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1 leitor escolheu Tesouro dos Ávaros. Sai em 05/10.
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Deir el-Medina, a vila que anotava a falta de cada operário
Os artesãos do Vale dos Reis recebiam em grãos, faltavam por motivo anotado e, quando a ração atrasou, pararam o trabalho
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Deir el-Medina, margem oeste de Luxor
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A LINHA DO TEMPO
Perto de 1500 a.C., Tutmés I funda a vila dos artesãos → perto de 1239 a.C., ano 40 de Ramsés II, um escriba lista as faltas de 40 operários → 1157 a.C., ano 29 de Ramsés III, a ração atrasa e a turma cruza os braços → perto de 1070 a.C., a vila é abandonada → 1922 a 1951, Bernard Bruyère escava o lugar e o grande poço de óstracos → 1951, William F. Edgerton publica o estudo da greve → 1973, Jaroslav Černý publica a história da comunidade
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Numa vila egípcia do Vale dos Reis, cada falta ao trabalho tinha motivo anotado.
Quando o salário em grãos atrasou, os mesmos operários cruzaram os braços.
A 25 graus ao norte do equador, na margem oeste do Nilo, diante de Luxor, um vale estreito se esconde entre colinas de calcário a menos de 1 quilômetro do fim dos campos verdes. Dali não se vê o rio. Se vê pedra clara, uma rua única e as bases de umas 70 casas coladas umas nas outras.
O lugar se chama hoje Deir el-Medina (o mosteiro da cidade, em árabe), por causa de um convento cristão que ocupou o templo local séculos depois. Os egípcios que moraram ali davam outro nome: Set Maat, o Lugar da Verdade.
Entre 1500 e 1070 a.C., a vila abrigou os artesãos que abriam e decoravam as tumbas dos faraós no Vale dos Reis, do outro lado da colina. Eram cortadores de pedra, gesseiros, desenhistas, pintores e escultores. O título oficial deles era sedjem-ash (servidor no Lugar da Verdade), e a profissão passava de pai para filho.
Não havia água no vale nem terra para plantar. Tudo o que a vila comia, bebia e vestia chegava de fora, trazido por carregadores do governo: jarros de água em lombo de burro, grãos, peixe, lenha, legumes. A comunidade existia para uma tarefa só, e o Estado sustentava cada boca.
Essa dependência deixou um rastro raro. Os moradores sabiam ler e escrever numa proporção que não se encontra em outra aldeia do Egito antigo, e escreviam sobre qualquer superfície à mão. Papiro era caro; cacos de cerâmica e lascas de calcário custavam nada.
Esses fragmentos escritos se chamam óstracos (do grego ostrakon, caco de barro). Em Deir el-Medina saíram do chão aos milhares, a maioria de um único buraco ao norte da vila, onde os moradores jogavam o que não servia mais. Recibos, listas de compra, cartas, contratos de venda de burro, poemas de amor, receitas contra dor de cabeça.
Do meio desse lixo sai a rotina de uma equipe de trabalho acompanhada por escribas durante gerações. E um dos cacos, do reinado de Ramsés II, mostra que a ausência de cada homem no canteiro tinha nome, data e motivo.
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I O Estrato
A turma que faltava por escrito
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O documento mais famoso sobre as faltas está no Museu Britânico, com o número de inventário EA 5634. É uma lasca de calcário escrita dos dois lados em hierático (a letra cursiva dos escribas egípcios), datada do ano 40 de Ramsés II, perto de 1239 a.C.
O escriba dividiu a lasca em colunas. À direita, os nomes de uns 40 operários. Ao longo das linhas, os dias do ano em que cada um não apareceu no canteiro, e junto da data, o motivo em poucas palavras, escrito em tinta vermelha.
Os motivos formam um retrato de gente comum. Um homem faltou porque foi picado por escorpião. Outro estava "com o olho doente". Vários ficaram em casa "preparando cerveja". Um faltou para embalsamar o irmão, outro para cuidar do funeral de um parente. Houve quem ficasse porque a esposa ou a filha estava menstruada, o que envolvia rito de purificação.
Há também faltas a serviço de terceiros. Alguns operários passaram dias "com o chefe" ou fazendo trabalho para o escriba, uma espécie de favor pessoal que o registro deixa anotado sem reclamação. Ninguém aparece punido na lasca: ela registra, não julga.
Um salário que se media em sacos
O pagamento chegava todo mês, em grãos. A unidade era o khar (saco de grãos de cerca de 77 litros). Pelas contas de Jaroslav Černý, em A Community of Workmen at Thebes in the Ramesside Period (1973), um operário comum recebia 4 khar de trigo emmer e 1,5 khar de cevada por mês. O capataz e o escriba levavam 5,5 de emmer e 2 de cevada.
O trigo virava pão; a cevada, cerveja. A quantidade passava do que uma família comia, e a sobra funcionava como dinheiro. Com grão se pagava o carpinteiro, o sapato, o burro alugado e a cama feita pelo vizinho. Havia ainda entregas extras de peixe, óleo, sal e, em festas, carne.
A semana tinha 10 dias: 8 no canteiro e 2 de folga. A turma dormia em cabanas no alto da colina durante os dias de trabalho e voltava à vila no descanso. Dividia-se em dois lados, o direito e o esquerdo, como a tripulação de um barco, cada um com o seu capataz.
Numa vila sem campo e sem rio, o saco de grãos de cada mês era o único anteparo entre a turma e a fome.
O escriba da equipe anotava tudo: quantos pavios de lamparina cada turno gastou, que ferramentas de cobre saíram do depósito, quanto pesavam na volta. Cobre desgastado rendia pesagem de novo, para ninguém levar metal para casa. A lista de faltas era uma peça dessa contabilidade inteira.
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