trás. Os sefuwa preservaram a sucessão completa dos reis e perderam o endereço da primeira capital.

III  O Arquivo

A cidade que Idris retomou

Os sefuwa voltaram a Njimi uma vez. No início do século XVI, o mai Idris Katakarmabi venceu os bulala e entrou na velha capital. Ahmad ibn Furtu, cronista da corte de Bornu, escreveu no fim do mesmo século que a dinastia reocupava Njimi depois de 122 anos de ausência.

A reocupação durou pouco. Kanem ficou como província disputada, e a corte seguiu em Ngazargamu. Na década de 1570, o mai Idris Alooma fez novas campanhas contra os bulala, e Ibn Furtu as narrou em dois livros, um sobre as guerras em Bornu e outro sobre as guerras em Kanem.

O livro de Kanem cita marchas, poços e acampamentos, mas nenhuma frase descreve Njimi como cidade viva. Para o cronista, o nome valia como título de posse da terra antiga.

O alemão em Kukawa

Em 1851, o explorador alemão Heinrich Barth chegou a Kukawa, a capital de Bornu no século XIX, numa expedição paga pelo governo britânico. Ali obteve uma cópia do Diwan e publicou a lista dos reis no segundo volume de seus livros de viagem, em 1857.

Barth também ouviu as tradições sobre Njimi e registrou que a capital antiga ficava em Kanem. A lista que ele levou à Europa deu aos historiadores a espinha da cronologia sefuwa, depois revista por Lange.

O que não se sabe

Não se sabe onde ficava Njimi. Os textos árabes dão o nome e a região, nunca a posição, e nenhuma escavação em Kanem encontrou muro, inscrição ou moeda ligada à capital.

Também não se sabe se Njimi foi sempre o mesmo lugar. Como a corte se deslocava, o nome pode ter passado de um sítio a outro ao longo dos séculos, e a busca por uma ruína única pode estar mal formulada desde o início.

A dinastia sobreviveu à mudança por quase cinco séculos. O último mai, Ali Dalatumi, caiu em 1846 em luta contra o xeque Umar al-Kanemi, que já governava Bornu de fato. O Diwan termina nele.

As fontes para conferir são a edição do Diwan por Dierk Lange, de 1977, a Rihla de Ibn Battuta e as crônicas de Ahmad ibn Furtu sobre as guerras de Idris Alooma.

A 280 metros de altitude, o lago Chade segue no mesmo lugar, menor e mais raso. Na planície de Kanem, a nordeste dele, Njimi continua sem posição no mapa: o único endereço da capital está nas linhas do Diwan, copiadas em Bornu pelos herdeiros da corte que contornou o lago fugindo dos bulala.

 
 
Quiz da edição

Em 1808, quem saqueou Birni Ngazargamu, a capital que durou mais de três séculos?

AOs bulala, parentes dos sefuwa instalados no lago Fitri
BOs zaghawa, povo citado por Al-Yaqubi em 872
COs fulani, povo pastor que formou um califado no norte da atual Nigéria
DOs próprios sefuwa, numa disputa de sucessão interna

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