In partnership with

Civilizações Perdidas   Civilizações Perdidas
ED 162
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

Chinchorro, as múmias 2.000 anos mais antigas que as do Egito

No deserto do Atacama, pescadores sem lavoura desmontavam e remontavam os mortos com varas, argila e pele de leão-marinho

Múmia Chinchorro pintada de preto com máscara de argila

Vale de Camarones, deserto do Atacama

▼

A LINHA DO TEMPO

c. 7000 a.C., primeiras múmias naturais → c. 5000 a.C., primeiras múmias preparadas → c. 2500 a.C., fase das múmias vermelhas → 1917, Max Uhle escava em Arica → 2021, a Unesco declara patrimônio

A 18 graus de latitude sul, na foz do vale de Camarones, o deserto do Atacama encosta no oceano Pacífico. Dos barrancos de areia se via a arrebentação gelada da corrente de Humboldt e, atrás, morro seco até a cordilheira, sem uma árvore no caminho.

Ali quase não chove. O ar seco e o sal da areia guardam o que se enterra: couro, cabelo, fibra de junco, osso. Um corpo deixado no chão desse deserto seca antes de apodrecer.

Por volta de 5000 antes de Cristo, os pescadores dessa costa passaram a fazer com os próprios mortos um trabalho de oficina. Não plantavam nada e não tinham cerâmica. Viviam do mar: peixe, marisco, ave e leão-marinho caçado nas pedras.

Quando alguém morria, eles abriam o corpo, tiravam a pele e a carne e deixavam o esqueleto limpo. Amarravam varas de madeira ao longo da coluna, dos braços e das pernas, enchiam o tronco de palha, junco e cinza e cobriam os ossos com uma camada de argila.

Por cima recolocavam a pele. Onde ela faltava, costuravam remendos de pele de leão-marinho. No rosto ia uma máscara de argila, com olhos e boca riscados, e na cabeça uma peruca de cabelo humano.

No fim, o corpo inteiro recebia tinta preta de manganês ou vermelha de ocre (terra rica em óxido de ferro). O resultado era uma estátua com o morto dentro.

O Egito só começaria a preparar os seus mortos uns dois mil anos depois. Os corpos do Atacama são as múmias artificiais mais antigas que se conhecem no mundo.

E o trabalho não ficava reservado a chefes. Recém-nascidos, crianças, adultos e velhos passavam pela mesma oficina. Até fetos receberam varas, argila e máscara.

Um povo sem lavoura e sem vaso de barro inventou sozinho a técnica mais trabalhosa de cuidar de um corpo que a pré-história deixou. O Estrato começa na praia de Arica, onde os primeiros desses corpos saíram da areia diante de um arqueólogo.

Continue lendo ↓

 
 
 

Quem banca a edição de hoje

Why Overseas Producers Can't Undercut Atlas Salt, Even for Free

Cities are already running short on road salt, and winter hasn't even started. Some supply bids are going unanswered, prices have nearly doubled in parts of the market, and the backup plan is two weeks away by boat. Here's why Atlas Salt (TSXV: SALT | OTCQX: SALQF) can get salt to the people who need it most, faster and cheaper than anyone shipping from overseas: 

• Three days by ship to Boston, not fourteen

• Shallow deposit that's cheaper and faster to mine

• Projected C$188M a year in free cash flow

• Export Development Canada interested in lending C$150M

• Early supply deal with top U.S. salt distributor

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

I  O Estrato

A praia de Arica e o arqueólogo alemão

O nome Chinchorro vem de uma praia. Em 1917, o arqueólogo alemão Max Uhle escavou um cemitério antigo na praia Chinchorro, na cidade chilena de Arica, e encontrou corpos pintados, com máscara de argila e peruca, enterrados de costas, lado a lado, na areia.

Uhle já tinha trabalhado no Peru e na Bolívia e conhecia as múmias dos incas, secas e enroladas em tecido. Os corpos de Arica eram outro caso: por dentro tinham varas e argila no lugar da carne. Ele descreveu os achados num estudo publicado em 1919 e deu ao povo o nome da praia.

Gente do mar

Os Chinchorro viveram ao longo de uns mil quilômetros de costa, do sul do Peru ao norte do Chile, entre a foz dos rios e o mar. Os rios curtos que descem dos Andes davam água doce e junco; o oceano dava o resto.

A corrente de Humboldt traz água fria e rica em nutriente do fundo do Pacífico, e com ela vêm cardumes de anchova e sardinha. Os pescadores faziam anzóis de concha e de espinho de cacto, arpões com ponta de osso e linhas de fibra vegetal. Caçavam leão-marinho nas pedras e aves marinhas nos penhascos.

Com o mar tão farto, não precisavam andar atrás de caça. Ficavam meses no mesmo acampamento, em cabanas de junco e pele, perto do cemitério dos seus.

Os ossos contam a rotina. Muitos crânios de homens adultos trazem exostose auditiva (um crescimento de osso dentro do canal do ouvido), lesão comum hoje em surfistas e mergulhadores de água fria. Os Chinchorro mergulhavam atrás de marisco no Pacífico gelado durante a vida inteira.

O deserto guardou o corpo, e o mar pagou o trabalho de prepará-lo.

A múmia mais velha

O deserto já mumificava antes dos pescadores. O corpo mais antigo da região, o chamado Homem de Acha, foi encontrado em 1984 perto de Arica e data de cerca de 7000 antes de Cristo. Ele secou sozinho na areia, sem preparo nenhum.

As primeiras múmias preparadas aparecem no sítio Camarones 14, na foz do vale de Camarones, por volta de 5000 antes de Cristo. A data vem do radiocarbono (método que mede o carbono 14 restante em material orgânico), aplicado à fibra, à pele e à madeira das varas.

São corpos de crianças. Os mais antigos trabalhos da oficina Chinchorro foram feitos em bebês e meninos pequenos, desmontados e remontados com o mesmo cuidado dado depois aos adultos.

 

Quem banca a edição de hoje

Silver Has Beaten Gold Before. It's Doing It Again.

From 1974 to 1987, silver more than doubled gold's returns. After 2008, it beat gold five-fold in three years. Since March 2020, silver is up 402% against gold's 186%. Our research team's free playbook explains why, and how the team would position.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 

II  O Padrão

A oficina dos mortos

O antropólogo chileno Bernardo Arriaza, da Universidade de Tarapacá, em Arica, passou décadas estudando os corpos e organizou a técnica em fases. A mais antiga e mais trabalhosa é a das múmias pretas, feitas mais ou menos entre 5000 e 3000 antes de Cristo.

Na múmia preta, o corpo era desmontado por inteiro. A cabeça saía do tronco, a pele era tirada como uma luva, a carne e os órgãos eram raspados. Os ossos secavam no calor, às vezes com brasa, e voltavam ao lugar presos por varas e amarrados com corda de junco.

Depois vinha a modelagem. Uma pasta de cinza, argila e água cobria o esqueleto e refazia o volume do corpo: peito, coxa, panturrilha. A pele voltava por cima, em pedaços, e o artesão pintava tudo com manganês, um mineral escuro moído e misturado a água.

Preto, vermelho e lama

Por volta de 2500 antes de Cristo, a técnica mudou. Nas múmias vermelhas, o corpo não era mais desmontado. Os preparadores faziam cortes no ombro, na virilha e no abdome, tiravam os órgãos por eles e enfiavam varas por dentro da pele, sem tirar o esqueleto do lugar.

A cabeça ganhava uma peruca de cabelo humano, de até meio metro de comprimento, presa por um chapéu de argila. O corpo recebia ocre vermelho, e o rosto, uma máscara preta.

Na última fase, os corpos já não eram abertos. Recebiam uma camada grossa de lama misturada com areia, como uma casca, e iam para a cova assim.

Na costa dos Chinchorro, todo morto recebia o mesmo trabalho.

Os pequenos

Os cemitérios mostram homens, mulheres, velhos, crianças e fetos tratados com o mesmo método. Nenhum corpo tem joia ou objeto que o separe dos vizinhos. Para os arqueólogos, é sinal de um grupo sem chefe nem nobreza.

Arriaza propôs uma explicação para tanta criança. A água dos rios de Camarones e Lluta tem arsênico, um veneno natural vindo das rochas dos Andes, que provoca aborto e perda de bebês. As famílias da costa enterravam muitos filhos pequenos, e o cuidado com o corpo deles pode ter nascido do luto. A hipótese é dele e segue em debate: ninguém prova o motivo de um povo sem escrita.

O espelho

Os Chinchorro desmentem a ideia de que só a lavoura dá tempo e sossego para um ofício complexo. Um mar farto fixou os pescadores na costa, e o tempo livre foi para os mortos.

Muitas múmias mostram camadas de tinta sobre tinta. Para Arriaza, os corpos podem ter ficado à vista por um tempo, repintados como estátuas, antes de ir para a cova.

III  O Arquivo

Sob o piso de uma casa em Arica

Em 2004, operários abriam o terreno de uma casa na rua Colón, número 10, no centro de Arica, quando bateram em corpos pintados. Era um cemitério Chinchorro inteiro, a poucos palmos do chão da cidade.

A Universidade de Tarapacá assumiu a escavação e deixou os corpos onde estavam. O terreno virou o Museu de Sítio Colón 10: o visitante anda sobre um piso de vidro e vê, logo abaixo dos pés, as múmias deitadas na areia em que foram enterradas.

A maior coleção fica no Museu Arqueológico San Miguel de Azapa, também da universidade, num vale a poucos quilômetros do centro. Ali estão as múmias pretas e vermelhas mais conhecidas, com máscara, peruca e varas à mostra.

O patrimônio

Em julho de 2021, a Unesco inscreveu os sítios de Arica e de Camarones na lista do Patrimônio Mundial, com o nome de Assentamento e Mumificação Artificial da Cultura Chinchorro. Foi o primeiro registro do Chile dedicado à pré-história.

O título trouxe verba e também um aviso. O microbiólogo Ralph Mitchell, da Universidade Harvard, analisou em 2015, a pedido de Arica, a pele de múmias guardadas no museu de Azapa. Achou bactérias comuns do ambiente comendo o couro, ativadas pela umidade maior do ar da cidade. Algumas peles ficaram pretas e moles, como gelatina.

O ar seco guardou os corpos por sete mil anos, e a umidade nova ameaça desfazê-los.

O que não se sabe

Não se sabe por que os Chinchorro começaram a preparar os mortos, nem por que pararam. A hipótese do arsênico explica o cuidado com as crianças, mas não a escolha da técnica.

O fim coincide com a chegada da lavoura e da cerâmica, vindas do altiplano, por volta de 1500 antes de Cristo. A partir daí, os mortos da costa voltaram a ser enterrados sem preparo, enrolados em tecido. Não há sinal de guerra nem de fuga: a oficina simplesmente sai dos cemitérios.

Também falta saber quanto tempo um corpo ficava à vista antes da cova, e quem fazia o trabalho. Nenhuma ferramenta encontrada até hoje prova um ofício de preparador separado dos pescadores.

As fontes

Para conferir: o livro de Bernardo Arriaza, Beyond Death: The Chinchorro Mummies of Ancient Chile (Além da morte: as múmias Chinchorro do Chile antigo), publicado pela Smithsonian Institution Press em 1995, e o dossiê de candidatura que o Chile entregou à Unesco em 2021.

A 18 graus sul, na foz de Camarones, a arrebentação da corrente de Humboldt segue batendo nos mesmos barrancos de areia. A poucos quilômetros dali, sob um piso de vidro na rua Colón, as múmias pretas esperam com a máscara de argila virada para cima, sete mil anos depois da primeira oficina.

 
 
Quiz da edição

Na fase das múmias vermelhas da cultura Chinchorro, a partir de cerca de 2500 a.C., como os preparadores retiravam os órgãos do morto?

AAbriam o corpo por inteiro, tiravam a cabeça do tronco e raspavam a carne, como na fase das múmias pretas
BDeixavam o corpo secar ao sol até os órgãos se desidratarem, sem nenhum corte
CFaziam cortes no ombro, na virilha e no abdome e tiravam os órgãos por eles, sem desmontar o esqueleto
DAbriam uma única incisão no abdome e extraíam os órgãos com ganchos de osso de leão-marinho

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Você pediu, mudou

Você fez a diferença

4,7de 5

15 avaliações · 10 leitores · 17 a 30/10

A escolha da semana

A urna de 29/10 escolheu Reino de Balhae. Saiu em 30/10, na ed. 161.

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🗿🗿🗿🗿🗿  ótima 🗿🗿🗿🗿  boa 🗿🗿🗿  ok 🗿🗿  ruim 🗿  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 31/10, 15h30

A Reino do Bósforo →
B Albânia Caucasiana →
C Vidro de Ifé →
D Mahilaka →
 
 
Recomendação de Newsletter
Advogado Atualizado

Advogado Atualizado

A decisão que muda a sua prática, a ferramenta que economiza hora e a pauta da semana, em cinco minutos. No seu email todo dia às 07:07.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →

{{vip_linha | }}

 
Clímax da temporada

Maratona dos 7 dias finais

◆◆◆◆◆◆31

Dia 7 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

{{maratona_dias | 0}}
dias feitos
{{maratona_faltam | 6}}
pra fechar

Presença por clique, voto ou quiz. Sem folga na maratona: o seguro do mês cobre 1 dia.

Acompanhar minha ofensiva →

 

O passado fala. Sic transit gloria mundi.

CIVILIZAÇÕES PERDIDAS

Toda civilização já foi o futuro. Até deixar de ser

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter
📚 Leia o acervo completo