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ED 125

100% escolheram Escada de Hallstatt. Já saiu na edição 123.

A mulher de prata sob o salão do conselho

Em La Almoloya, na Múrcia, um casal do Argar foi sepultado por volta de 1650 a.C. sob a sala de reuniões, e só ela usava diadema.

Diadema de prata com disco frontal ao lado de fragmentos de um grande jarro funerário argárico

Diadema de prata da tumba 38 de La Almoloya

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A LINHA DO TEMPO

cerca de 2200 a.C., surgem os povoados argáricos no alto dos morros do sudeste ibérico → 1880s, os irmãos Henri e Louis Siret escavam El Argar, em Antas, Almería → 1887, os Siret publicam em Antuérpia o estudo que batiza a cultura → cerca de 1650 a.C., um casal é sepultado num grande jarro de cerâmica sob o salão de reuniões de La Almoloya → cerca de 1550 a.C., os povoados argáricos são incendiados ou abandonados → 2013, a equipe da Universitat Autònoma de Barcelona começa a escavar La Almoloya → 2014, a tumba 38 aparece sob o piso do salão → 2021, Vicente Lull e colegas publicam o estudo da tumba na revista Antiquity

Em 2014, arqueólogos acharam um jarro de cerâmica enterrado sob o piso de um salão de reuniões no sudeste da Espanha.

Dentro havia um casal argárico de 1650 a.C., e só a mulher usava diadema de prata.

Em 2014, uma equipe de arqueólogos da Universitat Autònoma de Barcelona limpava o piso de uma sala grande no alto de um planalto da Múrcia, no sudeste da Espanha, quando apareceu a boca de um jarro de cerâmica enterrado. O recipiente tinha altura de gente sentada e estava lacrado. Dentro, dobrados para caber, havia dois corpos: um homem e uma mulher.

A sala onde o jarro estava enterrado não era uma casa comum. Tinha bancos corridos encostados nas paredes, uma lareira e um pódio baixo, o tipo de arranjo que serve para um grupo sentar e ouvir alguém falar. A equipe passou a chamar o cômodo de salão de governo, o lugar onde uma assembleia se reunia.

O casal foi sepultado por volta de 1650 a.C., na época em que o sudeste ibérico era dominado pela sociedade argárica, uma cultura da Idade do Bronze conhecida pelos povoados fortificados em morros e pelo hábito de enterrar os mortos debaixo do chão das próprias construções. Quem vivia ali atravessava a sala caminhando por cima deles.

O que chamou a atenção veio quando os corpos foram liberados da terra. A mulher, entre 25 e 30 anos, estava coberta de metal: pulseiras, anéis, argolas de orelha, contas e, na cabeça, uma tiara de prata com um disco que descia sobre a testa. O homem, um pouco mais velho, levava pouco além de argolas simples e uma faca de cobre.

A tiara é um diadema, peça rara em todo o território argárico. Apenas um punhado de sepulturas da cultura inteira trouxe um, e todas eram de mulheres. Nenhum homem argárico foi achado com diadema na cabeça.

O jarro ficou conhecido como tumba 38 de La Almoloya, e o conteúdo dele reabriu uma discussão antiga sobre quem mandava naquelas colinas. Para entender por que uma única peça de prata pesa tanto nessa discussão, vale começar pela sociedade que construiu o salão e pelo costume de guardar os mortos dentro de casa.

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I  O Estrato

Um povo que dormia sobre os próprios mortos

A sociedade argárica ocupou o sudeste da Península Ibérica entre cerca de 2200 e 1550 a.C., numa faixa que hoje corresponde a Almería, Múrcia e partes de Granada, Jaén e Alicante. O nome vem do sítio de El Argar, em Antas, Almería, escavado nos anos 1880 pelos irmãos belgas Henri e Louis Siret, engenheiros de minas que publicaram os achados em 1887.

Os argáricos escolhiam morros de encosta íngreme e topo plano, fáceis de defender e com vista para os vales. Em cima deles erguiam casas de pedra e barro coladas umas nas outras, cisternas, oficinas e depósitos de grão. La Almoloya segue o modelo: fica num planalto de difícil acesso, e a ocupação cobre quase toda a superfície plana do alto.

A economia se apoiava em cevada, em rebanhos e em metal. O sudeste ibérico tem cobre e prata perto da superfície, e os argáricos fundiam os dois em escala regional. O cobre virava ferramenta e arma; a prata virava adorno, e aparece quase só nas sepulturas de quem estava no alto da hierarquia.

O traço mais conhecido dessa cultura é o enterro dentro do povoado. Em vez de cemitério separado, os mortos iam para debaixo do piso das casas, em covas, em caixas de lajes de pedra ou em jarros de cerâmica chamados pithoi (grandes vasos de armazenar, no plural grego). A família continuava morando em cima.

Na sociedade argárica, a sepultura funcionava como registro de posição social: o que ia para a cova com o morto dizia a qual camada ele pertencia, e a camada passava para os filhos.

As escavações de Vicente Lull, Rafael Micó, Cristina Rihuete Herrada e Roberto Risch, da Universitat Autònoma de Barcelona, mostraram esse registro com clareza. Crianças de algumas famílias já iam para a cova com objetos de metal, o que indica status herdado e não conquistado em vida. A maioria da população, enterrada com pouco ou nada, sustentava o topo com trabalho e grão.

La Almoloya foi ocupada durante a maior parte da história argárica e acabou destruída por incêndio por volta de 1550 a.C., na mesma época em que os outros grandes povoados da cultura caíram ou foram deixados. O fogo derrubou os telhados sobre os cômodos e selou o que estava dentro, inclusive o salão com o jarro enterrado sob o piso.

 

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II  O Padrão

A prata na cabeça dela, a faca na mão dele

A equipe da Universitat Autònoma de Barcelona datou os dois esqueletos por radiocarbono, o método que mede o carbono instável dos ossos para estimar há quanto tempo a pessoa viveu. As datas caíram perto de 1650 a.C. para os dois, com o homem sepultado um pouco antes. A defasagem indica que o jarro foi aberto e fechado de novo para receber a mulher.

A análise de DNA publicada pela equipe revelou que os dois não eram parentes de sangue. Revelou também que tiveram uma filha juntos: uma criança pequena sepultada num prédio vizinho carregava o material genético dos dois. O casal era, portanto, um par com descendência, e não irmãos nem pai e filha.

O esqueleto do homem mostra desgaste de esforço físico repetido e marcas de ferimentos cicatrizados, compatíveis com trabalho pesado ou com combate. O da mulher mostra desgaste bem menor. Os objetos seguem a mesma diferença: ela com prata na cabeça, nos pulsos e nas orelhas, ele com cobre e quase nenhum adorno.

O estudo publicado por Vicente Lull e colegas na revista Antiquity em 2021 calculou o valor da prata do jarro em cerca de 938 dias de trabalho, convertendo o peso do metal pelo preço dos cereais e salários da época, como estimado pelos próprios autores. Uma fortuna dessas enterrada debaixo da sala de reunião não passa despercebida por quem se senta nos bancos.

O diadema é o único objeto argárico reservado a um só sexo e à camada mais alta: onde ele aparece, marca uma mulher que ocupava posição que nenhum homem da mesma sepultura alcançou.

A leitura da equipe de Barcelona é política. Para Lull e Micó, a mulher de La Almoloya pode ter sido uma governante ou integrante do grupo dirigente, e o diadema seria insígnia de autoridade, não enfeite. A posição do jarro, sob o próprio salão onde as decisões eram tomadas, reforça essa hipótese.

Outros arqueólogos leem o mesmo achado de outro modo. A prata poderia marcar a família e não o cargo, ou um papel religioso, ou uma mulher usada como vitrine da riqueza de um clã comandado por homens. As sepulturas masculinas ricas trazem espadas e alabardas (lâminas de cobre montadas em cabo longo, como machado de guerra), o que sugere que a força armada ficava com eles.

A dúvida continua sem resposta porque os argáricos não deixaram escrita. Toda afirmação sobre o cargo dessa mulher vem de cova, osso e metal, e esses três dizem posição e riqueza, mas não dizem título. O que se pode afirmar é que ela tinha o objeto mais raro da cultura e foi enterrada sob a sala do poder.

O Espelho: o sinal de status nem sempre mostra quem decide. Vale olhar, na empresa ou na família, quem usa o símbolo e quem de fato define o rumo, porque as duas pessoas às vezes são diferentes.

III  O Arquivo

Onde conferir o jarro, os Siret e o salão

Para a tumba 38 e o salão de governo, ver o artigo de Vicente Lull, Cristina Rihuete Herrada, Roberto Risch e colegas, "Emblems and spaces of power during the Argaric Bronze Age at La Almoloya, Murcia", publicado na revista Antiquity em 2021. É a fonte da datação, da análise genética e do cálculo do valor da prata.

Para a origem do nome e das primeiras escavações, ver Les premiers âges du métal dans le sud-est de l'Espagne (As primeiras idades do metal no sudeste da Espanha), de Henri e Louis Siret, publicado em Antuérpia em 1887. Os Siret descreveram as sepulturas sob as casas e os primeiros diademas de prata encontrados em El Argar.

Para uma visão de conjunto da cultura, os membros do grupo de pesquisa ASOME, da Universitat Autònoma de Barcelona, publicaram na última década vários estudos sobre economia, metalurgia e hierarquia argárica, reunidos no site do projeto La Almoloya.

Para ver o lugar, o sítio de La Almoloya pode ser visitado no planalto entre Pliego e Mula, com o salão de governo consolidado e sinalizado. Os objetos da coleção dos Siret, incluindo diademas de El Argar, ficaram divididos entre o Museo Arqueológico Nacional, em Madri, e os Museus Reais de Arte e História, em Bruxelas.

Vale um aviso sobre a palavra rainha, que apareceu em muitas manchetes em 2021. Os próprios autores falam em governante ou membro da classe dirigente, e deixam a questão formulada como hipótese. Nada no jarro prova um título, e a comparação com monarquias posteriores diz mais sobre quem escreve do que sobre quem foi enterrado.

Vale outro aviso sobre o número de diademas. As contagens variam conforme o autor incluir ou não peças fragmentadas e achados antigos sem contexto claro, porque parte do material dos Siret saiu do chão sem registro preciso de qual cova ocupava. O que vale para todas as contagens é o padrão: são poucos, são de prata e são de mulheres.

 
 
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Quiz da edição

Segundo a análise de DNA publicada pela equipe, qual era a relação entre o homem e a mulher sepultados no jarro da tumba 38?

AEram irmãos, filhos dos mesmos pais
BEram pai e filha
CNão tinham laço de sangue e tiveram uma filha juntos
DEram mãe e filho

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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