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ED 117

El Tajín ergueu vinte campos de jogo antes de virar cinza

No vale úmido do norte de Veracruz, a cidade com mais campos de bola da Mesoamérica ardeu entre 1180 e 1230 e nunca foi reocupada.

El Tajín ergueu vinte campos de jogo antes de virar cinza

Pirâmide dos Nichos no vale de El Tajín

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A LINHA DO TEMPO

por volta de 100 d.C., primeiras plataformas de terra e pedra no vale do Tecolutla → cerca de 600 d.C., o centro cerimonial ganha praças pavimentadas e os primeiros campos de jogo de bola → cerca de 900 d.C., começa o auge, com a Pirâmide dos Nichos concluída e o Campo Sul decorado com seis painéis em relevo → cerca de 1000 d.C., o governante registrado nos relevos como 13 Coelho aparece no Edifício das Colunas, na parte alta chamada Tajín Chico → cerca de 1100, o vale atinge a maior extensão construída e a contagem de campos de jogo passa de uma dezena e meia → entre 1180 e 1230, incêndio no centro cerimonial e abandono da cidade, sem reocupação em cima → 1785, Diego Ruiz, inspetor de tabaco da coroa espanhola, chega à Pirâmide dos Nichos e envia o relato à Gazeta de México → 1938, José García Payón inicia as campanhas de escavação e consolidação → 1984, o INAH abre o Proyecto Tajín, que trabalha no sítio até 1994 → 1992, a UNESCO inscreve El Tajín na lista do Patrimônio Mundial.

No vale úmido do norte de Veracruz, uma cidade coberta de pedra lavrada abriu perto de vinte campos do mesmo jogo de bola.

Entre 1180 e 1230 ela ardeu, e ninguém construiu nada em cima.

A 20 graus de latitude norte, por volta de 100 metros acima do nível do mar e a uns 15 quilômetros da linha de praia do golfo do México, o norte de Veracruz sobe do litoral em lombadas curtas cobertas de mata úmida. O calor é constante, a chuva cai na maior parte dos meses do ano e o verde fecha o horizonte a poucas centenas de metros de quem caminha. De cima de uma lombada dessas, o que se vê é vapor subindo das folhas e mais lombada verde atrás.

Num vale encaixado entre elas, junto a um afluente do rio Tecolutla, um trecho inteiro de terreno foi aplainado à mão e coberto de pedra. A cidade que ali cresceu se chama El Tajín, nome em totonaco que remete ao trovão, e o seu edifício mais conhecido é uma pirâmide de seis corpos escalonados perfurada por centenas de nichos quadrados, cada um fundo o bastante para engolir o braço de um adulto até o cotovelo e criar, ao meio-dia, uma grade de sombras pretas na fachada clara.

Ao redor dessa pirâmide, e espalhadas pelas praças do vale, havia quadras. Duas paredes de pedra paralelas, separadas por uma pista comprida e estreita, às vezes com taludes inclinados, às vezes verticais, sempre com o mesmo desenho de corredor. Eram os campos do jogo de bola, a cerimônia que atravessava a Mesoamérica inteira, do golfo ao altiplano. O que separa El Tajín das outras cidades da região é a quantidade: os levantamentos do Instituto Nacional de Antropologia e História do México, feitos durante o Proyecto Tajín entre 1984 e 1994, registraram perto de vinte campos dentro do sítio, mais do que qualquer outra cidade mesoamericana conhecida.

Uma cidade não constrói vinte arenas do mesmo rito por capricho de arquiteto. Constrói porque o rito faz trabalho político, e porque a demanda por esse trabalho não parava de crescer. E depois, entre 1180 e 1230, o centro cerimonial pegou fogo, a população saiu e ninguém levantou cidade nova em cima das pedras.

Vale reconstruir que lugar era esse, de onde vinha a riqueza que pagou a pedra e o que os relevos das quadras mostram de perto.

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I  O Estrato

O vale que virou pedra lavrada

A cidade se chama El Tajín, e o nome que usamos hoje vem dos totonacos que ocupavam a região quando os espanhóis chegaram, para quem tajín designa o trovão. Não sabemos como os próprios construtores a chamavam: nenhum texto do sítio traz o nome antigo do lugar, e a escrita usada nos relevos ainda não foi decifrada por completo.

O assentamento começou modesto. As camadas mais antigas escavadas no vale, com plataformas de terra e pedra, remontam aos primeiros séculos da era cristã. O crescimento que interessa veio bem depois, no período que a arqueologia mexicana chama de Epiclássico, quando Teotihuacán já havia perdido o controle do centro do México e as cidades da costa do golfo ganharam espaço próprio. Entre cerca de 900 e 1100, El Tajín cobriu o vale de praças pavimentadas, plataformas e pirâmides.

A riqueza vinha da terra molhada e do trânsito. O norte de Veracruz produzia baunilha, cacau, algodão e borracha de seringueira, a mesma borracha com que se fazia a bola pesada do jogo, e a cidade se sentava no caminho entre o litoral do golfo e as serras do interior, cobrando abrigo e intermediação de quem subia e descia com carga.

Uma cidade de terra fértil e posição de passagem podia pagar pedra lavrada em escala industrial sem manter exército de conquista, e El Tajín gastou essa renda em arquitetura de cerimônia, não em muralha.

O edifício mais fotografado do sítio é a Pirâmide dos Nichos. São seis corpos escalonados, com nichos quadrados abertos em toda a volta, contados por José García Payón, o arqueólogo que dirigiu as escavações do sítio a partir de 1938, em 365, número que ele leu como registro do ano solar. A contagem exige reconstituir os nichos da escadaria e do corpo superior, que estavam destruídos, e por isso continua discutida; o que ninguém discute é o partido arquitetônico, que repete nicho e cornija em quase todo edifício do vale.

Acima da praça central, numa plataforma artificial mais alta, fica o setor que os escavadores batizaram de Tajín Chico, o Tajín pequeno. Ali estão os prédios de aparência residencial e administrativa, com paredes decoradas pela greca escalonada, o motivo geométrico de degraus encadeados que os astecas chamariam depois de xicalcoliuhqui, palavra náuatle para a espiral em degraus. Num desses prédios, o Edifício das Colunas, tambores de pedra esculpidos mostram cenas de guerra, cativos e cerimônia, com um personagem que aparece repetido ao lado do glifo que os pesquisadores leem como 13 Coelho, provavelmente um governante do auge da cidade.

 

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II  O Padrão

Vinte arenas para um acordo que o fogo desfez

O jogo de bola mesoamericano não era esporte de fim de tarde. A bola de borracha maciça era conduzida com quadril, cotovelo e joelho dentro de uma pista comprida, os jogadores vestiam proteção pesada na cintura, e a partida encenava um episódio cosmológico de morte e renascimento do sol e do milho. Em vários sítios da Mesoamérica, o desfecho da cerimônia incluía o sacrifício de um dos participantes.

Em El Tajín, essa cena está gravada em pedra. O Campo Sul, a quadra mais decorada do sítio, tem seis painéis em relevo nas paredes internas. Neles aparecem jogadores com o equipamento completo, músicos, figuras divinas descendo do céu e a sequência de um jogador estendido enquanto outro segura uma lâmina sobre o seu peito, ao lado de um esqueleto que desce para receber a oferenda. A leitura corrente desses painéis, consolidada nos trabalhos de S. Jeffrey K. Wilkerson publicados nos anos 1980 e 1990, é de que ali se registrou uma liturgia completa, com etapas ordenadas, e não uma cena solta de violência.

Agora some a quantidade a esse conteúdo. Perto de vinte quadras dentro de uma única cidade significa que a liturgia acontecia em muitos pontos ao mesmo tempo, com públicos distintos, em escalas distintas. Algumas são pequenas e encostadas em conjuntos residenciais de elite; outras são grandes e abertas para praça pública.

Quadra de jogo em cidade mesoamericana funciona como tribunal e como cartório: é onde disputa entre grupos vira cerimônia com regra, público e desfecho aceito por todos os presentes.

“A concentração de campos de jogo em El Tajín não tem paralelo conhecido na Mesoamérica, e indica que o ritual do jogo ocupava, ali, posição central na organização política da cidade.”
S. Jeffrey K. Wilkerson, El Tajín: A Guide for Visitors, 1987.

O fim chegou pelo fogo. As escavações do INAH no centro cerimonial encontraram camadas de queima e material construtivo colapsado nos edifícios do coração do sítio, e a datação desse episódio cai entre 1180 e 1230. Depois dele, a ocupação urbana acaba. Não há cidade nova por cima, não há reforma do centro cerimonial, não há continuidade de uso das quadras.

Quem ateou o fogo não tem resposta fechada. A hipótese mais citada na bibliografia mexicana atribui o ataque a grupos chichimecas vindos do norte, que pressionaram várias cidades do centro do México nos mesmos séculos, e há quem leia o incêndio como resultado de conflito interno, com a própria população derrubando o aparato cerimonial. A arqueologia mostra a queima, o colapso e a saída; não mostra o rosto de quem entrou. Vale dizer com todas as letras: o nome do agressor de El Tajín não se sabe, e não se saberá enquanto a escrita do sítio não for lida e enquanto não aparecer um contexto de combate datado com precisão.

O Espelho: instituição de cerimônia governa bem enquanto todo mundo aceita comparecer. El Tajín investiu décadas de renda agrícola em arenas de ritual porque a arena resolvia disputa sem tropa permanente, e cresceu com essa arquitetura enquanto a rede de aldeias do vale coube na liturgia. Contra quem chegou de fora sem nenhum apreço pela regra do jogo, vinte quadras não valeram uma muralha. Vale checar de vez em quando quanto da sua estabilidade depende de um rito que só funciona com a adesão voluntária de quem participa.

III  O Arquivo

Onde checar El Tajín, as quadras e o incêndio

Para a arquitetura e a cronologia do sítio, ver os relatórios de escavação de José García Payón, que dirigiu os trabalhos a partir de 1938 e publicou pela Universidad Veracruzana, e a produção do Proyecto Tajín, conduzido pelo Instituto Nacional de Antropologia e História do México sob coordenação de Jürgen Brüggemann entre 1984 e 1994, que consolidou o levantamento dos edifícios e dos campos de jogo.

Para os relevos e a leitura do ritual, ver S. Jeffrey K. Wilkerson, El Tajín: A Guide for Visitors, de 1987, e os artigos do mesmo autor sobre os painéis do Campo Sul. A ficha oficial do sítio na lista do Patrimônio Mundial, inscrito pela UNESCO em 1992, traz o perímetro protegido e o histórico de conservação.

Vale um aviso de método sobre os números. A contagem de campos de jogo varia entre 17 e 20 conforme o critério adotado para estruturas parcialmente escavadas, e novas prospecções podem mexer no total. Os 365 nichos da pirâmide dependem de reconstituição das partes arruinadas, e parte da bibliografia trata o número como leitura provável, não como contagem direta.

Vale outro aviso sobre a identidade de quem construiu. O nome totonaco pegou porque eram os totonacos que viviam na região no século XVI, mas a filiação étnica dos construtores do auge continua em aberto, com propostas que incluem grupos huastecas e populações locais sem correspondência direta com nenhum povo histórico conhecido.

As duas paredes do Campo Sul continuam abertas no mesmo vale úmido de Papantla, com os seis painéis ainda legíveis na pedra, e a grade de nichos da pirâmide segue marcando a hora em sombra quadrada, sobre um centro cerimonial que ninguém reconstruiu depois do incêndio.

 
 

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Segundo os levantamentos do INAH feitos durante o Proyecto Tajín (1984 a 1994), quantos campos de jogo de bola foram registrados dentro do sítio de El Tajín?

ACerca de dez campos, número mediano para a região
BTrinta e cinco campos, recorde isolado sem comparação
CPerto de vinte campos, mais que qualquer outra cidade mesoamericana conhecida
DCinco campos, todos concentrados em Tajín Chico

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