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Albânia Caucasiana, o alfabeto de 52 letras lido no Sinai

Um reino cristão do Cáucaso perdeu a escrita, e a língua udi, ainda falada, ajudou a ler dois pergaminhos raspados

Pergaminho raspado com letras albanas sob o georgiano

Mosteiro de Santa Catarina, monte Sinai

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A LINHA DO TEMPO

c. 420, Mashtots desenha as letras → 1937, Abuladze acha a lista das 52 → 1948, Mingachevir revela inscrições → 1975, um incêndio abre uma sala no Sinai → 2008, sai a leitura dos palimpsestos

A 1.570 metros de altitude, ao pé do monte Sinai, no Egito, o Mosteiro de Santa Catarina guarda livros desde o século VI. Das janelas se vê granito vermelho e a trilha de pedra que os peregrinos sobem até o cume, a 2.285 metros.

Em 1975, um incêndio numa parede do mosteiro levou os monges a abrir uma sala esquecida sob a capela de São Jorge. Lá dentro estavam centenas de manuscritos e fragmentos que ninguém catalogava havia séculos.

Os monges de Santa Catarina já tinham uma das bibliotecas cristãs mais antigas em uso contínuo. A sala nova dobrava o trabalho: folhas soltas, encadernações rotas e livros em grego, árabe, siríaco, georgiano e eslavo, empilhados sem lista nem etiqueta.

Entre eles havia dois códices georgianos que eram palimpsestos (pergaminhos raspados e reescritos). Sob o texto georgiano corria uma camada mais antiga, quase apagada, em letras que nenhum especialista reconhecia.

Em 1996, o georgiano Zaza Aleksidze, do Centro Nacional de Manuscritos de Tbilisi, comparou os traços apagados com uma lista de 52 sinais copiada num manuscrito armênio do século XV. As formas batiam. A escrita escondida era o alfabeto da Albânia Caucasiana, reino cristão do Cáucaso sem parentesco com a Albânia dos Bálcãs.

Ninguém lia aquele alfabeto havia mil anos. A lista armênia dava o desenho e o nome de cada letra, mas não o som. Para ler o pergaminho, faltava uma língua viva que descendesse da língua do reino.

Ela existia. Na aldeia de Nij, no norte do Azerbaijão, os udis falam um idioma da família do Cáucaso Nordeste, herdeiro direto do albano antigo.

A gramática do udi, com suas pedaços de pronome encaixados dentro do verbo e seus sons de garganta, guardava o esqueleto da língua escrita no século V. Foi com o udi como chave que uma equipe de quatro linguistas leu o texto raspado.

A pergunta que sobra é como um reino inteiro perde a própria escrita. O Estrato começa na corte do rei, onde as 52 letras nasceram.

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I  O Estrato

Um alfabeto feito sob encomenda

A Albânia Caucasiana ocupava a planície entre o rio Kura e a cordilheira do Grande Cáucaso, terras hoje do Azerbaijão e do sul do Daguestão, na Rússia. Gregos e romanos a chamavam de Albânia; os armênios, de Aghvank.

A capital foi Kabala e, depois, Partav, a atual cidade de Barda. O reino reunia povos de várias línguas, e a da corte era a que hoje se chama albano caucasiano.

A conversão veio no século IV, sob o rei Urnayr, batizado segundo a tradição armênia por Gregório, o Iluminador. A igreja nova rezava em grego, siríaco ou armênio, línguas que os camponeses do Kura não entendiam.

O monge dos três alfabetos

O monge armênio Mesrop Mashtots tinha criado o alfabeto armênio em torno de 405. Segundo a Vida de Mashtots, escrita pelo discípulo Koriun nos anos 440, ele também desenhou letras para os georgianos e para os albanos.

Na Albânia, ainda segundo Koriun, Mashtots trabalhou com um tradutor local chamado Benjamin, com apoio do rei Arsvagen e do bispo Jeremias. O objetivo era a missa: pôr Evangelho e salmos na língua falada nas aldeias.

Um reino ganhou escrita para rezar no próprio idioma.

Muitas letras para muitos sons

O alfabeto saiu com 52 letras. O grego usava 24, e o armênio de Mashtots, 36. A diferença vinha da língua: o albano caucasiano tinha consoantes ejetivas (sons soltos com um estalo da garganta) e uma série de chiados que o grego não escrevia.

Cada som ganhou sinal próprio. Mashtots e Benjamin preferiram uma letra por som a combinar duas letras para um som só, e o resultado foi um alfabeto comprido e preciso.

As pedras de Mingachevir

Igrejas e escolas usaram as letras por séculos. Em 1948, arqueólogos soviéticos que escavavam a área da represa de Mingachevir, no centro do Azerbaijão, acharam inscrições curtas nesse alfabeto, num pedestal de pedra e num castiçal.

Eram poucas linhas, quase todas nomes e fórmulas de oração. Com a lista armênia já publicada, os arqueólogos reconheceram as formas, mas não conseguiram montar frases inteiras. Texto curto demais não dá base para comparar.

O castiçal de bronze e o pedestal foram para o Museu Nacional de História do Azerbaijão, em Baku. Por meio século, eram os únicos exemplos conhecidos da escrita fora da lista armênia.

 

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II  O Padrão

O reino que trocou de língua

A escrita foi sumindo junto com o reino. No século VII, os exércitos árabes tomaram a planície do Kura, e a Albânia virou província do califado. A igreja albana, cada vez mais presa à armênia, adotou o armênio nas missas.

Sem livro novo, as letras perderam uso. A elite das cidades aprendeu o persa e, séculos depois, as línguas turcas que chegaram com os seljúcidas. Nas montanhas, o idioma antigo se partiu em falas locais.

Uma delas sobreviveu inteira na aldeia de Nij e em Oktomberi, na Geórgia, para onde parte dos udis migrou no século XX. Os udis seguiram cristãos num país de maioria muçulmana, e a igreja os manteve juntos.

No fim do século XIX, um padre udi de Vartashen, Semyon Bezhanov, com o irmão Mikhail, traduziu os quatro Evangelhos para o udi em letras cirílicas, publicados em Tbilisi em 1902. Ninguém sabia, na época, que a mesma língua tinha alfabeto próprio guardado num pergaminho do Sinai.

A lista sem som

O alfabeto sobreviveu numa única página. No século XV, um copista armênio anotou num manuscrito miscelâneo os alfabetos de vários povos, entre eles o albano, com as 52 letras e o nome de cada uma.

O códice fica no Matenadaran, o instituto de manuscritos antigos de Erevan, na Armênia. Em 1937, o filólogo georgiano Ilia Abuladze encontrou a página e publicou o alfabeto no ano seguinte.

A lista resolvia o desenho. Faltavam o valor sonoro exato e, sobretudo, um texto longo para testar as hipóteses. As inscrições de Mingachevir chegaram dez anos depois e não bastaram.

Saber o desenho da letra não basta para ler uma língua.

O padrão

Na Albânia Caucasiana, a escrita dependia da igreja que a sustentava. Quando a missa mudou de idioma, o alfabeto perdeu sua única função, e os copistas pararam de produzir livros nele.

Livro sem leitor vira matéria-prima. Pergaminho era caro, feito de pele de carneiro ou de cabra, e um códice que ninguém lia valia mais raspado do que guardado.

O gótico seguiu o mesmo caminho. O alfabeto que o bispo Úlfilas criou no século IV para traduzir a Bíblia aos godos sobreviveu sobretudo num códice de luxo, o Codex Argenteus, hoje na Universidade de Uppsala, na Suécia, depois que os godos sumiram como povo.

Escrita feita para uma igreja some quando a igreja troca de língua. Volta, quando volta, pelo que outro povo guardou.

III  O Arquivo

Embaixo do georgiano

No século X, monges georgianos do Sinai precisavam de pergaminho. Pegaram livros albanos, rasparam a tinta e escreveram por cima textos religiosos em georgiano.

Dois desses volumes receberam as siglas Sinai Georgiano NF 13 e NF 55. NF quer dizer Novos Achados, a marca dada às peças tiradas da sala aberta em 1975.

A leitura

Aleksidze identificou a escrita em 1996. Nos anos seguintes, ele formou equipe com o armenista francês Jean-Pierre Mahé, o linguista alemão Jost Gippert e o especialista em línguas do Cáucaso Wolfgang Schulze.

O grupo fotografou as folhas com imagem multiespectral (fotos em faixas de luz que a vista não alcança), que faz a tinta raspada reaparecer sob o georgiano. Folha a folha, as letras da lista armênia voltaram ao papel.

O udi deu o som e o sentido. Pronomes, terminações de verbo e palavras do dia a dia do udi moderno apareciam no pergaminho com poucas mudanças, e a equipe usou essas semelhanças para fixar o valor de cada letra.

O trabalho também corrigiu a lista armênia. O copista do século XV tinha errado a forma de algumas letras e trocado nomes, e o pergaminho, mil anos mais velho, mostrou o desenho original de cada sinal.

Os textos eram um lecionário (livro com as leituras da missa para cada dia do calendário da igreja) e trechos do Evangelho de João. A edição saiu em 2008, em dois volumes, pela editora belga Brepols: The Caucasian Albanian Palimpsests of Mount Sinai (Os palimpsestos albanos caucasianos do monte Sinai).

Uma língua de aldeia leu um livro raspado havia mil anos.

As lacunas

Parte das folhas continua ilegível: a raspagem levou tinta demais, e nem a imagem multiespectral recupera o traço. Os editores marcaram esses trechos como perdidos, sem reconstruí-los por palpite.

Também falta saber quem copiou os códices albanos e como eles chegaram ao Sinai. Nenhuma das folhas lidas traz nome de copista ou data, e o mosteiro não registrou quem trouxe os livros.

As fontes

Para conferir: a Vida de Mashtots, de Koriun, dos anos 440; a História do país de Aghvank, atribuída a Movsés Kaghankatvatsi, do século X; e a edição de 2008 de Gippert, Schulze, Aleksidze e Mahé.

A 1.570 metros, ao pé do monte Sinai, os dois códices seguem na biblioteca de Santa Catarina, com o georgiano por cima e o albano por baixo. Em Nij, os udis ainda falam a língua que devolveu o som às 52 letras.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantas letras tinha o alfabeto criado no século V para a Albânia Caucasiana?

A24 letras, o mesmo total do alfabeto grego
B36 letras, igual ao alfabeto armênio de Mashtots
C52 letras, para marcar sons que o grego não escrevia
D33 letras, adaptadas do alfabeto georgiano

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