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Civilizações Perdidas   Civilizações Perdidas
ED 122

A pedra que devolveu um rei à dinastia

Achada em 1993 em Baghlan, uma laje em báctrio escrito com letras gregas traz Kanishka I nomeando três antecessores e fechando um buraco na linhagem.

Laje de calcário de Rabatak gravada com letras gregas

Laje de Rabatak, texto báctrio em letras gregas

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A LINHA DO TEMPO

por volta de 30 da era cristã, Kujula Kadphises reúne os cinco principados iuechi da Báctria sob um comando só → segunda metade do século I, Vima Taktu amplia o domínio para o sul e emite as moedas do rei sem nome, marcadas Soter Megas → fim do século I, Vima Kadphises implanta a moeda de ouro do império → por volta de 127, Kanishka I sobe ao trono e manda gravar a laje de Rabatak no primeiro ano do próprio calendário → século III, o poder kushana se parte entre o avanço sassânida a oeste e os reinos do sul → 1993, homens cavando trincheira em Rabatak encontram a laje e a entregam ao comando local de Pul-i-Khumri → 1996, Nicholas Sims-Williams e Joe Cribb publicam a primeira leitura integral do texto → 2004, Sims-Williams publica a edição revista com as linhas danificadas relidas

Em março de 1993, um grupo de homens abria trincheira no alto de um monte perto da aldeia de Rabatak, distrito de Baghlan, no norte do Afeganistão.

Vinte e três linhas em letras gregas trouxeram o nome de um soberano kushana que nenhuma moeda registrava.

Em março de 1993, um grupo de homens abria trincheira no alto de um monte perto da aldeia de Rabatak, distrito de Baghlan, no norte do Afeganistão. O país estava em guerra, o monte tinha restos de muralha antiga e a escavação não tinha nada de científica: cavava-se para instalar posição militar. A pá bateu num bloco de calcário deitado, com a face gravada voltada para baixo. Quando viraram a peça, apareceram linhas de escrita cobrindo quase toda a superfície.

A laje foi levada para o comando local em Pul-i-Khumri, fotografada ali e depois recolhida ao museu provincial de Haibak. As fotografias chegaram à Europa no ano seguinte, e a leitura começou por um detalhe que confunde qualquer leitor no primeiro olhar: o texto está gravado com letras gregas, mas a língua não é o grego. É o báctrio, idioma iraniano falado na Báctria, região entre o rio Amu Dária e as montanhas do Hindu Kush, escrito com o alfabeto que os gregos chegados com Alexandre deixaram por lá.

Vinte e três linhas sobreviveram legíveis. Elas registram a fundação de um santuário, listam divindades honradas ali, nomeiam o funcionário encarregado da obra e trazem, no meio, a passagem que interessa a quem estuda o império kushana: o soberano Kanishka I manda inscrever o próprio nome logo depois dos nomes do bisavô, do avô e do pai, numa sequência sem lacuna.

Até aquele achado, a ordem das gerações kushana era discussão aberta entre numismatas e historiadores: havia moeda em quantidade, nome de rei em algumas emissões e uma série enorme de peças de cobre com título honorífico no lugar do nome. Uma pedra achada por acaso numa trincheira resolveu o impasse em quatro palavras.

Vale reconstruir quem eram esses reis, o que a laje diz linha a linha, e onde qualquer pessoa confere cada afirmação feita aqui.

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I  O Estrato

Da estepe ao Ganges, sem arquivo escrito

Os kushana começam longe do Afeganistão. As crônicas chinesas da dinastia Han descrevem os iuechi, confederação de pastores expulsa do corredor de Gansu por volta do século II antes da era cristã, migrando para oeste até ocupar a Báctria, então governada por descendentes dos gregos que Alexandre deixou na região. O território se dividiu em cinco principados, cada um com um chefe próprio.

Por volta de 30 da era cristã, um desses chefes, Kujula Kadphises, submeteu os outros quatro e transformou o conjunto num Estado só. O sucessor empurrou a fronteira para o sul, atravessando os passos do Hindu Kush em direção à planície do rio Indo. Duas gerações depois, o domínio kushana ia da Ásia Central até o vale do Ganges, com pontos de controle sobre as rotas que ligavam a China ao mundo mediterrâneo.

Esse império mexeu em quase tudo que tocava e quase nada escreveu sobre si. Não existe crônica kushana, lista de reis, registro de palácio ou documento administrativo conservado em série. O que sobrou é material duro: moeda, estátua, relevo, fundação de templo e inscrição solta.

O pouco que existe de texto kushana vem em três escritas, o que já indica o tamanho do problema para quem tenta montar a sequência: carósti, alfabeto usado no noroeste do subcontinente indiano; brami, a escrita da qual descendem os alfabetos indianos modernos; e o báctrio em letras gregas, adotado ao norte das montanhas. Cada grupo cobre uma área e um período, e quase nunca um conversa com o outro.

A moeda foi durante décadas o principal instrumento de reconstrução. Ela funciona bem para muita coisa, pois traz retrato, título, divindade e legenda. Só que ela cria um problema específico quando o nome do emissor some da peça.

Entre as emissões do século I aparece uma série imensa de cobre com o título grego Soter Megas, que significa grande salvador, e nenhum nome próprio ao lado: gerações de pesquisadores catalogaram aquelas moedas sob o apelido de rei sem nome.

Havia duas saídas propostas para o enigma. Uma dizia que Soter Megas era apenas um título usado por Vima Kadphises antes da reforma monetária dele, o que tirava um rei inteiro da contagem. A outra dizia que existia um soberano intermediário entre Kujula Kadphises e Vima Kadphises, sem nome conhecido em moeda, encaixado ali por cronologia e por estilo de cunhagem.

A escolha entre as duas hipóteses mudava mais do que uma linha de tabela. Ela alterava o comprimento das gerações, o ano de subida de Kanishka I ao trono e a cronologia da arte de Gandara e da expansão budista para o norte, que se ancoram nos reinados kushana. Sem documento que dissesse o contrário, o impasse durou quase um século.

 

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II  O Padrão

Vinte e três linhas que travaram a ordem

O texto de Rabatak abre pela titulação do soberano. Kanishka I se apresenta como rei dos reis, filho de deus, e declara ter emitido um édito em grego que depois mandou verter para o que a pedra chama de língua ária, ou seja, o próprio báctrio. A frase registra, em primeira pessoa, uma troca de idioma oficial dentro da administração do império.

Vem em seguida a lista de divindades para quem o santuário foi fundado: Nana, deusa de origem mesopotâmica cultuada em toda a Ásia Central, aparece à frente, acompanhada de Umma e de um conjunto de figuras iranianas. O encarregado da obra é nomeado no fim, Shafar, portador do cargo de karalrang, título de governador militar de província usado na administração kushana.

O trecho decisivo chega no meio. Kanishka I manda que sejam feitas imagens dos antepassados dele e recita a sequência: o bisavô Kujula Kadphises, o avô Vima Taktu, o pai Vima Kadphises, e ele próprio. Quatro gerações em linha reta, gravadas por ordem do último da fila, no primeiro ano do calendário que o mesmo rei inaugurou.

O nome Vima Taktu não constava de nenhuma moeda conhecida, e aparecer na laje justamente no degrau que a numismática disputava encerrou a discussão: as emissões de Soter Megas passaram a ser atribuídas a ele, e o rei sem nome ganhou nome.

Vale notar o motivo de a lista existir. O santuário recebeu ordem de abrigar imagens dos quatro soberanos ao lado das divindades, culto dinástico que aparece também em Surkh Kotal, outro sítio kushana da província. A recitação definia quem entrava no templo em forma de estátua e quem ficava de fora, e por essa razão foi gravada com precisão de cartório.

A pedra ainda lista as cidades do norte da Índia submetidas ao poder kushana, entre elas Saketa, Kausambi e Pataliputra, na planície do Ganges. A leitura dessa passagem tem pontos danificados e continua discutida, mas o alcance geográfico que ela desenha bate com a distribuição de moeda kushana escavada na região.

A datação também se beneficiou. Como o texto se declara do ano 1 da era de Kanishka I, ele fixa um ponto de partida para toda a contagem kushana posterior, que aparece em dezenas de inscrições menores espalhadas por Mathura e pelo vale de Peshawar. A discussão sobre o ano exato continua, com a maioria dos especialistas hoje colocando a subida do rei ao trono por volta de 127 da era cristã, a partir do cruzamento com registros astronômicos e com material datado em outras eras.

O que mudou de fato foi a natureza da prova. Antes de 1993, a linhagem kushana se sustentava em inferência de catálogo: peso de moeda, estilo de retrato, sobreposição de cunho, distribuição de achado. Depois da laje, ela passou a se apoiar num documento em que o próprio interessado declara de quem descende, gravado em pedra por ordem dele e datado pelo calendário dele.

O Espelho: durante décadas, especialistas sérios construíram uma cronologia inteira a partir de peças que não diziam o nome de quem as emitiu, porque era o material disponível. Vale examinar quais conclusões do seu trabalho hoje se apoiam em sinal indireto, e o que você aceitaria como prova direta caso ela aparecesse.

III  O Arquivo

Onde checar a laje, o texto e a data

Para a leitura do documento, ver Nicholas Sims-Williams e Joe Cribb, A New Bactrian Inscription of Kanishka the Great, publicado em 1996 no volume 4 do periódico Silk Road Art and Archaeology, com a primeira transcrição integral, a tradução e a discussão do achado.

Para a versão corrigida, ver Nicholas Sims-Williams, A New Edition of the Bactrian Inscription of Rabatak, publicada em 1998 nos anais do terceiro congresso europeu de estudos iranianos, e a revisão posterior do mesmo autor, saída em 2004 no periódico Indo-Iranian Journal, que relê trechos danificados e ajusta a lista das cidades indianas.

Para o pano de fundo do império e para a discussão de cronologia, ver o volume organizado por Joe Cribb e Georgina Herrmann, After Alexander, Central Asia before Islam, publicado em 2007 pela British Academy, e o catálogo numismático de Robert Göbl, System und Chronologie der Münzprägung des Kušānreiches, de 1984, que consolidou a classificação das emissões antes do achado.

Vale um aviso sobre a procedência. A laje saiu da terra em escavação militar, sem registro estratigráfico e sem planta do local, e quem sustenta a leitura do contexto é a comparação com Surkh Kotal, escavado por missão francesa nos anos 1950 a 40 quilômetros dali. O objeto consta do acervo do museu de Haibak, sem verificação pública recente.

Vale outro aviso sobre o ano 127. O número sai do cruzamento de fontes indiretas e continua sendo defendido com margem de alguns anos por diferentes escolas, então tratar a data como aproximação de trabalho, nunca como valor fechado. A sequência das quatro gerações, essa sim, não depende de nenhuma das cronologias em disputa: ela está escrita na pedra, na ordem em que o rei mandou gravar.

 
 
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