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O primeiro exército romano chegou em 117. Trajano voltava do golfo Pérsico com a campanha partha desfazendo-se nas costas, em meio a revoltas na Mesopotâmia recém-ocupada, e parou diante do anel de Hatra. Cássio Dião, senador romano e historiador, descreve o episódio na sua História Romana: a cavalaria rompeu contra o muro, o cerco sofreu com o calor, as moscas caíam sobre a comida e a bebida, e uma tempestade violenta desabou sobre o acampamento. O imperador retirou-se sem a cidade e morreu de causa natural no ano seguinte, na Cilícia.
O segundo veio oito décadas depois. Septímio Severo, imperador desde 193, tomou a capital parta Ctesifonte em 198 e desviou para Hatra no caminho de volta. O primeiro ataque foi curto e mal preparado: as máquinas queimaram, a cavalaria sofreu perdas e a coluna recuou.
Severo insistiu por volta de 200, com preparo diferente. Trouxe engenheiros, artilharia e material de cerco, montou um assédio regular e conseguiu o resultado que Trajano não teve: uma brecha no muro externo. Dião conta que o imperador mandou suspender o assalto naquele momento, na expectativa de uma rendição negociada, e que os defensores fecharam a abertura durante a noite. Quando ordenou o ataque no dia seguinte, as tropas europeias se recusaram a avançar. O relato menciona ainda projéteis incendiários lançados do alto do muro, que queimaram máquinas e homens. Vinte dias depois do começo, o exército romano levantou acampamento.
Duas derrotas seguidas do maior aparato de cerco da época, contra uma cidade sem rio e sem montanha, mostram que a vantagem de Hatra estava na geografia somada à forma, e não no tamanho da guarnição.
“Severo destruiu o muro externo e perdeu muitos soldados, mas o interno permaneceu intacto e os defensores dispararam contra os sitiantes um fogo que consumiu as máquinas.” Cássio Dião, História Romana, livro 76, redigido por volta de 229 d.C.
O terceiro ataque teve outra natureza. Nos anos 220 a dinastia sassânida derrubou os partas e passou a reivindicar a Mesopotâmia inteira. Hatra, que era peça do lado parta, trocou de campo e aceitou guarnição romana por volta de 230, e virou posto avançado de Roma no deserto. O exército sassânida cercou a cidade e a tomou por volta de 240, no reinado de Ardashir I, com a campanha concluída pelo filho, Shapur I. A ocupação terminou ali: o sítio deixou de ser habitado e nunca mais recebeu cidade em cima.
O que mudou não foi a muralha, foi o vizinho. Roma atacava Hatra no fim de campanhas longas, com linha de suprimento esticada por centenas de quilômetros e um calendário apertado pela estação. O poder sassânida tinha a estepe do outro lado como território próprio, podia manter cerco sem prazo e não dependia de comboio vindo do Mediterrâneo. A tradição árabe registrada por al-Tabari, no século X, conta a queda pela história de al-Nadira, filha do rei al-Daizan, que teria entregado a cidade por interesse pessoal; é narrativa literária muito posterior aos fatos, e a arqueologia mostra apenas destruição e abandono, sem indicar o mecanismo da entrada.
O Espelho: toda defesa é desenhada contra um atacante específico, com o orçamento, a logística e a pressa que ele tem. Hatra otimizou contra o exército que vinha de longe e cronometrado pela estação, e foi perfeita nessa tarefa por mais de um século. Quando surgiu um adversário instalado na porta ao lado, sem prazo e sem comboio, a mesma muralha virou um cerco de um só lado. Vale checar de tempos em tempos quem é o inimigo que o seu dispositivo de proteção presume, porque ele costuma trocar de endereço antes de você revisar a planta.
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Para os cercos romanos, ver Cássio Dião, História Romana, livros 68 e 76, escrita por volta de 229 d.C. e conservada em parte por resumos bizantinos, que traz o relato contemporâneo mais próximo de Trajano em 117 e de Septímio Severo em 198 e 200.
Para a cidade escavada, ver Fuad Safar e Muhammad Ali Mustafa, Hatra: A Cidade do Deus Sol, publicado em 1974 pela Direção Geral de Antiguidades do Iraque, relatório das campanhas iniciadas em 1951 no grande pátio e nos templos. Para a leitura histórica de conjunto, ver Michael Sommer, Hatra: História e Cultura de uma Cidade Caravaneira, de 2003.
Vale um aviso de método sobre o que não se sabe. A população da cidade não tem número confiável, porque não houve censo e a área residencial dentro do anel foi escavada em proporção pequena. As datas dos cercos de Severo também oscilam: as fontes antigas permitem 198 e 200, e parte da bibliografia trabalha com 201 para o segundo ataque. A queda diante dos sassânidas aparece entre 240 e 241 conforme a leitura das inscrições e das fontes persas.
Vale outro aviso sobre a palavra reino. Os dinastas de Hatra aparecem nas inscrições primeiro como senhores e depois como reis dos árabes, num território cuja extensão não está delimitada por nenhum documento. O que a escavação demonstra é um centro religioso fortificado com receita de peregrinação e de tráfego, e não um estado com províncias mapeadas.
Os salões de abóbada aberta do grande pátio continuam de pé no mesmo cascalho da Jazira, com as cabeças de pedra ainda visíveis nas fachadas, e o anel de dois quilômetros ao redor deles segue desenhado no chão plano, sem nunca ter sido rompido por Roma.
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