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ED 130
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As 11 igrejas que os reis zagwe tiraram da rocha

Em Lalibela, a dinastia zagwe esvaziou o morro de cima para baixo, e caiu em 1270 para quem dizia descender de Salomão

Igreja em forma de cruz escavada na rocha vermelha de Lalibela

Bete Giyorgis, Lalibela, Etiópia

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A LINHA DO TEMPO

século IV, o rei Ezana de Aksum adota o cristianismo → século XII, os zagwe, de origem agaw, assumem o trono em Lasta → fim do século XII e começo do XIII, o rei Gebre Meskel Lalibela reina em Roha e as igrejas de rocha tomam forma → 1270, Yekuno Amlak derruba o último rei zagwe e funda a dinastia salomônica → começo do século XIV, o Kebra Nagast fixa a descendência de Salomão → século XV, o Gadla Lalibela registra a lenda dos anjos → 1540, Francisco Álvares publica a primeira descrição europeia → 1978, a UNESCO inscreve as igrejas na lista do Patrimônio Mundial

Nas montanhas do norte da Etiópia, onze igrejas foram esvaziadas de dentro da rocha, sem nenhuma pedra assentada.

Os reis zagwe mandaram cavar a obra. Em 1270, perderam o trono para uma genealogia.

A 2.500 metros de altitude, nas montanhas de Lasta, no norte da Etiópia, quem chega a Lalibela pela estrada não vê igreja nenhuma. Vê um planalto de rocha avermelhada, eucaliptos, casas redondas de pedra e, ao longe, os picos que passam dos 4 mil metros. Não há torre nem cúpula no horizonte, porque os templos da cidade estão abaixo do chão.

São onze igrejas, e nenhuma foi erguida. Os pedreiros cavaram valas fundas em volta de um bloco de tufo vulcânico (rocha macia, feita de cinza de vulcão compactada), soltaram o bloco do resto do morro e depois o esvaziaram por dentro, de cima para baixo, até sobrarem nave, colunas, janelas e telhado, tudo de uma peça só.

A maior, Bete Medhane Alem (Casa do Salvador do Mundo), tem 72 pilares e é a maior igreja monolítica, esculpida num único bloco, que se conhece. Nenhuma pedra foi assentada ali: cada parede é o que ficou depois que o resto saiu em lascas, carregado em cestos pela vala.

A cidade leva o nome do rei que, pela tradição etíope, mandou fazer a obra: Gebre Meskel Lalibela, da dinastia zagwe, que reinou entre o fim do século XII e o começo do XIII. No tempo dele, a capital se chamava Roha. O nome Lalibela veio depois, em homenagem ao rei.

A lenda local conta que os homens trabalhavam de dia e os anjos continuavam à noite, e que o turno dos anjos rendia o dobro. O texto que registra a lenda, o Gadla Lalibela (Atos de Lalibela, a biografia de santo do rei), foi escrito uns dois séculos depois dele.

Os zagwe deixaram a obra mais difícil da Etiópia cristã e, mesmo assim, perderam o trono em 1270 para um nobre da região de Amhara, Yekuno Amlak. O novo rei dizia descender de Salomão, rei de Israel, e da rainha de Sabá. Os zagwe não tinham como dizer o mesmo.

Para entender como uma dinastia capaz de esvaziar montanhas caiu por causa de uma árvore genealógica, é preciso descer primeiro às valas e ver como a pedra foi tirada.

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I  O Estrato

Valas, cinzéis e um rio chamado Jordão

A dinastia zagwe saiu do povo agaw, habitante antigo do planalto etíope, que falava uma língua cuchítica (do mesmo tronco do somali e do oromo), diferente das línguas semíticas da antiga corte de Aksum. Os zagwe assumiram o trono no século XII, depois da decadência de Aksum, o reino que tinha adotado o cristianismo no século IV com o rei Ezana.

Eram cristãos devotos e herdaram a Igreja etíope inteira: o bispo vindo do Egito, a liturgia em ge'ez (a língua antiga da Etiópia, usada só na missa) e o costume de guardar em cada igreja um tabot, tábua de altar que representa a Arca da Aliança.

O método de construção se lê nas paredes. Primeiro os pedreiros marcavam no alto do morro o contorno do futuro templo. Depois abriam uma vala em volta, com picaretas e cinzéis de ferro, até a profundidade desejada. Por último entravam no bloco pelo teto e iam descendo, esculpindo arcos, pilares e janelas na própria rocha.

Não havia como corrigir erro. Uma coluna quebrada não se trocava, porque não era peça: era o morro. Bete Giyorgis (Casa de São Jorge), a mais famosa, tem planta em forma de cruz grega e fica no fundo de um poço aberto na rocha, ligada à superfície só por uma trincheira e um túnel.

A Jerusalém das montanhas

As igrejas se dividem em dois grupos, separados por um canal escavado que os etíopes chamam de Yordanos, o rio Jordão. Há também um monte do Gólgota, uma capela de Adão e um túmulo simbólico de Cristo. A tradição diz que Lalibela quis construir uma nova Jerusalém depois que o sultão Saladino tomou a cidade santa dos cruzados, em 1187, e a peregrinação ficou difícil para os cristãos etíopes.

Os zagwe não ergueram uma igreja: tiraram do morro uma geografia sagrada inteira, com rio, calvário e túmulo, para que o fiel não precisasse sair da Etiópia.

O primeiro europeu a descrever a obra foi um padre português, Francisco Álvares, que passou por Lalibela nos anos de 1520, com uma embaixada enviada ao rei etíope. Ele desceu às valas, contou colunas e desistiu de detalhar tudo.

"Cansei de escrever mais sobre estas obras, porque me parece que não vão acreditar em mim se eu escrever mais." (Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, 1540)

O rei que encomendou esse espanto está enterrado, segundo a tradição, dentro de Bete Golgotha, uma das igrejas do grupo norte, onde até hoje só homens podem entrar.

 

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II  O Padrão

A genealogia que valeu mais que a pedra

Os zagwe tinham igreja, tinham ouro de sobra para sustentar anos de escavação e tinham santos: três reis da dinastia, Yemrehanna Krestos, Lalibela e Na'akueto La'ab, foram canonizados pela própria Igreja etíope. Faltava uma única peça, e ela decidiu o jogo.

No planalto, a realeza vinha do sangue de Aksum. E os zagwe, sendo agaw, não descendiam dos reis de Aksum. Para os nobres de Amhara e de Tigré, que se viam como herdeiros da antiga corte, os reis de Roha eram usurpadores, gente de fora da linhagem.

Em 1270, Yekuno Amlak, senhor de Amhara, derrubou o último rei zagwe, que a tradição chama de Yetbarak. Como a guerra terminou não se sabe em detalhe: as crônicas que narram o episódio foram escritas depois, pelo lado vencedor. O que ficou registrado foi a justificativa. Yekuno Amlak não se apresentou como conquistador, e sim como o dono legítimo voltando ao trono.

A tradição da Igreja acrescenta um acordo: o monge Tekle Haymanot teria ajudado a negociar a troca de dinastia, em troca de um terço das terras do reino para a Igreja. O historiador etíope Taddesse Tamrat, em Church and State in Ethiopia (1972), trata o acordo como lenda tardia, embora reconheça que os mosteiros ganharam poder com os novos reis.

O livro que escreveu o passado

A nova dinastia ganhou o nome de salomônica, e a prova dela veio em forma de livro. O Kebra Nagast (A Glória dos Reis), compilado em ge'ez no começo do século XIV, conta que a rainha de Sabá visitou Salomão em Jerusalém, teve dele um filho, Menelik I, e que esse filho trouxe a Arca da Aliança para Aksum.

O colofão (nota final do copista) atribui a compilação a Yeshaq, dignitário religioso de Aksum, sob o rei Amda Seyon, neto de Yekuno Amlak. Ou seja, a genealogia foi fixada por escrito uma geração depois da tomada do poder, pelo grupo que precisava dela.

Os zagwe esculpiram a obra que ninguém conseguiu repetir; os salomônicos escreveram a história que todo mundo passou a repetir, e o trono seguiu a história.

Os vencedores não destruíram as igrejas. Mantiveram as missas, os padres e a peregrinação, e o rei Lalibela continuou santo. A dinastia salomônica governou até 1974, quando o imperador Haile Selassie foi deposto, e a constituição etíope de 1955 ainda registrava que o imperador descendia de Menelik I.

O Espelho: obra impressiona quem visita; narrativa convence quem decide. Quem constrói muito e não conta de onde veio deixa o espaço livre para quem conta melhor.

III  O Arquivo

Onde ler e onde ver Lalibela

Para a primeira descrição europeia, a fonte é Francisco Álvares, Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, publicada em Lisboa em 1540. A tradução inglesa de C. F. Beckingham e G. W. B. Huntingford, The Prester John of the Indies, saiu pela Hakluyt Society em 1961.

Para a troca de dinastia e o papel da Igreja, a referência é Taddesse Tamrat, Church and State in Ethiopia, 1270 to 1527, publicado pela Clarendon Press, em Oxford, em 1972. Para a imagem dos zagwe como santos e usurpadores, vale o livro da historiadora francesa Marie-Laure Derat, L'énigme d'une dynastie sainte et usurpatrice dans le royaume chrétien d'Éthiopie (2018).

Vale um aviso sobre a data da obra. O arqueólogo britânico David Phillipson, em Ancient Churches of Ethiopia (Yale University Press, 2009), defende que parte das igrejas é mais antiga que Lalibela e que algumas começaram como palácio ou fortificação, convertidas depois em templo. A tradição atribui tudo a um só reinado; a arqueologia sugere fases ao longo de séculos, e a questão segue aberta.

Vale outro aviso sobre as datas dos reis. As listas zagwe chegaram em versões que discordam no número de reis e na duração de cada reinado; por causa dessas divergências, o ano exato do começo da dinastia e do reinado de Lalibela varia de autor para autor. O ano de 1270 é o ponto firme.

Para ver as igrejas, o sítio Igrejas Escavadas na Rocha de Lalibela foi inscrito pela UNESCO na lista do Patrimônio Mundial em 1978, na primeira leva de lugares da lista. As igrejas seguem em uso, e as grandes festas, como o Natal etíope em 7 de janeiro, reúnem peregrinos na borda das valas.

No planalto de Lasta, a 2.500 metros, a estrada continua sem mostrar torre nenhuma. Quem se debruça na borda do poço de Bete Giyorgis vê a cruz do telhado no nível dos próprios pés, cortada por pedreiros de um rei que os santos da Igreja aceitaram e os nobres de Amhara não.

 
 
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Segundo o texto, quantos pilares tem a Bete Medhane Alem, a maior igreja monolítica conhecida?

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