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Teodorico nasceu por volta de 454, na Panônia, filho de um chefe da dinastia dos Amalos. Aos 8 anos, foi mandado a Constantinopla como garantia de um tratado e passou ali uma década, vendo de perto como funcionava a máquina do império.
De volta ao próprio povo, virou rei e aliado incômodo do imperador Zenão. Em 488, Zenão resolveu dois problemas com uma ordem só: mandou os ostrogodos para a Itália, contra Odoacro, longe dos muros da capital oriental.
A cidade de dois credos
A guerra durou cinco anos e terminou com o cerco de Ravena. Em março de 493, Teodorico aceitou dividir o governo com Odoacro e, dias depois, num banquete, matou-o com a própria espada.
Daí em diante, o arranjo foi o da coexistência. Ravena ganhou duas catedrais, uma católica e uma ariana, dois batistérios e um palácio com a igreja de Santo Apolinário Novo ao lado, ainda de pé, com mosaicos encomendados pelo próprio rei.
Os cargos civis ficaram com romanos de famílias senatoriais. Cassiodoro, secretário do rei, redigia as cartas oficiais num latim rebuscado que hoje forma a coleção Variae.
Nessas cartas, o rei se apresenta como herdeiro da ordem romana. Manda restaurar aquedutos, conservar os muros de Roma e punir quem arrancasse mármore de prédio público para revender. A pedra antiga, para Teodorico, era patrimônio do Estado.
O casamento político completava o desenho. Ele deu irmãs e filhas a reis vândalos, visigodos, burgúndios e turíngios, e casou ele mesmo com uma irmã de Clóvis, rei dos francos. Por volta de 510, era a figura mais poderosa do Ocidente.
O fim da convivência
O equilíbrio rachou nos últimos anos do reinado. Em 523, o senador Albino foi acusado de trocar cartas com Constantinopla, e Boécio, o filósofo que ocupava o cargo de mestre dos ofícios, saiu em defesa dele.
Boécio acabou preso em Pavia, acusado de traição. Escreveu na prisão "A Consolação da Filosofia" e foi executado em 524. O sogro dele, Símaco, seguiu o mesmo caminho no ano seguinte.
Em 526, o papa João I voltou de uma missão em Constantinopla que não tinha conseguido o que o rei queria, foi preso em Ravena e não saiu da cadeia. A essa altura, a corte que tinha sido de dois povos falava com uma voz só.
O mausoléu subiu justamente nos anos em que Teodorico perdia a confiança da elite romana que sustentava o governo.
Um cronista anônimo do século VI, o chamado Anônimo Valesiano, registrou a obra assim:
"Em vida, fez para si um monumento de pedra lavrada, obra de grandeza admirável, e procurou uma rocha enorme para pôr em cima." Anônimo Valesiano, Excerpta Valesiana, parte II, meados do século VI |
O texto não diz como a rocha foi trazida. Diz só que o rei a procurou, e que a queria inteira.
A escolha diz muito. Os imperadores romanos se faziam enterrar sob cúpulas de tijolo e concreto, como a de Adriano, em Roma. Teodorico preferiu uma peça só, sem junta nem emenda, como os túmulos de pedra dos chefes germânicos do norte.
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