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O antropólogo chileno Bernardo Arriaza, da Universidade de Tarapacá, em Arica, passou décadas estudando os corpos e organizou a técnica em fases. A mais antiga e mais trabalhosa é a das múmias pretas, feitas mais ou menos entre 5000 e 3000 antes de Cristo.
Na múmia preta, o corpo era desmontado por inteiro. A cabeça saía do tronco, a pele era tirada como uma luva, a carne e os órgãos eram raspados. Os ossos secavam no calor, às vezes com brasa, e voltavam ao lugar presos por varas e amarrados com corda de junco.
Depois vinha a modelagem. Uma pasta de cinza, argila e água cobria o esqueleto e refazia o volume do corpo: peito, coxa, panturrilha. A pele voltava por cima, em pedaços, e o artesão pintava tudo com manganês, um mineral escuro moído e misturado a água.
Preto, vermelho e lama
Por volta de 2500 antes de Cristo, a técnica mudou. Nas múmias vermelhas, o corpo não era mais desmontado. Os preparadores faziam cortes no ombro, na virilha e no abdome, tiravam os órgãos por eles e enfiavam varas por dentro da pele, sem tirar o esqueleto do lugar.
A cabeça ganhava uma peruca de cabelo humano, de até meio metro de comprimento, presa por um chapéu de argila. O corpo recebia ocre vermelho, e o rosto, uma máscara preta.
Na última fase, os corpos já não eram abertos. Recebiam uma camada grossa de lama misturada com areia, como uma casca, e iam para a cova assim.
Na costa dos Chinchorro, todo morto recebia o mesmo trabalho.
Os pequenos
Os cemitérios mostram homens, mulheres, velhos, crianças e fetos tratados com o mesmo método. Nenhum corpo tem joia ou objeto que o separe dos vizinhos. Para os arqueólogos, é sinal de um grupo sem chefe nem nobreza.
Arriaza propôs uma explicação para tanta criança. A água dos rios de Camarones e Lluta tem arsênico, um veneno natural vindo das rochas dos Andes, que provoca aborto e perda de bebês. As famílias da costa enterravam muitos filhos pequenos, e o cuidado com o corpo deles pode ter nascido do luto. A hipótese é dele e segue em debate: ninguém prova o motivo de um povo sem escrita.
O espelho
Os Chinchorro desmentem a ideia de que só a lavoura dá tempo e sossego para um ofício complexo. Um mar farto fixou os pescadores na costa, e o tempo livre foi para os mortos.
Muitas múmias mostram camadas de tinta sobre tinta. Para Arriaza, os corpos podem ter ficado à vista por um tempo, repintados como estátuas, antes de ir para a cova.
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Em 2004, operários abriam o terreno de uma casa na rua Colón, número 10, no centro de Arica, quando bateram em corpos pintados. Era um cemitério Chinchorro inteiro, a poucos palmos do chão da cidade.
A Universidade de Tarapacá assumiu a escavação e deixou os corpos onde estavam. O terreno virou o Museu de Sítio Colón 10: o visitante anda sobre um piso de vidro e vê, logo abaixo dos pés, as múmias deitadas na areia em que foram enterradas.
A maior coleção fica no Museu Arqueológico San Miguel de Azapa, também da universidade, num vale a poucos quilômetros do centro. Ali estão as múmias pretas e vermelhas mais conhecidas, com máscara, peruca e varas à mostra.
O patrimônio
Em julho de 2021, a Unesco inscreveu os sítios de Arica e de Camarones na lista do Patrimônio Mundial, com o nome de Assentamento e Mumificação Artificial da Cultura Chinchorro. Foi o primeiro registro do Chile dedicado à pré-história.
O título trouxe verba e também um aviso. O microbiólogo Ralph Mitchell, da Universidade Harvard, analisou em 2015, a pedido de Arica, a pele de múmias guardadas no museu de Azapa. Achou bactérias comuns do ambiente comendo o couro, ativadas pela umidade maior do ar da cidade. Algumas peles ficaram pretas e moles, como gelatina.
O ar seco guardou os corpos por sete mil anos, e a umidade nova ameaça desfazê-los.
O que não se sabe
Não se sabe por que os Chinchorro começaram a preparar os mortos, nem por que pararam. A hipótese do arsênico explica o cuidado com as crianças, mas não a escolha da técnica.
O fim coincide com a chegada da lavoura e da cerâmica, vindas do altiplano, por volta de 1500 antes de Cristo. A partir daí, os mortos da costa voltaram a ser enterrados sem preparo, enrolados em tecido. Não há sinal de guerra nem de fuga: a oficina simplesmente sai dos cemitérios.
Também falta saber quanto tempo um corpo ficava à vista antes da cova, e quem fazia o trabalho. Nenhuma ferramenta encontrada até hoje prova um ofício de preparador separado dos pescadores.
As fontes
Para conferir: o livro de Bernardo Arriaza, Beyond Death: The Chinchorro Mummies of Ancient Chile (Além da morte: as múmias Chinchorro do Chile antigo), publicado pela Smithsonian Institution Press em 1995, e o dossiê de candidatura que o Chile entregou à Unesco em 2021.
A 18 graus sul, na foz de Camarones, a arrebentação da corrente de Humboldt segue batendo nos mesmos barrancos de areia. A poucos quilômetros dali, sob um piso de vidro na rua Colón, as múmias pretas esperam com a máscara de argila virada para cima, sete mil anos depois da primeira oficina.
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