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Balhae, o reino guardado nos arquivos dos vizinhos

Na Manchúria, um reino mandou mais de trinta embaixadas ao Japão e sumiu quando os khitan esvaziaram a capital em 926

Bases de pedra dos palácios de Shangjing, capital de Balhae

Shangjing, vale do rio Mudan, Manchúria

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A LINHA DO TEMPO

698, Dae Jo-yeong funda o reino → 727, primeira embaixada ao Japão → 756, corte se muda para Shangjing → 919, última embaixada registrada → 926, os khitan tomam a capital

A 44 graus de latitude norte, a uns 350 metros de altitude, o rio Mudan corta uma planície de basalto negro no nordeste da China. Da muralha que cercava a cidade ali, com cerca de 16 quilômetros de perímetro, se via o vale inteiro e, ao sul, as águas do lago Jingpo, represado por lava antiga.

Ali ficava Shangjing, a Capital Superior do Reino de Balhae. As ruas seguiam uma grade copiada de Chang'an, a capital chinesa da dinastia Tang: uma avenida central larga, quarteirões quadrados, o palácio no extremo norte. Os telhados usavam telha vitrificada verde, fabricada em fornos da própria região.

Por pouco mais de dois séculos, o reino ocupou a Manchúria, o norte da Coreia e parte do litoral russo do Pacífico. Os cronistas Tang chamavam o lugar de Haedong Seongguk, o país próspero a leste do mar.

Desse vale saíam as embaixadas para o Japão. Entre 727 e 919, os registros japoneses anotam mais de trinta missões de Balhae, que desciam até o porto e atravessavam o mar do Japão com peles de zibelina, mel e ginseng. Voltavam com seda, algodão e ouro.

No começo de 926, a cavalaria khitan, um povo das estepes a oeste, cercou a cidade de Holhan, a capital do momento. O último rei, Dae In-seon, se rendeu em poucos dias. O chefe khitan Yelü Abaoji rebatizou o território de Dongdan, o reino dos Dan do leste, e pôs o filho no trono.

Dois anos depois, a corte khitan mandou a população de Balhae atravessar para o oeste, rumo à região de Liaoyang. A capital do vale do Mudan ficou vazia, e o fogo destruiu os palácios.

Nenhum livro escrito em Balhae sobreviveu. O que se sabe vem de quem recebia as cartas: as histórias oficiais chinesas e as crônicas da corte japonesa.

O Estrato começa trinta anos antes da primeira muralha, numa fuga de refugiados pelo rio Liao.

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I  O Estrato

Os refugiados que viraram reino

Em 668, o reino coreano de Goguryeo caiu diante de uma aliança entre a China Tang e o reino de Silla. Os Tang deportaram milhares de famílias de Goguryeo para a região de Yingzhou, no oeste da Manchúria, ao lado de tribos mohe e khitan.

Em 696, os khitan se revoltaram contra o governador Tang de Yingzhou. Na confusão, um grupo de famílias de Goguryeo e de mohe fugiu para o leste, liderado por Geol Geol-jung-sang e pelo filho dele, Dae Jo-yeong.

A fuga para o leste

Os Tang mandaram tropas atrás deles. Em 698, Dae Jo-yeong venceu o exército perseguidor na batalha de Tianmenling e seguiu até o monte Dongmou, perto da atual Dunhua, na província de Jilin. Ali ergueu uma fortaleza e se declarou rei de Jin.

Quinze anos depois, em 713, a corte Tang mudou de tática: deu a Dae Jo-yeong o título de rei de Bohai, nome de uma província chinesa no golfo de Bohai. O título de vassalo pegou, e o reino passou a usar o nome. Em coreano, a mesma escrita se lê Balhae.

Um reino de refugiados recebeu o nome de quem os perseguia.

Cinco capitais

O reino cresceu para o norte e para o leste. No reinado de Mun, entre 737 e 793, Balhae chegou ao auge. A corte copiou a administração Tang: três departamentos, seis ministérios e uma rede de cinco capitais regionais.

Por volta de 756, Mun levou a corte para Shangjing, no vale do Mudan. A capital mudou duas vezes nas décadas seguintes e voltou para lá em 794, onde ficou até o fim do reino.

A elite falava a língua de Goguryeo e escrevia em chinês clássico. Boa parte da população era mohe, gente das florestas e dos rios do norte, ligada aos ancestrais dos jurchen.

Nas cartas enviadas ao Japão, os reis de Balhae se apresentavam como herdeiros de Goguryeo. Em 759, um documento da corte japonesa chama o rei de Balhae de rei de Goryeo, o nome curto de Goguryeo.

As tumbas das princesas

Duas tumbas do século VIII mostram a elite por dentro. A da princesa Jeonghye, segunda filha do rei Mun, foi enterrada em 780 perto de Dunhua. A da princesa Jeonghyo, a quarta filha, foi enterrada em 792 perto de Helong, com pinturas de guardas, músicos e criados nas paredes. As duas lápides trazem epitáfios em chinês clássico, escritos no estilo dos Tang.

 

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II  O Padrão

Trinta e quatro viagens pelo mar do Japão

A primeira embaixada de Balhae ao Japão partiu em 727, com 24 homens sob o comando de Go In-ui. O vento empurrou o navio para o norte, até a região de Dewa, no litoral de Honshu. Os emishi, povo local fora do domínio da corte japonesa, atacaram o grupo. Oito sobreviventes chegaram à capital, Heijō-kyō.

Levavam uma carta do rei Mu e trezentas peles de zibelina. A corte japonesa recebeu os enviados com banquete e devolveu seda, linho e fios de algodão.

A rota

Os navios saíam de portos perto da atual Posyet, no litoral russo, e cruzavam o mar no outono, com o vento de noroeste. Chegavam ao litoral de Noto, Kaga ou Echizen. Voltavam na primavera, com o vento contrário.

A travessia levava semanas, e muitos navios se perderam. Os registros japoneses anotam desvios, naufrágios e enviados que esperaram meses na costa até a corte autorizar a viagem para a capital.

O caminho também servia ao Japão. A corte japonesa mandou cerca de treze missões a Balhae, e algumas usaram o reino como passagem para chegar à China Tang por terra, quando a rota marítima direta parecia arriscada demais.

O comércio na carta

As primeiras missões tinham objetivo militar: Balhae disputava fronteira com Silla e com os Tang. Depois de 762, as cartas mudaram de tom, e as missões viraram comércio.

As embaixadas cresceram. Em 771, uma frota de Balhae chegou ao Japão com 325 pessoas em 17 navios. A corte japonesa passou a reclamar do custo de hospedar tanta gente e, em 824, limitou as visitas a uma a cada doze anos. Balhae não respeitou o prazo.

A última embaixada registrada chegou em 919, chefiada por Bae Gu, que já tinha liderado outra em 908. Sete anos depois, o reino não existia mais, e os navios pararam de vir.

O Japão pagava a hospedagem e Balhae lucrava com a viagem.

Poemas no porto

A troca não ficou só nas peles. Em 814, o enviado Wang Hyo-ryeom trocou poemas em chinês com a corte de Saga, e versos dele entraram no Bunka shūreishū, antologia japonesa compilada em 818.

O padrão volta em toda relação desigual de longa distância: quem viaja leva a mercadoria e a versão da própria história, mas o registro fica com quem recebe. No Japão, cada visita virou linha de crônica. Em Balhae, ninguém guardou a cópia.

III  O Arquivo

O reino escrito pelos outros

O que se sabe de Balhae vem quase todo de duas prateleiras. A chinesa traz o capítulo sobre Bohai no Xin Tangshu (Nova História dos Tang), concluído em 1060, que lista as capitais, os reis e as províncias. A japonesa traz as crônicas oficiais da corte, como o Shoku Nihongi, de 797, que registram dia a dia as chegadas dos enviados.

Os coreanos de Goryeo, reino que nasceu no sul da península em 918, receberam refugiados de Balhae depois de 926, inclusive um príncipe herdeiro, Dae Gwang-hyeon. Mas não escreveram a história do vizinho.

A queixa de 1784

Oito séculos depois, o historiador coreano Yu Deuk-gong cobrou a lacuna. No prefácio de Balhaego (Estudo sobre Balhae), de 1784, escreveu: “Goryeo não compilou a história de Balhae, e por aí se vê que Goryeo não teve força.” Foi ele quem cunhou a expressão Estados do Sul e do Norte, para Silla e Balhae.

A memória de um reino ficou com quem não precisava dela.

O que a terra devolveu

A arqueologia preencheu parte da lacuna. Em Shangjing, escavações chinesas expuseram as bases de pedra dos palácios, a avenida central e a muralha externa. Uma lanterna de pedra de mais de seis metros, esculpida em basalto, segue de pé no terreno de um templo budista.

No Japão, escavações em Heijō-kyō acharam plaquetas de madeira com anotações sobre missões ligadas a Balhae no século VIII.

O que não se sabe

Não se sabe quantas pessoas viviam no reino, nem quantas a corte khitan deportou. Não há certeza sobre a língua falada pelos mohe, nem sobre o peso deles no poder. A data exata da queda de Shangjing como cidade habitada também falta: as fontes khitan citam a deportação de 928, sem descrever a capital.

As fontes

Para conferir: o capítulo sobre Bohai no Xin Tangshu e o Shoku Nihongi, nas edições comentadas. Para o debate moderno, o Balhaego, de Yu Deuk-gong, e os estudos do historiador Song Ki-ho, da Universidade Nacional de Seul.

A 44 graus norte, no vale do Mudan, a lanterna de basalto de seis metros segue de pé no meio da planície. Em volta dela, as bases de pedra dos palácios de Shangjing, e no Japão, nas crônicas da corte, mais de trinta datas de chegada dos navios que saíram dali.

 
 
Quiz da edição

No início de 926, que povo das estepes cercou a capital de Balhae e forçou a rendição do último rei, Dae In-seon?

AOs mohe, povo das florestas aliado aos ancestrais dos jurchen
BO reino de Silla, antigo rival na fronteira coreana
COs khitan, povo das estepes liderado por Yelü Abaoji
DOs jurchen, que viriam a dominar a Manchúria séculos depois

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