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ED 146
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As 300 esferas do Diquís saíram de um bananal

A United Fruit derrubou a mata nos anos 1930 e achou bolas de pedra perfeitas; caçadores de ouro dinamitaram várias

Esfera de pedra do Diquís meio enterrada num bananal

Delta do Diquís, Costa Rica, década de 1930

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A LINHA DO TEMPO

Século IV, começam as aldeias do delta → 800 a 1500, as esferas marcam as aldeias dos chefes → década de 1930, a bananeira derruba a mata e acha as esferas → 1943, Doris Stone publica o primeiro estudo → 1963, sai o relatório de Lothrop → 2014, quatro sítios viram Patrimônio Mundial

A 8 graus e 57 minutos ao norte do equador, no delta formado pelos rios Térraba e Sierpe, no sul da Costa Rica, a planície fica a poucos metros acima do Pacífico. Dali se veem bananais em fileira, a Fila Costeña (a serra que separa o delta do interior) e, no capim de um sítio chamado Finca 6, bolas de pedra cinzenta, algumas mais altas que um homem.

As bolas são esferas quase perfeitas. As menores cabem na palma da mão; as maiores passam de dois metros de diâmetro e pesam mais de dez toneladas. Quase todas foram talhadas em gabro, uma rocha ígnea escura e dura, que não existe na planície.

Até os anos 1930, pouca gente de fora sabia delas. A mata fechada cobria o delta, e as esferas estavam enterradas até a metade, sob folhas e lama das cheias.

Então chegou a Compañía Bananera de Costa Rica, braço local da United Fruit Company, a empresa americana que dominava o comércio de banana na América Central. Para plantar, os trabalhadores derrubavam a floresta com machado e fogo e nivelavam o terreno com tratores.

Na limpeza, as lâminas e as enxadas começaram a bater em pedra redonda. Apareceram dezenas, depois centenas: esferas em linha, em triângulo, em pares, algumas sobre montes de terra que antes sustentavam casas.

Os trabalhadores fizeram a pergunta óbvia para quem acha uma bola de pedra polida no mato: o que tem dentro? Corria entre eles a história de que os antigos guardavam ouro no miolo das esferas. Alguns furaram as pedras, encheram os furos de dinamite e esperaram a explosão.

Nenhuma esfera tinha ouro. Sobraram gomos curvos de gabro espalhados pelos bananais, e uma série de pedras com cicatriz de explosão que o país passou décadas tentando juntar.

O Estrato começa pelo povo que talhou as esferas, séculos antes da primeira bananeira, e pelo jeito de transformar um bloco bruto de rocha numa bola sem ferramenta de metal.

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I  O Estrato

Os escultores sem metal

A resposta de ontem

Onde e quando a carta do rei José saiu impressa pela primeira vez?

Em Constantinopla, em 1577. O erudito judeu Isaac Akrish publicou a troca de cartas num livreto chamado Kol Mevasser, e foi por ele que a Europa leu pela primeira vez o relato do rei José sobre a conversão de Bulan e as fronteiras do reino cazar.

As esferas são obra dos povos do Diquís, as comunidades que ocuparam o delta do Térraba entre os séculos IV e XVI, antes da chegada dos espanhóis. Viviam em aldeias governadas por chefes, plantavam milho, mandioca e pupunha (o fruto de uma palmeira nativa) e trocavam produtos com o resto do istmo.

Os arqueólogos chamam essas comunidades de cacicados (sociedades lideradas por um chefe hereditário, o cacique). Não deixaram escrita. O que se sabe delas vem da cerâmica, das casas, das tumbas e das próprias esferas.

Martelo de pedra, areia e paciência

O gabro vinha dos morros da serra costeira. Pela hipótese mais aceita, os escultores escolhiam um bloco, davam a forma aproximada com fogo e água fria, que racham a rocha em lascas, e depois batiam com percutores (pedras mais duras usadas como martelo) até chegar à curva.

O acabamento era de lixa natural: areia molhada e couro esfregados por semanas. As esferas maiores têm desvio de poucos centímetros em relação a uma esfera perfeita, obtido sem compasso nem molde de medida conhecido.

Depois de prontas, as esferas desciam o morro e atravessavam o rio até a planície. Ninguém sabe como os escultores levaram as de dez toneladas: não há registro de roda nem de animal de carga na região antes dos espanhóis. A hipótese mais citada fala em rampas, toras e cordas de fibra, sem prova direta.

Cada esfera é pedra maciça do centro à casca, sem câmara nem cavidade.

O ouro enterrado nas tumbas

A lenda tinha fundo real. Os povos do Diquís eram ourives finos: fundiam ouro e cobre em pingentes de águias, sapos e jacarés pelo método da cera perdida (molde de barro feito sobre um modelo de cera, que derrete e dá lugar ao metal). Esses pingentes iam para as tumbas dos chefes.

Os bananeiros acharam tumbas com ouro durante a mesma limpeza. A conclusão parecia lógica: se o metal estava no chão perto das esferas, podia estar dentro delas.

A dinamite respondeu. O gabro rachou em gomos, e o miolo era tão cinzento e compacto quanto a casca. Várias esferas ficaram em pedaços; outras perderam uma calota e seguem com a cicatriz plana do corte.

O próprio nome do país, segundo a tradição, nasceu do ouro. Os espanhóis do século XVI viram indígenas com discos dourados no peito e chamaram o litoral de costa rica. Quatro séculos depois, a mesma promessa de metal mandou trabalhadores furar pedra.

 

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II  O Padrão

O tesouro imaginado

As esferas do Diquís entram numa lista longa: monumentos maciços que a imaginação encheu de riqueza e que alguém abriu à força para conferir.

No Egito, o califa abássida Al-Mamun mandou escavar um túnel na Grande Pirâmide de Gizé em 820, atrás do tesouro do faraó. Os trabalhadores acharam câmaras vazias, e o túnel aberto por eles ainda serve de entrada aos turistas.

Em 1837, o coronel britânico Richard William Howard Vyse usou pólvora nas pirâmides de Gizé para procurar câmaras escondidas. Uma das explosões abriu um rombo na face sul da Grande Pirâmide.

Na Índia, em 1822, um oficial britânico abriu um buraco no alto da Grande Estupa de Sanchi, monumento budista maciço de tijolo e pedra, esperando achar relíquias e joias. A ferida só foi reparada pelo Archaeological Survey of India (o órgão de arqueologia do governo indiano) no começo do século XX.

O molde do tesouro imaginado

Os quatro casos seguem o mesmo roteiro:

1. O objeto é grande, antigo e não tem porta visível.

2. Uma história local ou letrada põe riqueza lá dentro.

3. Quem chega tem ferramenta para romper, como fogo, pólvora ou dinamite, e nenhuma obrigação de registrar o que acha.

4. O interior está vazio de ouro, e o dano fica.

O Diquís junta um agravante. Uma pirâmide tem câmaras; uma estupa, às vezes, guarda relíquias. A esfera de gabro não tinha onde esconder nada, e mesmo assim foi aberta.

A dinamite apagou a única informação guardada nas esferas: o lugar onde cada uma estava.

O dano maior foi a mudança de endereço

A explosão quebrou pedras, mas a perda maior veio depois. Com o bananal instalado, as esferas atrapalhavam o arado e viraram enfeite. Fazendeiros, gerentes da companhia e políticos levaram dezenas para jardins de San José e de outras cidades.

Uma esfera arrancada do monte perde a posição, a orientação e a camada de terra que a datava. Os alinhamentos vistos pelos primeiros visitantes nos anos 1940 sumiram quase todos; hoje só se pode estudá-los nos desenhos e nas fotos da época.

Algumas esferas foram parar em escolas, praças e prédios do governo, longe de qualquer contexto. Na capital, viraram objeto de decoração de entrada, polidas e sem placa.

O caso do Diquís é mais barato de reparar do que o das pirâmides. A pedra quebrada não volta, mas a esfera inteira levada para um jardim pode voltar ao delta, e o terreno de onde ela saiu ainda guarda a cerâmica e os pisos que permitem datá-la.

III  O Arquivo

A filha do dono do bananal

O primeiro estudo científico das esferas saiu em 1943, na revista American Antiquity, assinado pela arqueóloga americana Doris Zemurray Stone. Ela era filha de Samuel Zemurray, o empresário que comandava a United Fruit Company na época.

Stone percorreu o delta enquanto as plantações avançavam e anotou esferas ainda no lugar, algumas alinhadas, outras sobre montes de habitação. O registro dela guarda posições que o arado apagou nos anos seguintes.

O relatório de Harvard

Em 1948, o arqueólogo Samuel Kirkland Lothrop, do Museu Peabody da Universidade Harvard, escavou o delta. O livro dele, Archaeology of the Diquís Delta, Costa Rica (Arqueologia do Delta do Diquís, Costa Rica), saiu em 1963 com mapas de grupos de esferas e da cerâmica achada junto.

Lothrop descreveu esferas em linhas retas e em curvas, e notou linhas apontadas para direções fixas. A leitura astronômica nunca se confirmou: a maioria das peças já tinha saído do lugar, e não há como medir de novo o que foi arrastado.

O que a Costa Rica fez com o resto

Nos anos 1990, o Museo Nacional de Costa Rica retomou as escavações no delta, sob a coordenação da arqueóloga Ifigenia Quintanilla. As camadas de Finca 6 mostraram esferas assentadas em plataformas e caminhos de pedra, nas aldeias de chefes que viveram entre 800 e 1500.

Em 2014, a UNESCO incluiu quatro sítios do delta na lista de Patrimônio Mundial: Finca 6, Batambal, El Silencio e Grijalba-2. Foi o primeiro bem cultural da Costa Rica na lista.

O governo passou a pedir de volta as esferas espalhadas por jardins e prédios públicos. Algumas voltaram ao delta e hoje estão em Finca 6, perto do lugar onde a bananeira as achou. Finca 6 virou um parque com trilha, museu de sítio e esferas de volta aos montes de terra das antigas casas.

A função delas segue sem prova completa. Pela leitura do Museo Nacional, marcavam a casa dos chefes e indicavam posição social; qualquer uso além desse ficou sem confirmação, porque os povos do Diquís não deixaram texto e os alinhamentos se perderam.

A 8 graus e 57 minutos ao norte do equador, as esferas de Finca 6 seguem no capim do delta, maciças do centro à casca, algumas com a calota plana que a dinamite deixou.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual povo indígena do sul da Costa Rica conta a história de um deus do trovão disparando as esferas?

 
 
Quiz da edição

Segundo a lenda que circulava entre os trabalhadores da bananeira, o que estaria escondido dentro das esferas de pedra?

AArmas de guerra dos cacicados
BOs ossos dos chefes antigos
COuro guardado pelos antigos
DMapas gravados em metal

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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