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Atil, a capital dos cazares sumiu no delta do Volga

Uma elite convertida ao judaísmo governou o baixo Volga por três séculos; depois de 965, ninguém achou a capital

Delta do Volga com juncos e braços de rio, onde ficava Atil

Delta do Volga, capital cazar de Atil, século X

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A LINHA DO TEMPO

cerca de 650, surge o reino cazar → 737, o exército árabe chega ao Volga → cerca de 838, moedas cazares citam Moisés → cerca de 960, o rei José responde ao vizir de Córdoba → 965, Sviatoslav de Kiev derrota os cazares → 1577, a carta sai impressa

A 28 metros abaixo do nível do mar, no delta do Volga, o rio se abre em centenas de braços antes de entrar no mar Cáspio. Do alto de um barranco de areia se veem juncos de três metros, ilhas baixas e água parada até o horizonte.

Nessa planície alagada, perto da atual Astracã, no sul da Rússia, ficava Atil, a capital do Reino Cazar. Os geógrafos árabes do século X a descreveram com cuidado: duas metades, uma em cada margem do rio, ligadas por barcos.

Na margem oeste morava o rei, num palácio de tijolo cozido. Segundo o geógrafo persa al-Istakhri, era o único prédio de tijolo da cidade. O resto eram tendas de feltro e casas de madeira e barro.

Na margem leste ficavam os mercadores. Muçulmanos, cristãos, judeus e pagãos tinham juízes próprios, e a cidade tinha mesquitas, mercados e banhos públicos.

Os cazares eram um povo de língua túrquica vindo das estepes da Ásia Central. Entre os séculos VII e X, cobraram imposto sobre o comércio que subia e descia o Volga: peles do norte, prata do califado, cera, mel e escravos. Al-Istakhri registra a taxa de um décimo sobre a mercadoria que passava.

A elite desse reino tinha uma marca sem par na Idade Média. O rei e parte da nobreza se converteram ao judaísmo, com um império cristão a oeste e um califado muçulmano ao sul.

Por volta de 960, o rei cazar José respondeu a uma carta vinda de Córdoba, a mais de 4.000 quilômetros, e contou ao ministro judeu do califa como os antepassados dele trocaram de fé.

Em 965, o príncipe Sviatoslav, de Kiev, desceu com o exército e derrotou os cazares. Poucos anos depois, a capital estava arrasada. Nenhuma escavação localizou Atil com certeza até hoje.

O Estrato conta como um povo das estepes chegou a mandar no baixo Volga, e por que o rei escolheu a fé de Moisés.

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I  O Estrato

A fé escolhida entre dois impérios

Os cazares aparecem nas fontes por volta de 650, quando o grande império turco das estepes ocidentais se partiu. Um clã ficou com o norte do Cáucaso e com a curva baixa do Volga, entre o mar Negro e o Cáspio.

O reino nasceu em guerra. Por quase um século, os exércitos árabes e os cavaleiros cazares trocaram ataques pelas passagens do Cáucaso. Em 737, o general Marwan ibn Muhammad atravessou as montanhas, chegou ao Volga e obrigou o soberano cazar a aceitar o islã. A conversão não durou: o exército árabe voltou para o sul e o soberano voltou à fé antiga.

Com Bizâncio, a relação foi de aliança. O imperador Constantino V casou com uma princesa cazar, batizada Irene, e o filho dos dois governou Constantinopla de 775 a 780 com o apelido de Leão, o Cazar.

O rei Bulan e os três sábios

A versão cazar da conversão está na carta do rei José. Ele conta que um antepassado, o rei Bulan, chamou à corte um sacerdote cristão, um sábio muçulmano e um rabino, e mandou cada um defender a própria fé.

Depois do debate, Bulan perguntou ao cristão qual era a melhor entre as outras duas, e o cristão escolheu a lei dos judeus. Fez a mesma pergunta ao muçulmano, e a resposta foi igual.

Os dois rivais apontaram a mesma fé como a segunda melhor, e Bulan ficou com ela.

José acrescenta um segundo passo. Um rei posterior, Obadias, trouxe sábios judeus de fora, abriu sinagogas e escolas e organizou o culto pela Bíblia, pela Mishná e pelo Talmude.

Moisés na moeda

A data da conversão é discutida. Uma pista veio do chão em 1999: no tesouro de Spillings, na ilha sueca de Gotland, apareceram moedas de prata cunhadas pelos cazares por volta de 838, com a inscrição em árabe “Moisés é o mensageiro de Deus”.

A frase copia a fórmula das moedas islâmicas e troca o nome do profeta. Para os numismatas, é o sinal mais antigo de uma corte cazar judaica.

O reino tinha dois soberanos. O kagan, figura sagrada, quase não aparecia em público. O governo diário cabia a um segundo rei, chamado bek pelos árabes, que comandava o exército e cobrava os impostos.

A fé nova ficou no alto. O viajante árabe Ibn Fadlan, que passou pelo Volga em 922, e os geógrafos do século X descrevem uma Atil com maioria de muçulmanos e pagãos, sob uma corte judaica.

 

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II  O Padrão

O pedágio que segurava a cidade

Atil pertence a uma família de capitais: cidades de rio ou de estepe, erguidas para cobrar pedágio de uma rota de comércio, com uma corte forte e casas de material leve.

No mesmo baixo Volga, os mongóis da Horda de Ouro ergueram Sarai no século XIII. A cidade chegou a dezenas de milhares de moradores e foi arrasada por Tamerlão em 1395. Hoje é um campo de montículos perto da aldeia de Selitrennoye.

Na Mongólia, Karakorum foi a capital de Gengis Khan e dos filhos dele. Perdeu a corte para Pequim no fim do século XIII, e o local só foi reconhecido de novo em 1889, pelo explorador russo Nikolai Yadrintsev.

Como some uma capital de pedágio

As três seguem o mesmo roteiro:

1. A riqueza vem da rota, cobrada em décimos sobre o que passa pelo rio ou pela estrada.

2. A corte mora em tendas ou em casas de madeira, e só o palácio leva tijolo ou pedra.

3. A população é de mercadores de fora, que seguem a mercadoria e não a cidade.

4. Quando um exército corta a rota, os mercadores mudam de caminho e a capital fica sem razão de existir.

O caso cazar seguiu o roteiro ao pé da letra. No século X, a prata do califado chegava ao norte cada vez mais pelo caminho dos búlgaros do Volga, rio acima, e os Rus de Kiev queriam o comércio sem o pedágio de Atil.

A campanha de Sviatoslav

A Crônica Primária, compilada em Kiev no começo do século XII, registra a campanha em uma linha para o ano de 965:

“Sviatoslav marchou contra os cazares; derrotou-os e tomou a cidade deles, Bela Veja.”

Crônica Primária, compilação de Kiev, cerca de 1113.

Bela Veja era Sarkel, a fortaleza cazar de tijolo no rio Don, construída com ajuda de engenheiros bizantinos por volta de 840. O geógrafo Ibn Hawqal, que escrevia na mesma época, conta que os Rus saquearam Atil e Samandar e não deixaram nem uva nem passa.

Atil vivia do pedágio; sem a rota, a cidade de feltro não tinha o que reerguer.

Depois da campanha, o nome dos cazares aparece por algumas décadas em fontes esparsas, e some. O comércio do Volga passou a correr por Bulgar, rio acima, e por Kiev, a oeste.

A cidade que cobra passagem dura o tempo da passagem. Os portos de escala de hoje vivem da mesma conta, e perdem navios quando um canal novo encurta a viagem.

III  O Arquivo

As cartas entre Córdoba e o Volga

Quase tudo o que os cazares disseram sobre si mesmos cabe numa troca de cartas. Do outro lado da Europa, em Córdoba, o médico e ministro judeu Hasdai ibn Shaprut servia ao califa Abd al-Rahman III.

Hasdai ouviu de mercadores do Khorasan que existia, no leste, um reino governado por um rei judeu. Escreveu em hebraico ao rei, perguntou pelo tamanho do reino, pela linhagem do soberano e pela conversão, e despachou a carta por intermediários judeus da Europa central.

A resposta do rei José

A resposta veio assinada pelo rei José. Ele descreve as fronteiras, o rio, as estações em que a corte deixa a cidade para acampar nos campos, e a história de Bulan. Num trecho, explica o papel do reino na guerra entre os vizinhos:

“Eu guardo a foz do rio e não deixo os Rus, que vêm nos navios, passar contra os árabes.”

Rei José, carta a Hasdai ibn Shaprut, cerca de 960.

A autenticidade das cartas foi discutida por séculos. Dois achados da Guenizá do Cairo, o depósito de papéis velhos de uma sinagoga, reforçaram o relato: o Documento de Cambridge, publicado por Solomon Schechter em 1912, e a Carta de Kiev, publicada por Norman Golb e Omeljan Pritsak em 1982, no livro Khazarian Hebrew Documents of the Tenth Century.

A resposta do rei José ficou séculos guardada em cópias manuscritas, até sair num livreto impresso. Antes disso, em cerca de 1140, o poeta Judá Halevi já tinha usado a conversão de Bulan como moldura do Kuzari, diálogo em defesa do judaísmo lido até hoje.

A capital debaixo da areia

A busca por Atil passou por vários lugares do delta. O historiador Lev Gumilev defendeu que a subida do Cáspio, entre os séculos X e XIII, afogou a cidade. Sarkel, a fortaleza do Don, foi escavada por Mikhail Artamonov e ficou submersa em 1952 sob a represa de Tsimlyansk.

Desde os anos 2000, a equipe do arqueólogo Dmitry Vasilyev escava a aldeia de Samosdelka, num braço do delta. Ali apareceram muros de tijolo cozido, cerâmica cazar e camadas de ocupação dos séculos IX e X. Nenhuma inscrição confirma o nome.

A 28 metros abaixo do nível do mar, os juncos do delta cobrem os mesmos braços de rio, e em Samosdelka o tijolo cozido sai da areia sem nome, como o do único palácio de tijolo que al-Istakhri viu em Atil.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que cidade e em que ano a resposta do rei José a Hasdai saiu impressa pela primeira vez?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano o príncipe Sviatoslav de Kiev derrotou o exército cazar, abrindo caminho pro fim de Atil?

A737
B965
C838
D1577

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