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Dur-Sharrukin, a capital de Sargão II habitada por 1 ano

Sargão II levou dez anos erguendo uma capital no campo vazio; a corte ficou lá um ano e a obra parou

Muralhas e touros alados de Dur-Sharrukin em obra

Khorsabad, Iraque, 706 antes de Cristo

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A LINHA DO TEMPO

717 a.C., Sargão II manda abrir a nova capital → 706 a.C., a corte se muda para Dur-Sharrukin → 705 a.C., Sargão II cai em batalha em Tabal e o corpo não volta → Senaqueribe leva a corte para Nínive → 1843, Paul-Émile Botta escava o palácio em Khorsabad

A 15 quilômetros a nordeste de Mosul, no norte do Iraque, a aldeia de Khorsabad encosta num quadrado de terra mais alta que o campo em volta. Do canto noroeste do quadrado, onde o chão sobe num morro largo, se veem trigais, as casas da aldeia e, no horizonte, os primeiros contrafortes dos montes curdos.

O morro é o que sobrou de um palácio. O quadrado é o contorno de uma muralha de tijolo cru que cercava uma cidade inteira, desenhada inteira por um único rei e ocupada pela corte durante pouco mais de um ano.

O rei era Sargão II, soberano da Assíria entre 722 e 705 antes de Cristo. Ele herdou a capital de Kalhu, a atual Nimrud, uma cidade com palácios de reis anteriores, e decidiu morar num lugar sem passado nenhum.

Escolheu um campo aberto perto de uma aldeia chamada Magganubba. Comprou as terras dos donos, segundo as próprias inscrições, e mandou riscar ali uma cidade com o nome dele: Dur-Sharrukin, “fortaleza de Sargão”.

A obra começou em 717 antes de Cristo. Governadores de todas as províncias do império mandavam tijolos, palha, madeira e gente. Cartas de barro trocadas entre o rei e os funcionários falam de toras de cedro arrastadas desde as montanhas do oeste e de cotas de trabalhadores cobradas a cada distrito.

Em 706 antes de Cristo, a corte se mudou. Sargão ofereceu banquetes aos deuses e aos príncipes estrangeiros e registrou nas paredes que tinha construído a cidade para durar.

No ano seguinte, o rei partiu para uma campanha em Tabal, região montanhosa no centro da atual Turquia. Caiu em combate, e o exército assírio não conseguiu resgatar o corpo. Na Assíria, um rei sem sepultura era o pior presságio possível.

O filho dele, Senaqueribe, não quis ficar na cidade do pai. Levou o governo para Nínive, e Dur-Sharrukin ficou com palácios prontos, bairros vazios e muralhas sem moradores.

O Estrato abre pelo chão de Khorsabad, onde a planta da cidade ainda aparece inteira.

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I  O Estrato

Uma cidade riscada no campo

A cidade de Dur-Sharrukin tinha a forma de um quadrado quase perfeito. O levantamento do arqueólogo francês Victor Place, feito entre 1852 e 1855, mediu cada lado da muralha com pouco menos de dois quilômetros, e sete portões abriam a cidade para as estradas do império.

Cidades antigas costumam crescer por camadas, com bairros novos espremidos contra os velhos. Dur-Sharrukin saiu da prancheta com ruas, portões e cidadela traçados antes do primeiro morador.

A escolha tinha motivo político. Sargão chegou ao trono depois da queda de Salmanasar V, e muitos historiadores leem o nome que ele adotou, Sharru-kin, “rei legítimo”, como resposta a quem duvidava do direito dele. Uma cidade sem famílias antigas nem templos de outros reis dava a ele um palco só dele.

A cidadela ficava num terraço artificial, colado à muralha noroeste. Lá em cima estavam o palácio do rei, templos de vários deuses e um zigurate (torre de templo em degraus, típica da Mesopotâmia) com faixas pintadas de cores diferentes.

Os touros de pedra

Nas portas do palácio, Sargão mandou instalar pares de lamassu (guardiões em forma de touro alado com cabeça humana e barba). Cada um foi talhado num só bloco de alabastro, com cinco patas: de frente parecem parados, de lado parecem andando.

Atrás dos guardiões, as paredes das salas recebiam lajes esculpidas em relevo. Mostravam o rei recebendo tributo, cercos a cidades inimigas, caçadas e fileiras de servos carregando móveis e comida.

Dur-Sharrukin nasceu com a planta pronta e sem nenhum morador.

O império pagava a obra

As cartas guardadas nos arquivos reais mostram a obra como tarefa do império inteiro. Um governador explica atraso na entrega de palha; outro avisa que as toras de cedro chegaram ao rio; um terceiro pede mais homens para moldar tijolos.

Prisioneiros de guerra deportados de outras regiões viraram mão de obra. As próprias inscrições de Sargão contam que ele assentou na cidade gente de vários povos vencidos, para encher as casas que o projeto previa.

A inauguração aconteceu em 706 antes de Cristo, mas a obra seguia aberta. Partes dos bairros residenciais nunca ganharam casas, e escavações posteriores acharam salas sem acabamento e espaços cercados sem construção dentro.

 

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II  O Padrão

Capitais nascidas de decreto

Dur-Sharrukin pertence a uma família rara de cidades: capitais fundadas por um governante num terreno sem história, para marcar um reinado novo. Quase todas tiveram o mesmo destino quando o fundador saiu de cena.

A Assíria já tinha passado pela experiência. Cinco séculos antes de Sargão, o rei Tukulti-Ninurta I ergueu Kar-Tukulti-Ninurta, “porto de Tukulti-Ninurta”, do outro lado do rio Tigre, diante da velha capital Assur. O rei foi deposto e assassinado por conspiradores, e a cidade nova perdeu o posto.

No Egito, o faraó Akhenaton fundou Akhetaton, a atual Amarna, para o culto de um deus só, o disco solar Aton. Depois da morte dele, a corte voltou para Tebas e Mênfis, e a cidade foi abandonada em poucos anos.

Na Índia, o imperador mogol Akbar ergueu Fatehpur Sikri a partir de 1571, com palácios de arenito vermelho. Pouco mais de uma década depois, a corte saiu dali, e a cidade ficou quase intacta, como um cenário sem atores.

Como uma capital de decreto se esvazia

O roteiro se repete em quatro passos:

1. O governante escolhe um terreno livre, longe das famílias e dos templos que dominavam a capital velha.

2. O império inteiro paga a obra com impostos, madeira, pedra e trabalho forçado.

3. A corte se muda, e a cidade passa a depender da presença do fundador para ter função.

4. O sucessor, sem laço com o projeto, leva o governo para outra cidade, e a obra para no estado em que estava.

Dur-Sharrukin cumpriu os quatro em pouco mais de dez anos.

Uma capital feita para um rei dura o reinado desse rei.

O peso do presságio

No caso de Sargão, o quarto passo ganhou um motivo religioso. Os assírios liam a queda de um rei em batalha, sem enterro, como sinal de castigo dos deuses.

Um texto escrito no reinado de Senaqueribe, conhecido pelos estudiosos como “O pecado de Sargão”, mostra o filho consultando adivinhos para descobrir que falta o pai tinha cometido. A resposta exata se perdeu nas partes quebradas da tabuinha; o texto deixa claro só o medo de repetir o erro.

Ficar na cidade do rei sem sepultura seria atrair o mesmo castigo. Senaqueribe reformou Nínive, ergueu lá o próprio palácio e quase nunca citou o pai nas inscrições. Nínive virou a maior cidade do império, e o nome de Dur-Sharrukin quase some dos registros do reinado seguinte.

III  O Arquivo

O rei sem túmulo

Durante mais de dois mil anos, Sargão II existiu para a Europa em uma linha só. O nome dele aparecia uma única vez na Bíblia hebraica, no livro de Isaías, numa referência à tomada de Asdode, cidade dos filisteus:

“No ano em que Tartã veio a Asdode, enviado por Sargão, rei da Assíria, e pelejou contra Asdode e a tomou.”

Livro de Isaías, 20:1, tradução de João Ferreira de Almeida.

Sem outra fonte, estudiosos chegaram a supor que Sargão fosse outro nome de um rei já conhecido.

O cônsul de Mosul

Em 1843, o cônsul francês em Mosul, Paul-Émile Botta, procurava os restos de Nínive. Um morador de Khorsabad contou que o chão da aldeia devolvia tijolos com escrita, e Botta mudou de lugar.

Em poucas semanas, as valas dele bateram em paredes cobertas de relevos. Botta achava que tinha encontrado Nínive. As inscrições, decifradas nos anos seguintes, deram o nome do dono do palácio: Sargão, o rei citado por Isaías.

Victor Place continuou o trabalho na década seguinte e embarcou um lote de esculturas para Paris. Em 1855, as balsas que levavam as peças pelo rio Tigre afundaram perto de Qurnah, no sul do Iraque, e a maior parte da carga nunca foi recuperada.

Parte do que chegou está no Museu do Louvre, que expõe um pátio inteiro com touros alados de Khorsabad. Entre 1928 e 1935, o Instituto Oriental de Chicago escavou de novo e levou para os Estados Unidos um lamassu que o próprio instituto informa pesar 40 toneladas.

O sítio voltou a sofrer no século XXI. Em 2015, durante a ocupação de Mosul pelo grupo Estado Islâmico, Khorsabad foi saqueado e escavado de forma clandestina, segundo relatos da Unesco, e parte dos relevos que tinham ficado no lugar desapareceu.

O que o chão não devolveu

O corpo de Sargão nunca apareceu. Nenhum texto conhecido diz o que o inimigo fez com ele, e nenhuma tumba real em Assur ou em Kalhu traz o nome dele. O silêncio das fontes vem do próprio tabu: a corte assíria evitou registrar a perda.

A cidade também não morreu de vez. Dur-Sharrukin seguiu como sede de governador de província até o fim do império, em 612 antes de Cristo, com o palácio usado em partes e os bairros nunca ocupados.

A 15 quilômetros de Mosul, o morro do palácio continua no canto noroeste do quadrado de Khorsabad, e os touros que guardavam as portas de Sargão vigiam hoje salas de museu em Paris e em Chicago.

★ RARO

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Depois que Sargão II caiu em combate na campanha de Tabal, o que aconteceu com o corpo dele, segundo o texto?

AFoi levado a Dur-Sharrukin e sepultado sob o palácio
BFoi enterrado em Nínive por ordem de Senaqueribe
CO exército assírio não conseguiu resgatar o corpo
DFoi cremado no campo de batalha, pelo costume assírio

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