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ED 116

Hatra fez dois imperadores romanos recuarem do deserto

Na estepe da Jazira, no norte do Iraque, uma cidade redonda segurou Trajano e Septímio Severo, e só cedeu diante do exército sassânida.

Hatra fez dois imperadores romanos recuarem do deserto

Templos de pedra do grande pátio de Hatra

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A LINHA DO TEMPO

século I a.C., primeiros vestígios de ocupação no sítio da estepe da Jazira → século I d.C., Hatra vira santuário do deus sol Shamash e ponto de parada de caravanas → cerca de 117 d.C., Trajano acampa diante da muralha e levanta o cerco sem tomar a cidade → cerca de 198 d.C., Septímio Severo ataca pela primeira vez e recua → cerca de 200 d.C., Severo volta com engenheiros e artilharia, abre brecha no muro externo e desiste depois de vinte dias → cerca de 230, guarnição romana instalada na cidade, já aliada de Roma contra a Pérsia → cerca de 240 d.C., o exército sassânida toma Hatra e a povoação se encerra → 1951, a Direção Geral de Antiguidades do Iraque inicia a escavação sistemática do grande pátio → 1974, publicação do relatório de escavação de Fuad Safar e Muhammad Ali Mustafa → 1985, a UNESCO inscreve Hatra na lista do Patrimônio Mundial → 2015, o sítio sofre danos deliberados e passa por avaliação de conservação nos anos seguintes.

Na estepe seca entre o Tigre e o Eufrates, uma cidade fechada em círculo viu dois imperadores romanos montarem acampamento diante da sua muralha.

Os dois foram embora sem ela.

A 35 graus de latitude norte, uns 300 metros acima do nível do mar, a estepe da Jazira, palavra árabe que quer dizer a ilha e nomeia o planalto seco entre o Tigre e o Eufrates, corre plana por dezenas de quilômetros sem um acidente de relevo que sirva de abrigo. O chão é cascalho e gesso, coberto por capim ralo que amarela em maio. No verão a temperatura passa dos 45 graus ao meio-dia, e o único desenho de água visível são leitos secos que só correm depois de chuva forte. De onde um exército acampasse, dava para ver a cidade inteira e nada além dela.

No meio dessa planície havia um círculo. Uma muralha de pedra e barro fechada em anel, com cerca de dois quilômetros de diâmetro, cravada de torres a intervalos regulares, precedida por um fosso e por um segundo muro mais baixo. Nenhum ângulo morto, nenhuma encosta para escalar por trás, nenhuma floresta a distância de marcha que fornecesse madeira para torre de assalto. Quem chegava tinha que trazer a madeira consigo, atravessando semanas de deserto.

Dentro do anel, um segundo retângulo amuralhado guardava o recinto sagrado, com salões de pedra calcária de abóbada aberta voltados para o pátio central. Ali se cultuava Shamash, o deus sol da tradição mesopotâmica, e era a peregrinação, somada ao pedágio das caravanas que cruzavam a estepe, que pagava a pedra, a guarnição e os arqueiros a cavalo.

Três exércitos apareceram no horizonte plano dessa planície ao longo de cerca de cento e vinte anos. Dois deles vinham de Roma, comandados pessoalmente pelo imperador, com engenheiros, aríetes e artilharia de torção. Os dois foram embora sem a cidade. O terceiro veio do outro lado, do planalto iraniano, e não precisou de nada que Roma não tivesse tentado, apenas de tempo e de um deserto que já conhecia.

Vale reconstruir que lugar era esse, como se abastecia de água e por que a forma do anel decidiu o resultado dos ataques.

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I  O Estrato

A cidade redonda e a água que ninguém via

O nome da cidade é Hatra, al-Hadr em árabe, termo que designa um recinto cercado, e o primeiro fato que a define não é militar, é hidráulico. Um assentamento desse porte na estepe da Jazira depende de água que não vem de rio: o Tigre corre a mais de 50 quilômetros a leste e o leito seco que passa ao lado do sítio só enche depois de temporal. A solução foi perfurar o subsolo. As escavações da Direção Geral de Antiguidades do Iraque, iniciadas em 1951, expuseram poços profundos dentro do perímetro murado e um sistema de cisternas alimentado pelo escoamento das chuvas de inverno.

A consequência militar da escolha é direta. Sitiar uma cidade abastecida por aqueduto ou por rio significa cortar o canal e esperar. Em Hatra não havia canal para cortar, e o sitiante enfrentava o problema oposto: o exército de fora é que precisava carregar a própria água pela estepe, de onde não havia quem vendesse forragem nem lenha.

A planta reforça o mesmo raciocínio. O anel externo, com cerca de dois quilômetros de diâmetro, distribui mais de cem torres em intervalos curtos, o que permite que os arqueiros de duas torres vizinhas cruzem tiro sobre qualquer ponto da cortina entre elas. A curva contínua elimina o canto reto, que é onde a máquina de cerco romana costumava trabalhar melhor, e o fosso à frente do muro baixo obriga o aríete a subir uma rampa de terra construída sob fogo cruzado.

Muralha curva, poço interno e planície aberta formam um só dispositivo: o atacante fica visível o tempo inteiro, sem sombra, sem madeira e sem água, enquanto o defensor bebe do próprio subsolo.

O que sustentava a despesa vinha do tráfego. Hatra ficava na diagonal que ligava o médio Eufrates ao alto Tigre, atalho de estepe para quem não quisesse contornar pelo curso dos rios, e cobrava proteção e abrigo de quem passava. O reino era vassalo dos partas, e seus governantes se intitulavam nas inscrições reis dos árabes, expressão que aparece gravada nas bases de estátua encontradas no pátio.

Somava-se a receita do santuário. O grande recinto sagrado, o temenos, palavra grega para o terreno reservado ao deus, ocupava o centro geométrico da cidade e concentrava salões de abóbada aberta voltados para o pátio, os iwans, termo persa para o salão abobadado com uma face inteiramente aberta. São eles que continuam de pé hoje, com fachadas de calcário decoradas por bustos, águias e cabeças de divindade.

O panteão misturava camadas. Shamash, o sol mesopotâmico, dava o nome oficial ao lugar, e ao lado dele aparecem divindades árabes e aramaicas, além de formas locais de Hércules em relevo, sinal do trânsito de gente e de encomendas. As inscrições do sítio estão em aramaico hatreno, variedade regional da língua franca da região, e registram doações, nomes de dinastas e datas de construção.

 

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II  O Padrão

Três cercos em ordem, e o que mudou no terceiro

O primeiro exército romano chegou em 117. Trajano voltava do golfo Pérsico com a campanha partha desfazendo-se nas costas, em meio a revoltas na Mesopotâmia recém-ocupada, e parou diante do anel de Hatra. Cássio Dião, senador romano e historiador, descreve o episódio na sua História Romana: a cavalaria rompeu contra o muro, o cerco sofreu com o calor, as moscas caíam sobre a comida e a bebida, e uma tempestade violenta desabou sobre o acampamento. O imperador retirou-se sem a cidade e morreu de causa natural no ano seguinte, na Cilícia.

O segundo veio oito décadas depois. Septímio Severo, imperador desde 193, tomou a capital parta Ctesifonte em 198 e desviou para Hatra no caminho de volta. O primeiro ataque foi curto e mal preparado: as máquinas queimaram, a cavalaria sofreu perdas e a coluna recuou.

Severo insistiu por volta de 200, com preparo diferente. Trouxe engenheiros, artilharia e material de cerco, montou um assédio regular e conseguiu o resultado que Trajano não teve: uma brecha no muro externo. Dião conta que o imperador mandou suspender o assalto naquele momento, na expectativa de uma rendição negociada, e que os defensores fecharam a abertura durante a noite. Quando ordenou o ataque no dia seguinte, as tropas europeias se recusaram a avançar. O relato menciona ainda projéteis incendiários lançados do alto do muro, que queimaram máquinas e homens. Vinte dias depois do começo, o exército romano levantou acampamento.

Duas derrotas seguidas do maior aparato de cerco da época, contra uma cidade sem rio e sem montanha, mostram que a vantagem de Hatra estava na geografia somada à forma, e não no tamanho da guarnição.

“Severo destruiu o muro externo e perdeu muitos soldados, mas o interno permaneceu intacto e os defensores dispararam contra os sitiantes um fogo que consumiu as máquinas.”
Cássio Dião, História Romana, livro 76, redigido por volta de 229 d.C.

O terceiro ataque teve outra natureza. Nos anos 220 a dinastia sassânida derrubou os partas e passou a reivindicar a Mesopotâmia inteira. Hatra, que era peça do lado parta, trocou de campo e aceitou guarnição romana por volta de 230, e virou posto avançado de Roma no deserto. O exército sassânida cercou a cidade e a tomou por volta de 240, no reinado de Ardashir I, com a campanha concluída pelo filho, Shapur I. A ocupação terminou ali: o sítio deixou de ser habitado e nunca mais recebeu cidade em cima.

O que mudou não foi a muralha, foi o vizinho. Roma atacava Hatra no fim de campanhas longas, com linha de suprimento esticada por centenas de quilômetros e um calendário apertado pela estação. O poder sassânida tinha a estepe do outro lado como território próprio, podia manter cerco sem prazo e não dependia de comboio vindo do Mediterrâneo. A tradição árabe registrada por al-Tabari, no século X, conta a queda pela história de al-Nadira, filha do rei al-Daizan, que teria entregado a cidade por interesse pessoal; é narrativa literária muito posterior aos fatos, e a arqueologia mostra apenas destruição e abandono, sem indicar o mecanismo da entrada.

O Espelho: toda defesa é desenhada contra um atacante específico, com o orçamento, a logística e a pressa que ele tem. Hatra otimizou contra o exército que vinha de longe e cronometrado pela estação, e foi perfeita nessa tarefa por mais de um século. Quando surgiu um adversário instalado na porta ao lado, sem prazo e sem comboio, a mesma muralha virou um cerco de um só lado. Vale checar de tempos em tempos quem é o inimigo que o seu dispositivo de proteção presume, porque ele costuma trocar de endereço antes de você revisar a planta.

III  O Arquivo

Onde checar Hatra, os cercos e o sítio hoje

Para os cercos romanos, ver Cássio Dião, História Romana, livros 68 e 76, escrita por volta de 229 d.C. e conservada em parte por resumos bizantinos, que traz o relato contemporâneo mais próximo de Trajano em 117 e de Septímio Severo em 198 e 200.

Para a cidade escavada, ver Fuad Safar e Muhammad Ali Mustafa, Hatra: A Cidade do Deus Sol, publicado em 1974 pela Direção Geral de Antiguidades do Iraque, relatório das campanhas iniciadas em 1951 no grande pátio e nos templos. Para a leitura histórica de conjunto, ver Michael Sommer, Hatra: História e Cultura de uma Cidade Caravaneira, de 2003.

Vale um aviso de método sobre o que não se sabe. A população da cidade não tem número confiável, porque não houve censo e a área residencial dentro do anel foi escavada em proporção pequena. As datas dos cercos de Severo também oscilam: as fontes antigas permitem 198 e 200, e parte da bibliografia trabalha com 201 para o segundo ataque. A queda diante dos sassânidas aparece entre 240 e 241 conforme a leitura das inscrições e das fontes persas.

Vale outro aviso sobre a palavra reino. Os dinastas de Hatra aparecem nas inscrições primeiro como senhores e depois como reis dos árabes, num território cuja extensão não está delimitada por nenhum documento. O que a escavação demonstra é um centro religioso fortificado com receita de peregrinação e de tráfego, e não um estado com províncias mapeadas.

Os salões de abóbada aberta do grande pátio continuam de pé no mesmo cascalho da Jazira, com as cabeças de pedra ainda visíveis nas fachadas, e o anel de dois quilômetros ao redor deles segue desenhado no chão plano, sem nunca ter sido rompido por Roma.

 
 

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