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El Tajín ergueu vinte campos de jogo antes de virar cinza
No vale úmido do norte de Veracruz, a cidade com mais campos de bola da Mesoamérica ardeu entre 1180 e 1230 e nunca foi reocupada.
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Pirâmide dos Nichos no vale de El Tajín
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A LINHA DO TEMPO
por volta de 100 d.C., primeiras plataformas de terra e pedra no vale do Tecolutla → cerca de 600 d.C., o centro cerimonial ganha praças pavimentadas e os primeiros campos de jogo de bola → cerca de 900 d.C., começa o auge, com a Pirâmide dos Nichos concluída e o Campo Sul decorado com seis painéis em relevo → cerca de 1000 d.C., o governante registrado nos relevos como 13 Coelho aparece no Edifício das Colunas, na parte alta chamada Tajín Chico → cerca de 1100, o vale atinge a maior extensão construída e a contagem de campos de jogo passa de uma dezena e meia → entre 1180 e 1230, incêndio no centro cerimonial e abandono da cidade, sem reocupação em cima → 1785, Diego Ruiz, inspetor de tabaco da coroa espanhola, chega à Pirâmide dos Nichos e envia o relato à Gazeta de México → 1938, José García Payón inicia as campanhas de escavação e consolidação → 1984, o INAH abre o Proyecto Tajín, que trabalha no sítio até 1994 → 1992, a UNESCO inscreve El Tajín na lista do Patrimônio Mundial.
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No vale úmido do norte de Veracruz, uma cidade coberta de pedra lavrada abriu perto de vinte campos do mesmo jogo de bola.
Entre 1180 e 1230 ela ardeu, e ninguém construiu nada em cima.
A 20 graus de latitude norte, por volta de 100 metros acima do nível do mar e a uns 15 quilômetros da linha de praia do golfo do México, o norte de Veracruz sobe do litoral em lombadas curtas cobertas de mata úmida. O calor é constante, a chuva cai na maior parte dos meses do ano e o verde fecha o horizonte a poucas centenas de metros de quem caminha. De cima de uma lombada dessas, o que se vê é vapor subindo das folhas e mais lombada verde atrás.
Num vale encaixado entre elas, junto a um afluente do rio Tecolutla, um trecho inteiro de terreno foi aplainado à mão e coberto de pedra. A cidade que ali cresceu se chama El Tajín, nome em totonaco que remete ao trovão, e o seu edifício mais conhecido é uma pirâmide de seis corpos escalonados perfurada por centenas de nichos quadrados, cada um fundo o bastante para engolir o braço de um adulto até o cotovelo e criar, ao meio-dia, uma grade de sombras pretas na fachada clara.
Ao redor dessa pirâmide, e espalhadas pelas praças do vale, havia quadras. Duas paredes de pedra paralelas, separadas por uma pista comprida e estreita, às vezes com taludes inclinados, às vezes verticais, sempre com o mesmo desenho de corredor. Eram os campos do jogo de bola, a cerimônia que atravessava a Mesoamérica inteira, do golfo ao altiplano. O que separa El Tajín das outras cidades da região é a quantidade: os levantamentos do Instituto Nacional de Antropologia e História do México, feitos durante o Proyecto Tajín entre 1984 e 1994, registraram perto de vinte campos dentro do sítio, mais do que qualquer outra cidade mesoamericana conhecida.
Uma cidade não constrói vinte arenas do mesmo rito por capricho de arquiteto. Constrói porque o rito faz trabalho político, e porque a demanda por esse trabalho não parava de crescer. E depois, entre 1180 e 1230, o centro cerimonial pegou fogo, a população saiu e ninguém levantou cidade nova em cima das pedras.
Vale reconstruir que lugar era esse, de onde vinha a riqueza que pagou a pedra e o que os relevos das quadras mostram de perto.
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I O Estrato
O vale que virou pedra lavrada
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A cidade se chama El Tajín, e o nome que usamos hoje vem dos totonacos que ocupavam a região quando os espanhóis chegaram, para quem tajín designa o trovão. Não sabemos como os próprios construtores a chamavam: nenhum texto do sítio traz o nome antigo do lugar, e a escrita usada nos relevos ainda não foi decifrada por completo.
O assentamento começou modesto. As camadas mais antigas escavadas no vale, com plataformas de terra e pedra, remontam aos primeiros séculos da era cristã. O crescimento que interessa veio bem depois, no período que a arqueologia mexicana chama de Epiclássico, quando Teotihuacán já havia perdido o controle do centro do México e as cidades da costa do golfo ganharam espaço próprio. Entre cerca de 900 e 1100, El Tajín cobriu o vale de praças pavimentadas, plataformas e pirâmides.
A riqueza vinha da terra molhada e do trânsito. O norte de Veracruz produzia baunilha, cacau, algodão e borracha de seringueira, a mesma borracha com que se fazia a bola pesada do jogo, e a cidade se sentava no caminho entre o litoral do golfo e as serras do interior, cobrando abrigo e intermediação de quem subia e descia com carga.
Uma cidade de terra fértil e posição de passagem podia pagar pedra lavrada em escala industrial sem manter exército de conquista, e El Tajín gastou essa renda em arquitetura de cerimônia, não em muralha.
O edifício mais fotografado do sítio é a Pirâmide dos Nichos. São seis corpos escalonados, com nichos quadrados abertos em toda a volta, contados por José García Payón, o arqueólogo que dirigiu as escavações do sítio a partir de 1938, em 365, número que ele leu como registro do ano solar. A contagem exige reconstituir os nichos da escadaria e do corpo superior, que estavam destruídos, e por isso continua discutida; o que ninguém discute é o partido arquitetônico, que repete nicho e cornija em quase todo edifício do vale.
Acima da praça central, numa plataforma artificial mais alta, fica o setor que os escavadores batizaram de Tajín Chico, o Tajín pequeno. Ali estão os prédios de aparência residencial e administrativa, com paredes decoradas pela greca escalonada, o motivo geométrico de degraus encadeados que os astecas chamariam depois de xicalcoliuhqui, palavra náuatle para a espiral em degraus. Num desses prédios, o Edifício das Colunas, tambores de pedra esculpidos mostram cenas de guerra, cativos e cerimônia, com um personagem que aparece repetido ao lado do glifo que os pesquisadores leem como 13 Coelho, provavelmente um governante do auge da cidade.
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