In partnership with

Civilizações Perdidas   Civilizações Perdidas
ED 148
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

Você escolhe a edição de amanhã: a votação está no fim desta edição.

Dvaravati, o reino escrito numa moeda de prata

A China chamava de Duoluobodi um reino do vale do Chao Phraya; o nome verdadeiro saiu de moedas achadas em Nakhon Pathom

Estupa de tijolo de Nakhon Pathom sobre arrozais e fosso

Nakhon Pathom, Tailândia, século VII

▼

A LINHA DO TEMPO

século VI, surgem as cidades de fosso do Chao Phraya → 646, Xuanzang registra o reino de Duoluobodi → século XI, a cultura Dvaravati se dissolve sob o domínio khmer → 1853, o rei Mongkut manda reconstruir o Phra Pathom Chedi → 1943, moedas de prata com o nome Dvaravati saem do chão de Nakhon Pathom

A 56 quilômetros a oeste de Bangkok, na planície do rio Chao Phraya, a cidade tailandesa de Nakhon Pathom tem no centro um sino de alvenaria de 120 metros, coberto de azulejos cor de laranja. Do terraço mais alto se veem arrozais, canais e o casario baixo de uma cidade do interior.

O sino é o Phra Pathom Chedi, uma estupa (monumento budista em forma de cúpula, feito para guardar relíquias). A estrutura atual subiu a partir de 1853, por ordem do rei Mongkut, por cima de uma estupa muito mais velha que os peregrinos já visitavam em ruína.

Durante séculos, ninguém em Nakhon Pathom sabia dizer quem tinha erguido a primeira. Os monges contavam histórias de reis lendários. Os viajantes europeus do século XIX recolhiam rodas de pedra, estátuas de Buda e tijolos enormes de um povo sem nome.

O nome estava guardado longe dali, em livros chineses. No século VII, o monge Xuanzang, que viajou da China até a Índia atrás de textos budistas, anotou um reino chamado Duoluobodi, a leste do reino de Sriksetra, na atual Birmânia.

Xuanzang nunca pisou no vale do Chao Phraya. Escreveu o que ouviu de mercadores e monges em portos da Índia, e transcreveu a palavra estrangeira com os sons que a escrita chinesa permitia.

Duoluobodi soava como um nome sânscrito mal ouvido. Os estudiosos ocidentais arriscaram o original ainda no século XIX, mas faltava a assinatura do próprio reino, gravada por gente de lá.

A assinatura saiu da terra de Nakhon Pathom, em moedas de prata do tamanho de um botão. Numa face, uma vaca amamentando um bezerro. Na outra, uma linha em sânscrito com a palavra Dvaravati.

Dvaravati quer dizer “a que tem portões”. É o nome de uma cultura que ocupou o centro da atual Tailândia do século VI ao XI, falava mon (língua da família do khmer, a do Camboja) e deixou dezenas de cidades cercadas por fossos.

O Estrato começa por esses fossos e pelos templos dessa gente, antes de chegar às moedas.

Continue lendo ↓

 
 
 

Quem banca a edição de hoje

Smart starts here.

You don't have to read everything — just the right thing. 1440's daily newsletter distills the day's biggest stories from 100+ sources into one quick, 5-minute read. It's the fastest way to stay sharp, sound informed, and actually understand what's happening in the world. Join 4.5 million readers who start their day the smart way.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

I  O Estrato

Cidades de fosso no arrozal

A resposta de ontem

Para qual obra foram as pedras da muralha do templo em 1836?

Para a Lower Anicut, a barragem sobre o rio Kollidam projetada pelo engenheiro Arthur Cotton e erguida entre 1836 e 1840. As pedras da muralha externa do templo viraram represa, e a barragem ainda distribui água para os arrozais do delta do Kaveri.

Quem sobrevoa o vale do Chao Phraya ainda enxerga o desenho dos assentamentos de Dvaravati. São ovais e retângulos de água parada, abertos na planície alagável, com uma cidade dentro e arrozais fora.

O fosso de Nakhon Pathom forma um oval de quase quatro quilômetros de comprimento. Outros centros repetem o molde: U Thong, na província de Suphan Buri; Khu Bua, em Ratchaburi; Si Thep, em Phetchabun, já nas bordas do planalto.

O fosso servia de muralha, de reservatório e de canal. Na estação das chuvas, a planície vira lâmina de água, e as cidades viviam ilhadas e ligadas por barco ao golfo da Tailândia.

Pelo golfo chegavam mercadores da Índia. Nas camadas de Dvaravati os arqueólogos acham contas de vidro e de cornalina, lâmpadas de bronze e selos com escrita indiana, e foi por essa rota que o budismo e o sânscrito entraram no vale.

As rodas da Lei

O objeto mais típico de Dvaravati é o dharmachakra, a roda da Lei, que representa o primeiro sermão de Buda. Os escultores mon talhavam rodas de pedra com mais de um metro de diâmetro e as erguiam no alto de pilares, na frente das estupas.

Algumas rodas trazem versos em páli, a língua dos textos do budismo theravada (a corrente budista que hoje domina a Tailândia). Os versos vêm do cânone budista e confirmam a escolha religiosa dessas cidades séculos antes de existir um reino tailandês.

Os mon escreveram a fé em páli muito antes de escrever o próprio nome.

As inscrições em língua mon falam de doações a mosteiros, de terras e de servos de templo. Nenhuma delas, até hoje, traz a lista de reis ou a data de fundação de uma capital.

O reino visto da China

Os cronistas chineses deram ao reino as primeiras datas. O relato de Xuanzang, terminado em 646, localiza Duoluobodi numa sequência de países ao sul da rota que ele percorreu:

“A sudeste fica o reino de Shilichadaluo; mais a sudeste, à beira do grande mar, o reino de Duoluobodi; mais a leste, o reino de Yishangnabuluo.”

Xuanzang, Registros das Regiões Ocidentais da Grande Tang, 646.

Shilichadaluo é a transcrição de Sriksetra, cidade do povo pyu na Birmânia. Yishangnabuluo é Isanapura, capital khmer no atual Camboja. Duoluobodi caía entre os dois, onde estão o vale do Chao Phraya e as cidades de fosso.

Os anais da dinastia Tang, escritos pela corte chinesa, registram embaixadas de Duoluobodi no século VII, com presentes de marfim e de ouro levados até a capital Chang’an.

Para a China, o reino existia como lugar de onde vinham embaixadores. O povo mon nunca leu esse nome, porque nunca se chamou assim.

 

Quem banca a edição de hoje

Unify Your Teams and Tech Stack With HubSpot

Connect your customer data, teams, and tools without the hassle of complex integrations or lengthy setups. One easy platform gives marketing, sales, and service teams a unified customer view and the tools to turn it into growth.

Why HubSpot and what's new
• Generate leads and automate marketing with Marketing Hub
• Build your pipeline and close more deals with Sales Hub
• Scale customer support and drive retention with Service Hub
• Keep customer data clean, connected, and actionable with one, unified platform

Join 306,000+ in over 135 countries using HubSpot to grow their businesses.

See what a more connected approach to growth can do for you and your team. Get setup quickly and start checking off your hardest tasks.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

II  O Padrão

O vizinho escolhe o nome

Dvaravati faz parte de um grupo de povos que entraram nos livros com o nome dado por estrangeiros. Muitos ficaram com o rótulo; alguns recuperaram a palavra própria quando o chão devolveu a escrita deles.

O vizinho mais próximo serve de exemplo. Os chineses chamavam de Funan o reino que dominou o delta do Mekong do século I ao VI. O nome nativo nunca apareceu numa inscrição local, e o reino segue até hoje conhecido pela palavra chinesa.

O epigrafista francês George Coedès propôs no século XX que Funan transcreve o termo khmer antigo bnam, “montanha”. A hipótese continua sem prova escrita, e o nome verdadeiro de Funan segue desconhecido.

Os pyu, na Birmânia, também chegaram aos livros pelo nome chinês, Piao. Inscrições bilíngues do próprio povo mostraram depois que eles se chamavam tircul.

Os hititas da Anatólia levam um nome tirado da Bíblia hebraica. As tábuas de argila achadas em Hattusa, na Turquia, a partir de 1906 mostraram outro vocabulário: o reino se dizia terra de Hatti, e a língua da corte se chamava nesili.

O caminho do nome de volta

A recuperação de um nome segue quase sempre a mesma ordem:

1. Um viajante ou um cronista estrangeiro anota o reino de ouvido, com os sons da própria língua.

2. Estudiosos de outro século tentam reconstruir a palavra original a partir da transcrição.

3. Uma inscrição do próprio povo aparece em escavação e confirma ou derruba a reconstrução.

4. O nome nativo passa a valer nos livros, e o estrangeiro vira nota de rodapé.

Dvaravati percorreu as quatro etapas. Funan parou na segunda.

O nome de fora entra primeiro na história; o de dentro só volta pela pá do arqueólogo.

Por que o nome some

Reinos sem crônica própria dependem dos vizinhos para existir no papel. Os mon de Dvaravati escreviam sobre a fé e as doações, e a China escrevia sobre embaixadas e tributos.

Quando a cultura se dissolveu, no século XI, sob o domínio do império khmer de Angkor, ninguém do vale guardou uma lista de reis. Sobraram as rodas de pedra, os fossos e a transcrição chinesa.

III  O Arquivo

As moedas de Nakhon Pathom

A palavra Dvaravati já circulava entre estudiosos antes das moedas. Tradutores europeus de Xuanzang propuseram a leitura no século XIX, e Coedès defendeu que o reino de Duoluobodi ocupava o vale do Chao Phraya.

A defesa dependia de uma comparação de sons. Faltava um texto em que alguém do vale escrevesse o nome do lugar onde vivia.

O pote sob o santuário

Em 1943, em Nakhon Pathom, apareceu um pote de cerâmica enterrado sob as ruínas de um santuário. Dentro havia moedas de prata, e duas delas traziam uma inscrição em sânscrito com a grafia do século VII.

A linha diz śrīdvāravatīśvarapuṇya, “obra de mérito do senhor da gloriosa Dvaravati”. O pesquisador J. J. Boeles publicou a leitura no Journal of the Siam Society em 1964, e a palavra virou nome da cultura inteira.

Moedas parecidas apareceram depois em U Thong, em Inburi e em Khu Bua. O padrão se repete: prata, a vaca com o bezerro numa face e a fórmula de mérito na outra.

A vaca com o bezerro vem do repertório indiano e simboliza fartura. A escolha diz que os reis do vale queriam ser lidos como reis à maneira da Índia, com sânscrito na moeda e o páli reservado aos versos dos templos.

A prova do nome era uma esmola de rei enterrada num pote.

O que as moedas não contam

A fórmula pede uma leitura cuidadosa. Puṇya (mérito, no sentido budista da boa ação que rende fruto) indica moedas de doação, distribuídas em cerimônias de templo, e não de compra no mercado. Os estudiosos ainda discutem se elas também circulavam como dinheiro.

Elas também não dizem qual rei mandou cunhá-las, nem onde ficava a capital. Nakhon Pathom e U Thong disputam o posto, porque as duas têm fosso grande, estupas antigas e moedas com o nome.

Também segue em aberto se Dvaravati foi um reino único ou uma rede de cidades com cultura comum. Nenhuma inscrição achada até agora fala de um governo central, e os textos chineses descrevem um só país porque viam o vale de longe.

O nome sobreviveu ao povo. Séculos depois, o reino tailandês de Ayutthaya incluiu a palavra no título oficial da capital, Krung Thep Dvaravati Si Ayutthaya, como herança de prestígio do vale.

A 56 quilômetros de Bangkok, o Phra Pathom Chedi segue com os seus 120 metros de azulejo laranja, e o museu nacional instalado no terreno da estupa guarda rodas da Lei, Budas de pedra e a escrita de um reino que a China ouviu como Duoluobodi e que se chamava Dvaravati.

 
 
Quiz da edição

No texto, a moeda de prata achada em Nakhon Pathom traz a palavra Dvaravati em sânscrito. O que esse nome significa?

AA terra dos arrozais
BA que guarda relíquias
CA que tem portões
DA capital do rio sagrado

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Você pediu, mudou

Você fez a diferença

4,7de 5

26 avaliações · 14 leitores · 03 a 16/10

A escolha da semana

A urna de 05/10 escolheu Reino de Nórico. Saiu em 09/10, na ed. 140.

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🗿🗿🗿🗿🗿  ótima 🗿🗿🗿🗿  boa 🗿🗿🗿  ok 🗿🗿  ruim 🗿  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 17/10, 15h30

A Chan Chan →
B Reino de Balhae →
C Bigo bya Mugenyi →
D Cacaxtla →
 
 
Recomendação de Newsletter
Invenção do Dia
Invenção do Dia

Invenção do Dia

 

Uma invenção por dia, com quem criou, o ano e o que mudou após ela, em apenas dois minutos. No seu email todo dia às 06:06.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →

{{vip_linha | }}

 

O passado fala. Sic transit gloria mundi.

CIVILIZAÇÕES PERDIDAS

Toda civilização já foi o futuro. Até deixar de ser

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter
📚 Leia o acervo completo