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Merv não é um sítio, é uma sequência deles. As ruínas ocupam uma faixa de cerca de 100 quilômetros quadrados no oásis do Murgab, perto da atual Mary, no Turcomenistão, e cada época construiu a cidade ao lado da anterior em vez de por cima.
Erk Kala é a mais antiga, uma cidadela circular da idade do ferro. Gyaur Kala envolve a cidadela e corresponde à cidade helenística e sassânida. Sultan Kala, a maior de todas, é a cidade islâmica que os seljúcidas transformaram em capital.
O deslocamento tem explicação prática. A cidade nova ia sempre para o trecho onde o canal ainda entregava água limpa, porque o assoreamento e o sal iam inutilizando o setor velho do sistema.
A irrigação vinha de longe antes do islã. Já no período sassânida o oásis operava captação no Murgab e canais de distribuição, e a arqueologia mapeia leitos artificiais que se ramificam por dezenas de quilômetros pela planície.
Sob os seljúcidas, no século XI e XII, o arranjo chegou ao teto. Merv virou capital do Khorasan sob o sultão Sanjar, com muralha de tijolo de barro, subúrbio industrial, mercado permanente e um conjunto de bibliotecas que os geógrafos árabes citavam como o melhor do oriente islâmico.
A estimativa mais aceita coloca a população do oásis entre 200 mil pessoas na cidade murada e algo perto de meio milhão contando os arrabaldes, o que fazia de Merv a maior aglomeração urbana do mundo por volta de 1150.
O mausoléu de Sanjar, terminado por volta de 1157, ainda está de pé no meio da planície vazia, com cúpula dupla de tijolo e 27 metros de altura, projetado para ser visto por quem chegava pelo deserto a um dia de distância.
O aparato de água era um serviço de Estado. Havia um chefe da barragem do Murgab, com poder para arbitrar quanto cada canal recebia, e a fonte medieval descreve sob a autoridade dele um corpo de operários fixos na ordem de milhares de homens.
Havia também mergulhadores encarregados de inspecionar a estrutura submersa e equipes de manutenção com tarefas divididas por trecho de canal. A água era medida e cobrada, e o direito de uso valia como propriedade.
Dentro da cidade, cada casa grande tinha cisterna abobadada de tijolo, o sardoba, para guardar água do canal durante a estação de menor vazão. O sistema não tinha folga: dependia de tudo funcionar em cadeia.
Nas oficinas, o oásis produzia aço de cadinho de qualidade reconhecida, cerâmica vidrada e seda. O cinturão agrícola dava algodão, melão e cereal em volume suficiente para exportar excedente pela rota que ligava Bagdá a Samarcanda.
Toda essa massa se apoiava numa única condição física: o Murgab continuar sendo desviado no ponto certo, na altura certa, por uma obra de terra que precisava de reparo permanente.
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