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ED 121

As senhoras de Huarmey ficaram sob trinta toneladas de pedra

Sob o entulho que os saqueadores ignoraram, 58 mulheres da elite wari foram enterradas com fusos de ouro e mais de mil peças de metal.

As senhoras de Huarmey ficaram sob trinta toneladas de pedra

Câmara funerária wari de El Castillo

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A LINHA DO TEMPO

século VII da era cristã, os wari firmam o domínio a partir de Huari, perto de Ayacucho → por volta de 800, ergue-se e sela-se a câmara funerária de El Castillo de Huarmey, com 58 corpos e mais de mil peças → século X, o poder wari se encolhe e o sítio deixa de receber cerimônia → começo do século XX, saqueadores passam a revirar as terraças altas do morro e deixam a encosta coberta de buracos → 2010, Miłosz Giersz nota em fotografia aérea o traçado de muros sob o entulho → 2012, a missão de Miłosz Giersz e Roberto Pimentel Nita atravessa o cascalho e encontra a câmara lacrada → 2013, o achado é anunciado como o primeiro túmulo real wari não saqueado → 2014, as peças entram em exposição no Museu de Arte de Lima → 2017, Giersz publica o volume com o estudo do sítio

A 290 quilômetros ao norte de Lima, um paredão de granito guarda uma câmara de tijolo selada por trinta toneladas de cascalho solto.

Dentro dela, 58 corpos e mais de mil peças esperaram mil e duzentos anos sem que nenhum saqueador passasse.

A 290 quilômetros ao norte de Lima, no ponto em que o rio Huarmey atravessa a última faixa de deserto antes do Pacífico, um paredão de granito de uns 35 metros se levanta sozinho sobre a planície. Do alto dele se enxerga o vale verde de um lado, a areia cinzenta do outro e, encostado na rocha, um platô artificial de tijolo de adobe que os moradores da região chamam há gerações de El Castillo, o castelo.

Durante quase um século, o lugar foi endereço de saqueador. Buracos abertos a pá cobrem a encosta, ossos humanos aparecem soltos na superfície e a cerâmica quebrada forma um tapete que estala debaixo da bota. Quem subia até lá concluía sempre o mesmo: já tinham levado tudo.

Em 2012, uma missão dirigida pelo arqueólogo polonês Miłosz Giersz, da Universidade de Varsóvia, e pelo arqueólogo peruano Roberto Pimentel Nita resolveu cavar exatamente onde ninguém cavava. Escolheram um trecho de encosta coberto por cerca de trinta toneladas de cascalho solto, material que qualquer visitante leria como entulho de obra antiga. Debaixo do cascalho apareceu uma câmara de tijolo em planta de D, lacrada, com nichos abertos nas laterais.

Dentro dela havia 58 corpos, quase todos de mulheres adultas, sentados em posição flexionada e embrulhados em fardos de tecido. Ao redor dos fardos, mais de mil objetos: brincos de ouro, tigelas de prata, machados cerimoniais de liga de cobre, um cálice lavrado em alabastro, agulhas e fusos fundidos em metal precioso. Nenhuma dessas peças tinha sido tocada desde o século IX.

Era o primeiro túmulo de gente da realeza wari encontrado inteiro, sem passagem de saqueador, desde que a arqueologia começou a estudar o estado andino que mandou nos Andes centrais quatro séculos antes dos incas.

Vale reconstruir que gente era essa na costa norte do Peru e como a câmara foi montada para não ser achada, o que os fardos e os fusos dizem sobre quem mandava lá dentro, e onde checar cada uma dessas afirmações.

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I  O Estrato

O paredão de granito acima do rio

Os wari construíram o primeiro estado de escala imperial dos Andes centrais. A capital, Huari, ficava a uns 25 quilômetros de Ayacucho, no altiplano peruano, a cerca de 2.800 metros de altitude, e o período de expansão do domínio wari vai do século VII ao século X da era cristã. Eles não deixaram escrita. O que se sabe da organização política deles chega por arquitetura, por cerâmica, por tecido e por enterro.

O vale de Huarmey fica a uns 300 quilômetros a noroeste da capital serrana, já no nível do mar, num dos vales estreitos que cortam a faixa de deserto costeiro do Peru. Ali a chuva praticamente não cai, e a água chega pelo degelo da cordilheira. O afloramento de granito de El Castillo domina o vale inteiro: quem estivesse no alto via a irrigação, os campos e o caminho para o mar, e era visto de qualquer ponto da planície.

Sobre a rocha, os construtores wari levantaram plataformas de adobe, pátios e terraças. Num degrau dessa estrutura, escavaram a câmara funerária com paredes de tijolo, teto e nichos laterais. Quando o enterro terminou, fecharam a câmara e despejaram por cima a camada de cascalho solto, pedra miúda sem argamassa, que se acomoda como entulho e afunda a pá de quem tenta cavar.

A cobertura de pedra solta funcionou como disfarce por cerca de mil e duzentos anos: gerações de saqueadores revolveram as terraças de cima do morro, onde estavam os enterros tardios, e leram a camada de cascalho como escombro sem nada embaixo.

Miłosz Giersz chegou ao ponto certo por fotografia aérea. Em 2010, examinando imagens do morro, ele notou sob o entulho o traçado tênue de muros que não batiam com o desenho conhecido do sítio. A prospecção seguinte, feita com o método geofísico de leitura do subsolo, confirmou que havia arquitetura enterrada naquela encosta, e a escavação começou no ano seguinte com financiamento do centro nacional de ciência da Polônia e da National Geographic Society.

As medições de radiocarbono feitas pela missão colocam o uso da câmara por volta de 800 da era cristã, no período em que o poder wari estava no auge na costa norte. A cerâmica encontrada junto aos fardos reforça a datação e mostra alcance: há peças de estilo da costa sul do Peru e da serra, ou seja, material que viajou centenas de quilômetros até chegar àquele vale.

Acima da câmara lacrada, a missão escavou um ambiente que continuou aberto e em uso depois do enterro, com sinais de oferenda e de circulação de gente. O mausoléu não foi feito para ser esquecido. Foi feito para ficar debaixo de um lugar onde os vivos voltavam.

 

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II  O Padrão

Cinquenta e oito mulheres e os fusos de ouro

A contagem dos corpos saiu do estudo bioarqueológico da própria missão, conduzido por Wiesław Więckowski, da Universidade de Varsóvia: 58 indivíduos, a grande maioria de mulheres adultas, dispostos em posição sentada dentro da câmara. Seis deles ocupavam nichos privativos, separados do salão comum, e receberam o conjunto mais rico de peças. Alguns corpos apareceram estendidos, sem fardo e sem oferenda, junto à entrada, posição que a equipe interpreta como acompanhamento sacrificial.

O enxoval passa de mil peças no inventário publicado pela missão: brincos e alfinetes de ouro, tigelas e taças de prata, contas de pedra verde, machados e facas cerimoniais de liga de cobre, o cálice de alabastro, vasos pintados e centenas de fragmentos têxteis conservados pelo clima seco do deserto costeiro.

No meio do enxoval apareceu a categoria que mudou a leitura do túmulo: instrumento de tecelagem. Fusos, agulhas e as lâminas estreitas que os quéchuas chamam de wichuña, a espátula de osso usada para apertar a trama no tear. Vários desses exemplares foram fundidos em ouro e em prata.

Ferramenta de fiar feita de metal precioso não fia: ouro é mole demais para segurar a torção do fio, e o achado registra o ofício como insígnia, não como utensílio de trabalho.

Para entender o peso daquele gesto, vale lembrar o lugar do tecido nos Andes. Antes da chegada europeia, o pano fino era o bem de maior valor da região, acima do metal: servia de tributo, de presente diplomático, de mortalha e de sinal de posição social. Quem controlava a produção têxtil controlava a moeda de troca política do mundo andino. Enterrar tecelãs da elite com o instrumento delas fundido em ouro é declarar que aquele trabalho sustentava a casa.

O desenho da câmara conta o resto. As seis mulheres dos nichos foram tratadas como referência do grupo, e o salão ao redor recebeu as demais em volta delas. Não apareceu nenhum ocupante masculino de destaque no meio dos fardos. O ambiente aberto que a missão escavou por cima, com resto de oferenda, indica que o culto ao ancestral continuou sobre o lacre: os vivos subiam ao morro para prestar contas a mulheres específicas, tratadas como mallqui, o ancestral que segue fazendo parte da linhagem depois de morto.

O Espelho: a leitura que sobreviveu dos wari na costa veio de quem cavou o morro atrás de metal para vender, e o retrato mudou quando alguém escavou a camada que parecia entulho. Vale perguntar qual parte do seu trabalho está guardada justamente no material que todo mundo ao redor classifica como descarte.

III  O Arquivo

Onde checar a câmara, as 58 e a data

Para o sítio e a escavação, ver Miłosz Giersz, Castillo de Huarmey, un centro del imperio wari en la costa norte del Perú, publicado em 2017 pela Universidade de Varsóvia com o Instituto Francês de Estudos Andinos, volume que reúne a planta da câmara, o inventário das peças e a discussão de cronologia.

Para o contexto da descoberta e as imagens do trabalho de campo, ver a reportagem de Miłosz Giersz e Roberto Pimentel Nita publicada pela revista National Geographic em 2014, e o catálogo Castillo de Huarmey, el mausoleo imperial wari, organizado por Miłosz Giersz e Patrycja Prządka-Giersz para a exposição do Museu de Arte de Lima no mesmo período.

Para os corpos, ver os trabalhos de Wiesław Więckowski, da Universidade de Varsóvia, responsável pela análise dos 58 indivíduos da câmara, pela estimativa de sexo e idade e pela leitura das marcas de atividade repetida nos ossos, entre elas as compatíveis com trabalho de tear.

Vale um aviso sobre a contagem. O número de 58 corpos e a proporção de mulheres saem da análise da própria missão e continuam sendo revisados conforme o material de laboratório avança. Estimativa de sexo em esqueleto antigo tem margem, e a palavra rainha, usada na imprensa desde 2013, é rótulo moderno: nenhum documento wari nomeia cargo, título ou parentesco das mulheres enterradas ali.

Vale outro aviso sobre o adjetivo intacto. A câmara lacrada chegou sem passagem de saqueador, e é nela que está o conjunto descrito aqui. As terraças superiores do mesmo morro foram revolvidas por décadas, e o material que saiu delas antes de 2012 está disperso, sem registro de contexto e sem possibilidade de recomposição.

O cálice de alabastro saiu do vale para as vitrines de Lima, catalogado como peça do mausoléu de El Castillo. O paredão de granito continua no mesmo ponto acima do rio, com a encosta ainda marcada pelos buracos de quem cavou por um século no lugar errado, trinta toneladas de cascalho ao lado.

 
 
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Quiz da edição

O que levou Miłosz Giersz ao ponto certo da encosta de El Castillo, onde estava a câmara lacrada?

AUm relato de moradores que guardavam a localização da câmara havia gerações
BA leitura de inscrições deixadas pelos wari na cerâmica do sítio
CImagens aéreas do morro, que mostravam o traçado de muros sob o entulho
DUm mapa desenhado pelos saqueadores do século XX

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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