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Dur-Sharrukin pertence a uma família rara de cidades: capitais fundadas por um governante num terreno sem história, para marcar um reinado novo. Quase todas tiveram o mesmo destino quando o fundador saiu de cena.
A Assíria já tinha passado pela experiência. Cinco séculos antes de Sargão, o rei Tukulti-Ninurta I ergueu Kar-Tukulti-Ninurta, “porto de Tukulti-Ninurta”, do outro lado do rio Tigre, diante da velha capital Assur. O rei foi deposto e assassinado por conspiradores, e a cidade nova perdeu o posto.
No Egito, o faraó Akhenaton fundou Akhetaton, a atual Amarna, para o culto de um deus só, o disco solar Aton. Depois da morte dele, a corte voltou para Tebas e Mênfis, e a cidade foi abandonada em poucos anos.
Na Índia, o imperador mogol Akbar ergueu Fatehpur Sikri a partir de 1571, com palácios de arenito vermelho. Pouco mais de uma década depois, a corte saiu dali, e a cidade ficou quase intacta, como um cenário sem atores.
Como uma capital de decreto se esvazia
O roteiro se repete em quatro passos:
1. O governante escolhe um terreno livre, longe das famílias e dos templos que dominavam a capital velha.
2. O império inteiro paga a obra com impostos, madeira, pedra e trabalho forçado.
3. A corte se muda, e a cidade passa a depender da presença do fundador para ter função.
4. O sucessor, sem laço com o projeto, leva o governo para outra cidade, e a obra para no estado em que estava.
Dur-Sharrukin cumpriu os quatro em pouco mais de dez anos.
Uma capital feita para um rei dura o reinado desse rei.
O peso do presságio
No caso de Sargão, o quarto passo ganhou um motivo religioso. Os assírios liam a queda de um rei em batalha, sem enterro, como sinal de castigo dos deuses.
Um texto escrito no reinado de Senaqueribe, conhecido pelos estudiosos como “O pecado de Sargão”, mostra o filho consultando adivinhos para descobrir que falta o pai tinha cometido. A resposta exata se perdeu nas partes quebradas da tabuinha; o texto deixa claro só o medo de repetir o erro.
Ficar na cidade do rei sem sepultura seria atrair o mesmo castigo. Senaqueribe reformou Nínive, ergueu lá o próprio palácio e quase nunca citou o pai nas inscrições. Nínive virou a maior cidade do império, e o nome de Dur-Sharrukin quase some dos registros do reinado seguinte.
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