|
|
Butuan mandou embaixada própria à China para vender ouro direto
No delta do Agusan, em Mindanao, um porto fluvial tirou o intermediário do negócio de ouro com a corte Song e depois perdeu o lugar na lista.
|
Casco costurado no barro do delta do Agusan
|
| ▼ |
|
A LINHA DO TEMPO
c. 320 d.C., data mais antiga de um dos barcos de tábua costurada escavados em Libertad → séculos VII a X, o delta do Agusan vira ponto de concentração de ouro trabalhado e de cerâmica importada → 1001, a primeira embaixada de Butuan chega à corte Song e pede o mesmo tratamento dado a Champa → 1003, uma segunda missão volta a Kaifeng com presentes de ouro e cânfora → século XII, a rota marítima do sul da China se reorganiza em torno de outros portos do arquipélago → século XIII, Butuan deixa de aparecer nas listas de tributo chinesas → 1521, a expedição de Fernão de Magalhães ancora na região sem registrar cidade portuária de porte → 1976, a escavação de Libertad expõe o primeiro casco costurado → 1981, o governo filipino declara os barcos de Butuan tesouro nacional → 2019, o Museu Nacional das Filipinas abre a galeria permanente do ouro pré colonial.
|
|
No delta do rio Agusan, em Mindanao, um porto fluvial embarcava ouro para a China sem nunca ter falado com a corte chinesa.
Em 1001, ele cansou de pagar pedágio a quem ficava no meio do negócio.
A 8 graus de latitude norte, no nordeste de Mindanao, o rio Agusan chega ao mar por um delta que fica cerca de cinco metros acima do nível da maré. O terreno é baixo, alagadiço, e o canal principal muda de curso com a cheia. De dentro de uma canoa se via manguezal em todas as direções e, ao fundo, as primeiras cordilheiras de onde descia a água que trazia ouro de aluvião. Nenhuma muralha, nenhuma acrópole, nenhum templo de pedra: o porto era o próprio rio.
Ali funcionou, por cerca de mil anos, um entreposto que a arqueologia filipina chama de Butuan. O sinal mais concreto dele não está em ruína de prédio, está no solo encharcado do bairro de Libertad, onde cascos de madeira apareceram inteiros porque a água os manteve sem oxigênio. Outro sinal está em vitrine: braceletes, cintos e adornos de ouro trabalhado, em quantidade que não se explica por consumo local de aldeia de pescador.
O negócio desse porto tinha um comprador que pagava bem e ficava longe. A China da dinastia Song consumia ouro, cânfora e produto de floresta do arquipélago, e comprava quase tudo por intermédio de Champa, o conjunto de principados da costa do atual Vietnã central, que concentrava o tráfego do mar do sul e cobrava pela posição. Vender para Champa era simples e rendia menos; vender direto em Kaifeng rendia mais e exigia uma coisa que porto nenhum do arquipélago tinha feito até então.
Em 1001, uma embaixada de Butuan desembarcou na corte Song com presentes e um pedido explícito de ser tratada em pé de igualdade com Champa. O pedido está registrado na história oficial da dinastia, e a resposta também.
Vale reconstruir que tipo de lugar era esse delta, o que ele produzia e como conseguiu construir barco capaz de atravessar o mar do sul da China.
Continue lendo ↓
|
|
I O Estrato
Cascos costurados no barro de Libertad
|
|
O nome do lugar é Butuan, e o primeiro fato verificável sobre ele não é uma data política, é um barco. Em 1976, moradores do bairro de Libertad, hoje dentro da cidade de Butuan, encontraram madeira enterrada enquanto cavavam areia para construção. A escavação que se seguiu, conduzida pelo Museu Nacional das Filipinas, expôs uma série de cascos de tábua, nove deles identificados, em solo permanentemente alagado. O registro de datação por radiocarbono divulgado pelo próprio museu coloca o exemplar mais antigo por volta de 320 d.C. e os mais recentes no século XIII.
A técnica de construção explica a sobrevivência e também o alcance. Esses barcos, chamados balangay na língua local, termo que significa embarcação e que é a mesma raiz do barangay, a unidade de vizinhança do governo filipino até hoje, eram feitos de tábuas unidas lado a lado por cavilhas de madeira e amarradas com fibra vegetal passada por orelhas esculpidas na face interna da prancha. Não havia prego de metal, não havia caverna serrada em peça única. O casco trabalhava com o mar em vez de resistir a ele.
A consequência prática é um navio leve, de fundo raso, que entra em delta e encosta em praia sem cais, e ao mesmo tempo aguenta travessia de oceano aberto. O maior dos cascos de Libertad passa de quinze metros de comprimento. Com carga de ouro e de produto de floresta, uma embarcação dessas chegava à costa da China em semanas de cabotagem por etapas.
Um porto sem muralha e sem pedra lavrada não é um porto pobre: Butuan investiu o excedente em casco, em fibra e em rota, que era o ativo que gerava caixa.
O que o delta tinha para vender vinha de dois lugares. O primeiro era a própria bacia do Agusan, que carrega ouro de aluvião das cordilheiras de Mindanao e permite lavagem em leito de rio, sem mina de galeria. O segundo era a floresta em volta, fonte de cânfora, resina, cera e pena, mercadoria leve e de alto valor por quilo, a carga ideal para navio pequeno.
O ouro trabalhado do nordeste de Mindanao e das ilhas vizinhas está no acervo do Museu Nacional das Filipinas, que desde 2019 mantém uma galeria permanente dedicada a ele. Há cordão de malha fina, cinto de elo articulado, adorno de orelha e máscara funerária de folha. A metalurgia exige fundidor, batedor e ourives de ofício, gente em tempo integral, o que só se sustenta onde a troca é constante.
As escavações do delta devolvem também cerâmica chinesa, vidro do Oriente Médio e conta de pedra da Índia, em camada da mesma época dos barcos. O conjunto indica um ponto de parada onde cargas mudavam de dono, não um povoado que comprava alguma peça de vez em quando.
| |